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quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Saudades de Irene

Para Silvia e a raça de Irene

Ah, Irene. Saudades daqueles cabelinhos ralos.

Me lembro dela cortando galinha. Ela me ensinava a cortar, mas sempre estourava o fel e ela ficava nervosa, pois amargava a carne.

Era sempre aquela galinha de cabidela com muita graxa. Vó cabocla do sítio, neta bicho de cidade. E eu me perguntava: “De carro, vó?”

Não, de sangue. Sangrar a bichinha até a última gota era de lei, mas eu não sabia. Achava que não precisava e resolvi ajudar jogando o sangue fora. O vermelho foi tingindo a terra seca e ela deu um tapinha de reprovação na minha mão. Depois se arrependeu: não queria chatear minha mãe.

Ah, que saudades de Irene. Do seu riso frouxo, do seu coração ensolarado. De mandar as crianças irem brincar no terreiro, porque ia contar piada. Custa acreditar. Sofria demais, amava demais. Mas tirava troça da dor.

Irene não dava beijo, dava cheiro. E seu cheiro era de Alma de Flores.

Meu coração é burro, Irene. Demorou a te compreender por completo. Não pude crescer perto de suas risadas, de sua galinha cheia de graxa, mas sua presença tingiu minha vida de vermelho, como a tigela de sangue que derrubei no terreiro.


domingo, 31 de maio de 2015

A caixa mágica de gibis

 Para Adriana Malaquias e prima Cynthia
Escrevi este texto há doze anos, como denuncia a piadinha com o slogan do governo do JK. O tempo que passa pode até não voltar (e como ando triste com meus tempos perdidos), mas também sei hoje em dia que a vida tem lá os seus estica-e-puxas. Como numa brincadeira de elástico, este texto voltou com uma conversa muito elucidativa com a prima Cynthia sobre Barbies, Susies e Ganha-Nenês. E vejo que o tempo passa, mas a saudade do meu quarto cheio de brinquedos espalhados não! 
"Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!" 
(Casimiro de Abreu)
Quem me conhece sabe que minha saudade é crônica. Saudade que nem a da música do Gonzagão, Que nem jiló, "pro cabra se convencer que é feliz sem saber".  Vivo para juntar histórias. Tanto que, se eu fosse o Juscelino, meu lema seria "200 anos em 20", ao invés de 50 anos em 5. Não que minha vida seja alucinante, ela é até bem prosaica. É que qualquer coisinha é uma dramão pra mim. Devo ser roteirista frustrada e nem fiquei sabendo. 

A saudade que me doi mesmo são a dos meus brinquedos, mais do que primeiro namorado, primeiro beijo, essas coisas. Claro que existem alguns desenhos animados da minha época em exibição na TV, mas nada se compara a minhas bonecas perdidas. Poucos brinquedos me restaram, porque é costume da minha mãe doar tudo que vê pela frente sem uso. A maioria deles foi para os meus primos mais novos e minhas preciosidades como minha boneca Ganha-Nenê e meu Cachorro-Detetive já devem ter ido para o espaço agora, porque meus primos cresceram também.



Inútil dizer que a saudade que eu tenho não é de nada material, é do que eles representam e que os desenhos animados não conseguem sintetizar da minha infância.  Minha amiga Adriana disse que quando não está bem, vai ler sua coleção de gibis. Segundo ela, isso é um bálsamo, uma espécie de Fonte da Eterna Juventude. Tenho certeza que todo mundo já disse: "Ai quero voltar para minha infância!" num momento de extremo saco cheio com a vida. Pois é, só a Dri consegue com sua caixa mágica de gibis. "


Para ver que a vida é uma brincadeira de estica e puxa, olha só quanto está valendo uma Ganha Nenê agora: http://bit.ly/1M29u4s

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Sobre Formação de Professores: parem de nos tratar feito imbecis

     Primeiro preciso dizer que este não é um artigo acadêmico, no sentido mais estrito do termo. Não procedi com uma coleta rigorosa de dados, para depois fazer uma análise fria dos mesmos. Aliás, como tudo que já escrevi aqui, as reflexões de hoje vem fumegando, como bala que já cheira a sangue:


Eu tenho o maior prazer em descobrir coisas novas, sempre gostei de estudar. Então, eu simplesmente não consigo fazer nenhum curso, formação, oficina só para pontuar. (Quem é professor da Rede Municipal sabe: sempre almejamos evoluir, se não espiritualmente, ao menos na folha de pagamento. Somos verdadeiros Pokémons em busca da evolução). A maioria de nós trabalha em mais de um cargo/emprego, fazemos cursos (estão lembrados da evolução?), os casados/pais/mães tem que cuidar da casa e filhos e se sobrar algum tempo depois de tudo isso, viver. Quem sabe fazer alguma coisa que realmente nos traga prazer e satisfação. (Aliás, sobre isso, não me faço de rogada: eu gosto mesmo de estudar e de me aprimorar no meu ofício. Por incrível que pareça, diminui a angústia quando vem aquela sensação de impotência que todos nós professores experimentamos frequentemente). Justamente por gostar de estudar e pela agenda apertada, tenho que ser seletiva na hora de escolher uma formação, oficina ou curso. E posso dizer que vale a pena adotar esta postura, porque tive experiências incríveis, que realmente agregaram valor ao meu camarotezinho de professora da rede pública.
Uma delas faz parte do arquivo dos TM, o curso de extensão universitária Poéticas da Dança na Educação Básica (IA/UNESP, 2012). A última fase do curso - o projeto com meus alunos - nem foi relatado aqui por uma absurda falta de tempo já citada anteriormente. Como tudo que opera no plano real, não foi perfeito. Durou pouco tempo em relação aos objetivos que estabelecemos na equipe, porém até hoje as crianças (que ainda são meus alunos) se lembram da experiência e falam dela. Espero conseguir fazer meu trabalho de campo do mestrado com alguns destes mesmos alunos. (Se isso acontecer, a professorinha pesquisadora em formação vai ter um treco de felicidade acadêmica!).
As três vezes em que fiz parte do Descubra a Orquestra, da Osesp foram inesquecíveis e valeram mais que meus anos de estudos de música no modo tradicional. Tivemos estudos teóricos, discussão e também aprendemos ferramentas úteis para o trabalho – às vezes parecem que essas duas coisas não combinam, mas combinam, tem que combinar. Aliás, se não combinarem numa formação, corra: é uma cilada, Bino!


          
E outra experiência recente sensacional foi o Encontro para Professores de Arte da Rede Municipal de São Paulo em agosto do ano passado, no IA da UNESP, promovido pelo Grupo de Pesquisa em Formação de Professores, capitaneado pela Prof.ª Luiza Christov. Além das oficinas que podíamos escolher (fiz uma sobre Aikidô e suas possibilidades de administrar conflitos pacificamente), o mais incrível foi a postura de escuta adotada pelo grupo: não fomos lá simplesmente para ‘receber’ formação. As narrativas coletadas no encontro foram discutidas, documentadas e resultaram numa ação prática: já assinou a petição online solicitando à Secretaria Municipal de Educação mais uma aula de arte no currículo do 1º ao 5º ano? Assina, gente!


Estas são algumas das experiências mais marcantes que tive, sem contar a epopeia pelo mestrado no Instituto de Artes da UNESP e meu contato com a Professora Sandra Batistão, que nos levou a pensar para além das questões que faziam parte da formação, que sozinha já tem tanto a se dizer e fazer (inclusão de alunos com deficiência intelectual). Mas em termos de formação continuada de professores, ainda se caminha a passos de centopeia lesa e isso me deixa beeeem irritada. Vou apontar o que considero falho e soluções possíveis. (Vai que eu seja lida e ouvida pelo ministro ou secretário da educação municipal, não é? Otimismo é tudo nessa vida, gente!)


A primeira delas consta no PME (Plano Municipal de Educação de São Paulo, rede onde atualmente trabalho), mas possibilidades reais e avanços, eu como recente mestranda não vejo: aumentar a quantidade de docentes mestres e doutores na rede. Pós-graduação scrictu sensu exige, entre outras coisinhas, dedicação em muita leitura e pesquisa, trabalho de campo, escrever e revisar, tudo isso dentro dos prazos dos programas das universidades (dois anos para mestrado, por exemplo). Isso demanda horários flexíveis (as aulas dos programas quase nunca são num período só) e dinheiro. Ou você tem bolsa, ou trabalha. O que temos de fato nas redes de ensino, como já citei, são jornadas acachapantes e nada flexíveis. O mínimo que se poderia fazer para aumentar a quantidade de professores pesquisadores, com pós-graduações scrictu sensu, seria uma licença sem prejudicar os vencimentos, específica para este fim e que nem precisaria durar todo o tempo do programa de pós. Isto existe na nossa Rede? Ando procurando e não encontrei ainda. O que há é uma licença para apresentar trabalhos científicos em congressos, que já utilizei duas vezes. (Mas se não há tempo para pesquisa, vamos apresentar o quê? Trabalhos acadêmicos não são recebidos por inspiração divina). Ficar recebendo formações continuadas tem seu mérito, mas não é tudo. Se quiséssemos mesmo melhorar a qualidade da educação do país, seria necessário encorajar os docentes a buscar seus próprios caminhos, pesquisando e compartilhando suas soluções. O sistema educacional da Finlândia por exemplo, que tanta gente ama idolatrar, exige para o exercício docente no mínimo o grau de mestre. Temos excelentes programas de pós-graduação em educação aqui – inclusive mestrados profissionais em rede específicos para professores - porque não usamos? E se usamos, temos que fazer milagres dignos de Matrix para dar conta do programa + jornada de trabalho. Se você é um mestrando ou doutorando dentro da escola, salvo raras exceções, será tratado como um ET. Prepare seu OVNI.

Outra coisa que me intriga é: se o docente tiver uma real proficiência em um segundo idioma, porque não se pode entregar sua certificação para pontuar? Isso existe em uma alguma rede pública de ensino do país? Nas que eu trabalhei/trabalho não existe essa possibilidade. E mais: cursos de um segundo idioma oferecidos em formação continuada só existem para professores de LEM (língua estrangeira moderna). Ou seja, você só pode falar inglês se for professor de inglês. If you are not, forget it! (Será por isso que tantos alunos fazem cara de se descobrem que um professor que não é de LEM ou de língua portuguesa fala outro idioma?)

O tempo que se perde com obviedades em alguns cursos, oficinas e afins que são um verdadeiro desperdício de tempo e energia é o que mais me indigna deste pequeno compêndio de problemas com formação continuada de professores. Talvez seja o que mais me irrita porque é o mais simples de resolver de todos que estou elecando aqui e não se resolve, porque vida de professor é muito fácil e precisa de uma emoçãozinha a mais. Desde a graduação, tenho uma coleção de casos – que é lógico que não vou contar, para não ser decapitada - em que somos tratados como verdadeiras bestas quadradas, nivelados previamente para baixo do centro da terra. Então, fica a dica: parem de nos tratar como imbecis. O mundo não é necessariamente aquilo que a gente pensa, né?

Essa é para fechar a madrugada que logo mais tem aula. Citando Giovanni Improtta: vamos embora que o tempo urge e a Sapucaí é grande!

           Um beijo, José Wilker!

(Se você não entendeu a piada, clique.)

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Balada do cachorro louco

"O  homem que hoje me amar 
encontrará outro homem lá dentro.
Pois que o mate."
Elisa Lucinda

Demorei a te matar, mas matei. Passei algum tempo sofrendo por não saber o que fazer com o corpo, mas de uma hora para outra, eis que surge a grande ideia: dei-o de comer para meus cachorros.

 

Como não pensei nisso antes? Na verdade, eu sei. Tua carne é indigesta, dura, tem o gosto amargo. Comê-la não foi nada fácil, mas valeu a pena. Meus cãezinhos, agora regalados, podem sair por aí para passear um pouco e quem sabe cruzar com uma cadela rebolante mais no cio do que eu. 

Quando descobri, foi de matar. Você não vale uma foda, camarada, e como paguei caro por isso. Mas como virou comida de cachorro, seu destino é o mesmo de toda comida. Adieu!

domingo, 29 de julho de 2012

Humanos, demasiadamente humanos

Gosto de olimpíadas. Fato um tanto inusitado, principalmente se considerarmos que sempre servi de cabide dos agasalhos nas aulas de Educação Física na escola. Na verdade, não detestava esporte tanto assim: comecei a nadar aos 11 anos e sonhava em ser atleta olímpica. Por burrice, não falei com ninguém e também, de tão perfeito, o sonho me bastava. 

Raridade!
Também tive um herói olímpico: Gustavo Borges, medalha de prata em Barcelona e prata e bronze em Atlanta. Todo ano em que ele ia competir no Baby Barioni na piscina em que eu nadava, em que aprendi a nadar, parecia show de boyband: um bando de garotas gritando, tirando foto, pegando autógrafo. Duelo Claybom de Natação transmitindo pela Rede Manchete. Melhor eu sair correndo, antes que eu seja sequestrada por um dono de antiquário.

O atleta se aposentou e surgem outros mais rápidos, mais eficientes, mais mais. A natação brasileira hoje não passa vontade. Thiago Pereira levou ontem uma prata com gostinho de ouro, deixando Michael Phelps para trás bebendo água. Só que desta vez, o herói olímpico que escolhi não está na natação. 

Ser Usain Bolt e correr 100 metros rasos em poucos segundos é impressionante, mas possível. Ser Oscar Pistorius e fazer isso sem nenhuma das pernas - tão brilhantemente a ponto de fazer parecer vantagem correr com duas lâminas de fibra de carbono no lugar - não é impossível, é do caralho! 



Claro que isso não é produto só de força de vontade, ou de treino. O Blade Runner conta com suas Cheetah Flex Foot para correr. Mesmo assim eu me espanto, não só porque detesto correr até em esteira mesmo contando com duas pernas e pés inteiros, mas porque isso me mostra o quanto somos capazes, embora quase sempre a maioria de nós vibra várias oitavas abaixo do que poderia. 


Já sabia da existência do Pistorius, mas não sabia o seu nome. Dei de procurar por isso no dia em que minha prima não escapou de uma amputação, mesmo depois de meses lutando contra um câncer no calcanhar. Queria ter uma história legal para contar para ela, já que meu ânimo não andava lá essas coisas. O que infelizmente não funcionou, porque isso foi um tapa muito grande na minha cara. Vi o quanto estava sendo bunda-mole nos últimos tempos.

Pensar no que é humano têm me intrigado bastante. Nossa condição é frágil. Fôssemos abandonados completamente nus à natureza, que chances de sobrevivência teríamos? Não temos o ouvido-radar de um morcego, nem a visão de uma águia, não corremos como um leopardo. O que temos, então?

Há quem diga que é a inteligência. Diz Rubem Alves, inspirando-se no Piaget, que ela é a concha que protege o molusco que somos. Mas a pergunta é: onde ela mora? O senso comum nos faz esquecer que ela está em todo nosso ser, pronta para ser ativada a qualquer momento. Então, a concha está espalhada no molusco, não mora só no cérebro.


Força e delicadeza
A matéria de que somos feitos é firme e flexível o suficiente para ser modelada. Por toda essa maleabilidade, esta frágil condição humana é incrível, podendo ir muito além de sobreviver a grandes golpes. 

O fato de sermos frágeis não nos impede de sermos fortes. Além de me espantar, isto me comove. Só me entristece um pouco ver que a maioria de nós morre sem ao menos experimentar desta força. E neste ponto, a Keka tem dado um baile, mostrando a mesma tenacidade com que ela tem encarado a vida já há um bom tempo.

Neste ponto, eu vejo que não tenho condições de consolar ninguém, que neste caso, nem sei se precisa ser consolada. Preciso é tomar vergonha na cara, sentar e meter a mão na boca do leão, sem fazer cara feia.

domingo, 27 de maio de 2012

Poéticas da Dança IV - Fome de tudo

Faz tempo, mas vou tirar o atraso da série do Poéticas. A líder do bando gostou do último textículo, então não vou largar para lá a ideia de texticular com os encontros do Poéticas.

No feriado de 21 abril, fomos assistir ao espetáculo (performance?) Kikar, do coreógrafo israelense Nir de Wolff.


Não sabia quase nada a respeito sobre Nir de Wolff e sua companhia, a Total Brutal.  Por isso  fiquei bem satisfeita ao perceber que consegui juntar o lé com cré do processo de criação com o que é visto em cena - parte do trabalho do arte-educador é este, sabe? As características do trabalho do coreógrafo citadas na reportagem do Metrópolis (que só assisti agora para escrever este textículo retardatário) ficam evidentes na performance: o resultado é carregado - por vezes incômodo - visceral, poético. 

Quando a fome surge retorcendo o estômago e a alma, não se vê mais nada na frente. Kikar significa algo como praça em hebraico, lugar público, ponto de encontro. E o espetáculo é um encontro de várias fomes - saudade, carência, desejos, necessidades - transita por todas elas, torna-as públicas, expõe a dor da ausência. Este para mim é o maior incômodo de Kikar: confrontar-se com a própria fome. Não é possível que não se tenha nenhuma: se você está vivo, está faminto.


Enquanto não se mata a fome, a gente saliva sonhando com a hora do banquete. A condição humana passa por este território nebuloso, onírico. O sonho é uma realidade em si mesma, não é somente um porvir. Sweet Dreams are made of this. Who am I to disagree? Eu que não me atrevo, que vivo com o estômago roncando.



É para todos os parceiros e parceiras do Poéticas esta cambalhota faminta! Everybody is looking for something. Quando eu encontrar eu aviso. 

domingo, 11 de março de 2012

Poéticas da Dança I -Living on the edge!

Sim, faz mais de um mês que começaram as aulas e a professorinha está correndo mais que queniano na São Silvestre. 

Há duas semanas começou a segunda fase do Projeto Poéticas da Dança, do Grupo de Pesquisa em Dança, Estética e Educação (GPDEE) do Instituto de Artes da Unesp. A primeira tarefa para o Grupo A foi registrarmos da maneira que quiséssemos como nós estávamos com nosso corpo no deslocamento da casa pro trabalho, nas tarefas cotidianas, na sala de aula e quaisquer outras coisas que quiséssemos contar. 

Como estou fazendo muitas coisas ao mesmo tempo, como tanta gente neste mundo, a única palavra que veio a minha mente foi CANSAÇO. Físico, e também emocional: cansada das mesmas coisas, dos mesmos tratamentos, dos mesmos modos engessados de ver o mundo. De saber que não se é nenhuma Leila Diniz, mas de acabar se sentindo como se fosse, de tão encaretada que está a vida, disfarçada de moderna. 

Até comecei um registro esparso das coisas, gostaria de contar (não só mostrar) aos parceiros e parceiras de viagem algumas coisas sobre a minha (re)descoberta do corpo, mas uma folha A4 com a única palavra que bastava expressava muito mais. Este olhar parece pessimista, mas é o contrário: não jogo a toalha nem a pau! 

Depois fomos convidadas a escolher outro diário de bordo, escolhi o da Bianca, várias linhas paralelas pontilhadas e em cima estava escrito: CORDA BAMBA. Descobri que o cansaço vem daí, eu gosto mesmo é de viver na corda bamba!

Os ombros suportam o mundo
Depois as pessoas se juntaram a partir dos trabalhos que escolheram. Grata surpresa foi a Marília. Também está cansada, aquela Barra Funda cheia de gente é tão anti-poética!  A partir desta discussão, a proposta era criar uma cena corporal que trouxesse à tona estas questões. Aí eu descobri que não tenho sequer metade da força que preciso, mas que tenho que criá-la de algum jeito. Chega um tempo que o cansaço é tamanho que é maior o peso dos ombros sobre o mundo! Mas Marília se mostrou muito mais resistente, aguentou o peso do mundo sobre os ombros muito mais do que eu!

Só a partir deste momento que surgiram as referências que ajudam a contar esta história, algumas deixo para vocês aqui:

Os Ombros Suportam o Mundo
Carlos Drummond de Andrade

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.


Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.


Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teu ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
ANDRADE, Carlos Drummond de. Reunião: 10 livros de poesia. Rio de Janeiro, José Olympio, 1975, p. 55




Se não desisti em 2004, vou desistir agora? 
 Em breve, mais Poéticas da Dança! Esta cambalhota é para vocês!

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Sonho de um sonho 2.0

Há tempos não falo diretamente com vocês que me leem, eu sei. Ando preferindo o discurso indireto, não quero mais falar nada. Deixo que a dor fale por si mesma, deixo que ela cante, grite, role no chão. Não dá para racionalizar este discurso, se isto for mesmo um discurso. Eu queria mesmo era dormir e já acordar em outro ano, outra vida, e que o passou antes fosse tido como uma alucinação, o sonho de um sonho ruim.

Aliás, para que servem os sonhos? Diz o Segismundo que os sonhos, sonhos são. Não necessitam de porquê. Quando a realidade é muito dura e não se consegue olhar diretamente para ela, olhe para seus sonhos. Foram eles que me salvaram de um tombo maior. O que me dói é justamente é esse contato cru com a realidade. Lucidez pura enlouquece. Bem fazia Raulito em misturar a dele com a sua maluquez. 

Falando em sonhos, vou compartilhar com vocês algo que parecem estar procurando.


O segundo texto mais acessado deste cafundó é Sonho de um sonho, mas o texto que ele apresenta é feito de partes do poema original. Era a minha versão deste poema, ou melhor, da Susi, que anda mais viva do que nunca nestes últimos tempos. 

E olha que engraçado, ele agora me retrata inteiro, que acordei que estava sonhando, que queria sonhar mais, que queria que esta realidade bizarra fosse de fato o sonho. Certas coisas nos esperam a vida toda. O Drummond, este livro, este poema, tudo. 

De: ANDRADE, Carlos Drummond de. Reunião: 10 livros de poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 1976.
(Está no livro Claro Enigma). 

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Pedro Rocha – A manteiga derretida mais dura na queda do mundo

Eu era como Pedro, o apóstolo xará: primitivo, turrão, porém havia em mim um coração enorme. Só que não encontrei nenhum Cristo para seguir, então, segui em frente. Troquei o tênis pelo mocassim, a mochila pela pasta e me tornei corretor. De imóveis. Vendi tudo que via pela frente: quitinete, mansão, casa na praia. Ganhei uma grana razoável para estudar e me tornar o mesmo executivo detestável que era o meu patrão. Contudo, eu era jovem ainda, não estava tão preocupado assim com meu futuro. Esse papo de faculdade era mais pra dourar a pílula e manter o meu emprego.

Típico machista idiota, de tanto esquecer meu próprio coração, esqueci que as pessoas têm sentimentos. Mulheres, principalmente. Preconceito bobo esse, porque homens também sentem, mas o fato é que antes do que me aconteceu eu sinceramente acreditava que homens não choravam.

Como num conto dos irmãos Grimm, me apaixonei por uma princesa e, de tanto pisar no seu nobre coração, ela tornou-se sapo ao invés de me transformar em um. Do contrário, passei a ter peitos e sangrar mês a mês e mais do que corpo, me deu mente e coração de mulher. Fui amaldiçoado. Tornei-me objeto do meu próprio desejo e o cartão de crédito não resolvia esse problema.

Entendendo meu objeto de desejo é que começou a penosa volta ao verdadeiro Pedro Rocha, a manteiga derretida mais dura na queda do mundo, de tênis e mochilão nas costas, durango e insatisfeito.

Essa princesa me fodeu. Mas ela jura que foi pro meu bem.

Janeiro de 2005


terça-feira, 4 de outubro de 2011

Solar

                                                            Para meus cachorros

Quem sabe também não estejamos lá
Eu e meus cachorros, 
Às seis horas da tarde, no Viaduto do Chá
À espera do ocaso, se acaso ele chegar.

Trouxe Pozzo e Lucky na coleira, mas nem precisaria.
Eles não avançariam em você nem por um afago, estão tristes como o quê.
Não latem mais, rabos retraídos, a tigela de comida intacta.
Parece até que descobriram que não enxergam em colorido.

Pôr-do-sol no centro da cidade, mas que bobagem.
Só você mesmo para ter uma ideia dessas.
Como se Sol não fosse Sol em qualquer lugar do mundo,
Como se ele só se pusesse em São Paulo.

Esperar o Sol se por é pior que esperar Godot
Ele nunca chega, é justamente o oposto:
Poente é sempre partida. E disso eu entendo
Que estou sempre esperando, que estou sempre de partida.

Você é tão engraçado! Age como um semideus.
Acende um cigarro e pronto,
Procurar sentido é coisa para mortais.
Deixa isso para bestas melancólicas que levam cães para passear como desculpa. 

Você e seus cigarros, eu e meus cachorros.
Não dá valsa nem samba,
Ninguém dança de armadura.                                     
Cada um com seus escudos, paralelos, absurdos.

E quando a noite chegar? Eu fico me perguntando quem vai levar Godot para casa.
Mas é claro que estou variando.
O Sol, Godot, você e até meus cachorros,
Todos já se foram.

Agora, tudo são cadeiras vazias e uma noite sem fim.
Entretanto, sem esperar por mim, novos dias sempre chegam.
Então, antes que eu de fato enlouqueça,
Em vez de pôr-do-sol, é melhor que amanheça. 

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Desdobramentos da visita do Ministro

Já se passou mais de um mês desde que o Ministro da Educação, Fernando Haddad esteve na Comunidade Nossa Senhora de Fátima, no Jardim Elisa Maria. Até parece que não houve desdobramentos nesta história, o que felizmente não é verdade. Eu é que não dei conta de transmitir a notícia, mas como o movimento segue com a sua marcha, não é tarde para falar sobre isso, até porque não vamos encontrar nada sobre este assunto na primeira página de um jornal de grande circulação. Se encontrarmos, vai ser críticas. Pobre estudar, para que? Escola pública de qualidade? Para quem? 

Manhã de sábado fria, chuvosa, chatinha para deixar a cama cedo, mas muita gente não ligou para isso. A comunidade estava lotada, e assembleia pacientemente esperou uma hora a mais que o combinado.  Nem tudo eram flores à espera da visita do ministro. Grevistas do Ensino Federal marcaram presença com um protesto silencioso, apontando para vários problemas que de maneira alguma devem ser ignorados. 

E a quem mais interessa o acesso a vagas de ensino técnico e superior, estava lá e fez bonito. Camila não pensou duas vezes. Olhou bem para a cara do senhor ministro e disse, sem pestanejar, que quer estudar para ter a chance de estar no lugar dele no futuro. O que de fato prova que esta conversa mole de juventude alienada é mais velha que andar para frente. Não era todo mundo. por exemplo, que tomou borrachada e choque elétrico nos Anos de Chumbo. Uma parcela da população jovem, nestes mesmos anos, estava tranquilamente descendo a Rua Augusta a 120 por hora, tomando hi-fi com Gini Crush e dançando um twist, nem aí com a Light, enquanto o pau comia Brasil afora.   



E por fim, a fala de Haddad, que anunciou que a Brasilândia será beneficiada com o Pronatec. O objetivo do movimento agora é a escolha do local onde a escola será construída. Uma das coisas que particularmente eu gostei no discurso do ministro foi ele ter ressaltado a importância de que esta escola tenha um projeto pedagógico condizente com as demandas da população, que dialogue com a realidade do bairro. Se isso realmente acontecer, maravilha. A Educação terá, enfim, servido para alguma coisa séria. 



No Portal do Ó e no blog do movimento tem mais alguma coisa sobre. E como eu já disse, a marcha segue. Estou mantendo contato com Marcos, colega professor e ativo neste movimento, que tem me trazido informações frescas sobre o assunto. No último dia 26 recebi dele o convite:

Queridos amigos,

Escrevo para lembrar a todas e todos que remarcamos a reunião do movimento para o dia 1º de outubro às 14h00.


O local será o mesmo da reunião anterior: EMEF Padre Leonel Franca - Estrada das Taipas altura do nº 2500







Seria importante todos priorizarem, ainda que seja para ficar um tempo apenas na reunião, pois nesse dia teremos os folhetos que todos deverão sair com um punhado para ajudar na mobilização para o seminário.

Sugestão de pauta:

1 - Balanço e avaliação dos últimos dias
2 - Terrenos
3 - Seminário: 22 de outubro
4 - Outras questões

Qualquer dúvida ou proposta, é só responder para todos e pôr em discussão.



Bjo e abraço fraterno

Marcos Manoel



Repasso o convite, e se eu conseguir sobreviver à prova do inglês, quem sabe vocês não me veem lá! 





segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Metaleira, eu?

Engraçado que algumas coisas passam e outras sobrevivem na vida sem pedir a sua licença. Pois é, até eu tinha me esquecido que gostava de Metallica. Banda que me remete a tardes vagabundas na casa da Carol e do Juninho, quando a gente passava horas e horas escutando o Black Album e outras pérolas noventistas, como o Dookie do Green Day, ou Melancholy and Infinite Sadness, do Smashing Pumpkins. Ou ainda sábados na casa da Priscila ouvindo os discos mais antigos do Metallica como o Master of Puppets ou And Justice for All. Mas nostalgia é uma gripe que não me dá mais. Não sinto saudade de mais nada, não lamento mais nada. Para que se apegar a tantas lembranças?


Não sei que milagre aconteceu para a Globo transmitir o show na íntegra, sem aqueles cortes horríveis que ela costuma fazer até em show do Brasa. Não sei que outro milagre ocorreu para eu assistir o show inteiro, sem dar uma cochilada sequer. Na verdade, eu sei. Foi um puta showzaço!


Aí me dei conta: Metallica é uma banda balzaquiana, só um ano mais velha do que eu. Nem no auge, nem decadente, na confortável posição de não ter mais que provar nada para ninguém. Fez umas bobagens na vida - o Load inteiro foi limado deste show sem fazer falta, e do Reload, só foi tocada a única música que presta, Fuel. Não abusaram de hits o tempo inteiro e fizeram um line-up não linear, o que eu gostei bastante. Prova de que o tempo que passa se mistura com o de agora, e ainda com o que está por vir. Não sei o que me espera, e que eu deixei para trás era excesso de bagagem. Viajante que se preza, só carrega o essencial.



No, je ne regrette rien! Só eu mesma para começar falando de Metallica e terminar com Piaf. E daí? 

quinta-feira, 9 de junho de 2011

O impeachment mais rápido da Brasilândia!

Hoje, o coração da professorinha está em polvorosa, porque viu o poder ultrajovem mostrar que não está para brincadeiras. 
Adorei esta bandeirinha de festa junina!
Começou na última segunda-feira, com uma dispensa misteriosa dos alunos no período noturno da escola, com a chegada do diretor designado.  No dia seguinte se descobre que a vice-diretora havia sido dispensada, sem maiores esclarecimentos. Dona Célia Carioca está no JTX desde sua fundação, mas não é este o único fato que mobilizou o protesto primeiro dos professores, e depois dos alunos. Ela conhece a realidade do bairro, de cada pessoa que está ali e sempre fez o seu trabalho com dedicação ímpar. Até quem não morre de amores por ela reconhece este fato. Isto sim moveu a comunidade a reagir contra os desmandos de quem acha que a burocracia vai salvar o mundo, que se consegue mandar só na base da canetada. 

Este diretor que havia sido designado para assumir a direção do JTX já era velho conhecido nosso. "Digam para quem gosta e principalmente para quem não gosta que eu voltei!" foi sua frase de apresentação. Ele ficou na direção da escola no ano letivo anterior, à base de soluções unilaterais, decisões impostas debaixo para cima e discurso focado na burocracia massacrante que caracteriza a educação pública (lembrando, por exemplo, aos professores contratados e efetivos em estágio probatório tinham que "se cuidar", porque era ele quem assinava e deliberava, raçãowhiskasblabláblá...)

Ele até conquistou um pequeno secto de puxa-sacos, como em todo lugar acontece, mas as coisas não foram fáceis para ele por lá. Boa parte do corpo docente do JTX é questionador e combativo, e não é que lá tenha a maior concentração de che guevaras por metro quadrado. Só se trata de um grupo em que as coisas precisam ser explicadas, esclarecidas. E não é bem disso que ele gosta, sabe? Então, acredito que ele voltou para uma desforra e ele é quem foi bem desforrado.

Acha que nossas hérnias e bicos de papagaio nos permitiriam colar um cartaz aí?
Na terça-feira, a primeira reação do corpo docente foi não subir para a aula no período vespertino, para forçar uma explicação. Parados lá ficamos toda a primeira aula e ele aparece. Seu discurso de burocrata não convence e na base de muita prepotência e arrogância, a todo tempo ele tentou usar contra nós os nossos questionamentos. A supervisora de ensino apareceu por lá para abafar o escândalo, pedindo que não prejudicássemos os alunos que estavam sem aulas naquele momento e prometeu uma explicação, que ficou para o final do período. As coisas também não foram fáceis para ela, confesso que ela também não nos convenceu muito. Deixamos avisado que iríamos ao dirigente da diretoria de ensino e assim foi feito. Na quarta-feira pela manhã, fomos recebidos na Norte 1. Cheguei nos 45 do segundo tempo, que foi o que deu para fazer, mas estávamos bem representados. Ele ouviu e argumentou também, se comprometendo a apurar o caso, pois até então não havia nada que desabonasse o então diretor designado regularmente. 

Quando chegamos à escola para dar aula à tarde, com os alunos já inteirados do caso e a escola repleta de cartazes com mensagens de apoio à Célia. Desde a noite de terça, nas redes sociais estava circulando a tag #voltacelia. O movimento dos alunos - totalmente espontâneo, nem um pouco forçado - já estava articulado. As turmas do fundamental, vendo os cartazes deixados pelo pessoal do matutino, aderiram também, escrevendo na lousa, colando etiquetas no uniforme e tudo mais. Para alguns alunos da quintas séries, que chegaram para nós com uma alfabetização sofrível, o Volta Célia virou "vouta celha". (Para vocês verem que os professores destas turmas precisam fazer é milagre, lecionar é pouco). E infelizmente, houve quem joselitasse o movimento. No segundo intervalo da tarde, uma rebelião teve que ser contida!  Parecia o Egito no começo do ano, gente.



O dia letivo ontem acabou com um protesto combinado pelos alunos: que comparecessem à escola hoje de manhã que não entrassem na escola até que fosse dada uma explicação a eles. E foi o que aconteceu: debaixo da chuva e do frio que fez hoje estavam lá, alunos e pais na porta da escola, numa manifestação pacífica, tranquila, mas que incomodou o suficiente para o diretor designado cair fora espontaneamente!

Mesmo com frio e chuva, a galera resistiu!

Eu não estava lá hoje, lecionei na escola da prefeitura pela manhã, mas sempre recebendo notícias frescas no celular e acompanhando o movimento pelas redes sociais na hora do intervalo. Na hora de ir embora, não resisti e abri o Facebook pela última vez. Quanto vi os primeiros vídeos da manifestação que a garotada postou, não resisti e pulei de alegria!



Nos meus tempos de estudante e militante, houve lá algumas lutas, algumas manifestações bem-sucedidas como esta, mas nunca fiquei tão feliz como hoje. Simplesmente porque todo este movimento surgiu de uma juventude que a todo tempo é acusada de ser alienada e individualista. Agora, esta acusação se mostra no mínimo infundada.



Tudo que aconteceu não se deve unicamente ao bom trabalho que a Célia desenvolveu todos estes anos, também porque a galera não aceitou a injustiça e soube protestar! Não houve líderes, não houve incitadores. Todos foram. E o resultado está aí: o impeachment mais rápido da história da EE Prof Jair Toledo Xavier!

Até Sófocles postou a tag no seu twitter!
Agora, uma das atuais vices fica na direção até segunda ordem e Dona Célia, assim que voltar das suas férias (a dispensa aconteceria depois das férias e o bestão já tinha aberto a boca!), volta também a seu posto.

No meio do fogo cruzado, escutei de uma colega: "Você acha que essa história vai dar em alguma coisa? A gente é descartável neste mundo". Os fatos mostraram o totalmente oposto. E contra fatos não há argumentos, não é o que dizem?
Hoje o dia foi deveras longo! Então, uma cambalhota para todos e um grande uuuuuh! para os mandões deste mundo!

quarta-feira, 23 de março de 2011

Hadouken, Zangief!

Ou ainda: Chupa, dentuço!

Rita Lee e Zélia Duncan já disseram: só quem já morreu na fogueira sabe o que é ser carvão*. Hoje fala-se tanto em bullying que até parece novidade. A novidade é a superexposição da vida da molecada através das redes sociais, vídeos no celular e coisas do gênero. O que acabou gerando o cyberbullying,  uma versão ainda mais assustadora deste fenômeno, porque aterroriza e tortura até quando se está fora da escola.


Provavelmente, a agressão foi gravada para depois exaltar o ego do agressor na rede, mas bem que dizem  por aí que só os idiotas são cem por cento autoconfiantes. Este estava tão seguro de si a tal ponto que esqueceu: o trouxa de que ele pretendia tripudiar tinha pelo menos o triplo do seu tamanho, e como não contava que ia levar um hadouken de foder, o tiro saiu pela culatra.

Este assunto caiu nas minhas mãos ontem, através do meu amigo e novo provador de textículos, Porpeta, que postou em seu perfil o link do texto de uma amiga sobre o caso, muito bem escrito e corajoso, porque fugiu da hipocrisia e falou com todas as letras: quem mexe com quem está quieto merece sim levar uma na cara para aprender. Não é revanchismo, é o direito que todos têm de se defender quando sua dignidade é ameaçada.

Sei bem o que é isso, fui vítima de bullying na escola. E digo que é horrível, e olha que não sou de ficar quieta. O motivo: até o ensino fundamental, eu fatalmente era a primeira aluna da sala e visivelmente a protegidinha da mamãe. Estava estampado na minha cara. Alvo fácil para bullies, que eram não só moleques, como pode-se cair na tentação de pensar. Meninas também perseguem com tortura psicológica, agressão física, colocando apelidos, roubando suas coisas. Maldade não tem idade nem sexo definido: não adianta dizer que isso é coisa de moleque ou que é briga de criança que logo passa. 

A minha sorte é que eu nunca fui de sofrer calada, então eu sempre pus a boca no trombone, o que criou uma par de situações hilárias na minha época de escola. Porque sim, a Betona ia com toda fúria de leoa defender sua cria na escola, como uma Dona Florinda vai defender seu Quico. A única diferença é que ela não batia em ninguém, ia reclamar direto na Direção da escola, num voo praticamente sem escala. 

Eu, que não sou nenhum Ghandi, também cerrava meus punhos de vez em quando para acertar meus algozes. E como não tenho juízo até hoje, eu levava uma com qualquer um que mexesse comigo, até aqueles ditos mais perigosos. Afinal, eu também sou mano da Brasilândia, pô!

Uma hora isso acabou passando, hoje acho foi que por conta do meu temperamento explosivo. Como não aguento sofrer calada, faço logo um estardalhaço. Mas na maioria das vezes a vítima de bullying é retraída e não consegue reagir. E quando reage, sai de perto, porque vem muita merda pela frente. 

Casey Heines só revidou o ataque e deu a sorte de ser gravado. Só que esse tipo de reviravolta pode ser muito, mas muito pior. Alguém se lembra do Massacre em Columbine? Não é totalmente aceito o fato, mas considera-se que eles eram excluídos da ala dos descolados, atletas e populares da escola. O que eles fizeram foi coisa de psicopata, é claro, mas nunca se conhece totalmente os demônios que há dentro de cada ser humano. Aqui no Brasil, aconteceu coisa parecida, alguns anos atrás, acho que numa cidade do interior de São Paulo. Antes de se matar, o garoto fez questão de levar a arma pra escola e atirar para tudo quanto é lado.

De tudo isso, o que mais me assusta é a completa ignorância das famílias sobre o fato. Há pais e mães que simplesmente não conhecem o filho que tem ou que não conseguem perceber quando o filho está sofrendo agressões na escola, principalmente a psicológica, mais sutil e perigosa. Mesmo meus pais, que sempre foram super presentes, não entendiam totalmente o quão horrível é ser torturado o tempo todo, principalmente na adolescência, onde a autoestima é algo tão frágil. No caso do Zangief Kid, nem o pai da vítima nem do agressor sabiam do que acontecia com seus filhos.

E a escola? Agora sou professora, este assunto está na pauta do dia hoje, não é coisa do passado para mim. O que tenho a dizer sobre o outro lado dessa história é que é muito difícil identificar bullying em sala de aula, porque: 

1 - O comportamento bully é covarde. Vai aprontar quando não tiver chances de ser pego;

2 - Aquilo que alguns pais e mães não dão conta quando estão com duas em três crianças em casa, deve ser multiplicado por pelo menos 35 no caso do professor em sala de aula. Se a gente parar para resolver  todas as situações de conflito em sala de aula, abandonando todo o resto, dependendo de quão danada é a turma, em meio segundo vai ter gente até no teto. E nós somos responsáveis por TODOS que estão dentro da sala quando estamos em aula. Se alguém se machuca, a gente é que responde pelo fato.

Para a escola, não adianta combater situações isoladas com punições igualmente isoladas. O bullying é um fenômeno que acontece de maneira sistemática e deve ser combatido da mesma maneira pela escola e pela academia. É um absurdo, não se estuda este assunto nas licenciaturas e só agora estudos acadêmicos e livros sobre o assunto estão ganhando alguma notoriedade. Então a escola dos dois garotos que puniu a briga com uma suspensão para os alunos e depois lavou as mãos, está errada. Pode-se até punir para deixar claro que a violência não será tolerada, mas onde toda esta tolerância zero estava quando Casey Heines era constantemente agredido? Como eu disse, é difícil descobrir, mas a partir do momento que se descobre, a escola como instituição deve se posicionar contra isso. O bullying é um câncer da sociedade, que se reflete na escola. Logo, a gente tem que fazer alguma coisa, sim. E rápido.

Defende-se que o agressor não pode ser jogado na fogueira  como herege pura e simplesmente e que também precisa de atenção, talvez até de tratamento. É  mesmo doentio ter que rebaixar o outro para se sentir melhor, isto deve ser cuidado, mas jamais tratando os agressores como coitadinhos. E o bestiário pedagogês adora o jogo do coitadinho. A mídia norte-americana também entrevistou Richard Gale, o menino que tentou agredir Heines e ele diz: "minha mãe diz para eu ter sucesso na vida", chora uma lagriminha de crocodilo, mas depois deixa escapar que não lamenta ter agredido Casey e ainda mente muito mal dizendo que ele tinha sido agredido antes.



O caso Zangief Kid é emblemático, trouxe à tona um assunto importante que deve ser tratado por toda a sociedade. Mas é lógico que o PIG estadunidense reduziu este acontecido a um mero heroes and vilains muito do chinfrim. Casey Heines virou heroi sem ter feito nada heroico, ele só revidou a agressão e isto é instintivo. Colocá-lo nesta posição de maneira tão simplista só incita mais o ódio e apologiza a violência, o que não resolve o assunto. E será que o garoto que antes era tratado como o mosquito-do-cocô-do-cavalo-do-bandido está preparado para tanta exposição na mídia e do dia para noite passar a ter duzentos mil amigos no Facebook? Ele só queria que o deixassem em paz. (Sem contar que agora é o Gale que está sendo perseguido. Reviravolta a là Tom&Jerry esta, hein?)

Mais que um heroi, Casey tornou-se um símbolo de uma situação que só agora está sendo vista pela sociedade em geral com um pouco mais de consciência. Deve-se aproveitar a situação para conversar sobre o bullying não somente dentro das escolas, mas em casa também. Então, pais e mães: por favor, conheçam de fato seus filhos e o que acontece com eles dentro e fora da escola, principalmente  quando estão online.  Isto não é controle, é cuidado. Vítimas de bullying: não sofram calados e não esperem para tomar uma atitude quando se está no limite da razão, como Casey Heines fez. Educadores: não podemos mais ignorar o assunto. Bullying sempre existiu e sempre foi grave, mas na era digital 2.0 conseguiu ficar pior. E para acabar, Bullies:  tomem cuidado com quem vocês batem. Vocês podem apanhar feio. 

Epílogo
Com todo o politicamente correto que nos massacra neste mundo, atire a primeira pedra quem não viu o moleque magricela e dentuço beijando o chão e não pensou: "Se fo-deu!"
(Ok, os mais educados podem ter pensado somente um Bem feito. Mas equivale em sentido.)

segunda-feira, 21 de março de 2011

O Discurso do Obama

Ele não é gago nem rei, mas nem por isso o discurso do presidente dos Estados Unidos da América por aqui foi menos esperado. Eu nem estava acompanhando, estou na fase de pensar na morte da bezerra e no sexo das borboletas, mas hoje fui ler o tal discurso. Estivesse eu na minha fase engajada, pegaria ponto por ponto do que ele disse e ver o que é necessário fazer efetivamente para honrar tão aguardadas palavras, mesmo que eu até tenha feito isso no pensamento enquanto lia. Mas o fato que este textículo de hoje é mais uma rapidinha para se manter em atividade do que para elucubração política.


Fui ouvir Mr. President, da Janelle Monáe, pensando: será que ela e sua turma escreveram essa canção para ele? Nunca tinha feito a associação. Aí, fui ler a letra - meu listening ainda não é lá essas coisas - e pelo menos agora, foi exatamente esta leitura que eu fiz. Afinal, ele se tornou fato histórico por ser o primeiro presidente estadunidense negro, mas ele precisa fazer muito mais para se tornar uma lenda. E ao que parece, até agora quase nada, não? Dançar Single Ladies e matar uma mosca em um talking show é pouco ainda, dear Mr. President, assim como fazer omeletes na Ana Maria Braga não nos mostra a que veio a Presidenta Dilma (gente, eu acho horrível essa história de presidenta, parece, sei lá, governanta!  Em termos de gênero, prefiro os comum-de-dois, como poeta, por exemplo, em vez de poetisa.)

Legal é que acabei traduzindo Mr President. Mandei para a teacher corrigir, mas quem disse que aguento esperar? Lá vai: 

Mr. President
Esta canção é para minha mãe
Esta canção é para você

Ei, Senhor Presidente
Amanhã tenho que pagar meu aluguel
O combustível está acabando
Tenho lugares para ir
E eu não posso parar

Podemos falar sobre a educação das nossas crianças?
Um livro vale muito mais do que uma bomba a qualquer tempo
E lembre-se de olhar para a África
Quem vai trazer-lhes a cura antes que seja tarde demais?

O senhor não vê a dor nos olhos deles?
Tanta desesperança em todos estes rostos
Use seu coração e não seu orgulho
Não podemos seguir em frente fingindo

Por favor, senhor presidente
Onde está todo o dinheiro que gastou?
A comida está acabando
E eles não têm para onde ir 
Então, não me segure

Peço que tenha misericórdia de nós, pai
Você acha que sabemos das regras até então
Mas não podemos seguir iniciando guerras com corações cheios de ódio
A ganância por outras nações não vai melhorar as coisas
Ou aquietar os temores em nossos corações

O senhor não vê a dor nestes olhos,  desesperança em todos estes rostos?
Use seu coração e não seu orgulho
Não podemos seguir em frente fingindo

Caro Senhor Presidente
Espero que tenha recebido a carta que mandei
Um dólar vai embora tão rápido, não importa quem sejamos

Veja, viemos de diferentes mundos e lugares
Até que haja uma terra prometida, uma nação enviada por Deus,
Os tempos vão ficando difíceis
Precisamos de você como a um Moisés para conduzir seu povo
Por favor, tenha cuidado, esteja atento
Com o que você faz

Sobre Janelle, só tenho uma coisa a dizer: a neguinha é mesmo foda. Não se encontra clipe desta canção, só boas versões de anônimos. Esta aqui arrasou:



Boa cambalhota noturna, texticular audiência! Enjoy it!


quarta-feira, 16 de março de 2011

Vamos brincar perto da usina

A capacidade do ser humano em ser egocentrado (leia-se: egoísta mesmo) é absurdamente incrível. Somente nesta semana que assisti a alguns noticiários e li alguns jornais sobre o terremoto-tsunami-acidente nuclear do Japão. De fato, desgraça pouca é besteira. Se vem, vem de lote e a galope. 

Do outro lado do mundo, o caos está completamente instalado em uma situação que só se compara a Segunda Guerra Mundial, que deixou o Japão afundado na lama. E mesmo assim  eu  só conseguia pensar em mim! Agora me sinto péssima por isso. Poderia ser qualquer um de nós! Ou ainda acha que no Brasil não existem desastres naturais? Faz-me rir! Aqui já aconteceram e acontecem terremotos, vendavais, enchentes,  queimadas, deslizamentos de terra. A Natureza é caótica, irmãozinho. Não tem nada a ver com ira dos deuses. Todas estas pessoas foram vítimas do acaso. 

Este último parágrafo é feito de um cinismo dos mais sentimentalistas e baratos. Mesmo com todo este mea-culpa, eu ainda penso só em mim. É que também o PIG é foda, né gente? Quando começa com uma coisa, não para mais. A avalanche de informações é tamanha que chega um ponto em que você filtra para não enlouquecer. O pior efeito colateral deste processo é perder a sensibilidade, anestesiar-se por completo. Odeio muito tudo isso. Aí volto para meu mundinho de textículos e intrigas. 

Na verdade, todo mundo é um pouco assim. Por isso é que gosto tanto deste poemínimo do Mário Quintana. Quem tiver a cara de pau de dizer que Quintana estava enganado, que atire na professorinha.  
 
A nós bastem nossos próprios ais,
Que a ninguém sua cruz é pequenina.
Por pior que seja a situação da China,
Os nossos calos doem muito mais...
 
O fato é que as notícias sobre o acidente em Fukushima, e a reportagem sobre Shernobyl vinte e cinco anos depois do desastre me evocou algo bem mais corriqueiro. Lembrei de Angra dos Reis, da Legião. Uma das minhas canções de amor preferidas que titio Renato escreveu. 

Vamos brincar perto da usina. Brincar com radiatividade, perigo. Amar é bem assim mesmo, um constante brincar com fogo. E achar que não é nada. Pra que se explicar, se não existe perigo? Não adianta chorar, se por um acaso se queimar. É assim mesmo.

Não estou com dor-de-cotovelo, muito menos compatível com o nível da canção, só estou um pouco atônita. Angra dos Reis, porém, faz parte do meu relicário de lembranças adoradas. Mesmo se as estrelas começarem a cair, me diz: para onde é que a gente vai fugir?

É o que está acontecendo comigo. Estou das duas, uma: ou em ponto de fuga, ou em ponto de bala. Deixa pra lá, vai. A Angra é dos Reis.



Boa cambalhota noturna, gente! Urbana Legio Omnia Vincit!