Mostrando postagens com marcador 1984. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador 1984. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Uma história de amor a três

I'm glad to see you back. I thought you were gone forever.
(Vladimir, Waiting for Godot, Act 1, Scene 1)
I
Meu kefi estava perdido, ou eu é que havia me perdido dele. Estou começando a achar que ele gosta de brincar de esconde-esconde comigo. Adora se perder para eu ter de me achar.

Desta vez o encontrei no Rio de Janeiro, batendo um sambinha numa caixa de fósforo. Estava até mais bronzeado, o danadinho. Dei-lhe um costumeiro tapa no ombro: "Onde você esteve este tempo todo, seu safado?" "Tinha ido comprar cigarros, aí resolvi ficar aqui." E sorriu daquele jeitinho zombeteiro que lhe é peculiar.

"Hum, sei." E emendei: "Vou fingir que acredito. Poderia até ficar brava com você, mas não vou não, porque te manjo é de outros tempos, camarada." 

E saímos para brincar perto dos arcos da Lapa, em frente ao Circo Voador, debaixo de uma garoa indecisa. Daquelas que de quase-chuva foi virando Sol.

Conversamos sobre este assunto também: "Você ainda não se convenceu que é movida a bateria solar, mesmo, né? Olha só pra você. Cê tá amarela, menina! Vai tomar sol!"

"Ok, você venceu, estou aqui para isso. Até estiquei minha estadia, assim teremos mais tempo juntos." Demos as mãos e fomos ver se o Rio de Janeiro realmente continua lindo. E continua.

II
Passamos tanto tempo colocando o papo em dia que quando o Sol saiu em todo seu esplendor, no clímax do seu espetáculo, a gente tinha dormido. E acordamos feito o Vagabundo, com seus raios solares soando como uma sirene: "E este Sol na minha caaaaaaaaaaaara!"




"Este Sol indireto, assim batendo nesta janela enorme, me conforta. Necessariamente porque me faz saber que ele sempre esteve aqui, nunca me abandonou. Ao contrário de você, seu vagabundo!", disse-lhe. "Não seja injusta, você sabe porque eu sumo. Senti muito sua falta, sabia? Desta vez, fiquei sinceramente preocupado com você. Cheguei a pensar que não conseguiríamos nos reencontrar!" 

"Own... Mas que fofo é você. Você faz isso de propósito, pensa que eu não sei? 'Té parece índio!  Assim você vai acabar ganhando o Campeonato Mundial de Esconde-esconde, hein? Mas a sua sorte, baby, é que eu também estou ficando craque em te encontrar! Demora, mas eu te acho."

"Elementar, minha cara. Mas desta vez você me assustou com aquela coisa de melancolia, fome, mito de Narciso... Aliás, onde você estava com a cabeça que eu poderia estar em Toronto? Puta frio do cacete!"

"Ah, queria dar umas bandas.Você teria gostado de lá sim, tenho certeza. A gente pode voltar lá na primavera, que você acha? E por que você não poderia estar no Canadá? Parecia que o Brasil tinha se mudado para lá. Até a Luíza estava!"

"Engraçadinha... Embora seu trocadilho seja extremamente sem graça, vou te dar um desconto. Pelo menos você está de volta!"

... Depois de um tempo ouvindo jazz e comendo melancia, decidimos que era hora de ver o Drummond. E ficamos de fazer isso no dia seguinte. 

III

Vimos que o poeta bronzeado (afinal ele não sai daquele banco no calçadão de Copacabana) também é um poeta vigiado, um poeta 1984. Depois de seus óculos terem sido furtados uma par de vezes, agora uma câmera zela pelo poeta do alto de um edifício na Av. Atlântica. E como tudo é passível de se tornar piada pronta neste mundo, a sua estátua é patrocinada por uma marca de lentes. Pagaram a nova armação, colaram com superbonder e instalaram a câmera para não ter mais prejuízo. Rá! Nem a poesia está salva da lógica de mercado. 

Muita gente na fila para ter com o poeta, mas era rápido porque a maioria quer só tirar foto com ele. Quem passa sempre por lá, às vezes dá um sorrisinho e uma batidinha em sua careca, como se o cumprimentasse. E eu, louca, querendo abraçar aquela coisa metálica, dizer o quanto ele está debaixo do meu couro surrado, de quantas vezes ele falou diretamente comigo... Mas ele, sabendo muito bem que não era o poeta e sim sua representação, não se furtou de tirar troça da minha cara e me salvar de uma camisa de força: "Por que você não faz igual a todo mundo e tira uma foto? O poeta sabe da sua piração!" E assim o fiz, até me ofereci para tirar foto para alguns outros passantes. E ninguém sequer desconfiava que eu estava diante do Amor da Minha Vida. 

IV
Na última noite, eu não tinha medo de voltar: tudo estava no meu corpo. O sol nas minhas costas, o vento deslizando por cima delas, o balanço do mar que levei para cama. E o conto do Borges, transformado em canção de ninar naquela voz quente e doce, feito brigadeiro recém-saído da panela. 

Adormecer naquela composição era o gozo mais profundo que eu poderia oferecer. Ele, me vendo do teto, ria da minha boca aberta. Disse que parecia que eu tinha engolido uma estrela cadente. 

V
Na hora de rearranjar as malas e cair no mundo outra vez, por puro cacoete estudei onde levaria o meu amigo, até escutar um grito que quase me faz cair da beliche: "VOCÊ TÁ DOIDA???"

"Doida, eu??? Por quê? Cheirou, bebeu ?!" 

"Você realmente acha que eu vou me dignar a viajar junto do seu biquíni molhado e cheio de areia, para não dizer das outras coisas que você está levando aí nesta mochila? Que eu fiz pra você?"

"Tá bom, tá bom! Foi sem querer. Desculpa, tá, ô Primeira Classe! Mas você não vai voltar comigo?" Caprichei na cara de Gato de Botas.

"Claro que eu vou. Mas eu vou no chapéu da aeromoça, na ponta da asa, mas dentro da sua bolsa não!"

E assim ele fez. Quando cheguei, ele estava grudado na janela do avião. Me deu uma piscadinha e depois um tapa na bunda que me encheu de coragem para enfrentar a vida. Descendo do avião, ele me disse:

"Lembra do gravador do Lucas Silva e Silva? Quando quebrou, ele ficou desesperado, pensando em como ele faria para inventar suas histórias. Seu Orlando disse que para imaginar não era necessário o gravador. Quando ele mostra o gravador consertado, o Lucas dispensa e diz que conseguiu inventar só com a imaginação."



"Claro que eu me lembro! Lucas Silva e Silva ajudou a formar meu caráter!"

"Então, sou mais ou menos como o gravador do Lucas, gata. Agora você me tem na hora que quiser!"

Abri um sorriso enorme. Até que enfim, compreendi: meu kefi é uma entidade wi-fi! Como não pensei nisso antes?

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Filme de Mulherzinha Ataca Novamente

Está provado cientificamente: comédias românticas podem estragar a sua vida. Mas eu, particularmente não estou nem aí. Quando nasci, cinto de segurança não era obrigatório e merthiolate ardia e ainda assim, estou viva, vivinha. Da Silva, Teodoro Alves, o que quiserem. Acreditem!

Tentei me recuperar, mas é inútil: o dano cerebral causado pelas comédias românticas noventistas estreladas por Meg Ryan, Renè Zellwegger, Julia Roberts e afins é acumulado. Já era, meus miolos foram indiscutivelmente carcomidos. Só restou o coração, que sem um pingo de vergonha na cara, ainda pulsa: bridget-jones, bridget-jones. Happy-end, happy-end. 

Além do mais, comédia romântica pode até estragar uma vida, mas não um blog. O textículo mais acessado deste faroeste é a resenha sobre Falando Grego, da Nia Vardalos. Aqui, elas até ajudam!

Anos depois, adicionando uma licencinha poética para o festival de bobagens que lhe são devidas, vejo que comédias românticas tem lá suas pilulazinhas de sabedoria. Tolas, inocentes, mas ainda assim válidas, verdadeiras em sua tolice. 

Como Medianeiras, Buenos Aires na Era do Amor Virtual. Em se tratando da ideia de discutir cultura digital, é uma ótima propaganda para os produtos da Mac. De tão escancarada, nem parece merchandising. Parece peça publicitária mesmo, na cara-larga. 


Gosto de filmes em que cidades são personagens. Uma Buenos Aires contemporânea, pós-crise, de longe é a personagem mais fascinante. A protagonista é arquiteta, e é dela que vem a metáfora das medianeiras, aquele lado dos edifícios que não serve para nada, a não ser para abrigar propaganda e limo. Como nas pessoas, expõe o lado mais frágil, feio e vulnerável de construções que precisam se fazer sólidas e fortes. Abra uma janela na sua medianeira, mesmo que ilegalmente. Deixe entrar luz no seu apartamento, vai te fazer bem.

Também gosto de gente neurótica nos filmes. Mitigam minha vergonha. Além do que são muito mais verossímeis: Mariana taca coisas na parede, chora por bobagem e carência, fuma mais que preto-velho no terreiro. Martin é fóbico, hipocondríaco, insone, atrapalhado. Leve seus cachorros para passear, mesmo que eles sintam medo. Eles precisam se acostumar com outros cachorros. 


Se toda essa firula ao final vendesse só iPod, eu até perdoaria. Foda é vender a ilusão de um amor único perdido na cidade, vestido com uma blusa listrada de vermelho e branco, óculos e gorro à sua espera, prontinho para ser encontrado. Se você começar a procurar onde está o Wallie com 14 anos, quem sabe você o encontre aos 30! Mas use uma lupa, porque isso é trabalho para mais de metro. 

Procurar Wallie é uma tarefa muito difícil para míopes não operados como eu, então fica para outro dia. Não comprei a ilusão, mas me diverti com a conversa mole do vendedor. Atitude típica de 1984, um duplipensar para esquentar as turbinas. Porque só agora posso começar a abrir um vitrô na minha medianeira, sair com meus cães assustados por aí. Spring is coming! 

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Esperando Godot II

Agora sabemos:
O novo não substituirá o velho
Um dia e cada vez mais breve,
O novo se torna velho
E o velho se torna a coqueluche novidadadeira do ultimos tempos, como:
Cores new wave, olhos delineados, cinturas altas, óculos Ray-ban.
Tudo isso é piada velha, mas sempre se acha alguém que ainda não riu delas.

Sou mesmo ainda um velho bolachão
Feita de vinil e sulcos.
O que me toca, raspa a superfície.
É o que me faz cantar.

O que agora é virtual
Corre o risco de se perder na virtualidade dos seus arquivos.
Mp3 é o caralho.

Para meu amigo Luiz Filipe

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

As 10 estratégias de manipulação midiática por Noam Chomsky

Eles podem ser truculentos, mas não abrem mão de meios mais sutis de manipulação
Há muito tempo, ouvi essa: "Sempre achei mais fácil manipular as massas, do que somente uma pessoa." Frase de conteúdo fascista até o rabo, afinal saiu da boca de Mussolini. Pior é que o verme tinha razão. O que os nazi-fascistas fizeram no passado hoje é feito magistralmente pelo PIG, com muito mais requintes. Melhor conhecer os mecanismos e tentar blindar - pelo menos um pouco - seu cérebro contra tanto lixo midiático.

Hoje, só vou retransmitir a informação. Noam Chomsky, linguista, professor do MIT e ativista político estadunidense, velho conhecido da militância brasileira pelos seus artigos, escreveu "As 10 estratégias de manipulação midiática". O artigo inteiro está na Adital. Leia e tente identificar alguns destes aspectos no que você anda lendo e assistindo:

A estratégia da distração. O elemento primordial do controle social é a estratégia da distração, que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas, mediante a técnica do dilúvio ou inundação de contínuas distrações e de informações insignificantes. A estratégia da distração é igualmente indispensável para impedir que o público se interesse pelos conhecimentos essenciais, na área da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética. "Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado; sem nenhum tempo para pensar; de volta à granja com outros animais (citação do texto "Armas silenciosas para guerras tranquilas").

A estratégia da gradualidade. Para fazer com que uma medida inaceitável passe a ser aceita basta aplicá-la gradualmente, a conta-gotas, por anos consecutivos. Dessa maneira, condições socioeconômicas radicalmente novas (neoliberalismo) foram impostas durante as décadas de 1980 e 1990. Estado mínimo, privatizações, precariedade, flexibilidade, desemprego em massa, salários que já não asseguram ingressos decentes, tantas mudanças que teriam provocado uma revolução se tivessem sido aplicadas de uma só vez.

Dirigir-se ao público como se fossem menores de idade. A maior parte da publicidade dirigida ao grande público utiliza discursos, argumentos, personagens e entonação particularmente infantis, muitas vezes próximos à debilidade mental, como se o espectador fosse uma pessoa menor de idade ou portador de distúrbios mentais. Quanto mais tentem enganar o espectador, mais tendem a adotar um tom infantilizante. Por quê? "Ae alguém se dirige a uma pessoa como se ela tivesse 12 anos ou menos, em razão da sugestionabilidade, então, provavelmente, ela terá uma resposta ou ração também desprovida de um sentido crítico (ver "Armas silenciosas para guerras tranquilas")".

Utilizar o aspecto emocional mais do que a reflexão. Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para causar um curto circuito na análise racional e, finalmente, ao sentido crítico dos indivíduos. Por outro lado, a utilização do registro emocional permite abrir a porta de aceeso ao inconsciente para implantar ou enxertar ideias, desejos, medos e temores, compulsões ou induzir comportamentos...

Estimular o público a ser complacente com a mediocridade. Levar o público a crer que é moda o fato de ser estúpido, vulgar e inculto. (O que retroalimenta a mídia de manchetes profícuas como a agressão aos três rapazes na Av Paulista há duas semanas atrás, por exemplo.)

A próxima merece letras garrafais, porque tem a ver com todo o calvário dos profissionais (realmente sérios) da Educação:

Manter o público na ignorância e na mediocridade. Fazer com que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para seu controle e sua escravidão. "A qualidade da educação dada às classes sociais menos favorecidas deve ser a mais pobre e medíocre possível, de forma que a distância da ignorância que planeja entre as classes menos favorecidas e as classes mais favorecidas seja e permaneça impossível de alcançar. "

Sem mais, minha gente. Se o povo não fosse importante, não seria necessário manipulá-lo. Não precisa ser o Noam Chomsky para entender isso.

Créditos: Adital Agência de Notícias e Filmofilia (foto do brilhante Christoph Waltz na pele do Coronel Hans Landa em Bastardos Inglórios)

sábado, 2 de outubro de 2010

Buraco da Memória

Para o Rafa, apesar de ele não gostar de Beatles

Lá estava ela outra vez, cutucando o que restou do esmalte. “Longo o caminho para casa neste ônibus...” E colocou o Álbum Branco para rodar no celular.

Voltou a pensar nas unhas. Tinha passado a noite anterior esfregando os azulejos da cozinha e acabara com elas. Acabou também com os ombros, ressuscitando uma bursite que se acreditava extinta. A dor maior, porém, não era esta.

Estava matando lembranças depois de ele ter ido embora de vez. Os azulejos eram as mais notórias. Impossível de se meter tudo numa caixa e esquecer. Mais pichados que trem da Central do Brasil, estavam cheio de mensagens e desenhos dos amigos. O local de expressão artística da casa por excelência, onde todos fumavam, conversavam, cozinhavam, bebiam. O ateliê e a vernissage ao mesmo tempo.

Agora nem um, nem outro: branco parede de hospital. Branco da caixa de Omo inteira que se gastou para fazer o serviço da polícia do esquecimento.

Ponderou antes, pensou em tirar uma foto antes de apagar. Desistiu: uma foto porca de celular só para minimizar a culpa seria ridículo. "Dignidade já!” Ou deixa-se como está, ou apaga-se tudo. Algumas lembranças vão permanecer por algum tempo. Depois começarão a sumir, escorregando pelo Buraco da Memória, lentamente.

Foi dormir sem pensar em nada, tinha até se esquecido que no dia seguinte estaria sem o carro. Gostou da ideia. "Chacoalhar no ônibus é um exercício filosófico". Poderia ler, ouvir música no fone, cochilar. Fez tudo isso até perder-se nos seus pensamentos a respeito da noite passada. Apagar indícios do passado também o elimina? Memória é mesmo subversão?

Todas as perguntas cessaram quando começaram os primeiros acordes de Martha My Dear. Chorou só uma lágrima, daquelas que caem rápido. Não a surpreendeu o seu peso. Carregava os azulejos, as lembranças, o Álbum Branco, o ônibus, tudo.

O Amor virou impessoa... Silly girl.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Para não virar comida de porco

Fontes desinformantes da classe média brasileira
Minhas bolas voltam à esquerda, que beleza. A coisa mais entediante deste nosso tempo é que no geral, as pessoas - eu, inclusive - se esquivam de se posicionar sobre questões importantes. Parece que ninguém quer desmanchar a escova. Eu não era assim, fiquei assim. Mas agora acordei de novo e isto é o que importa. 

Como eu disse, é preci-necessário não fazer o que grande mídia quer que façamos, não pensar (ou achar que estamos pensando) do jeito que a mídia quer que pensemos. Mas como fazer isso vendo Jornal Nacional e lendo Folha todo dia?

É preciso buscar fontes alternativas e confiáveis de informação. Se tiver tempo e paciência é interessante cruzar as diferentes visões do mesmo assunto. Quem nunca fez isso, pode perceber quanta merda anda lendo. O Sedentário&Hiperativo já cantou essa bola.  

Depois da minha "grande" descoberta do Google Reader, estou entre resgatar antigas fontes e buscar novas. Então,  deixo aqui alguns links de jornais, blogs e agências de notícias que destoam deste raçãowhiskasblablablá neurótico da mídia brasileira.

Revista Caros Amigos - Publicação em circulação há mais de dez anos, tenho um precioso e pequeno acervo delas em casa. Incrível: não ficam datadas, no máximo, amareladas.

Jornal Brasil de Fato - Este curiosamente não leio muito, estive no lançamento regional de São Paulo, no Teatro Oficina. Desde 2003 em circulação.

Educação Política - Descoberta recente, e excelente. Bastante conteúdo, foi de onde eu tirei esse porquinho simpático aí em cima...

ADITAL - Agência de Informação Frei Tito para América Latina -Já conhecia, mas não acessava, assinei o Feed agora. Para quem não sabe quem foi Frei Tito, recomendável assistir ao filme Batismo de Sangue, direção de Helvécio Ratton, baseado em livro homônimo de Frei Betto.

Para começar, está de bom tamanho. Até porque ainda tenho que organizar todos estes links entre readers e feeds para voltar a lê-los religiosamente, agora e após o pampeiro das eleições. Só de não virar comida de PIG, já é grande o alívio.

"As criaturas de fora olhavam
de um porco para um homem,
de um homem para um porco.
Mas já era impossível distinguir
quem era homem, quem era porco."

(Revolução dos Bichos, George Orwell)


segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Jogando na retranca

Texticular audiência,

Gostaria de usar meu meio de comunicação em massa para comentar as eleições. Um pouco tarde, mas é que o cenário político está deprimente de uma tal maneira que me calei, quase completamente. Logo agora, que é hora de se posicionar.

Assisti ao debate de ontem, foi o único até agora. De outros, vi apenas trechos. Estava envergonhada de tanta alienação - afinal antes mesmo de ter título de eleitor eu já era militante e agora tão desinformada! - depois que assisti ao debate da Record, a vergonha passou - vi que não perdi nada. Mesmo. Exceto pelo candidato do PSOL, Plínio de Arruda Sampaio, todos os presentes só faziam jogar na retranca, repetindo as frases feitas ordentadas pelos marqueteiros, e quando eram confrontados mais diretamente, respondiam qualquer frase desconexa, mas sempre pronta. Parecia até jogo da última Copa.

Marina disse que Dilma e Serra são muito parecidos. A democracia burguesa, na verdade, deixa a todos eles muito parecidos, inclusive a própria Marina. Eles não só desviavam do confronto direto quando eram questionados, mas como também não encostaram de verdade seus adversários na parede. Exceto o Plínio, outra vez.

É claro que não quero que debate eleitoral vire Programa do Ratinho, em sua época de mais áurea baixaria. Mas é que eram nos debates o momento de cair as máscaras dos candidatos, principalmente quando eram questionados pelos seus opositores. As emissoras tinham um trabalho danado na edição, na hora de manipular a coisa toda. Agora o que a gente tem é um horário eleitoral ao vivo, com todos os candidatos na mesma sala, treinados para exibir o mais puro sangue de barata. E a mídia sem se dar ao trabalho de manipular o que já vem de fábrica, enlatado.

Antes do debate já tinha a minha escolha, pelo menos para presidente, consolidada. Conheci o Plínio de Arruda Sampaio ainda como uma das figuras fundadoras e mais respeitáveis de um partido que se perdeu na sua própria trajetória, chamado PT. Na Igreja, no MIRE e no MST ouvi suas palavras atentamente e várias vezes e posso dizer seu discurso continua coerente. A troca de partido se deu depois de muitas e contundentes tentativas de recobrar a trajetória de sua legenda anterior.

A minha opção pelo candidato Plínio não se refere apenas à sua coerência, mas também à minha própria. Minha militância política foi curta, mas verdadeira, ainda tenho compromisso com o que eu acredito. E posso dizer que votar neste ou noutro candidato agora não é solução mágica para o país. Mas quem tem um mínimo de consciência política e não se conforma com este jogo de compadres, sabe que agora é hora de bagunçar o coreto, jogar óleo na pista. Não vamos seguir o script da grande mídia, que elege e derruba quem ela bem quer.

"Eu me organizando posso desorganizar, eu desorganizando posso me organizar."

E viva o Chico Ciência!


quinta-feira, 3 de junho de 2010

Billy Elliot - o filme

Vida de blogueira e operária ao mesmo tempo é postar no feriado. Fazer o quê, estava faltando vontade também, mesmo tendo assunto. É o tédio corroendo as paredes do meu quarto.

Há um tempo atrás caiu na minhas mãos um filme inglês de 2000, que é uma pequena maravilha: Billy Elliot, de Stephen Daldry. É tão apaixonante que fiquei me perguntando onde eu estava que não tinha visto aquele filme antes.

O personagem-título descobre no susto um talento nato para dançar e aposta nesta que era sua única ficha em um momento tenso para ele, sua família, sua cidade, até seu país. Obviamente, enfrenta preconceito e resistência por ser menino e ter se interessado por balé em uma cidade em que todo "macho" que se prezasse lutava boxe no clube da cidade. Mas não é só isso. A trilha sonora é impecável, recheada de T-Rex, The Jam, Clash e Tchaikóvsky; os números de dança são cheios de vigor, mais do que de técnica; as atuações são primorosas e como se isso bastasse, o filme tem uma história e tanto que comove sem apelar para clichês.

Acho que o único mesmo é o preconceito que meninos bailarinos devem enfrentar até hoje, o que me motivou a pegar esse filme que passa despercebido na caixa de DVD´s que a secretaria da Educação mandou para as escolas da rede estadual. Quando tenho que falar de dança em aula, o que mais ouço são comentários, geralmente dos garotos, insinuando que um ou outro é gay. Como cansei de ser mamute e dar homéricas broncas em aula, o filme foi uma alternativa para mostrar que uma coisa não está necessariamente ligada a outra, afinal Billy Elliot estava muito mais interessado em acertar um arabesco do que usar tutu. De fato, passei esse filme em sala de aula, e pelas discussões e comentários, parece que funcionou, pelo menos para começar um trabalho. Mas essa é uma questão menor no filme, que coloca no seu devido lugar o significado da palavra drama (em grego, drao): "eu faço, eu luto". Foi o que praticamente todos personagens do filme fizeram: o pai e o irmão, na greve dos mineradores ingleses, Billy, ralando para acertar um giro desgraçado, a professora, lutando contra a própria frustração, no melhor estilo, "alguém pode se salvar dessa droga toda". Partiram todos para a ação.

Resumindo: fui preparar uma aula, e acabei ganhando um filme que entrou para meu Relicário de Lembranças Adoradas.

Para fechar, a fodástica Angry Dance, ao som de Town Called Malice:


segunda-feira, 19 de abril de 2010

Mr. America

A esta hora já devem jorrar resenhas e postagens sobre a exposição Andy Warhol - Mr. America, porque ela está totalmente coerente com o artista que ela retrata - mais pop, impossível. Mas quem disse que a Garota Clichê vai resistir e andar contra a corrente?

Confesso que estava ansiosa para ver os originais da série das latas de sopa Campbell´s e dos retratos da Marilyn Monroe. Então, na última quarta, assim que saí da Sala São Paulo, tive a "brilhante" ideia de ir até a Pinacoteca para ver a exposição. "Mas aos sábados a entrada é franca...", pensei. "É, mas nada paga o prazer de circular pelas salas vazias da exposição em plena tarde de quarta-feira...", respondi a mim mesma. Ódio extremo e absoluto ao saber que a exposição não está na Pinacoteca e sim na Estação Pinacoteca, ex-Memorial da Liberdade, sediado no antigo prédio do DOPS, que se tornou um anexo da Pinacoteca do Estado. Detalhe: este prédio fica DO LADO da Sala São Paulo, onde eu estava. Pensa então, na minha cara de tacho...

Estando lá dentro e com três míseros reais investidos nisso, não desisti e dei uma olhada nas exposições da Pinacoteca. E curti vários Portinaris sorvidos lentamente. Só mudou o artista, oras! Não tinha me enganado por completo. Museu deserto é uma delícia, ainda mais com Portinari.

De qualquer maneira, sábado estaria de volta à Sala São Paulo e visitei a exposição do Andy na hora do almoço, para honrar a viagem perdida de quarta.

Sempre gostei de pop art e não me lembro com exatidão quando entrei em contato com as obras do Andy pela primeira vez, só ficou gravado na memória um grafite da Tomato Soup, da série Campbell´s numa parede do Tendal da Lapa. Será que ainda está lá? Não sei, só espero que os grafites deste lugar não tenha sido tragados por paredes bege cor-de-repartição pública. Eca.

Achava que isso não aconteceria, mas a exposição me trouxe surpresas. Por exemplo, não sabia que o artista era religioso - católico ortodoxo e segundo os textos da exposição, seus refúgios foram sempre a igreja e as salas de cinema. Também desconhecia que a morte estava entre seus temas recorrentes. As famosas serigrafias do rosto da Marilyn Monroe foram feitas após a morte da atriz, já transformada em mito trágico, sem contar a série das Cadeiras Elétricas, dos Most Wanted Man, com os criminosos mais procurados da América e Car Crash: Death and Disaster Series, retratando acidentes de carro cheios de lata amassada e gente morta no asfalto. Engana-se quem pensa que Andy se contentava só com glamour e celebridades.


Na verdade, sua obra parece bem contraditória, quase conflitante. Entre autorretratos, latas de sopa, nuvens prateadas e artistas de cinema, há alguma coerência? O fato é que ele não estava preocupado em ser coerente com coisa alguma. Ele dizia apenas retratar o universo a seu redor e não se considerava crítico da sociedade norte-americana. Mas o que e como mostrar implica sim em crítica, no sentido mais puro da palavra. O olhar de Andy sobre a America que ele dizia amar era naturalmente subversivo, sem levantar bandeiras. Polêmico sem fazer força.

Mesmo sua fixação pela beleza e pelo narcisismo tem outra face. "Quando pessoas e civilizações se tornam degeneradas e materialistas, elas sempre apontam para sua beleza externa e riquezas, e dizem que se o que elas estivessem fazendo fosse errado, elas não estariam tão bem, tão ricas e bonitas. Mas beleza e riquezas não tem nada a ver com o quão bom é você, é só pensar em todas beldades que tiveram câncer. E muitos assassinos são bonitos, então isso resolve a questão."

Ele olhou para a "beleza americana" com reverência e deboche ao mesmo tempo. "Be a somebody with a body!"¹

Marlene Dietrich dizia que na América o sexo é uma obsessão e no resto do mundo, é um fato.² Para Andy, não é nem uma coisa, nem outra. "Sex is an ilusion. The most exciting thing is no making it"³. Um de seus filmes é intitulado Blow Job (boquete) e o que mostra não é óbvio ou surpreendente, fica entre as duas coisas.

Andy também se sairia um ótimo analista: "A fonte dos problemas das pessoas são suas fantasias, se você não tivesse fantasias, você não teria problemas, porque você aceitaria qualquer coisa que estivesse na sua frente. Mas aí, você não teria romance, porque romance é encontrar sua fantasia em pessoas que não são sua fantasia..."

Apesar do mundaréu de gente, me diverti bastante com a exposição, porque a criança contente aqui estava aproveitando para brincar com seu brinquedo novo, fazendo anotações no Bloco de Notas do smart, já que tirar fotos é proibido. Isso até o negócio empacar e eu me irritar, sem saber porque aquela joça não funcionava. Só depois que eu percebi que o limite de caracteres tinha acabado. Andy riria desse besteirol tecnológico, todo mundo está colocando sua vida nessas coisinhas de plástico, que por mais inteligentes que pareçam, ainda não aprenderam se fazer entender.

É chavão que Andy Warhol estava a frente do seu tempo, só por causa daquela frase idiota que qualquer pessoa teria 15 minutos de fama no futuro - ele disse frases muito mais espirituosas. E a unanimidade - burra, como diria Nelson Rodrigues - só celebra essa frase porque ela se tornou uma profecia, em um tempo de Big Brothers, orkuts e facebooks para todo mundo expor sua vida à exaustão, chegando, muitas vezes ao ridículo. (Se há dúvidas, olhe blogs como Pérolas do Orkut ou PGA, ou ainda as fotos da Geisy pré-bafão na Uniban. Se queriam aparecer, conseguiram!). Mas o que Andy retrataria em sua obra, se vivo estivesse agora? E se vivesse no Brasil? Saí de lá com essas perguntas na cabeça. Tenho alguns palpites:

a) Casal Nardoni com julgamento cinematográfico (Popular, você é popular...)
b) Ronalducho Fenômeno
c) Barack E Michele Obama
d) Lixo tecnológico
e) Canções de uma palavra e uma nota só cantadas por apenas uma parte do corpo, como créus, rebolêixons e merdas parecidas
f) Cantoras de axé que se acham, tipo Claudia Milk e Ivete Frangalo. Alguém ainda aguenta ver a cara delas?

E por aí vai. Apareçam na exposição e façam suas apostas!

Andy Warhol - Mr. America. De 23 de março a 23 de maio na Estação Pinacoteca. Aos sábados, entrada franca.

Portinari na Coleção Castro Maia. De 10 de abril a 06 de junho de 2010 na Pinacoteca do Estado. Aos sábados, entrada franca. (A exposição que eu vi na quarta passada)


Notes:
1- Seja alguém com um corpo.
2 - In America sex is an obsession, in other parts of the world it is a fact.
3 - Sexo é uma ilusão. O mais excitante é não fazê-lo.

domingo, 22 de novembro de 2009

Strange Fruit - Chapter Two

Há algum tempo atrás ouvi uma doutora em antropologia pela UNESP, da qual só lembro o primeiro nome - Berenice, dizer que a miscigenação brasileira foi estratégia de dominação por parte do colonizador. O mestiço que surgiu da união dos portugueses com indígenas não era filho legítimo deste europeu, logo não tomaria parte do poder do colonizador, mas também não era mais um nativo para lutar contra o domínio imposto de fora. O jeito que me refiro a isso é simplista e até meio sentimental, porque na verdade o colonizador casava com mulheres indígenas com a anuência dos líderes das nações indígenas, para se tornar parte daquele povo e dizimar indígenas de outras nações. Ou seja, o nativo participou ativamente desse processo de miscigenação, por meio de alianças políticas que também interessavam a eles. E assim nasceu a nossa Nação de Vira-latas.

Hoje esse traço misturado do povo brasileiro é celebrado, eu mesma bem gosto de ter nascido com essa tara*. Depois de muito tempo, porém, fui perceber como a misturada rendeu formas peculiares de discriminação. Como eu já disse, não nos reconhecemos pela "raça", pelo sangue - até tentaram, havia aquela papagaiada de dizer que fulano era um "Quatrocentão", sendo que a origem desses fazendeiros paulistas era exatamente a que eu descrevi no parágrafo anterior, com o sangue índio misturado ao português. Então o que sobra é a cor da pele para se reconhecer.

Vi isso claramente há algumas semanas atrás. Na sala de informática, Bethinha, professora de inglês, mostrava fotos e vídeos de Marthin Luther King para nossos alunos de sétima série, para montar uma encenação e eu estava lá, de xereta. Ao ver as fotos de Rosa Parks, que tinha um tom de pele um pouco mais claro, os alunos teimavam em dizer que ela não era negra, e eu tentando explicar que para o estadunidense não existe meio termo (até Michael Jackson foi de negro a branco praticamente sem escala), que para eles não existe mulato, moreno cor-de-jambo, moreno café-com-leite, moreno isso, moreno aquilo, isso é coisa de brasileiro. Até quando uma aluna negra e muito bonita diz: "Se ela é negra, sou o que? Carvão?" Aí, perdi a pose, caí na risada. "Morena cor-de-disco, que tal?"

E nesta última semana, trocando figurinhas com Bethinha, fui mostrar para ela Billie Holiday cantando Strange Fruit, marco na história da música por ter sido a primeira canção que falava abertamente sobre a situação de preconceito racial nos Estados Unidos e eu acabei por descobrir coisas sobre esta canção que nem eu mesma sabia. A letra foi escrita com base em uma foto que retrata a cena mais horrorosa que eu já vi na minha vida, por isso nem me atrevo a colá-la aqui . Ninguém faz ideia do pavor que sinto só em escrever sobre ela, em ter que lembrar e tremo só de pensar que aquilo foi real. A intertextualidade entre a cena, a poesia da letra e a interpretação doída da Lady Day é perfeita.




Até se cantasse Atirei o Pau no Gato, essa mulher cantaria com todo o seu ser a dor do gato atingido. Strange Fruit, porém é a mais pungente de todas e mesmo sem saber inglês, percebe-se que ela não está falando de uma fossa habitual, o sentimento com que ela canta é indescritível com palavras, toda a dor do mundo está ali.

O resto da história está bem contada no link. Sugiro que todos cliquem e leiam atentamente, não só os corajosos e curiosos, porque é bom uma dose de realidade de vez em quando. É bom saber que gente da mesma espécie que nós, organicamente igual a você e a mim, foi capaz de cometer aquela crueldade , e nunca mais se esquecer, para que isso jamais se repita. E olha que não é difícil.

"A gente não sabia que não era um índio, a gente pensou que era um mendingo!" (1997)

Miserere nobis, Domini.

domingo, 1 de novembro de 2009

Sobre minissaias e universitários

Essa fornalha anda tão parada, onde se meteu a dona dos textículos? Na roda-viva, evidentemente. É incrível, pode se passar duzentos anos, meus questionamentos são os mesmos, não por falta de criatividade, mas porque os motivos permanecem. Como diz papi: "mudam as moscas, mas a merda é a mesma!" Para variar, um monte de ideias ficaram pra trás, mas nem acho isso tão ruim. Estou vivendo, e num ritmo tão frenético que capturar certos momentos é quase impossível. Foda é que não consigo viver sem isso: sem escrever, sem criar, sem Textículos. Socooooooooorro!

O que me salva é que quando acho que já me tornei definitivamente uma professorinha adequada ao status quo, esperando pacientemente o dia em que o magistério vai me deixar totalmente louca para conseguir uma licença pinel no sexto andar do Servidor, acontece uma que solta meus bichos subversivos na rua. O que me soltou os bichos dessa vez o foi o prosaico caso da minissaia na Uniban.


De início, me revoltei com a reação esdrúxula dessas pessoas. Gente de vinte e poucos anos chocada com minissaia? Como assim, Cabral? Depois, assisti à entrevista da garota na Record domingo passado. Primeiro, ela diz que sua vida se travestiu num inferno depois do ocorrido, mas não consegue disfarçar que está saboreando seus 15 segundinhos de fama com mucho gusto (os 15 minutos de Andy Wahrol, hoje em dia parecem uma eternidade), fazendo questão de conceder as entrevistas (sim, no plural) com o famigerado vestido que causou furor na multidão de estudantes sem cérebro do campus da UNIBAN de Diadema. Ela poderia se tornar uma heroína contra a neo-caretice do século XXI, como uma Rosa Parks do terceiro milênio, que com uma atitude simples de se recusar a se levantar de um lugar no ônibus reservado para brancos em Montgomery, no Alabama, provocou um boicote de 381 dias ao transporte coletivo capitaneado por Marthin Luther King em 1955. Mas aí é que tá, minha gente. A garota não tem cacife para isso. É burra feito uma porta. Soltou pérolas na entrevista como "Desde que eu me entendo POR EU uso roupas desse tipo" e "O tumulto era tão grande que eu não consegui nem SAIR PRA FORA". Dois pleonasmos viciosos em menos de 15 segundos. Pobre de mim, em frente a TV sonhando com uma revolução neo-feminista... Com esse nível de cultura, a tal estudante de turismo no máximo consegue uma vaga em um reality show ou um convite para posar nua e dar bastante trabalho para os arte-finalistas da revista se matando de disfarçar celulites no Photoshop.

A grata surpresa do caso minissaia da Uniban foi encontrar o blog Educação Política, do professor de Ciências Sociais da PUC de Campinas Glauco Cortez, um verdadeiro antídoto para essa burrice institucionalizada. Sobre este acontecido, ele disse: "O caso da estudante da Uniban, que foi covardemente insultada porque vestia uma minissaia, mostra um pouco a cara de São Paulo e também que há um aprendizado educacional no Brasil que está muito distante das humanidades e das capacidades reflexivas. É o exercício da irracionalidade."

Agora, me fala: que eu vou fazer nesse mundo, com uma elite universotária, que se enfurece com uma estudante indo para a faculdade de minissaia e que fala sair pra dentro e entrar pra fora? Este país não é mesmo sério. Aqui tudo vira farofa, não só o metal do Massacration. Por essas e outras continuo congregando pessoas para me acompanharem na minha mudança DE mundo. Quem quiser que follow me.


Notas:
*Sobre Rosa Parks e Martin Luther: Bethinha, obrigada pela troca de ideias e tanto entusiasmo!
*Sobre Massacration: essa farofa pelo menos é inteligente e engraçada. Nada como não se levar a sério, como estes GoodBlood Headbangers.
*Créditos da imagem: http://temasparamulheres.blogspot.com/2008/09/minissaia-e-maxipolmica.html

domingo, 20 de setembro de 2009

Che 2 - A Guerillha

No último domingo, assisti à Che 2 - A Guerrilha e gostei, mais do que o primeiro. Gosto da estética naturalista do filme, com uma ação lenta, focada na marcha da guerrilha e não nos combates, quase sem triha sonora, com iluminação natural. Benicio del Toro é um Che Guevara sem afetação nenhuma, acertou na mosca em interpretar o líder revolucionário de uma maneira humana, sem pesar para o lado do heroísmo, mesmo assim, mostrando o grande caráter do guerrilheiro.

Essas características estão nas duas partes do filme, é óbvio, mas no primeiro filme chega uma hora em que a ação se arrasta e na segunda parte isso não aconteceu, apesar do ritmo da ação ser exatamente o mesmo.

É triste você ver na sua frente uma história que você conhece bem, sabendo que o final foi desastroso. Não é nada catártico ver o fim de Ernesto Che Guevara na sua frente. Primeiro porque é História - com H maiúsculo, não tem aquela de respirar aliviado no fim porque era mentirinha, como na tregédia clássica grega. Segundo porque sabemos qual é a implicação de não termos tido uma revolução popular na América Latina. Tivemos uma série de ditaduras militares ao longo do século XX que criaram feridas que ainda não fecharam, e duvido que vão fechar, porque sempre aparece uma contrarrevolução para estancar este processo. Honduras que o diga, e isso é sim, problema nosso. O mais estapafúrdio é a justificativa para esse golpe: preservar a democracia (?!). E como um Maquiavel ao contrário, digo que pouco importam as supostas causas nobres para os fatos, e sim os métodos totalitários adotados pelo regime golpista, como por exemplo, sitiar a embaixada brasileira em Tegucigualpa, onde o presidente deposto Zelaya se encontra.

Revoltante que no caso da presença de Che na Bolívia, o próprio partido comunista de lá se opôs, não queriam estrangeiros no seu ninho e abertamente boicotaram a ação. Não sei se foi ingênuo ou corajoso da parte de Che crer que todos eram tão internacionalistas quanto ele, porém quando ele poderia sentar o traseiro em um gabiente como o segundo homem mais importante da Revolução Cubana, ele começou tudo de novo. O que prova, para mim pelo menos, que ele não estava interessado em poder e sim na transformação deste mundo de fato.
Mesmo sabendo de tudo isso, não conseguia de repetir um bocado de vezes para mim mesma, até cochichando, sozinha no cinema, que eu preferia uma revolução latino-americana triunfante, do que a figura do herói morto, tatuada na minha mente.
Depois de tudo isso, foi no mínimo indigesto sair da sala escura e dar de cara com um shopping. Não consegui tomar nem um milkshake.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Sobre Saramago, Twitter e Mussum Day

*Aviso aos navegantes: este textículo só é suportado em cérebros com o Software "Duplipensar 2.1"



Está provado: em matéria de redes sociais, o último grito da moda é o Twitter, mesmo que seja um grito de até 140 toques de teclado, só. Segundo o escritor português José Saramago , não é nem grito, é grunhido mesmo. O escritor, que gosta de lançar mão de "frases longas e bem elaboradas", declarou em uma entrevista ao jornal O Globo, sobre a nova febre: "(...)Os tais 140 caracteres reflectem algo que já conhecíamos: a tendência para o monossílabo como forma de comunicação. De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido."

Podem me bater, nunca li Saramago. Nada contra, é que nunca caiu na minha mão, se cair um dia, eu leio. Isso significa que não posso falar dele com profundidade, mas é interessante a minha reação à opinião dele a respeito da tendência ao monossílabo, porque tenho motivos para concordar e discordar dele em igual medida.

Concordando: estamos vivendo um tempo de esvaziamento da palavra e o pior, do seu sentido. Como bem observa Vizinhíssimo, a imagem vai ganhando contornos digitais, altíssima definição e as tecnologias sonoras, conforme avançam, vão ficando cada vez mais pobres em fidelidade (vinil - CD - mp3). Quem leu 1984, sabe a importância que a Novilíngua tinha para o regime totalitário - a ideia era tornar o idioma cada vez mais sintético, com menos palavras possíveis, para se tirar o poder de reflexão das pessoas, de perceber as nuances da realidade e exprimir essa percepção. Não pelos mesmos motivos, mas estamos vivendo essa tendência à Novilíngua hoje. Exemplo: você fala "miguxês"? Gente velhinha como eu há de convir que esse dialeto internético soa bem como grunhidinhos, bem como disse Saramago. Estou em sala de aula, então sei muito bem o sacrifício que é desenvolver um discurso mínimo que seja. A grande maioria da molecada não consegue acompanhar. Não é nem que eles julgam chato o que estou falando, a maioria para de ouvir antes de chegar a essa conclusão, simplesmente porque não conseguem, não tem o ouvido treinado para formas de comunicação mais lentas, já que o mundo digital é ultrarrápido, e deixa os dinossauros da sala de aula como eu, a comer poeira, com toda "tecnologia" disponível na grande maioria das escolas para os professores - giz, lousa, saliva e olhe lá. Então, por essas e outras, concordo com Saramago.

Discordando: apesar de ser uma verborrágica incorrigível, não creio que períodos longos sejam imprescindíveis para exprimir ideias longas, às vezes é até o oposto. Uma palavra só, deixada como um fio solto, pode deixar um monte de sentidos à solta também, e provocar muito mais que um discurso "pequenino" de Fidel Castro (diz a lenda que os menores deles tinham no mínimo umas duas horas). Para a comédia, para um hai-kai, poesia concreta ou mesmo para a composição, a concisão é sim, a alma do negócio. Na literatura dramática, é recomendado ao novo dramaturgo evitar diálogos só com monossílabos, mas Nelson Rodrigues, por exemplo, fazia isso como ninguém, sempre abusando das intenções de fala do ator e o resultado era quase sempre, fantástico. Titio Shakespeare também dizia: "A brevidade é alma da sagacidade." Então, acho até bacana ter só aqueles 140 toques para exprimir uma ideia, porque me tira do conforto de uma postagem sem fim. Quem me lê há algum tempo sabe que estes textículos de "ículos", não tem nada, mas é como eu disse no começo: sempre primando pela brevidade, prolixidade ou incoerência, ou o que vier primeiro. (Escrevi assim, porque já contava que não seguiria um padrão.)

Estou usando o Twitter faz pouco tempo: depois de uns três convites chegando na minha caixa de entrada, resolvi aderir. E como eu disse, o limite de caracteres estão me ajudando a ter 'timing' na hora de soltar a piada e também gosto de como ele pode exprimir coisas e momentos bem fugazes, aquele que quando você pára para olhar, já passou. Sem contar que gente bem bacana ajudou a "fazer" o Twitter, como o Marcelo Tas, por exemplo, que até o fechamento da edição da Continuum (revista do Itaú Cultural), tinha 118 mil e tralalá seguidores. Ainda não sei bem que bicho pega lá, mas o poder de mobilização é grande. Dizem que, em matéria de trend topics- ranking dos assuntos mais abordados no Twitter- mais que o Fora Sarney, só mesmo o Mussum Day. Cacildis!
Um textículo que começa com Saramago e termina com Mussum é no mínimo surreal, mas não é por isso que vou me furtar a conclui-lo:


Do grunhido ao sermão, o que importa é o sentido: fazer, não fazer, inventar, que seja. Palavra é subversão.



Ai! Eu não resisto a uma nota no final:
*A imagem do textículo é um verdadeiro achado. Nunca tinha me ligado que Mussum é um palíndromo! Benvindo ao maravilhoso mundo das palavras. Créditos da imagem: www.eupodiatamatando.com

sábado, 4 de julho de 2009

Orgulho de ser gente

Quer ver como Educação virou futebol? Quem mais fala de Educação? Gilberto Dimenstein (jornalista), Içami Tiba (médico), sem contar um tal de Gustavo Não-Sei-O-Quê¹ (economista) - este último não tem nem um mestrado na área ou ao menos uma pós em docência do ensino superior para falar uma linha sequer sobre educação com alguma propriedade. Todos estes apontam o "fracasso escolar", expressão banalizada de uma maneira tal, que se transformou numa instituição difícil de ser derrubada, pois serve de munição para as formulações e teorias destes "figurões". Se de repente tivermos uma educação digna da Escandinávia, de quem eles vão falar mal, na falta dos professores? Dos lixeiros? Dos garis? Dos personal stylists?

O fato é que certas coisas foram feitas para não dar certo e a Educação escolar, nos moldes tradicionais, é uma delas. Até porque se der certo, um monte de burocratas sentados vão perder o emprego. A gente trabalha engessado, escola é uma instituição engessada, num formato que remonta ao fim do século XVIII, aliás! Ou seja, não existe fracasso escolar, ele está dando muito certo.

Estou, a partir de agora, na contramão do coro de lamentações que até nós, professores ajudamos a engrossar: está na hora de falar de iniciativas bem-sucedidas.

A Secretaria Municipal de Educação possui um projeto de rádio escolar intitulado EDUCOM e a escola onde trabalho participa deste projeto. Como estava parado há algum tempo e na iminência de perder os equipamentos por conta disso, a coordenação pedagógica pediu para reativarmos este projeto, repletos de possibilidades pedagógicas. Nova na escola, senti meus olhos míopes brilhando neste momento, afinal eu sempre quis trabalhar com rádio, e é lógico que dei meu nome e a cara à tapa para participar desta empreitada.

Desde 28 de maio, estamos tocando o projeto de reativação da Radio Jovem Cidadão, com dois ou três alunos de algumas turmas do Ciclo II e a molecada é talentosíssima. Estávamos em compasso de espera até sábado passado, 04/07/2009, quando a radio funcionou ao vivo na Festa Junina da escola, com inserções que divulgavam desde o Conselho de Escola até as matrículas para o EJA, anunciando as barracas e as atrações da festa. Tudo muito simples, porém eficiente e regado com o carisma dos nossos meninos e meninas, agora locutores, roteiristas, operadores de som e tudo mais que uma rádio de verdade tem direito. Ah, antes que eu me esqueça, também me aventurei na locução neste dia.

Este dia funcionou como um pré-lançamento da rádio, que funciona pra valer a partir do segundo semestre. Já temos uma grade de programação montada com música, informação e prestação de serviços, um acervo variadíssimo montado a toque de caixa, para contar com uma programação musical que vai do funk ao samba-canção, e alguns roteiros prontinhos para rodar, sem contar os canais de comunicação via Internet, para interagir com a galera.

Grande parte destas ações partiram espontaneamente da garotada, rápida no gatilho a ponto de me deixar zonza, com tantas ideias para organizar. E olha que me deixar zonza é tarefa para poucos, porque sou ligada no 440.

Então só posso agradecer ao poder ultrajovem destes meninos e meninas. Será que vou esquecer de alguém? Vamos lá: Murilo, Douglas, Victor, Fabio, Jéssica, Sarah, Eduarda, Cássia, Cris, Alan (o único valente a operar o som das 8 às 15 da tarde), Prof Nelson, pioneiro nesta iniciativa e veterano da Radio Jovem Cidadão, e à Mariana, minha parceira no Velharia: aquele abraço!

Lembrando a todos que estamos apenas começando, porque muita coisa boa ainda está por vir!
Uma cambalhota coletiva para os que ainda preferem o fracasso escolar!

Nota:
1. Lembrei. O nome do cabra é Gustavo Ioschpe. O bonitão fez mestrado em Economia em Yale! Mas por que cargas d´água não vai falar de Economia? Só a Veja para nos brindar com bobageiras-de-terno de tão alto nível.

2. A imagem não precisa de créditos, porque é minha-feita-por-mim-mesma. Quem quiser ver as outras, estou postando no Orkut.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Vergonha de ser gente

Uma vez ouvi que o professor é uma criatura burra por excelência, porque nunca sai da escola. Claro que isso é um trocadilho, mas sabe-se muito bem que hoje em dia, declarar-se professor desperta no senso comum dois sentimentos, ambos antagônicos e nada lisonjeiros: piedade ou escárnio. Quem opta por essa carreira é tido como burro, mesmo que seja de uma forma velada e tem uma gente escrota que declara isso abertamente, através de discursos e de certas posturas que a gente vê em alunos e suas famílias - diria eu apenas doadoras de DNA, família para mim é outra coisa.


Já disse isso anteriormente, e isso não é papo café-com-bolacha¹ apenas. É fato. A falta de valores em que se basear é tão grande que dia desses, me dei conta que esse tipo de discurso que defendo são valores burgueses puríssimos - escola, família, lutar pra ter um emprego, etc. Por mais à esquerda que eu me considere, fui criada à maneira pequeno-burguesa e outra, a crise de valores está tão grande que qualquer valor serve - burguês ou não. Se eles ainda valessem alguma coisa, a atual juventude teria porque lutar, mas como não tem, estão cada vez mais letárgicos e agressivos - outra contradição.

Duas notícias pinçadas recentemente exemplificam bem o que estou falando. Como contra fatos não há argumentos, deixo que elas falem por si mesmas:



Preciso dizer que a primeira notícia mostra que este caso não passa de um refinamento de algo que existe desde tempos imemoriais na instituição escolar - o bullying - com a diferença de que este citado agora fez uso das chamadas mídias 2.0 (Orkut, principalmente). A segunda trata-se de mais uma descoberta da pólvora. Escola é, por excelência, uma instituição cruel com as pessoas, por ser um microcosmo da sociedade, uma amostra grátis do pior do ambiente em que a gente vive. Muita gente não entende o oximoro que sou: quando criança e adolescente, adorava estudar, mas detestava escola, assim como sou hoje uma professora que adora seu ofício, mas que odeia a instituição escola o triplo que odiava nos seus tempos de estudante. Ô lugarzinho medíocre, e olha que adoro as minhas escolas (eu não contente com uma, tenho duas dores de cabeça para privilegiar os dois lados do cérebro).

Sem contar os casos que vejo ou que fico sabendo no dia-a-dia e que não são noticiados. Nesta semana soube de dois que são de amargar, me dá vergonha de ser gente por essas garotas. TODAS as protagonistas são garotas. Qual é a desculpa pra isso: excesso de testosterona ou falta dela?

Essa primeira notícia deu no último Jornal Nacional, e é lógico que foram consultar um "especialista em Educação". Quando ouço essa expressão já começo a tremer - algum tonto graduado vai desfilar o rosário do Bestiário Tucanês da Educação², e aposto minha coleção de figurinhas que nenhum deles pisou numa sala de aula do ensino básico. No máximo algum pode ter dado aula no ensino superior, porque se virar nos quarenta e cinco no ensino fundamental e médio é coisa pros peões da Educação, como eu. No caso do JN de hoje, bingo! O desavisado da vez bateu mais uma vez na tecla do diálogo, como se a molecada de hoje quisesse isso. Eles pedem por limite e cada vez mais de uma forma consciente. Quantas vezes não ouvi: "Professora, bate nele!" ou "Manda ele pra diretoria!". Como a impunidade é grande, os nossos alunos sentem isso e esta ânsia por limites em casa e na escola acaba virando um catalisador de contrarrevolução. Ficam com saudade do tempo da palmatória. Nem eles aceitam esse discurso hipócrita que transforma um ECA num desserviço à educação dos mais jovens, principalmente na escola, que é um espaço público e visado, ao contrário do espaço doméstico, mais difícil de fiscalizar.

Muita gente me pergunta: mas por que você não sai dessa? Um dia posso até sair, mas quando EU quiser. Quero ter o direito de gostar do que eu faço, oras. De uma hora pra outra, educação virou futebol: todo mundo entende, todo mundo dá pitaco, mas sempre prevalece a aura romântica em torno da figura do mestre, embora constantemente desmoralizada. Não sou um Dom Quixote, porra! Estudei para ser professora, não para lutar com moinhos de vento e não me sinto na menor obrigação disso, porém...

...Do que dá certo ninguém fala, só das desgraças mesmo. Tenho uma notícia muito boa para dar aqui, só estou esperando que ela tome mais consistência para ser divulgada. É como a Bruna citou no seu blog:
"A árvore cai com grande estrondo, mas ninguém ouve a floresta crescer."
Patrick Pardini


O poder ultrajovem vem aí. Aguardem!

Inútieis:
1 - Papo café-com-bolachas é a conversa típica de sala dos professores: ora reclamando da vida, ora rindo das pequenas desgraças cotidianas.
2 - Existe um outro sinônimo para o Bestiário Tucanês da Educação, criado por alguns colegas: chalitar. Quer coisa mais irritante que ele, querendo se parecer com Dalai Lama falando? Ah, me poupe!

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Subindo no banquinho e xingando a rainha 2.0

Pela segunda vez na história desse blog, eu subo no banquinho pra xingar a rainha. A indignação é grande, minha gente. E se escrevo em tom jocoso mais uma vez, é por pura revolta. Sou riot girl desde criancinha.

O que indigna tanto a fazedora de textículos não é um fato isolado, são várias pílulas de mediocridade, imbecilidade, somadas a um absolutamente odioso falso senso de politicamente correto. Quer ver?

Reforma ortográfica. Lei antifumo. Jonas Brothers¹. A redenção do Simonal. Agora todo mundo se esforça para ser bonzinho, mas é como naquela rima popular: "Por fora, bela viola. Por dentro, pão bolorento." A sociedade, em tempos de ditadura branca, não melhorou um milímetro, porque o que manda é a consciência e essa continua inexistente.

É antiga essa bronca, mas é cada vez mais forte o cheiro de ditabranda no ar, a caretice cada vez mais imperante. Ontem pensei comigo que na adolescência, eu surtei, endoideci e se naquela época, eu soubesse que este mundo ficaria tão falsamente comportado, eu teria surtado o triplo. E tenho dito!

Várias vezes comecei um textículo com esse tema, mas sabe-deus-porquê, ele não engatou, talvez porque faltasse o tom certo da tragédia (ou tragicomédia, se preferirem). Em 17 de fevereiro, um editorial da Folha ganhou notoriedade por classificar o regime militar brasileiro (1964-1985) de "ditabranda", termo cunhado por Pinochet, meu pedagogo preferido². Causou justificada indignação entre os que viveram este período que foi brando mesmo só para a direita e a milicaiada. Maria Victoria Benevides e Fábio Konder Comparato³ saíram em defesa dos que sabem muito bem que a dita não foi branda e na réplica, a Folha os chamou de "cínicos". No mínimo, sintomático isso. Depois, houve manifestação na porta da Folha e não sei porque merda não fiquei sabendo, senão teria ido. Isso virou matéria de capa na Caros Amigos do mês passado, com ótimas reportagens. Trata-se de uma piada velha? Que isso: não é piada, porque não tem graça e não é velha porque como diz Skylab: se quer notícia atualizada, que leia jornal (de preferências esses que chamam um período sangrento e cheio de desaparecidos políticos de pouca coisa, eu diria).

Para não ficar neurótica, eu dou risada. Ecos do duplipensamento. Aliás, o tom desse textículo foi dado pela minha indignação frente à indignação com uma piadinha politicamente incorreta minha, feita não por ignorância, mas por traquinagem mesmo. Pessoas, me economizem. Desse jeito vai faltar água e Flávia*no planeta. E a auto-sustentabilidade, onde é que fica?

Notas inútieis:
1 - Descobri a existência dos Jonas Brothers com um desenho de uma aluna e até lá, nenhuma objeção. Toda garota tem uma boyband pra chamar de sua. Mas esse negócio de usar anelzinho para mostrar que é cabaço é um pouco demais, não?
2 - "Se não conseguir com Piaget, vá de Pinochet." Trocadilho infame de professor tomando café com bolachas em parcos minutos de diversão num intervalo qualquer.
3 - Quando minhas bolas estavam (ainda) mais à esquerda, ouvi essas duas feras falando. Se não me engano, a Maria Vitoria no Fé e Política e o Comparato no Mística e Militância, ambos em 2002.
4 - Eis que Lady Hepburn revela sua identidade! Dãããã! ...Como se não soubessem.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Viva Boal

É incrível como a gente fica desinformado quanto mais a gente tenta se informar. Ainda há perigo de se enlouquecer com a quantidade absurda de informação inútil que a gente recebe. Nessa semana, deliberadamente fiquei sem assistir TV, sem acessar a internet, nem ouvindo rádio. Abri meu e-mail só na quarta-feira e só aí descobri que Augusto Boal, gênio do teatro brasileiro, diretor e dramaturgo, criador da metodologia do Teatro do Oprimido, havia falecido no sábado.

Como Villa-Lobos, Paulo Freire e outros gênios brasileiros, o trabalho de Boal é mais conhecido lá fora do que em terras tupiniquins. Sou formada em Artes Cênicas e garanto que o que sei sobre a metodologia do Teatro do Oprimido consegui aprender por fora*, porque falou-se muito pouco sobre o trabalho de Boal durante a minha formação, alicerçada no método de teatro-educação de Viola Spolin e Ingrid Koudela.


Quando um desses morre fico com medo, porque não tem gente fazendo arte da mesma envergadura que esses caras. Os renovadores do teatro brasileiro são todos da geração do Boal e continuam na vanguarda: Zé Celso, Abu, Antunes, José Renato. Boal e Gianfrancesco Guarnieri já foram ter com o Barbudão. E aí, quem vai quebrar as estruturas e renovar o que agora é consagrado? A Arte vive disso. De quebrar estruturas, sempre.


Digo isso porque tenho certeza que Boal será sempre lembrado e mais, seu trabalho continua, através do Centro do Teatro do Oprimido. Além disso, a gente precisa de outros trabalhos tão revolucionários quanto. Mas como isso vai acontecer, se vivemos cercados de gente alienada, burra e reacionária o tempo todo? Nunca se teve tantas fontes de informação, e nunca fomos tão burros para não aproveitá-las. Tá vendo como eu tinha razão?


O Teatro do Oprimido faz parte do meu relicário de lembranças adoradas, daquelas que a gente vai ver a importância anos depois, como o clipe de No Surprises no sofá da casa do Daniel.


Em 2002 eu fiz um curso ministrado pelo MST e pela Unicamp, no campus da mesma universidade e que foi puro risco, apesar de não ter participado de nenhuma ocupação. Eu estava com 19 anos, nunca tinha viajado sozinha e pouco sabia sobre o que ia fazer lá, só sabia que representaria o Mire, movimento do qual participei até 2004. Este evento correu em paralelo com o Fórum Social Mundial em Porto Alegre e contou com a participação de alguns feras como José Arbex Jr., João Pedro Stedile, Plínio de Arruda Sampaio, e alguns políticos, quando o PT ainda era oposição. Era gente do Brasil inteiro, um monte de sotaques, gente jogando capoeira, dançando todas as noites. Foi uma experiência maravilhosa. E foi lá, numa tarde de sábado, que fiz uma oficina de teatro com gente do CTO, porque o MST usa a metodologia do teatro do opimido. Depois participamos de uma sessão. Quem já participou, sabe: a representação acontece até o momento do conflito, quando se chama a plateia para resolvê-lo como acha que poderia ser. Eu, como toda minha cara-de-pau do mundo, fui. Nessa época, nem no meu devaneio mais maluco, imaginava que cursaria uma licenciatura em Artes Cênicas.


Minha militância (nem sei se fui militante mesmo, porque nunca arrisquei minha pele de fato) durou até 2004, ano que colocou a minha vidinha de pernas pro ar. De repente, todo aquele discurso pareceu estranho, e fiquei cansada. Não via mais motivo em militar, então simplesmente parei. Não foi fruto de uma decepção ou coisa parecida, aliás, minhas posturas políticas nunca mudaram.


Isso foi uma coisa muito estranha que nunca entendi direito. Na verdade, destes anos para cá, tenho vivido como uma "pequeno-burguesa que só pensa em si mesma", primeiro ralando para me formar, depois para conseguir um emprego minimamente decente. Então, era como se minha vida fosse dividida em duas partes totalmente diferentes. Agora sinto estas duas partes se unindo, sinto outra vez estas cócegas revolucionárias, devido a este escabroso cheiro de ditabranda no ar, suave, mas incômodo, que só eu e uns poucos "privilegiados" podemos sentir.

Não estou mais interessada em militância nem nas suas instituições, que dançam conforme a música do jogo político. Descobri que um militante pode não ser subversivo, e que não precisa haver militância para haver subversão, talvez algum engajamento. Subversão é o que me interessa. Isso com certeza, Augusto Boal foi. Um subversivo de mão cheia.

Notas inúteis:
* O CTO vai prestar uma homenagem a Augusto Boal nesta sexta-feira, se existe algum leitor de textículos no Rio, por favor, vá por mim. E se alguém souber de alguma homenagem a ele aqui na Terra da Garoa, por favor, me avise. Minhas bolas voltam para a esquerda, gente!!!
*Um de seus livros que eu li foi "O Arco-Íris do Desejo - Método Boal de Teatro e Terapia", da Editora Civilização Brasileira.

terça-feira, 24 de março de 2009

Sonho de um sonho II

Neste domingo, fui uma das 30 mil pessoas que assistiram ao show do Radiohead em São Paulo, e aquela sensação duplipensante de viver o momento ao mesmo tempo em que se tenta racionalizar a experiência para relatar depois funcionou só durante alguns instantes, porque o que eu vivi foi tão surreal, que me sinto como o Segismundo, protagonista de A vida é sonho: estava dormindo e acordei aqui ou foi o contrário, tudo isso é um sonho?

Engraçado porque quem é fã absoluto e irrestrito de Radiohead não sou eu, acho difícil superar Vizinhíssimo e TioZé em loucura insana por Thom Yorke e seus parceiros, mas isso não impediu que eu me comportasse como uma fã, a começar pelo dia em que eu comprei o ingresso, uns três meses antes. Por que eu fiz isso, se não era tão fã assim? Simples, eles decidiram vir ao Brasil no seu melhor momento, e conta-se nos dedos as bandas internacionais que fazem isso. Sabia, desde sempre, que seria este um show histórico¹. E foi.

A surrealidade da experiência começa pelo fato que faz uns 10 anos que eu não vou a um grande show de rock e sinceramente pensei que esta fase já tinha passado. Clichê muito piegas, mas verdadeiro: é como se eu tivesse a minha adolescência de volta. E isso é bom demais.

Minha mente ainda tagarelava no show do Los Hermanos, que no início eu desprezei, mas que depois ganhou um gosto de piada velha envelhecida em barris de carvalho, como um bom vinho. O show foi melhor que eu esperava e achei muita graça em eu não conhecer nada de Los Hermanos que ultrapassasse a chatice da "Anna Julia". Eles que não são bobos nem nada, não tocaram essa pérola do cancioneiro chato do pop-rock brasileiro. Conclusão: apesar de ter apanhado do Chorão e de dar uns sapecos na pirralha da Mallu Magalhães, o Marcelo Camelo merece algum respeito musical, mesmo com sua cara de funcionário da Nasa dos anos 70, misturada com cara de judeu de Higienópolis com traços de estudante de sociais da USP ou coisa que o valha que me irrita um tanto, eu confesso. E o Rodrigo Amarante fez mais bonito que nosso idish-apollo13. Alguém tem o telefone dele, por favor? :-P

Outra piada velha, mas que eu conheci estes dias, portanto tem graça foi o Kraftwerk. Eles tem mais de 20 anos de carreira, mas para mim foi a descoberta da pólvora. Vi tudo naquele show: poesia concreta, Mondrian, crítica social. Mais um drama tostines na minha vida: eles são realmente vanguarda ou o que a gente faz e ouve em termos de música é que está datado? We are the robots!

O Radiohead, como bem informa a notícia do link, entrou pontualmente em cena. E aí que começou meu desespero, do alto dos meu 1,63m de altura. Não adiantava ficar na grade, como bem observou o já iniciado em shows do Radiohead - o dono do... OKcomput3r! - para que se pudesse ver o show na íntegra, com os efeitos de luz que ajudaram ainda mais a criar o clima de "isso é verdade mesmo?" que permeou todo o show. Só que era gente demais naquele lugar e ver mesmo o show, eu não vi. Demorou um tempo para entender que aquilo não era um show, era uma experiência, e que em shows de rock o legal não é ver e sim participar. Foi aí que a coisa ficou boa para mim, quando rolaram os melhores momentos do show, na minha opinião: Paranoid Android, Karma Police, e do In Rainbows, Reckoner. No bis, Fake Plastic Trees foi atrapalhada por uma briga perto de mim. Como bem observou um outro cara que estava por lá: "Brigar logo na hora do Carlinhos, pô?" Aí, estragou.

Hora de ir, quase um enrosco, em plena madrugada de domingo para segunda. E lá estávamos, mais uma vez, eu e meus companheiros de aventura, tentando sobreviver na cidade. Chegamos três da manhã em casa e em vão tentei acordar às 5h30 para ir trabalhar e abri os olhos com essa sacada do Segismundo: estou acordando agora ou voltando a dormir?

Esta pergunta se mantém sem resposta. Desde que acordei/dormi, tenho ouvido Radiohead feito uma louca, tentando "concretar o fluido", reter na memória o que passou, o que eu senti. Essa bola eu cantei para o Zé, na saída do show: acho que só vou entender o que aconteceu de verdade daqui a alguns anos. E olhe lá.

Por isso fica para o próximo textículo um pouco mais da minha relação com o Radiohead, como se fosse os TM um filme do Tarantino, que vai e volta no tempo com garbo e elegância, como eu*. É para nós mesmos esta cambalhota!

1 - Aos que sobreviveram para contar esta história comigo, aquele abraço!

quinta-feira, 12 de março de 2009

Mulheres-andróide*

Sabe que ando com muito assunto e pouco tempo, e não gosto de texticular quando a vontade de escrever é mediana. Só que tomei vergonha na cara ao dar uma passadinha no OKComput3r, vizinhíssimo anda postando feito doido por lá. E todas as postagens são excelentes, então esse papo de quantidade X qualidade é conversa de blogueiro preguiçoso, como eu.

Um dos assuntos que eu tinha planos pra falar aqui foi sobre o Dia Internacional da Mulher e aniversário da Bozoca*, que nasceu num dia "danado de porreta". Acabei falando meio de soslaio, com a última postagem, porque a piada pronta da semana foi o dileto arcebispo meter a colher onde não foi chamado bem na semana do 8 de março, pra deixar os movimentos feministas beeeeeeeeeem contentes. E não pude deixar passar.

Comecei este textículo ontem, mas apaguei tudo quando li uma notícia no Terra, agora mesmo, cujo título dispensa qualquer comentário:


Ah, Cabral, fala sério. Mulher para ser perfeita tem que fazer café? Então, apaguei tudo, porque eu vi que minha discussão estava séculos atrasada. Eu falando de igualdade (de condições) entre gêneros, violência à mulher, patriarcado, raçãowhiskhasblábláblá e o babado está bem mais forte que eu pensava. Diz a notícia que "o inventor canadense Le Trung decidiu não perder tempo em busca da mulher ideal e criou sua própria. Aiko é uma robô androide que fala inglês e japonês, é boa em matemática e, segundo Trung, é muito paciente e nunca reclama." Lá pelas tantas, a notícia conta que "além de fazer companhia ao inventor e ajudá-lo com as contas, Aiko tem habilidades mais servis, como limpar o banheiro" e mais: "prepara chá e café, serve sushi, faz o café da manhã e limpa as orelhas de seu criador." O doutíssimo inventor ainda declara: "Ela não precisa de feriados, comida ou descanso, e pode trabalhar quase 24 horas por dia. Ela é a mulher perfeita."

Percebam que para a anta do inventor mulher perfeita não pensa, não tem desejos, não cria. É boa em matemática para as contas de um suposto orçamento doméstico e lava banheiros! E, apesar de ter sensores "lá embaixo" - palavras dele - é garantidamente virgem! Ou seja, para o tal, mulher perfeita nem precisa ser boa de cama.

Existe um paradoxo -quase um oximoro - entre o arcaico e o contemporâneo na ideia do tal cara. Uma pessoa capaz de criar um software de 50 mil reais tem um cérebro de minhoca desse? E o cabra choveu no molhado: alguém precisa contar para ele que cafeteira já existe e robô-empregada também. Lembram da Rose, dos Jetsons? E o Luís Fernando Veríssimo já tinha feito o seu exercício futurista sobre um cara que compra um robô-mulher-perfeita para substituir a esposa. Está no A Mãe do Freud (L&PM Pocket).

Então, quanto mais a gente discute sobre cibercultura, Vizinho das Galáxias, eu me pergunto: cheguei ao século XXI para isso? É contra-revolução pura, mermão! No meu tempo, o futuro era uma coisa bem mais interessante: os Jetsons eram descolados e a Rose é muito mais fofa que a tal da Aiko. Me manda direto pros 1960, por favor.

* Créditos da imagem: http://naredesaude.files.wordpress.com/2008/12/rose.jpg


quarta-feira, 30 de julho de 2008

Amy, Amy, Amy¹

Há muito tempo essa maluca com cabelo de colméia merecia um textículo só pra ela. Ela foi meu rito de passagem para os meus 25 anos, na minha escalada por esta montanha de esperanças².


Não veio antes porque estas coisas precisam de estalos e estes ainda não tinham vindo. E eis que nessa semana Sandra Dee-que-loucura me manda um email com fotos da Amy Winehouse, numa espécie de melhores e piores momentos da maluca em questão. E me assustei, porque os piores momentos são de f****. O ó da decadência.



Não que eu não tivesse visto estas fotos antes, mas todas elas juntas dão uma certa náusea. E pena. Afinal ela é bonita (sim, originalmente Amy Winehouse é bonita), jovem e está lá, no bicaço do urubu. São motivos clichê e piegas, mas absolutamente sinceros. Porque Britney Spears e Paris Hilton, por mim, podem cheirar uma carreira de um metro que eu não tô nem aí. Só que pela Amy eu lamento sim, porque ela é talentosa pracaralho, não tem outra definição. (Muita gente também diz isso, mas geralmente referindo-se apenas a seu vozerão de negona do Bronx. E ela é inglesa.) Só que se esquecem que ela também é uma compositora fantástica. Nos seus dois álbuns tem tudo: jazz, hip hop, soul, letras surpreendentes, arranjos encorpados, e tudo isso resultou em uma coisa que anda faltando na música pop em geral: originalidade.



Acho que essa originalidade, rara hoje em dia, fez com que essa maluca inglesa roubasse minha pobre alma definitivamente. E frases como "Ele se vai, o Sol se põe/ Ele leva o dia embora, mas já sou crescidinha. /Minhas lágrimas secam sozinhas" (Tears Dry on their own), cantadas como se fosse uma prece. Só um brutamontes é capaz de não se comover com isso. E eles existem. Aos montes.










Não gosto do tratamento dado para ela na imprensa. Porque é público e notório que ela não dá as suas bozadas para aparecer. Gostei quando Andrew Lloyd Weber, que não é qualquer um, saiu em defesa da Amy, dizendo que ela é uma pessoa que não sabe lidar com seus conflitos e com seu talento. Ela realmente sofre. Claro que um papparazzo está pouco se importando com os conflitos existenciais de uma celebridade drogada e presa fácil, mas a tratam como se ela fosse uma espécie de avis rara. E ela é um ser humano. Acho que esta fonte de escândalos que ela se tornou é justamente porque ela não tá nem aí para os holofotes que a rodeiam. It´s just a girl.

Gosto dessa humanidade em excesso que ela tem. A parte ruim é que ela sofre com isso. Mas tem faltado isso nas pessoas públicas em geral, todas elas parecem ser ... de cera. (Coincidência ou não, sua estátua no Madame Tussauds foi inaugurada esses dias. Ela não quis ver. Certa ela. É como se todos estivessem já adiantando seu fim. E se ela se recusou a ir, é porque ainda estão rolando os dados.)



Este duplipensar me mata. Tratada como excêntrica porque se mostra humana em todos seus conflitos, é dada como "morta" para a música, e no entanto está aí, enchendo as páginas de escândalos, sendo celebrada e desprezada na mesma medida. Olha só:



Final de 2007. Junto com Victoria Beckham, é considerada a celebridade inglesa mais cafona. E alguns meses depois, a Vogue faz um ensaio com Isabeli Fontana posando de Amy Winehouse. E isso ecoou aqui em terras tupiniquins, na época do Fashion Week, só que com a Gisele Itié. Peraí: cafona, mas ícone fashion? Eita, mundo estranho.




Como eu quero mudar de mundo, não quero mais brincar de entender essa gente estranha. O fato é que as canções dessa desmiolada fazem parte do meu mundo e de outras pessoas também. Realmente não sei se ela sobrevive a tanto 'tóchico', mas mesmo que sobreviva, é difícil bater o Back to Black. Se ela estivesse bem já seria difícil, com toda a sorte de problemas que ela tem que superar agora - sobreviver, inclusive - eu confesso que meu coraçãozinho de fã tem poucas esperanças. Estou tentando me contentar com seus dois álbuns de estúdio.
Poucas, mas existem. Torço para que ela se reinvente, calando a boca dessa gente careta e maldita³. Ela merece, eu acho.




Referências:


1 - Última canção do primeiro álbum, Frank. A Musicoteca tem os dois álbuns na íntegra.


2 - Penúltimo textículo, "Para gente não loira".


3 - Alusão à Joana, cançao bem-humorada do segundo álbum da Ana Carolina.