Mostrando postagens com marcador drummond. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador drummond. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Uma história de amor a três

I'm glad to see you back. I thought you were gone forever.
(Vladimir, Waiting for Godot, Act 1, Scene 1)
I
Meu kefi estava perdido, ou eu é que havia me perdido dele. Estou começando a achar que ele gosta de brincar de esconde-esconde comigo. Adora se perder para eu ter de me achar.

Desta vez o encontrei no Rio de Janeiro, batendo um sambinha numa caixa de fósforo. Estava até mais bronzeado, o danadinho. Dei-lhe um costumeiro tapa no ombro: "Onde você esteve este tempo todo, seu safado?" "Tinha ido comprar cigarros, aí resolvi ficar aqui." E sorriu daquele jeitinho zombeteiro que lhe é peculiar.

"Hum, sei." E emendei: "Vou fingir que acredito. Poderia até ficar brava com você, mas não vou não, porque te manjo é de outros tempos, camarada." 

E saímos para brincar perto dos arcos da Lapa, em frente ao Circo Voador, debaixo de uma garoa indecisa. Daquelas que de quase-chuva foi virando Sol.

Conversamos sobre este assunto também: "Você ainda não se convenceu que é movida a bateria solar, mesmo, né? Olha só pra você. Cê tá amarela, menina! Vai tomar sol!"

"Ok, você venceu, estou aqui para isso. Até estiquei minha estadia, assim teremos mais tempo juntos." Demos as mãos e fomos ver se o Rio de Janeiro realmente continua lindo. E continua.

II
Passamos tanto tempo colocando o papo em dia que quando o Sol saiu em todo seu esplendor, no clímax do seu espetáculo, a gente tinha dormido. E acordamos feito o Vagabundo, com seus raios solares soando como uma sirene: "E este Sol na minha caaaaaaaaaaaara!"




"Este Sol indireto, assim batendo nesta janela enorme, me conforta. Necessariamente porque me faz saber que ele sempre esteve aqui, nunca me abandonou. Ao contrário de você, seu vagabundo!", disse-lhe. "Não seja injusta, você sabe porque eu sumo. Senti muito sua falta, sabia? Desta vez, fiquei sinceramente preocupado com você. Cheguei a pensar que não conseguiríamos nos reencontrar!" 

"Own... Mas que fofo é você. Você faz isso de propósito, pensa que eu não sei? 'Té parece índio!  Assim você vai acabar ganhando o Campeonato Mundial de Esconde-esconde, hein? Mas a sua sorte, baby, é que eu também estou ficando craque em te encontrar! Demora, mas eu te acho."

"Elementar, minha cara. Mas desta vez você me assustou com aquela coisa de melancolia, fome, mito de Narciso... Aliás, onde você estava com a cabeça que eu poderia estar em Toronto? Puta frio do cacete!"

"Ah, queria dar umas bandas.Você teria gostado de lá sim, tenho certeza. A gente pode voltar lá na primavera, que você acha? E por que você não poderia estar no Canadá? Parecia que o Brasil tinha se mudado para lá. Até a Luíza estava!"

"Engraçadinha... Embora seu trocadilho seja extremamente sem graça, vou te dar um desconto. Pelo menos você está de volta!"

... Depois de um tempo ouvindo jazz e comendo melancia, decidimos que era hora de ver o Drummond. E ficamos de fazer isso no dia seguinte. 

III

Vimos que o poeta bronzeado (afinal ele não sai daquele banco no calçadão de Copacabana) também é um poeta vigiado, um poeta 1984. Depois de seus óculos terem sido furtados uma par de vezes, agora uma câmera zela pelo poeta do alto de um edifício na Av. Atlântica. E como tudo é passível de se tornar piada pronta neste mundo, a sua estátua é patrocinada por uma marca de lentes. Pagaram a nova armação, colaram com superbonder e instalaram a câmera para não ter mais prejuízo. Rá! Nem a poesia está salva da lógica de mercado. 

Muita gente na fila para ter com o poeta, mas era rápido porque a maioria quer só tirar foto com ele. Quem passa sempre por lá, às vezes dá um sorrisinho e uma batidinha em sua careca, como se o cumprimentasse. E eu, louca, querendo abraçar aquela coisa metálica, dizer o quanto ele está debaixo do meu couro surrado, de quantas vezes ele falou diretamente comigo... Mas ele, sabendo muito bem que não era o poeta e sim sua representação, não se furtou de tirar troça da minha cara e me salvar de uma camisa de força: "Por que você não faz igual a todo mundo e tira uma foto? O poeta sabe da sua piração!" E assim o fiz, até me ofereci para tirar foto para alguns outros passantes. E ninguém sequer desconfiava que eu estava diante do Amor da Minha Vida. 

IV
Na última noite, eu não tinha medo de voltar: tudo estava no meu corpo. O sol nas minhas costas, o vento deslizando por cima delas, o balanço do mar que levei para cama. E o conto do Borges, transformado em canção de ninar naquela voz quente e doce, feito brigadeiro recém-saído da panela. 

Adormecer naquela composição era o gozo mais profundo que eu poderia oferecer. Ele, me vendo do teto, ria da minha boca aberta. Disse que parecia que eu tinha engolido uma estrela cadente. 

V
Na hora de rearranjar as malas e cair no mundo outra vez, por puro cacoete estudei onde levaria o meu amigo, até escutar um grito que quase me faz cair da beliche: "VOCÊ TÁ DOIDA???"

"Doida, eu??? Por quê? Cheirou, bebeu ?!" 

"Você realmente acha que eu vou me dignar a viajar junto do seu biquíni molhado e cheio de areia, para não dizer das outras coisas que você está levando aí nesta mochila? Que eu fiz pra você?"

"Tá bom, tá bom! Foi sem querer. Desculpa, tá, ô Primeira Classe! Mas você não vai voltar comigo?" Caprichei na cara de Gato de Botas.

"Claro que eu vou. Mas eu vou no chapéu da aeromoça, na ponta da asa, mas dentro da sua bolsa não!"

E assim ele fez. Quando cheguei, ele estava grudado na janela do avião. Me deu uma piscadinha e depois um tapa na bunda que me encheu de coragem para enfrentar a vida. Descendo do avião, ele me disse:

"Lembra do gravador do Lucas Silva e Silva? Quando quebrou, ele ficou desesperado, pensando em como ele faria para inventar suas histórias. Seu Orlando disse que para imaginar não era necessário o gravador. Quando ele mostra o gravador consertado, o Lucas dispensa e diz que conseguiu inventar só com a imaginação."



"Claro que eu me lembro! Lucas Silva e Silva ajudou a formar meu caráter!"

"Então, sou mais ou menos como o gravador do Lucas, gata. Agora você me tem na hora que quiser!"

Abri um sorriso enorme. Até que enfim, compreendi: meu kefi é uma entidade wi-fi! Como não pensei nisso antes?

domingo, 29 de abril de 2012

Poéticas da Dança III - Subvertendo escadas

Uma flor nasceu na rua!
Furou o tédio, o asfalto e o nojo. 
Carlos Drummond de Andrade
I
O antepenúltimo encontro do Poéticas deu o que dançar. Sempre dá na verdade, mas a proposta da vez foi a  mais ousada - e divertida -  até então. 

Quantas vezes reclamei espaço, quantas vezes me vi derreter nas paredes de tédio. Algumas vezes o reivindiquei, outras, inventei. 

Na escola, reivindicar e inventar às vezes é pouco! É preciso transformar. Paredes cinza, bege ou qualquer cor inexpressiva, de preferência horrível. Grades, cadeados, chaves. Por que a gente é assim? Sinceramente, não sei. Quando cheguei já era deste jeito, e a gente só começa a entender a partir do intento de mudar. Eu poderia arriscar explicações a respeito disso, mas o momento é visceral. Deixo para os teóricos teorizarem. 



Para viver são necessários espaços vazios. Experiência não acontece a partir de lugares repletos de tralhas. E nunca vi numa escola, nas quais estudei ou trabalhei pelo menos, uma única sala que pudesse ser esvaziada. Nem a sala de vídeo escapa, vira almoxarifado em época de recebimento de materiais e insumos enviados pela Rede. Até as tentativas de deixar o ambiente mais alegre deixam o ambiente atulhado. Montes de cartazes, desenhos, frufrus e afins fariam Mies Van der Rohe se retorcer no túmulo. 

E como a professorinha se move nestes não-espaços?  Como propor que os alunos se movam nestes espaços em que se configurou no chão uma trilha batida? Como criar realidades poéticas dentro desta realidade engessada?

Este, a meu ver, foi o ponto de partida do último encontro, que culminou numa proposta de intervenção, primeiro nas escadas do IA, depois no Terminal da Barra Funda. 

II
Moro num sobrado, escadas fazem parte da minha vida desde cedo. Minha frustração de infância é que elas não possuem corrimão, para escorregar feito Lucas Silva e Silva em O Mundo da Lua. Mas, pensando bem, sem o corrimão, dava para pular dos degraus direto para o chão, começando dos mais baixos para os mais altos. Subir de dois em dois, depois de três em três degraus. Descer batucando com os chinelos, saber quem subia as escadas pelo ritmo dos passos. Subverter escadas, então, é uma antiga diversão. Seria agora a hora de subverter novas escadas?



Primeiro, as escadas do próprio IA. Mudanças de nível, planos, corrimões... A criança aqui se quebra toda, mas se diverte! Depois o grupo foi dividido em dois, e foi proposto pensar uma improvisação no esquema Viola Spolin (onde, quem, o quê), dentro do espaço da escada. Agora, parei para pensar como a realidade que a gente cria pode ser muito mais forte que aquilo que a gente vê: no momento da improvisação, a escada já não era mais escada, era cachoeira. Era capaz da gente terminar a cena ensopadas!

III
E então, o ápice do encontro: escada por escada, no Terminal da Barra Funda é o que a gente mais encontra. Vai para lá todo o bando: alunos, professoras, coordenadores, equipe de vídeo. A gente tinha 15 minutos para montar uma intervenção, a partir de duas palavras dadas.

Pressa e Contemplação. Pressa existe de sobra nestas escadas, mas há espaço para contemplação? Tivemos que criá-lo. É muito engraçado, já no ensaio a gente já tem uma prévia dos olhares com que vai se deparar. Os de estranhamento são a maioria, mas a gente também encontra quem se diverte com uma pausa nesta marcha interminável rumo a lugar nenhum.

Apresentar o nosso grupo foi moleza: a gente ensaiou com a escada vazia, mas a hora de fazer a cena foi um momento de pico, o que para nós foi uma puta sorte.

O segundo grupo escolheu uma escada rolante, o que acabou fazendo com que outras personagens involuntárias entrassem para a cena como antagonistas. Três, como as feiticeiras de Macbeth, para ser mais exata. Uma delas era a Segurança, a outra era Burocracia e a terceira, Incompetência. A direção do terminal já havia autorizado as intervenções, a Prof. Kathya estava lá com o documento comprovando a autorização e ainda assim ninguém sabia de nada, e fizeram tudo para impedir. Kathya e Roberto em cima tentando negociar, a gente embaixo, esperando com cara de glúteos com um monte de seguranças em volta. Acho que eles pensaram que dentro da câmera tinha uma bomba, ou que seria gravado um clipe póstumo do Michael Jackson, sei lá.




Quando as palavras falham, parte-se para a ação. Uma hora a Bianca se encheu de tudo isso, deu uma olhadela esperta para as outras meninas do grupo e saiu correndo subindo as escadas rolantes que desciam, e a cena acabou acontecendo. Tudo que eles fizeram para impedir, virou parte da cena: desligar as escadas, tentar impedir de quem estava embaixo subir.

Pelo menos em mim, o sentimento que este episódio foi um misto de indignação com riso. Indignada como num país e numa cidade cheia de problemas, uma intervenção de dança em um local público causa mais comoção e preocupação que se alguém tivesse sido assaltado lá dentro, e o rindo de tudo isso porque gente normal é mais louca que a gente pensa.

E a cada escada que subo ou desço naquele terminal ainda hoje, um pouco deste riso ainda permanece. Sempre me lembro da Marília, que sempre detestou aquele terminal: você ainda vê aquelas escadas da mesma maneira?

Conseguimos furar o tédio, o asfalto e o nojo, pelo menos por um dia, e o valor disso é incalculável.

É para todos nós esta cambalhota! Em breve, o registro de mais encontros!

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Sonho de um sonho 2.0

Há tempos não falo diretamente com vocês que me leem, eu sei. Ando preferindo o discurso indireto, não quero mais falar nada. Deixo que a dor fale por si mesma, deixo que ela cante, grite, role no chão. Não dá para racionalizar este discurso, se isto for mesmo um discurso. Eu queria mesmo era dormir e já acordar em outro ano, outra vida, e que o passou antes fosse tido como uma alucinação, o sonho de um sonho ruim.

Aliás, para que servem os sonhos? Diz o Segismundo que os sonhos, sonhos são. Não necessitam de porquê. Quando a realidade é muito dura e não se consegue olhar diretamente para ela, olhe para seus sonhos. Foram eles que me salvaram de um tombo maior. O que me dói é justamente é esse contato cru com a realidade. Lucidez pura enlouquece. Bem fazia Raulito em misturar a dele com a sua maluquez. 

Falando em sonhos, vou compartilhar com vocês algo que parecem estar procurando.


O segundo texto mais acessado deste cafundó é Sonho de um sonho, mas o texto que ele apresenta é feito de partes do poema original. Era a minha versão deste poema, ou melhor, da Susi, que anda mais viva do que nunca nestes últimos tempos. 

E olha que engraçado, ele agora me retrata inteiro, que acordei que estava sonhando, que queria sonhar mais, que queria que esta realidade bizarra fosse de fato o sonho. Certas coisas nos esperam a vida toda. O Drummond, este livro, este poema, tudo. 

De: ANDRADE, Carlos Drummond de. Reunião: 10 livros de poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 1976.
(Está no livro Claro Enigma). 

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Orientupis, judárabes e ciganagôs

Depois eu reclamo que os TM são um fracasso na blogosfera. Foi só voltar a trabalhar, que parei de alimentar meu bichinho virtual. Mas depois do meu amigo Victor me dizer que toda vez que entra nesse cafundó eletrônico,  ele pira junto comigo nessas brisas todas, lembrei para que eu me tornei fazedora de textículos. (Se você é curioso, leia o primeiro textículo.)

Uma madrugada que se estica demasiadamente - como a última, com uma hora a mais por conta do fim do horário de verão - pode ser de uma surrealidade galopante! Sei disso porque ainda sou bicho noturno.  Mesmo que ultimamente esteja aflorado meu lado solar e diurno, o encanto da noite sempre me atiça. Lua Cheia então, nem se fala! Já até escuto os cães uivando, só de falar.

Mas a cena é: sentados na porta de um supermercado 24 horas depois da balada, com um saco de salgadinhos e uma barrona de chocolate, nem sei como a gente puxa papo com um galego tomando Heineken ao nosso lado. A gente oferece nosso festival de gordura trans, ele oferece cigarros. Eu tinha esquecido os meus e aceitei um. Ele não aceita, só consome produtos kasher (!?). Pegou um Doritos depois de alguma insistência. Era uma madrugada de sábado para domingo, na minha cabeça perguntei: e o Shabbat? Vai até o pôr-do-sol do sábado. Já tinha passado faz tempo.

O garoto é completamente perdido nos seus preconceitos. Começa falando de uma garota de roupa curta, eu pergunto: "Você viu o tamanho do meu vestido? Sou vulgar por isso?". Ele: não, imagina, que isso. Desata a falar mal de católicos, eu conto para que ele está em meio a um papo multicultural e multireligioso - Ele se diz judeu, eu sou católica, o Victor é evangélico. Ele abaixa a bola. Resolve endossar o discurso de que tem nordestino demais nessa cidade, faço questão de contar: minha mãe é paraibana, tão galega quanto você. Está nessa cidade há 40 anos, não está fazendo número, muito pelo contrário: ajudou a construir esta cidade, como todos que vem para cá, de todas as partes do mundo. Ah, sua mãe é diferente.

Resultado: dando a hora do bus, o Victor se enche, levanta e a gente vai embora. Eu não fiquei ofendida em nada, na verdade, ri um bocado do menino. Vi perfeitamente o exemplo da pequeno-burguesia que se sente ameaçada nessa cidade e tenta colocar a culpa do nosso caos justamente nas classes mais pobres, e que aqui definitivamente se fodem muito mais que eles. Gente que reproduz o discurso do PIG achando que têm ideias próprias. Que concebe esse mundo imaginário que se desfaz como castelo de areia com uma madrugada sentado na rua conversando com dois estranhos.

Não gosto de ufanismo, mas senti um grande alívio de ser uma brasileira típica, com pais, avós e bisavós nascidos aqui. Sem exaltar que sou descedente de sei lá o quê, afinal a mistura é tão grande que se preocupar com isso é uma grande perda de tempo. Exaltar origens por aqui é completamente ridículo, não faz o menor sentido. Fiquei com um trecho de um poema do Amor da Minha Vida e duas canções na cabeça - todos falam por si, dispensam comentários. Cambalhota tripla para vocês, minha pequena e querida audiência.

"Para mim, de todas as burrices a maior é suspirar pela Europa.

A Europa é uma cidade muito velha onde só fazem caso de dinheiro (...)
Aqui ao menos a gente sabe que tudo é uma canalha só (...)"

(Explicação, Carlos Drummond de Andrade)





Inclassificáveis!

terça-feira, 24 de março de 2009

Sonho de um sonho II

Neste domingo, fui uma das 30 mil pessoas que assistiram ao show do Radiohead em São Paulo, e aquela sensação duplipensante de viver o momento ao mesmo tempo em que se tenta racionalizar a experiência para relatar depois funcionou só durante alguns instantes, porque o que eu vivi foi tão surreal, que me sinto como o Segismundo, protagonista de A vida é sonho: estava dormindo e acordei aqui ou foi o contrário, tudo isso é um sonho?

Engraçado porque quem é fã absoluto e irrestrito de Radiohead não sou eu, acho difícil superar Vizinhíssimo e TioZé em loucura insana por Thom Yorke e seus parceiros, mas isso não impediu que eu me comportasse como uma fã, a começar pelo dia em que eu comprei o ingresso, uns três meses antes. Por que eu fiz isso, se não era tão fã assim? Simples, eles decidiram vir ao Brasil no seu melhor momento, e conta-se nos dedos as bandas internacionais que fazem isso. Sabia, desde sempre, que seria este um show histórico¹. E foi.

A surrealidade da experiência começa pelo fato que faz uns 10 anos que eu não vou a um grande show de rock e sinceramente pensei que esta fase já tinha passado. Clichê muito piegas, mas verdadeiro: é como se eu tivesse a minha adolescência de volta. E isso é bom demais.

Minha mente ainda tagarelava no show do Los Hermanos, que no início eu desprezei, mas que depois ganhou um gosto de piada velha envelhecida em barris de carvalho, como um bom vinho. O show foi melhor que eu esperava e achei muita graça em eu não conhecer nada de Los Hermanos que ultrapassasse a chatice da "Anna Julia". Eles que não são bobos nem nada, não tocaram essa pérola do cancioneiro chato do pop-rock brasileiro. Conclusão: apesar de ter apanhado do Chorão e de dar uns sapecos na pirralha da Mallu Magalhães, o Marcelo Camelo merece algum respeito musical, mesmo com sua cara de funcionário da Nasa dos anos 70, misturada com cara de judeu de Higienópolis com traços de estudante de sociais da USP ou coisa que o valha que me irrita um tanto, eu confesso. E o Rodrigo Amarante fez mais bonito que nosso idish-apollo13. Alguém tem o telefone dele, por favor? :-P

Outra piada velha, mas que eu conheci estes dias, portanto tem graça foi o Kraftwerk. Eles tem mais de 20 anos de carreira, mas para mim foi a descoberta da pólvora. Vi tudo naquele show: poesia concreta, Mondrian, crítica social. Mais um drama tostines na minha vida: eles são realmente vanguarda ou o que a gente faz e ouve em termos de música é que está datado? We are the robots!

O Radiohead, como bem informa a notícia do link, entrou pontualmente em cena. E aí que começou meu desespero, do alto dos meu 1,63m de altura. Não adiantava ficar na grade, como bem observou o já iniciado em shows do Radiohead - o dono do... OKcomput3r! - para que se pudesse ver o show na íntegra, com os efeitos de luz que ajudaram ainda mais a criar o clima de "isso é verdade mesmo?" que permeou todo o show. Só que era gente demais naquele lugar e ver mesmo o show, eu não vi. Demorou um tempo para entender que aquilo não era um show, era uma experiência, e que em shows de rock o legal não é ver e sim participar. Foi aí que a coisa ficou boa para mim, quando rolaram os melhores momentos do show, na minha opinião: Paranoid Android, Karma Police, e do In Rainbows, Reckoner. No bis, Fake Plastic Trees foi atrapalhada por uma briga perto de mim. Como bem observou um outro cara que estava por lá: "Brigar logo na hora do Carlinhos, pô?" Aí, estragou.

Hora de ir, quase um enrosco, em plena madrugada de domingo para segunda. E lá estávamos, mais uma vez, eu e meus companheiros de aventura, tentando sobreviver na cidade. Chegamos três da manhã em casa e em vão tentei acordar às 5h30 para ir trabalhar e abri os olhos com essa sacada do Segismundo: estou acordando agora ou voltando a dormir?

Esta pergunta se mantém sem resposta. Desde que acordei/dormi, tenho ouvido Radiohead feito uma louca, tentando "concretar o fluido", reter na memória o que passou, o que eu senti. Essa bola eu cantei para o Zé, na saída do show: acho que só vou entender o que aconteceu de verdade daqui a alguns anos. E olhe lá.

Por isso fica para o próximo textículo um pouco mais da minha relação com o Radiohead, como se fosse os TM um filme do Tarantino, que vai e volta no tempo com garbo e elegância, como eu*. É para nós mesmos esta cambalhota!

1 - Aos que sobreviveram para contar esta história comigo, aquele abraço!

domingo, 13 de julho de 2008

Mensagens na garrafa

Este Blog de Vida Dupla Mais sem Audiência do Ciberspaço, como sabem, veio depois dos diários de papel, mas não os sucedeu: é como se fosse meu marido e o meu diário, o amante, que pego na calada da noite em busca de proteção e abrigo.

Recomecei com os diários no fim de 2002, na época para registrar a minha meditação. Só que eu sou samsara demais para desvendar a vida sentada em flor-de-lótus. Cá estou eu na galhofa outra vez.

Aos poucos a vida comum foi entrando nesses registros, mas é meu mundo interno que impera lá, como nos diários de Frida Kahlo. Acho que isso é resqúício da meditação, da contemplação. É o meu modo de entender a vida.

Todas as cartas de amor são ridículas, todas as mulheres são putas e todos os díários são patéticos. O meu não deixaria de ser, lindamente patético. É muito engraçado ler aquela observação tão definitiva sobre uma coisa completamente fugaz. Com algum treino você não se envergonha disso.

Ultimamente, porém, estes diários da segunda fase assumiram a forma de um diário de uma adolescente, igual ao que eu tinha quando tinha 12 anos. Daqueles que os meninos roubam para ler e tripudiar da dona depois, munidos do segredo da pobrezinha. Daqueles que se fala do seu amor secreto (o meu agora é declaradamente escancarado). Daqueles em que não se fala outra coisa a não ser do menino que se gosta. O menino que eu gosto não me dá a menor bola, sabe? (Mas não tô nem aí, isso é problema dele).

Escrevendo eu me descubro e não enlouqueço, e muito cedo nesses diários que tenho feito desde os vinte anos (blues), eu vi que o que um diário mais quer é ser revelado. Ninguém escreve nada para não ser lido. O que explica o náufrago que joga no mar uma garrafa com um bilhete para qualquer um que encontrá-la? Save our souls. (Alimento essa fantasia quase sexual: que o menino que eu gosto roubasse todos meus diários e os lesse, um por um, às escondidas. Ele sabe disso.)

Ando jogando tantas garrafas no mar, que se o Greenpeace me pega, eu estou frita. Estou escrevendo demais, como se fosse morrer amanhã. E de todos os jeitos possíveis: aqui, no diário, compondo canções, cartas inentregáveis, e-mails insuportavelmente longos. Só deixei de escrever poesia, porque nem meu muso me lê! Não tem a menor graça.

Inentregáveis merecem um capítulo à parte. Cometi essa insanidade de entregar uma inentregável ao menino que gosto. E virou inlegível. O bruto não se deu o trabalho de ler, porque para ele são palavras apenas, palavras pequenas... Palavras ao vento.

Diz o ditado que palavras o vento leva, principalmente sobre essas de promessas não cumpridas, esses amores que acabam na base do 'tudo certo e nada resolvido'. Por mim, o vento pode levar minhas palavras, como aquela peninha do Forrest Gump. Alguém vai encontrar e ler as mensagens na garrafa.

O menino que eu gosto não sabe da missa a metade. Não sabe que antes de ser apaixonada por ele, sou apaixonada pela vida, que está me tratando como um cão sem dono tanto quanto ele está. E que, tanto quanto ele, me faz a mulher mais feliz do mundo, mesmo sem tê-lo agora. Mas de uma coisa ele sabe: o menino que eu gosto não é O Amor da Minha Vida. O Amor da Minha Vida é o Drummond! Só ele é capaz de me entender agora. "Porque amor é amor a nada, feliz e forte em si mesmo."

Textículo jorrado em 13/07/2008

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Mais aniversários

O Textículos também estão aniversariando. Já são quatro meses de muita Licença Poética para um Festival de Bobagens, celebrando meus Vinte e Poucos Anos Blues, externando minhas pequenas revoltas humanas. Qual a importância disso para o Universo? Ora, nenhuma! Este ainda é o Blog Literário Mais Sem Audiência do Ciberespaço, que agora entra em vida dupla. Desde 24/05, os Textículos também existem em versão Wordpress, já que a minha Pouca e Seleta Audiência tem reclamado que não tem dado pra comentar aqui, e eu sou uma blogueira carente, preciso destes comentários. Por enquanto, os Textículos seguem nas duas versões, afinal, segundo a anatomia humana, testículos (com 's' mesmo) existem em par, né? :P
E esta cambalhota é para todos!
Textículo jorrado em 28/05/2008

domingo, 4 de maio de 2008

Texticulando

Leitores de textículos...saudade de vocês.

Não texticulei antes não por falta de assunto e sim por excesso. Muitas coisas a dizer. Devo ter muita p**** na cabeça mesmo, só pode ser isso.

Devo dizer que este último textículo (Vinte e poucos anos blues) foi profético para mim. Estava escrevendo num momento de êxtase para mim, ao mesmo tempo vendo a dor de outras pessoas, queridíssimas. Deu um nó na minha cabeça fálica. Santa Teresa* que me ajude.

Mal sabia eu que iria passar por isso, tal e qual está aí. Vinte e poucos anos blues às últimas consequências. Dor, dor e mais dor. Sem motivo aparentemente nobre. Aparentemente, ressalto.

Então me encontro aqui fazendo o que eu mais detesto fazer neste Blog Literário Mais Sem Audiência do Ciberespaço: dando boletim de imprensa desta vida sem importância frente à imensidão e vastidão do Universo. (Desculpa, gente. É que assisti a "O sentido da Vida", do Monthy Pynton, e ando um tanto cínica em relação a estas questões. Sem perder o bom humor, é claro.)

Resumindo a ladainha, este é só para dar sinal de vida à minha pequena Grande audiência, para que saibam que o Blog Literário Mais Sem Audiência do Ciberespaço não virou um Latifúndio Improdutivo na Rede. Saibam que ainda estão rolando os dados. E é para mim mesma esta cambalhota.


*Antes que eu me esqueça: A imagem do textículo anterior é "O Êxtase de Santa Teresa D´Ávila", de Borromini. E deste é São Sebastião na Coluna, de Perugino. Está no MASP essa, recomendo ir ver pessoalmente.


Textículo jorrado em 04/05/2008.

segunda-feira, 10 de março de 2008

Explicação

A semana passada mereceria ser limada do calendário, caso isto fosse possível. Pudera, não teve a menor graça, mesmo com este Festival de Bobagens e Piadas Velhas que eu jorrei por aqui. Alilás, este Festival de Bobagens foi uma verdadeira vingança, uma retaliação a tanta merda concentrada. Ridendo Castigat Mores¹. E viva Gil Vicente.

Hoje, porém, o Textículo não será meu e sim do Amor da minha Vida, o Drummond. Só para que vocês saibam, meus leitores de Textículos, de onde vem meu slogan para posts toscos. O Chacrinha já dizia que nada se cria, tudo se copia, neste mundo de Piadas Velhas aos montes. Só que pego Piada Velha da maior qualidade, dá licença?


"Explicação²

Meu verso é minha consolação.
Meu verso é minha cachaça. Todo mundo tem a sua cachaça.
Para beber, copo de cristal, canequinha de folha-de-flandres,
folha de taioba, tudo serve.
Para louvar a Deus como para aliviar o peito,
queixar o desprezo da morena, cantar minha vida e trabalhos
é que faço meu verso. E meu verso me agrada.
Meu verso me agrada sempre...
Ele às vezes tem o ar sem-vergonha de quem vai dar uma cambalhota,
mas não é para o público, é para mim mesmo esta cambalhota.

Eu bem me entendo.
Não sou alegre, sou até muito triste.
A culpa é da sombra das bananeiras de meu país, esta sombra mole, preguiçosa.
Há dias em que ando na rua de olhos baixos
para que ninguém desconfie, ninguém perceba
que passei a noite inteira chorando.
Estou no cinema vendo fita de Hoot Gibson,
de repente ouço a voz de uma viola...
saio desanimado.
Ah, ser filho de fazendeiro!
À beira do São Francisco, do Paraíba ou de qualquer córrego vagabundo,
é sempre a mesma sen-si-bi-li-da-de.

E a gente viajando na pátria sente saudades da pátria.
Aquela casa comercial de nove andares comerciais
é muito interessante.
A casa colonial da fazenda também era.
No elevador penso na roça,
na roça penso no elevador.
Quem me fez assim foi minha gente e minha terra
e eu gosto bem de ter nascido com esta tara.
Para mim, de todas as burrices a maior é suspirar pela Europa.
A Europa é uma cidade muito velha onde só fazem caso de dinheiro
e tem umas atrizes de pernas adjetivas que passam a perna na gente.
O francês, o italiano, o judeu falam uma língua de farrapos.
Aqui ao menos a gente sabe que tudo é uma canalha só,
lê o seu jornal, mete a língua no governo,
queixa-se da vida (a vida está tão cara)
e no fim dá certo.

Se meu verso não deu certo, foi seu ouvido que entortou.
Eu não disse ao senhor que sou senão poeta?"

Por hoje é só, pessoal. Só que hoje, essa cambalhota é para todos!



1 - "Rindo se castiga os costumes". Altamente recomendável A Farsa de Inês Pereira. "Mais vale asno que me carregue que cavalo que me derrube!"
2 - A-há! Este aqui o Oráculo não achou e então digitei letrinha por letrinha. Agora ele tem. Palmas pros Textículos! (ANDRADE, Carlos Drummond. Reunião: 10 livros de poesia. 7ª Ed., Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1976, p. 27 - Alguma Poesia)

Textículo jorrado por Flaming00 em 10/03/2008

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Porque eu sou medrosa. Mas se eu desço pro play é pra brincar.

Dedicado a todos os meus amigos

Às vezes, Bozoca me chama de Layr Ribeiro por conta de uns chavões proféticos que de vez em quando sai da minha boca, ou dos dedos, meus fazedores de Textículos. Mas ela não fica atrás, viu. Primeiro foi o "Nós temos Licença Poética para o festival de bobagens", que eu até anotei de tão apocalíptico que foi. Revelação das boas. Nunca tinha visto a coisa sob este prisma.
A última foi essa do título. O que importa mesmo é o impacto da pérola profética de Bozolina Doe, e o que ela tem a ver com a nossa vida. A minha, a sua, de qualquer um que leia isso e que esteja vivo, ou quase.

Medo. Cheiramos com frequência flores amarelas e medrosas¹. Esqueça os clichês de comercial das Havaianas, aquela coisa de viver a vida intensamente. Uma hora ou outra, a gente deixa de lado nossa felicidade, nossos amigos, tudo aquilo que pode nos ser caro de fato.
Eu também odeio ver poesia escorrendo pelo ralo e por isso dói a consciência de tudo que (não) tenho feito da minha vida.
A verdade é que sinto uma falta brutal dos meus amigos. Dos antigos, daqueles que presenciaram as minhas metamorfoses todas. Não é a primeira vez que isso acontece, assim como não é novidade que, de tempos em tempos, a gente se espalha e se ajunta outra vez. O que muda é que agora temos a real consciência da morte. Sofremos perdas muito duras e as feridas ainda não fecharam, se é que vão fechar. Hoje sabemos que um dia, vamos nos separar definitivamente e cair em si desse jeito, sem nenhum colchãozinho para aparar a queda é muito doloroso, pelo menos para mim.
Por essas e outras que combater o imobilismo que a rotina aos poucos nos impõe chega a ser um desafio, o décimo terceiro trabalho de Hércules. É preciso furar a bolha, derrubar os cibermuros à marretadas. Só que isso dá medo. Um medo infundado, mas medo é sempre medo.
Quando se chega à uma conclusão dessa natureza, a vida parece uma brincadeira de corda. A gente fica olhando a corda bater no chão. As outras crianças já estão cantando "Um homem bateu em minha porta e eu a-bri!". E a gente lá, entre a ousadia e a cautela, tentando achar a hora exata de entrar. Depois que a gente entra, porém, não pode parar de pular, porque é arriscado levar um tropeção.
De tudo isso, eu tiro um certo alívio. Eu sei, eu também sou assim. "Porque eu sou medrosa. Mas se eu desço pro play é pra brincar"!

1 - ANDRADE, Carlos Drummond. Reunião: 10 livros de poesia. 7ª Ed., Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1976, p. 81 (A Rosa do Povo)

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Sonho de um sonho


"Sonhei que estava sonhando, e que no meu sonho esculpido, os três sonhos superpostos dir-se-iam apenas elos de uma infindável cadeira de mitos organizados...


Sonhei que o sonho vinha como a realidade mesma...sonhei que o sonho existia não dentro, mas fora de nós, e era tocá-lo, sorvê-lo
gastá-lo sem vão receio...


Sonhava que o meu sonho retinha uma zona lúcida, para concretar o fluido...sonhava que estava alerta, e mais do que alerta, lúdica, e receptiva, e magnética e em torno de mim se dispunham possibilidades claras!


Sonhei que os entes cativos dessa livre disciplina plenamente floresciam, permutando no universo uma dileta substância e um desejo apaziguado de ser um com ser milhares, pois o centro era eu, de tudo! "


Bem, esta aí da foto é meu outro eu-lírico, a Susi. Ela é um bufãozinho anoréxico e que de tão bufão, ficou isolada até dos outros bufões (putas, anões, refugiados, só a 'nata' da sociedade). Foi ela que trocou todas as bolas do poema Sonho de um Sonho¹, do Carlos Drummond de Andrade, e quando chegou sua hora de falar, ela cuspiu seu poema predileto assim, todo trocado. Mas ainda assim fez sentido. Tanto que virou o nome da performance² toda, como se todo aquele universo onírico tivesse saído dos seus lisérgicos miolos. Puta merda, que saudade.

1- Para quem quiser conferir o poema inteiro, lá vai:
ANDRADE, Carlos Drummond.
Reunião: 10 livros de poesia. 7ª Ed., Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1976, p. 172 (Claro Enigma)
2 - Para quem não sabe lhufas de que estou falando: www.fotolog.com/dixie_bandit/31307963