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domingo, 31 de maio de 2015

A caixa mágica de gibis

 Para Adriana Malaquias e prima Cynthia
Escrevi este texto há doze anos, como denuncia a piadinha com o slogan do governo do JK. O tempo que passa pode até não voltar (e como ando triste com meus tempos perdidos), mas também sei hoje em dia que a vida tem lá os seus estica-e-puxas. Como numa brincadeira de elástico, este texto voltou com uma conversa muito elucidativa com a prima Cynthia sobre Barbies, Susies e Ganha-Nenês. E vejo que o tempo passa, mas a saudade do meu quarto cheio de brinquedos espalhados não! 
"Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!" 
(Casimiro de Abreu)
Quem me conhece sabe que minha saudade é crônica. Saudade que nem a da música do Gonzagão, Que nem jiló, "pro cabra se convencer que é feliz sem saber".  Vivo para juntar histórias. Tanto que, se eu fosse o Juscelino, meu lema seria "200 anos em 20", ao invés de 50 anos em 5. Não que minha vida seja alucinante, ela é até bem prosaica. É que qualquer coisinha é uma dramão pra mim. Devo ser roteirista frustrada e nem fiquei sabendo. 

A saudade que me doi mesmo são a dos meus brinquedos, mais do que primeiro namorado, primeiro beijo, essas coisas. Claro que existem alguns desenhos animados da minha época em exibição na TV, mas nada se compara a minhas bonecas perdidas. Poucos brinquedos me restaram, porque é costume da minha mãe doar tudo que vê pela frente sem uso. A maioria deles foi para os meus primos mais novos e minhas preciosidades como minha boneca Ganha-Nenê e meu Cachorro-Detetive já devem ter ido para o espaço agora, porque meus primos cresceram também.



Inútil dizer que a saudade que eu tenho não é de nada material, é do que eles representam e que os desenhos animados não conseguem sintetizar da minha infância.  Minha amiga Adriana disse que quando não está bem, vai ler sua coleção de gibis. Segundo ela, isso é um bálsamo, uma espécie de Fonte da Eterna Juventude. Tenho certeza que todo mundo já disse: "Ai quero voltar para minha infância!" num momento de extremo saco cheio com a vida. Pois é, só a Dri consegue com sua caixa mágica de gibis. "


Para ver que a vida é uma brincadeira de estica e puxa, olha só quanto está valendo uma Ganha Nenê agora: http://bit.ly/1M29u4s

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Piada amywinehouseana pronta 2.0

Essa chegou até mim através do Vizinho, que ficou impressionado com a frase de Lupicínio Rodrigues: "As mulheres que mais me chutaram foram as que mais me fizeram ganhar dinheiro". Pois é, amizade, agora nem se vingar de um fora com arte você pode mais, tem que dar comissão para o (a) infeliz que te fez sofrer. É mole?



"O ex-marido da cantora Amy Winehouse, Blake Fielder-Civil, estaria prestes a pedir indenização à artista por ter sido usado como inspiração para músicas.

Blake deve pedir uma indenização de 6 milhões de libras (equivalente a R$ 19 milhões), de acordo com o site do jornal britânico News of The World.
No processo ele deve usar argumentos envolvendo os problemas que teve com Amy.O disco "Back to Black", responsável pelos sucessos de Amy, foi escrito no período em que os dois estavam em crise e envolvidos em boatos de traição.
"Amy escreveu Back to Black quando Blake a deixou, mas qual o motivo para ela dar algo para ele por tê-la deixado mal?", indagou uma amiga da artista ao jornal.
Já Winehouse adiantou dizendo que não pretende dar nem um centavo ao ex-companheiro.

"É mole? Mas sobe, ora essa! :
Estava caçando imagens da Amy para colocar no textículo, mas não deu, a bicha tá feia demais. Em compensação, achei uma preciosidade cômica: os antepassados brasileiros de Winehouse.
fubap.org/vladivostok/tag/amy-winehouse/
Imperdível!

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Peeeeeeeense positivo!

Esse é textículo mesmo, uma coisa até 'twittante' - acabei de entrar nessa coisa me perguntando: "Uátarrel is dis?"
A long, long time ago, nos tempos da Terra Média, escrevi sobre o pensamento não-positivo macabeico, e hoje estes pensamentos me vieram a tona novamente. Não cedi um milímetro na minha opinião: eu me ralo em dois empregos, preciso ser competente igualmente nos dois e ainda:
  • Não ter pontas duplas no cabelo;
  • Usar o Bankline;
  • Lembrar de usar o Renew para sinais mínimos de envelhecimento facial;
  • Utilizar fio dental;
  • Ir para a balada no final de semana, mesmo morrendo de sono;
  • Lembrar de mandar uma carta para o meu primo;
  • Fazer musculação quando não estou com a menor vontade;
  • Fechar a boca (isso serve tanto para comer como para falar menos);
  • Fazer book para meu currículo de atriz - puro, casto e imaculado no momento;
  • Mesmo sem tempo para nada, achar que sinto falta de um namorado, sendo que não sei há espaço para um na minha neste exato momento e por fim:
  • Escrever textículos engraçados, mas consistentes, inspirados e com regularidade para a Seleta Audiência que agora monitoro de perto no Google Analytics - mais uma tarefa inútil para minha vida, mas essa ao menos mata minha curiosidade insana, se alguém realmente lê este Festival de Bobagens neste mar de blogs sem fim.

E depois de tudo isso sou obrigada a ter tempo para pensar positivo?!?!?! Fala sério. Sou obrigada a fazer uma auto-citação:

"(...)Rabungentices à parte, o pior dessas auto-ajudices não é a pilha de clássicos que as pessoas deixam de conhecer. É essa obrigação permanente e implícita de vencer sempre, se dar bem sempre, ser bem comida sempre, sorrir sempre. (...)"

...Melhor mesmo é não pensar. Quem diria que eu terminaria este texto à maneira zen, hein, Alice Ruiz*?

Nota inutiél:

*Por pura sem-vergonhice não escrevi sobre a oficina de hai-kais que fiz com essa figura fodástica no Sesc Pompeia em abril. Quem sabe me dá na telha um dia desses, mas com certeza é uma experiência que pre-ci-sa ser compartilhada.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Subindo no banquinho e xingando a rainha 2.0

Pela segunda vez na história desse blog, eu subo no banquinho pra xingar a rainha. A indignação é grande, minha gente. E se escrevo em tom jocoso mais uma vez, é por pura revolta. Sou riot girl desde criancinha.

O que indigna tanto a fazedora de textículos não é um fato isolado, são várias pílulas de mediocridade, imbecilidade, somadas a um absolutamente odioso falso senso de politicamente correto. Quer ver?

Reforma ortográfica. Lei antifumo. Jonas Brothers¹. A redenção do Simonal. Agora todo mundo se esforça para ser bonzinho, mas é como naquela rima popular: "Por fora, bela viola. Por dentro, pão bolorento." A sociedade, em tempos de ditadura branca, não melhorou um milímetro, porque o que manda é a consciência e essa continua inexistente.

É antiga essa bronca, mas é cada vez mais forte o cheiro de ditabranda no ar, a caretice cada vez mais imperante. Ontem pensei comigo que na adolescência, eu surtei, endoideci e se naquela época, eu soubesse que este mundo ficaria tão falsamente comportado, eu teria surtado o triplo. E tenho dito!

Várias vezes comecei um textículo com esse tema, mas sabe-deus-porquê, ele não engatou, talvez porque faltasse o tom certo da tragédia (ou tragicomédia, se preferirem). Em 17 de fevereiro, um editorial da Folha ganhou notoriedade por classificar o regime militar brasileiro (1964-1985) de "ditabranda", termo cunhado por Pinochet, meu pedagogo preferido². Causou justificada indignação entre os que viveram este período que foi brando mesmo só para a direita e a milicaiada. Maria Victoria Benevides e Fábio Konder Comparato³ saíram em defesa dos que sabem muito bem que a dita não foi branda e na réplica, a Folha os chamou de "cínicos". No mínimo, sintomático isso. Depois, houve manifestação na porta da Folha e não sei porque merda não fiquei sabendo, senão teria ido. Isso virou matéria de capa na Caros Amigos do mês passado, com ótimas reportagens. Trata-se de uma piada velha? Que isso: não é piada, porque não tem graça e não é velha porque como diz Skylab: se quer notícia atualizada, que leia jornal (de preferências esses que chamam um período sangrento e cheio de desaparecidos políticos de pouca coisa, eu diria).

Para não ficar neurótica, eu dou risada. Ecos do duplipensamento. Aliás, o tom desse textículo foi dado pela minha indignação frente à indignação com uma piadinha politicamente incorreta minha, feita não por ignorância, mas por traquinagem mesmo. Pessoas, me economizem. Desse jeito vai faltar água e Flávia*no planeta. E a auto-sustentabilidade, onde é que fica?

Notas inútieis:
1 - Descobri a existência dos Jonas Brothers com um desenho de uma aluna e até lá, nenhuma objeção. Toda garota tem uma boyband pra chamar de sua. Mas esse negócio de usar anelzinho para mostrar que é cabaço é um pouco demais, não?
2 - "Se não conseguir com Piaget, vá de Pinochet." Trocadilho infame de professor tomando café com bolachas em parcos minutos de diversão num intervalo qualquer.
3 - Quando minhas bolas estavam (ainda) mais à esquerda, ouvi essas duas feras falando. Se não me engano, a Maria Vitoria no Fé e Política e o Comparato no Mística e Militância, ambos em 2002.
4 - Eis que Lady Hepburn revela sua identidade! Dãããã! ...Como se não soubessem.

domingo, 29 de março de 2009

Piada amywinehouseana pronta

Esta é pronta mesmo, texticular audiência. Saiu sem cortes do G1, portal de notícias da Globo.com:

Amy Winehouse chama produtor para ‘salvar’ novo disco
Cantora pediu ajuda para Mark Ronson, produtor de ‘Back to black’. Ronson concordou em voltar a trabalhar com Winehouse, diz tabloide.

Do G1, em São Paulo

A cantora Amy Winehouse pediu para que o produtor Mark Ronson voltasse a trabalhar com ela, na tentativa de “salvar” seu novo álbum, diz o tabloide britânico “The Sun”. As demos do disco da cantora foram rejeitadas pelos executivos da sua gravadora, a Island Records. Entre os problemas apontados estão “letras sombrias e depressivas demais” a respeito de seu relacionamento com o marido Blake Fielder-Civil e uma forte influência de reggae. Grande parte das músicas foi composta por Winehouse durante suas férias no Caribe. Mark Ronson foi o produtor de “Back to black”, disco que ajudou a cantora a alcançar a fama mundial. Ele trabalhou com Winehouse pela última vez em abril de 2008, na tentativa de gravar uma canção para a trilha sonora de um filme da série James Bond. Na ocasião, se desentenderam e a música não saiu. Ronson disse que a cantora “não estava pronta” para voltar a gravar. O produtor teria evitado Winehouse devido a seu problema com drogas, mas agora parece inclinado a colaborar com a cantora. “Ele acha que ela está muito melhor agora, então concordou em voltar à bordo e trabalhar algumas músicas com ela”, diz uma fonte não identificada do jornal. “Ele espera que a mágica de ‘Back to black’ volte a acontecer”.


Comentário infame 1:
Concordo em chamar o Mark Ronson, o Back to Black é sem dúvida uma obra-prima. Mas porque diabos esta burra não lança um álbum independente? Ela é mestre em polêmicas, ela ganharia dinheiro do mesmo jeito ou talvez mais e tem cacife para mandar estes generais de dez estrelas da Island Records ir enxugar gelo. Mesmo que ela não tivesse, poderia mandar do mesmo jeito, doida como ela é.
Comentário infame 2: As gravadoras tomam cada vez mais prejuízo, mas não aprendem nunca! Não entendem que os caminhos da arte são tortuosos e continuam atrás da mesa com o cu na mão. É só assistir Ray ou Johnny&June para ver que é velha essa piada de mandar na criação de um artista, sendo que o executivo mesmo não faz melhor, isso se souber tocar alguma coisa. Tio Ronnie que o diga. Ah, a citação de Faroeste Caboclo foi inevitável.

terça-feira, 24 de março de 2009

Sonho de um sonho II

Neste domingo, fui uma das 30 mil pessoas que assistiram ao show do Radiohead em São Paulo, e aquela sensação duplipensante de viver o momento ao mesmo tempo em que se tenta racionalizar a experiência para relatar depois funcionou só durante alguns instantes, porque o que eu vivi foi tão surreal, que me sinto como o Segismundo, protagonista de A vida é sonho: estava dormindo e acordei aqui ou foi o contrário, tudo isso é um sonho?

Engraçado porque quem é fã absoluto e irrestrito de Radiohead não sou eu, acho difícil superar Vizinhíssimo e TioZé em loucura insana por Thom Yorke e seus parceiros, mas isso não impediu que eu me comportasse como uma fã, a começar pelo dia em que eu comprei o ingresso, uns três meses antes. Por que eu fiz isso, se não era tão fã assim? Simples, eles decidiram vir ao Brasil no seu melhor momento, e conta-se nos dedos as bandas internacionais que fazem isso. Sabia, desde sempre, que seria este um show histórico¹. E foi.

A surrealidade da experiência começa pelo fato que faz uns 10 anos que eu não vou a um grande show de rock e sinceramente pensei que esta fase já tinha passado. Clichê muito piegas, mas verdadeiro: é como se eu tivesse a minha adolescência de volta. E isso é bom demais.

Minha mente ainda tagarelava no show do Los Hermanos, que no início eu desprezei, mas que depois ganhou um gosto de piada velha envelhecida em barris de carvalho, como um bom vinho. O show foi melhor que eu esperava e achei muita graça em eu não conhecer nada de Los Hermanos que ultrapassasse a chatice da "Anna Julia". Eles que não são bobos nem nada, não tocaram essa pérola do cancioneiro chato do pop-rock brasileiro. Conclusão: apesar de ter apanhado do Chorão e de dar uns sapecos na pirralha da Mallu Magalhães, o Marcelo Camelo merece algum respeito musical, mesmo com sua cara de funcionário da Nasa dos anos 70, misturada com cara de judeu de Higienópolis com traços de estudante de sociais da USP ou coisa que o valha que me irrita um tanto, eu confesso. E o Rodrigo Amarante fez mais bonito que nosso idish-apollo13. Alguém tem o telefone dele, por favor? :-P

Outra piada velha, mas que eu conheci estes dias, portanto tem graça foi o Kraftwerk. Eles tem mais de 20 anos de carreira, mas para mim foi a descoberta da pólvora. Vi tudo naquele show: poesia concreta, Mondrian, crítica social. Mais um drama tostines na minha vida: eles são realmente vanguarda ou o que a gente faz e ouve em termos de música é que está datado? We are the robots!

O Radiohead, como bem informa a notícia do link, entrou pontualmente em cena. E aí que começou meu desespero, do alto dos meu 1,63m de altura. Não adiantava ficar na grade, como bem observou o já iniciado em shows do Radiohead - o dono do... OKcomput3r! - para que se pudesse ver o show na íntegra, com os efeitos de luz que ajudaram ainda mais a criar o clima de "isso é verdade mesmo?" que permeou todo o show. Só que era gente demais naquele lugar e ver mesmo o show, eu não vi. Demorou um tempo para entender que aquilo não era um show, era uma experiência, e que em shows de rock o legal não é ver e sim participar. Foi aí que a coisa ficou boa para mim, quando rolaram os melhores momentos do show, na minha opinião: Paranoid Android, Karma Police, e do In Rainbows, Reckoner. No bis, Fake Plastic Trees foi atrapalhada por uma briga perto de mim. Como bem observou um outro cara que estava por lá: "Brigar logo na hora do Carlinhos, pô?" Aí, estragou.

Hora de ir, quase um enrosco, em plena madrugada de domingo para segunda. E lá estávamos, mais uma vez, eu e meus companheiros de aventura, tentando sobreviver na cidade. Chegamos três da manhã em casa e em vão tentei acordar às 5h30 para ir trabalhar e abri os olhos com essa sacada do Segismundo: estou acordando agora ou voltando a dormir?

Esta pergunta se mantém sem resposta. Desde que acordei/dormi, tenho ouvido Radiohead feito uma louca, tentando "concretar o fluido", reter na memória o que passou, o que eu senti. Essa bola eu cantei para o Zé, na saída do show: acho que só vou entender o que aconteceu de verdade daqui a alguns anos. E olhe lá.

Por isso fica para o próximo textículo um pouco mais da minha relação com o Radiohead, como se fosse os TM um filme do Tarantino, que vai e volta no tempo com garbo e elegância, como eu*. É para nós mesmos esta cambalhota!

1 - Aos que sobreviveram para contar esta história comigo, aquele abraço!

quarta-feira, 18 de março de 2009

E no país da piada pronta...

...Há piadas prontas de todas as cores, sabores e tamanhos. Como todas são extremamente sem graça - afinal uma é pior que a outra - na dúvida, conto todas. :-S

A primeira delas é a mais recente, fresquinha como a piada da androide. Depois do textículo de anteontem, vejam só o que caiu nos meus olhos assim que eu abri a página da UOL hoje: Desencalhe! Os cinco erros que estão mantendo você solteira. Eu, como boa moça casadoira que sou, fui conferir. Imperdível, gente, principalmente se quiserem passar raiva. Descobri que estou cometendo três deste cinco erros e fiquei muito triste com isso. Queria cometer os cinco na sequência. Se quiser rir, leia. É besteirol machista escrito por mulheres da mais alta qualidade.

A piada pronta número dois foi cunhada pelos meus patrões. Número dois mesmo, porque é merda das grandes, tanto que foi noticiada pela grande mídia, que geralmente passa a mão na cabeça (careca) do governo estadual. A Secretaria da Educação soltou um material para alunos e professores contendo um erro crasso em Geografia. Uma América do Sul com dois Paraguais e nenhum Uruguai, nem Equador. E o dileto patrão bota panos quentes no acontecido: "Para Serra, o fato de o material didático distribuído em escolas públicas de todo o Estado mostrar duas vezes o Paraguai em um mapa da América do Sul 'não é um erro grave, mas é um erro'." No mesmo dia, o Secretaria divulgou o Idesp das escolas, índice que seria a base de cálculo para o pagamento do bônus para os professores da rede, mas nada ofuscou o brilho da primeira notícia, que, de tão gritante, até a grande mídia teve que noticiar. Há mais coisas entre SEESP e o professorado que possa provar nossa vã filosofia, mas paro por aqui. Estou em estágio probatório, hehe. Detalhe: a piada pronta número dois é na verdade, dois-em-uma, porque o tal índice geral de qualidade das escolas estaduais está abaixo da crítica. It´s all true, folks!

Apesar da consistência de tantas piadas prontas, hoje ninguém riu delas, afinal as atenções estavam todas voltadas ao funeral de Clodovil, deputado federal que dispensa apresentações. Tanto que a última piada pronta será póstuma - e também uma piada velha - do deputado, o seu primeiro discurso na Câmara:





Quando a gente vê uma turma de alunos incapaz de calar a matraca até na hora de responder chamada, e não sabe porque isso acontece, é só ver esse vídeo. A falta de educação (no sentido mais elementar, como comer com os cotovelos na mesa, por exemplo) começa dos altos escalões de poder do país, logo, a molecada não tem nenhum bom exemplo para se mirar. Procurando o vídeo do 'Estupra, mas não mata', achei este e até comentei com uma das minhas turmas exatamente o que eu disse aqui. Não gostava muito do Clodovil, não acho que basta morrer para 'virar bonzinho', mas dessa piada velha eu gostei. Tanto que rendo uma singela homenagem póstuma a este subversivo que não vestiu as Sandálias da Humildade do Pânico nem a pau*.


*Queria terminar este textículo com alguma coisa engraçada, já que estamos falando de piadas, mas todos os meus trocadilhos pobres ficaram de extremo mau gosto. Para gente como eu, rir da morte ainda é um privilégio para poucos.

terça-feira, 10 de março de 2009

Estupra, mas não mata

Essa pérola que nomeia este textículo foi proferida não sei há quanto tempo atrás, pelo "célebre" político brasileiro Paulo Maluf, hoje deputado federal, e com uma folha corrida de processos* na justiça de dar inveja ao Fernandinho Beira-Mar. Evidentemente, a frase é dar nojo, mas vindo de quem vem, não é de se surpreender, e depois de alguns segundos, ela até pode nos causar risos, só que de desespero. Esta frase também ganhou ares folclóricos, pela tradição que ele criou de frases inglórias como esta e como: "As professoras não são mal pagas, são é mal casadas." e "Se o Pitta não for um bom prefeito, nunca mais votem em mim!"



Maluf dizer isso é uma coisa, um líder religioso dizer a mesma coisa, só que em outras palavras, é outra. Estou falando de Dom José Cardoso Sobrinho, arcebispo de Olinda, que afirmou: "Quem cometer estupro está cometendo um pecado gravíssimo, aqueles que cometem assaltos também, estão cometendo pecados gravíssimos, e a Igreja também os condena. Mas, para estes pecados, a Igreja não prevê a excomunhão. Quem cometeu o aborto é um crime mais grave ainda, porque é tirar a vida de alguém inocente, indefeso", ao defender o fato de ter excomungado os médicos que realizaram o aborto na menina de 9 anos estuprada pelo padastro, grávida de gêmeos, e a mãe da menina também. Trocando em miúdos, estupra, mas não mata.

Sou católica até o osso. Até pouco tempo atrás eu era beata, papa-hóstia, rato de igreja. Só de uma outra cepa. A "minha igreja" é a igreja das CEB´s, da Teologia da Libertação, de bispos progressistas como Dom Paulo Evaristo, Dom Angélico, Dom Pedro Casaldáliga. Para essa gente conservadora que anda rodando por aí, eu sou uma católica comunista.

Mas isso foi em outros tempos, infelizmente, porque hoje o que se vê é um retrocesso cada vez maior. Falo das bases, porque o Vaticano não tem como retroceder, porque nunca avançou um milímetro sequer. Se ainda assim, algo ruim pode se tornar pior, o ultra-conservadorismo da Igreja Católica Apostólica Romana foi coroado quando o cardeal Joseph Ratzinger se tornou Bento XVI. Antes de se tornar papa, o cardeal Ratzinger foi o prefeito da Congregação da Doutrina da Fé, instituição eclesial herdeira da Santa Inquisição, e nesta condição que o ex-combatente do exército nazista impôs um voto de silêncio - ou seja, um cala-boca - no então frade Leonardo Boff, pela sua opção preferencial pelos pobres, acusando-o de comunista, esquecendo-se talvez que era esta a mesma opção do mandachuva desse negócio todo, mais conhecido como Jesus Cristo.

O próprio Leonardo Boff afirmou que os cardeais do Vaticano são como cavaleiros medievais perdidos no tempo, e com razão, porque a postura da Igreja Católica Apostólica Romana de condenar brutalmente aborto e anticoncepção conta mais contra os propósitos da Igreja de conquistar e manter mais adeptos do que a favor. Essas posturas endurecidas estão afastando as pessoas da Igreja e mesmo com o "crescei-vos e multiplicai-vos" a todo vapor, todo este rebanho Divino vai acabar pastando em outras paragens...

Eu não estou a fim de pastar outro capim, mas este caso da excomunhão me deu nojo de ser católica. Sou contra o aborto, não faria um. Mas sou a favor da total legalização do aborto, além dos casos já permitidos, porque estima-se que são feitos em torno de um milhão de abortos ilegais no Brasil. Com a legalização, o Ministério da Saúde teria números exatos e maior controle sobre a situação, o que daria condições de evitar a morte de mulheres que fazem abortos nas condições mais abjetas possíveis. A ideia não é defender a vida?

“Pregar sua doutrina no interior dos templos é um direito legítimo de todos os religiosos. Agora, quando um representante da Igreja Católica Apostólica Romana tenta interferir nas decisões da Justiça, ou faz essas declarações à imprensa, está claramente procurando exercer inapropriada influência pública sobre o Estado laico, construindo um discurso de intolerância e intransigência oposto à idéia de vida que alega defender”, como bem afirmou o movimento feminista. Ou seja, o dileto arcebispo meteu a sua colher onde não foi chamado. A Igreja pode se posicionar politicamente, mas não pode interferir nas decisões do Estado.

Minhas bolas voltam para esquerda, até. A indignação que tomou conta de mim é tamanha que jorro e jorro este textículo - sem condom, pois minha religião não permite - e não consigo concluir, sem contar que por castigo divino, sei lá, perdi quase todo o textículo na hora de finalizá-lo. Não contavam com minha astúcia: minha memória está tinindo. Escrevi tudo outra vez, por pura subversão.

Neste mar de contra-revolução, a onda de retrocessos é tão grande que anda pegando até os "peixes mais anfíbios", como eu*. É tanto caldo de ando tomando, que tô ficando até zonza. Citando Macaco Simão, no país da piada pronta, a gente ri é de tristeza.

Notas 'Inútieis':

* Não existe folha corrida de processos, até onde eu sei, existe pilha. Mas fica a construção poética da coisa, até porque tenho mais medo do Maluf do que do Fernandinho Beira-Mar.

**Esta pérola foi proferida pelo meu batráquio amigo Zé, após me ver tomar um triplo caldo no mar da Big Beach, alegria de todo paulistano que só vê água salgada quando faz macarrão.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Eu quero que você se.. Pop Pop Pop!

Para os viciados em música, como eu, às vezes é difícil admitir que se gosta de música pop. Pudera. O que lembra a expressão pop? Michael Jackson branco-transparente-sem-nariz no tribunal e Britney Spears careca. Écati!
Uma coisa, porém, devo admitir: não tem coisa melhor que um pop bem-feito. E eles duram, viu. Ou seja, quando bem produzidos, eles permanecem. Quer coisa mais pop que a Nona de Beethoven? (Risos.) Ou então, o Michael Jackson - com nariz, cantando Thriller? (Nem vem: para mim, Britney Spears não fez nada que preste nem quando era virgem.)
Estou feliz que nem pinto no lixo (Ê Jamelão!) porque baixei na íntegra os dois álbuns da excelente banda Trash Pour Quatro, que tem como proposta revisitar clássicos do Pop nacionais e internacionais de todas as épocas, com uma roupagem totalmente diferente. E o resultado é fodástico, acreditem.
Vou propor então, o Top 5 da boa música pop. Ou Pop 5, que seja. E desde já agradeço a pouca e seleta participação da audiência no Top5 das cantoras. Poucas e boas sugestões.
Lá vai o Top Pop:
1 - Girls just wanna have fun - Cindi Lauper
2 - What´s up - 4Non Blondes
3 - Whisky a go-go - Roupa Nova
4 - Estúpido cupido - Celly Campelo
5 - Será - Legião Urbana

Façam suas apostas!



Textículo jorrado em 24/06/2008

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Mais aniversários

O Textículos também estão aniversariando. Já são quatro meses de muita Licença Poética para um Festival de Bobagens, celebrando meus Vinte e Poucos Anos Blues, externando minhas pequenas revoltas humanas. Qual a importância disso para o Universo? Ora, nenhuma! Este ainda é o Blog Literário Mais Sem Audiência do Ciberespaço, que agora entra em vida dupla. Desde 24/05, os Textículos também existem em versão Wordpress, já que a minha Pouca e Seleta Audiência tem reclamado que não tem dado pra comentar aqui, e eu sou uma blogueira carente, preciso destes comentários. Por enquanto, os Textículos seguem nas duas versões, afinal, segundo a anatomia humana, testículos (com 's' mesmo) existem em par, né? :P
E esta cambalhota é para todos!
Textículo jorrado em 28/05/2008

sábado, 24 de maio de 2008

Sobre o tempo¹

Ou Eureka! Descobri a fórmula da nostalgia

Saudade de vocês, leitores de textículos. Eles estão ficando rarefeitos, eu sei. Creio que me entendem. Os Textículos são resultado de ato sexual tântrico, então só rola quando dá muito tesão. E meu libido anda em baixa.

Sem contar que ando me repetindo. Eu quero fazer um textículo com vários Top 5 da minha vida, outro sobre as dores e delícias do Magistério, umas críticas de uns livros que estou lendo, etc, mas não sobra tempo e quando tenho, jogo fora descaradamente, esquecendo que isto é um “recurso não renovável, altamente limitado”, como a minha paciência, que sempre foi quase nula, como oxigênio dos Andes. Alguém tem uma lhama voadora da sorte pra me vender?

Ando me repetindo, e vou me repetir de novo, usando e abusando da Licença Poética para o Festival de Bobagens. É que o passar do tempo é algo realmente fascinante, e segue me intrigando.

Tenho 25 anos. Não é tanto, eu sei. Mas é muita idade no RG para uma eterna adolescente. Eu convivo com adolescentes e tenho que dar limites a eles, que pedem por isso. Ao mesmo tempo em que entro em conflito de gerações com a garotada, me sinto mais jovem que meus alunos, como se os “caretas” fossem eles e não eu, como era no meu tempo, saca? (Já contei sobre o choque que é ver gente jovem com discurso reacionário. Avanço da tecnologia e retrocesso no pensamento. O século XXI é uma grande merda.)

Conviver com adolescentes dá outro barato doidíssimo, descobrir como eles nos veêm. Dia desses, perguntei às turmas de sexta série o que era música de velho, por conta do projeto Descubra a Orquestra, da OSESP. Eis algumas respostas:

Legião Urbana
Mamonas Assassinas
Elis Regina (caralho, ela morreu em 82, ano que em que nasci)
Roberto Carlos (bem, quando nasci, este já era meio velhinho mesmo, rsrs)
Cazuza (nem vou comentar)
Cássia Eller (ela morreu em 2001, porra!!! Nesta década ainda, como assim, velho?)

Fiquei passada com estas respostas. Coisas da minha época são de velho, além do mais, para meus pokémons música brega e de velho é quase a mesma coisa. Comentando isso na Sala dos Professores (outro lugar folclórico, cheio de histórias), um colega matou a charada: se é da minha época, é datado já, não faz parte da geração deles. Tinha que ser um professor de Matemática para apelar para a lógica assim, sem ter dó da minha velhice precoce. Sem dúvida, Fernando foi genial. Eureka pra você, caro colega.

No mesmo dia, estava com outras professoras lembrando coisas que nossos sobrinhos, filhos e alunos jamais verão, e se virem, vai ser numa vitrine com uma sala com ar condicionado para conservar as peças:

Vida pré-MSN e Orkut
Máquina de escrever
Câmera fotográfica tradicional, que precisa de flash e filme
Plano Collor, Cruzeiro, Cruzado e Verão (desses ninguém sente saudade)
Disco de Vinil
Fita k7 (em tempos de mp5, eu ainda tenho e escuto!)

…Entre outras coisas, como o tempo em que linha telefônica da TELESP (quiéisso, psora?) era “O” patrimônio e não uma dor de cabeça disfarçada de multinacional espanhola, além dos celulares da primeira geração, que mais pareciam palmtops de tão grandes. Tempos românticos esses.

No Dia das Mães, eu fiz uma busca arqueológica no Limewire por hits dos anos 80 a pedido da minha irmã, que desenterrou pérolas de fazer pular ácaros do monitor, e por um acaso é a seleção que embala este textículo. Quem mais se lembraria de Rick Astley, além da Renata? Acertei em cheio em dar o Almanaque 80 de aniversário para ela.

Há muito tenho me perguntado junto com O Vizinho das Galáxias, o Forest, porque diabos os “Vinte e Poucos Anos Blues” são tão nostálgicos. Será que a gente é tão obsoleto assim? Com a resposta do Fernando, na última sexta, mais estas viagens sentimentais que tenho feito ao passado, descobri a fórmula da nostalgia. A gente viveu e não envelheceu, a não ser em termos biológicos ou cronológicos (temos uma pança de chopp respeitável). A nossa idade não corresponde à nossa realidade interna. E que uma coisa fique clara: nós amadurecemos, sim. Descemos aos infernos, perdemos gente que amávamos, sofremos desilusões, aquela coisa toda. Apesar de ter me dado conta que a adolescência acabou, eu me sinto muito mais ‘forever young’, do que quando tinha 17 ou 18 anos, época em que não via mais novidade em nada. Hoje, em compensação, estou me divertindo muito com essa sensação de ser “vintage”. Eu sou caçula e cresci com a impressão que eu era uma folha em branco, e já tenho algumas páginas acumuladas. O Éder² tinha razão. Agora que tá começando a ficar bom.

Estamos todos no ponto. Chegamos aos Vinte e Poucos com fôlego de criança para viver outros 20, 30, 40, até 50 outros Anos Blues. A vida ainda nos apaixona. E que se foda o calendário, tanto quanto meus clichês e minha pieguice.

Post Scriptum ao contrário:
2. Um Vinte e Poucos Anos Blues acumulou pontos no programa de milhagem essa semana. Feliz Aniversário, querido. (Sem contar o gatão-de-meia-idade mais amado da FAMOSP, que vai me matar se ler este textículo, que também é um taurino 20 de maio.)
1. O título deste textículo me fez cantarolar uma das primeiras músicas do Pato Fu: “Tempo, tempo mano velho, falta um tanto ainda eu sei, pra você correr macio”… Descobri exatamente neste momento que ela se chama Sobre o tempo! Juro que não sabia.

Textículo jorrado em 24/05/2008

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Pobre mocinha indefesa

Sou uma pobre mocinha indefesa. Tipo aquelas nas mãos do King Kong gritando "Socorro!", saca?
Percebi isso ontem.
Depois dos fatos, boletim de ocorrência, ligações e mais ligações para bloquear cartões e afins, não lamento nada a não ser o meu direito violado de andar lunaticamente pela rua à noite. Desde que me entendo por gente que volta pra casa sozinha às 11 da noite, faço isso.
Engraçado que só agora li o tal artigo do Luciano Huck sobre seu rolex roubado nos Jardins, que deu aquele pano pra manga imenso há uns seis meses atrás. Não consegui ler a réplica do Férrez. Algum assinante do Uol me manda, por favor?
O mote do tal artigo do Luciano Huck era "Eu sou tão bonzinho. Por que roubaram meu rolex? Sou até presidente de ONG!!", e construiu seus argumentos com questionamentos velhíssimos como "Onde vamos parar assim?", ou, citando Flamingão: "O mundo tá perdido!" (Chu, é o seguinte: tenho pra mim que o mundo não está perdido, ele nasceu perdido.)
Agora que este caso é piada velha e arquivada, acho graça. Porque eu, em situação parecida com a dele e não pela primeira vez - eu já tinha tido um assalto para chamar de meu - não estou nem aí com os bens perdidos, nem quero este papel de vítima que ele fez. (De fato, ele e eu e mais um monte de gente tem este papel na conjuntura dos acontecimentos, mas não quero carregar nas tintas, sabe?)
Além do meu direito de ser lunática violado, lamento também a Lucíola de zebra linda que Ju e Li fizeram só para mim perdida e a constatação do início deste textículo. Não sou a Lara Croft, porra. Sou uma pobre mocinha indefesa. Meeeeeeeeeeerda.
Ps: Antes que me perguntem, está tudo bem. E não tô a fim de passar o BO outra vez.

domingo, 4 de maio de 2008

Texticulando

Leitores de textículos...saudade de vocês.

Não texticulei antes não por falta de assunto e sim por excesso. Muitas coisas a dizer. Devo ter muita p**** na cabeça mesmo, só pode ser isso.

Devo dizer que este último textículo (Vinte e poucos anos blues) foi profético para mim. Estava escrevendo num momento de êxtase para mim, ao mesmo tempo vendo a dor de outras pessoas, queridíssimas. Deu um nó na minha cabeça fálica. Santa Teresa* que me ajude.

Mal sabia eu que iria passar por isso, tal e qual está aí. Vinte e poucos anos blues às últimas consequências. Dor, dor e mais dor. Sem motivo aparentemente nobre. Aparentemente, ressalto.

Então me encontro aqui fazendo o que eu mais detesto fazer neste Blog Literário Mais Sem Audiência do Ciberespaço: dando boletim de imprensa desta vida sem importância frente à imensidão e vastidão do Universo. (Desculpa, gente. É que assisti a "O sentido da Vida", do Monthy Pynton, e ando um tanto cínica em relação a estas questões. Sem perder o bom humor, é claro.)

Resumindo a ladainha, este é só para dar sinal de vida à minha pequena Grande audiência, para que saibam que o Blog Literário Mais Sem Audiência do Ciberespaço não virou um Latifúndio Improdutivo na Rede. Saibam que ainda estão rolando os dados. E é para mim mesma esta cambalhota.


*Antes que eu me esqueça: A imagem do textículo anterior é "O Êxtase de Santa Teresa D´Ávila", de Borromini. E deste é São Sebastião na Coluna, de Perugino. Está no MASP essa, recomendo ir ver pessoalmente.


Textículo jorrado em 04/05/2008.

domingo, 6 de abril de 2008

Sobre João Hélios e Isabelas

A grande mídia é uma grande merda também. Cada dia é um espetáculo novo, e quanto mais sangue e horror, melhor. Será que não saímos do Império Romano? Costumo dizer que o lema do Império Romano sempre foi imcompleto: não é só Pão e Circo para manter o povo quieto, deveria ser "Pão, circo e sangue". Ou então esqueceram de contar que o circo era sangrento. Quem duvida disso é só lembrar que diversão de romano era jogar cristão na arena para os leões, ver dois trogloditas se degladiando até a morte e ainda os mimos, os bisavôs do Happy Tree Friends feito com gente de verdade.
Neste Império Romano e midiático, estão aparecendo aos montes os piores crimes contra crianças e adolescentes. Adolescentes acorrentadas, Isabelas atiradas, João Hélios arrastados. É impossível não se perguntar para que serve a porcaria do ECA e seus respectivos Conselhos Tutelares.
(Essa piada velha eu preciso explicar: no professorado às vezes rola uma impressão, algo que nem sempre é falado abertamente, que o ECA só serve pra tolher o trabalho do professor e para os menores folgados em questão dizer na sua cara que você não pode fazer nada contra eles. "Eu sou dimenor!!!", eles falam. Hahaha, comigo não, violão. Cansei de dizer: "Ah, é? Vai agora no Conselho Tutelar me denunciar, mas vai agora, tá?" Como eles não sabem se isso é de comer, de encaixar ou montar, eles deixam pra lá. Touché!
Baideuéi, preciso explicar também que esta falta de limite deliberada é um perigo, porque é uma porta aberta para cada vez mais e mais regressão. Eu não quero sentir falta da palmatória, até porque, graças ao Barbudão, isso não foi usado comigo. E pasmem vocês: se alguém experimentar pedir a opinião da molecada sobre essa falta de limite na educação deles próprios, vocês vão ver as respostas mais conservadoras, algumas até reacionárias. Fico bege de pensar na possibilidade de meus alunos serem mais caretas que eu.)
Voltando à arena do Coliseu, volta e meia o contrário também ocorre. Um menor comete um crime terrível, e a burra unanimidade começa a discutir se não era hora de reduzir a idade penal, porque o ECA só serve pra proteger bandidos da periculosidade do Champinha, e bláblábláraçãowhiskasblábláblá. A outra parte da unanimidade burra, por sua vez, diz que os coitadinhos não tem culpa, a culpa é da pobreza. É, só se for dos pobres, na cabeça de Veja desse povo. Sérgio Adorno, sociólogo estudioso das questões da violência já afirmou categoricamente: a violência urbana é fruto da riqueza, e não da pobreza.
O que ninguém diz, por falta de informação ou coragem, é que a violência contra nossos jovens, crianças e adolescentes vai além das histórias conhecidas, que o índice de homicídios de tendo jovens como vítimas aumentou assustadoramente nos últimos anos. Vítimas anônimas, as quais ninguém mais chora além de suas mães. Ninguém fala também que, dessas vítimas anônimas, boa parte não estava metida com o tráfico, ou devendo pra eles. Muitos apenas estavam no lugar errado em hora mais errada ainda.
Tudo isso já me assusta muito, pela natureza dos fatos. Eu também me pergunto: "De quantos paus se faz um ser humano?". O que me assusta muito mais é o tratamento dado a eles pelo senso comum e pela "grande mídia". Aquilo que a gente vê na televisão não pode ser chamado de realidade, não chega a ser nem um recorte dela. São como reality shows: só tem show, realidade mesmo não tem.
Choro por todas as vítimas, espetacularizadas ou não. Choro mais ainda porque este mundo que os matou não dá nenhuma pista que vá mudar tão cedo. Muito pelo contrário, vamos regredir ainda mais, até não ser possível mais distinguir quem é humano e quem é porco, sentados à mesa, na sala de jantar, preocupados em nascer e morrer. Morrer, principalmente.

segunda-feira, 10 de março de 2008

Explicação

A semana passada mereceria ser limada do calendário, caso isto fosse possível. Pudera, não teve a menor graça, mesmo com este Festival de Bobagens e Piadas Velhas que eu jorrei por aqui. Alilás, este Festival de Bobagens foi uma verdadeira vingança, uma retaliação a tanta merda concentrada. Ridendo Castigat Mores¹. E viva Gil Vicente.

Hoje, porém, o Textículo não será meu e sim do Amor da minha Vida, o Drummond. Só para que vocês saibam, meus leitores de Textículos, de onde vem meu slogan para posts toscos. O Chacrinha já dizia que nada se cria, tudo se copia, neste mundo de Piadas Velhas aos montes. Só que pego Piada Velha da maior qualidade, dá licença?


"Explicação²

Meu verso é minha consolação.
Meu verso é minha cachaça. Todo mundo tem a sua cachaça.
Para beber, copo de cristal, canequinha de folha-de-flandres,
folha de taioba, tudo serve.
Para louvar a Deus como para aliviar o peito,
queixar o desprezo da morena, cantar minha vida e trabalhos
é que faço meu verso. E meu verso me agrada.
Meu verso me agrada sempre...
Ele às vezes tem o ar sem-vergonha de quem vai dar uma cambalhota,
mas não é para o público, é para mim mesmo esta cambalhota.

Eu bem me entendo.
Não sou alegre, sou até muito triste.
A culpa é da sombra das bananeiras de meu país, esta sombra mole, preguiçosa.
Há dias em que ando na rua de olhos baixos
para que ninguém desconfie, ninguém perceba
que passei a noite inteira chorando.
Estou no cinema vendo fita de Hoot Gibson,
de repente ouço a voz de uma viola...
saio desanimado.
Ah, ser filho de fazendeiro!
À beira do São Francisco, do Paraíba ou de qualquer córrego vagabundo,
é sempre a mesma sen-si-bi-li-da-de.

E a gente viajando na pátria sente saudades da pátria.
Aquela casa comercial de nove andares comerciais
é muito interessante.
A casa colonial da fazenda também era.
No elevador penso na roça,
na roça penso no elevador.
Quem me fez assim foi minha gente e minha terra
e eu gosto bem de ter nascido com esta tara.
Para mim, de todas as burrices a maior é suspirar pela Europa.
A Europa é uma cidade muito velha onde só fazem caso de dinheiro
e tem umas atrizes de pernas adjetivas que passam a perna na gente.
O francês, o italiano, o judeu falam uma língua de farrapos.
Aqui ao menos a gente sabe que tudo é uma canalha só,
lê o seu jornal, mete a língua no governo,
queixa-se da vida (a vida está tão cara)
e no fim dá certo.

Se meu verso não deu certo, foi seu ouvido que entortou.
Eu não disse ao senhor que sou senão poeta?"

Por hoje é só, pessoal. Só que hoje, essa cambalhota é para todos!



1 - "Rindo se castiga os costumes". Altamente recomendável A Farsa de Inês Pereira. "Mais vale asno que me carregue que cavalo que me derrube!"
2 - A-há! Este aqui o Oráculo não achou e então digitei letrinha por letrinha. Agora ele tem. Palmas pros Textículos! (ANDRADE, Carlos Drummond. Reunião: 10 livros de poesia. 7ª Ed., Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1976, p. 27 - Alguma Poesia)

Textículo jorrado por Flaming00 em 10/03/2008