Mostrando postagens com marcador Educadora em Chamas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Educadora em Chamas. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Parte II - O que fazer com o muro?

(Segunda Parte do meu Festival de Bobagens: Sur le non sens (das bobagens): O que se aproveita?)

Neste caso, não é exatamente uma bobagem, muito pelo contrário. Eu estava falando do meu trabalho e da minha pesquisa, mais precisamente de como é difícil persistir em propostas que partem de pressuspostos completamente diferentes do que regem a escola. Mas como estas questões desafiam não só meu intelecto e sim minha vida inteira, eu devo ter falado demais. Feito da aula terapia, por mais que eu não quisesse.

Entendam, não se trata de fazer da aula um Muro das Lamentações. Trata-se de estar fartx de tantos muros, os reais e os invisíveis. Trata-se de o quanto estes muros doem (mais aqui).  E, evidentemente, de nem sempre saber o que fazer com eles. Ou de identificar onde exatamente os muros conceituais estão.

Prof. Carminda, porém, com seu blend de perspicácia com delicadeza e ternura, soube fazer a síntese. Ela disse que quando a gente descobre onde está o muro, imediatamente a gente sabe o que fazer com ele. Esta é a tarefa da minha pesquisa e da minha vida, enquanto professora de Arte de escola pública.

Esta é a primeira tarefa. Muro de Berlim, 2015.

A imagem do muro me afeta profundamente já há algum tempo, e a experiência de ver o que sobrou do Muro de Berlim apenas me fez ver com meus próprios olhos o horror que estes muros representam. E como ainda não aprendemos a eliminá-los.
Primeiramente, Berlim não se desfez completamente do muro. Por onde ele passou, existe uma marca (duas fileiras de paralelepípedos, cortando ruas, calçadas, ciclovias) e às vezes a placa:

A Cidade e suas cicatrizes. Provavelmente perto da Postdamer Platz, 2015.
O que restou do Muro, de fato, é o memorial chamado Topographie des Terrors (Topografia do Terror), exatamente em frente onde ficava a sede da Gestapo. Mesmo que memórias reeditadas fiquem mais organizadas e ganhem um certo verniz, a atmosfera mantinha seu horror. Apesar de um sol bonito ainda brilhando às oito da noite no verão berlinense.


Topographie des Terrors, 2015.
Estes painéis mostram a história desde a conjuntura política pós-Primeira Guerra (República de Weimar) até a ascensão e queda do Nazismo. (Sim, fiz a turista louca e tirei foto de quase tudo, mas também eu li.) E o que estes painéis me mostraram? O quão estamos próximos, aqui no Brasil, deste clima que favoreceu o surgimento do Nazismo, na Alemanha. E depois, nas aulas sobre Currículo e Formação de Professores, ministrado pelo meu orientador, Prof. Palma, ele cita um livro (ou uma coleção, não sei ao certo, mas provavelmente este), em que diz que a educação escolar autoritária durante a República de Weimar foi fermento na massa do regime nazista. (Encontrei uma referência aqui também).


O antigo muro, agora protegido por grades. Virou “peça de museu”...
Esta citação ao muro de Berlim é para mostrar como ele ainda pode existir, apesar da tentativa em envidraça-lo e fazer dele acervo do mundo. (Aliás, como ainda está existindo, atualizado na forma dos muros levantados nas fronteiras para barrar os refugiados que tentam se salvar na Europa, por exemplo), e para refletir sobre como a Educação pode ajudar a construir estes muros.
...E também como pode destruí-los, em que pese a Ocupação das Escolas pelxs estudantes secundaristas da Rede Estadual de São Paulo, movimento este que soube usar os muros da escola a seu favor.
Sonhando com uma vida sem muros, apesar de ainda estar aprendendo a lidar com eles. Por enquanto, estou estudando suas fissuras, por onde algum vento de transformação pode soprar.

 

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Sobre Formação de Professores: parem de nos tratar feito imbecis

     Primeiro preciso dizer que este não é um artigo acadêmico, no sentido mais estrito do termo. Não procedi com uma coleta rigorosa de dados, para depois fazer uma análise fria dos mesmos. Aliás, como tudo que já escrevi aqui, as reflexões de hoje vem fumegando, como bala que já cheira a sangue:


Eu tenho o maior prazer em descobrir coisas novas, sempre gostei de estudar. Então, eu simplesmente não consigo fazer nenhum curso, formação, oficina só para pontuar. (Quem é professor da Rede Municipal sabe: sempre almejamos evoluir, se não espiritualmente, ao menos na folha de pagamento. Somos verdadeiros Pokémons em busca da evolução). A maioria de nós trabalha em mais de um cargo/emprego, fazemos cursos (estão lembrados da evolução?), os casados/pais/mães tem que cuidar da casa e filhos e se sobrar algum tempo depois de tudo isso, viver. Quem sabe fazer alguma coisa que realmente nos traga prazer e satisfação. (Aliás, sobre isso, não me faço de rogada: eu gosto mesmo de estudar e de me aprimorar no meu ofício. Por incrível que pareça, diminui a angústia quando vem aquela sensação de impotência que todos nós professores experimentamos frequentemente). Justamente por gostar de estudar e pela agenda apertada, tenho que ser seletiva na hora de escolher uma formação, oficina ou curso. E posso dizer que vale a pena adotar esta postura, porque tive experiências incríveis, que realmente agregaram valor ao meu camarotezinho de professora da rede pública.
Uma delas faz parte do arquivo dos TM, o curso de extensão universitária Poéticas da Dança na Educação Básica (IA/UNESP, 2012). A última fase do curso - o projeto com meus alunos - nem foi relatado aqui por uma absurda falta de tempo já citada anteriormente. Como tudo que opera no plano real, não foi perfeito. Durou pouco tempo em relação aos objetivos que estabelecemos na equipe, porém até hoje as crianças (que ainda são meus alunos) se lembram da experiência e falam dela. Espero conseguir fazer meu trabalho de campo do mestrado com alguns destes mesmos alunos. (Se isso acontecer, a professorinha pesquisadora em formação vai ter um treco de felicidade acadêmica!).
As três vezes em que fiz parte do Descubra a Orquestra, da Osesp foram inesquecíveis e valeram mais que meus anos de estudos de música no modo tradicional. Tivemos estudos teóricos, discussão e também aprendemos ferramentas úteis para o trabalho – às vezes parecem que essas duas coisas não combinam, mas combinam, tem que combinar. Aliás, se não combinarem numa formação, corra: é uma cilada, Bino!


          
E outra experiência recente sensacional foi o Encontro para Professores de Arte da Rede Municipal de São Paulo em agosto do ano passado, no IA da UNESP, promovido pelo Grupo de Pesquisa em Formação de Professores, capitaneado pela Prof.ª Luiza Christov. Além das oficinas que podíamos escolher (fiz uma sobre Aikidô e suas possibilidades de administrar conflitos pacificamente), o mais incrível foi a postura de escuta adotada pelo grupo: não fomos lá simplesmente para ‘receber’ formação. As narrativas coletadas no encontro foram discutidas, documentadas e resultaram numa ação prática: já assinou a petição online solicitando à Secretaria Municipal de Educação mais uma aula de arte no currículo do 1º ao 5º ano? Assina, gente!


Estas são algumas das experiências mais marcantes que tive, sem contar a epopeia pelo mestrado no Instituto de Artes da UNESP e meu contato com a Professora Sandra Batistão, que nos levou a pensar para além das questões que faziam parte da formação, que sozinha já tem tanto a se dizer e fazer (inclusão de alunos com deficiência intelectual). Mas em termos de formação continuada de professores, ainda se caminha a passos de centopeia lesa e isso me deixa beeeem irritada. Vou apontar o que considero falho e soluções possíveis. (Vai que eu seja lida e ouvida pelo ministro ou secretário da educação municipal, não é? Otimismo é tudo nessa vida, gente!)


A primeira delas consta no PME (Plano Municipal de Educação de São Paulo, rede onde atualmente trabalho), mas possibilidades reais e avanços, eu como recente mestranda não vejo: aumentar a quantidade de docentes mestres e doutores na rede. Pós-graduação scrictu sensu exige, entre outras coisinhas, dedicação em muita leitura e pesquisa, trabalho de campo, escrever e revisar, tudo isso dentro dos prazos dos programas das universidades (dois anos para mestrado, por exemplo). Isso demanda horários flexíveis (as aulas dos programas quase nunca são num período só) e dinheiro. Ou você tem bolsa, ou trabalha. O que temos de fato nas redes de ensino, como já citei, são jornadas acachapantes e nada flexíveis. O mínimo que se poderia fazer para aumentar a quantidade de professores pesquisadores, com pós-graduações scrictu sensu, seria uma licença sem prejudicar os vencimentos, específica para este fim e que nem precisaria durar todo o tempo do programa de pós. Isto existe na nossa Rede? Ando procurando e não encontrei ainda. O que há é uma licença para apresentar trabalhos científicos em congressos, que já utilizei duas vezes. (Mas se não há tempo para pesquisa, vamos apresentar o quê? Trabalhos acadêmicos não são recebidos por inspiração divina). Ficar recebendo formações continuadas tem seu mérito, mas não é tudo. Se quiséssemos mesmo melhorar a qualidade da educação do país, seria necessário encorajar os docentes a buscar seus próprios caminhos, pesquisando e compartilhando suas soluções. O sistema educacional da Finlândia por exemplo, que tanta gente ama idolatrar, exige para o exercício docente no mínimo o grau de mestre. Temos excelentes programas de pós-graduação em educação aqui – inclusive mestrados profissionais em rede específicos para professores - porque não usamos? E se usamos, temos que fazer milagres dignos de Matrix para dar conta do programa + jornada de trabalho. Se você é um mestrando ou doutorando dentro da escola, salvo raras exceções, será tratado como um ET. Prepare seu OVNI.

Outra coisa que me intriga é: se o docente tiver uma real proficiência em um segundo idioma, porque não se pode entregar sua certificação para pontuar? Isso existe em uma alguma rede pública de ensino do país? Nas que eu trabalhei/trabalho não existe essa possibilidade. E mais: cursos de um segundo idioma oferecidos em formação continuada só existem para professores de LEM (língua estrangeira moderna). Ou seja, você só pode falar inglês se for professor de inglês. If you are not, forget it! (Será por isso que tantos alunos fazem cara de ué se descobrem que um professor que não é de LEM ou de língua portuguesa fala outro idioma?)

O tempo que se perde com obviedades em alguns cursos, oficinas e afins que são um verdadeiro desperdício de tempo e energia é o que mais me indigna deste pequeno compêndio de problemas com formação continuada de professores. Talvez seja o que mais me irrita porque é o mais simples de resolver de todos que estou elecando aqui e não se resolve, porque vida de professor é muito fácil e precisa de uma emoçãozinha a mais. Desde a graduação, tenho uma coleção de casos – que é lógico que não vou contar, para não ser decapitada - em que somos tratados como verdadeiras bestas quadradas, nivelados previamente para baixo do centro da terra. Então, fica a dica: parem de nos tratar como imbecis. O mundo não é necessariamente aquilo que a gente pensa, né?

Essa é para fechar a madrugada que logo mais tem aula. Citando Giovanni Improtta: vamos embora que o tempo urge e a Sapucaí é grande!

           Um beijo, José Wilker!

(Se você não entendeu a piada, clique.)

domingo, 29 de abril de 2012

Poéticas da Dança III - Subvertendo escadas

Uma flor nasceu na rua!
Furou o tédio, o asfalto e o nojo. 
Carlos Drummond de Andrade
I
O antepenúltimo encontro do Poéticas deu o que dançar. Sempre dá na verdade, mas a proposta da vez foi a  mais ousada - e divertida -  até então. 

Quantas vezes reclamei espaço, quantas vezes me vi derreter nas paredes de tédio. Algumas vezes o reivindiquei, outras, inventei. 

Na escola, reivindicar e inventar às vezes é pouco! É preciso transformar. Paredes cinza, bege ou qualquer cor inexpressiva, de preferência horrível. Grades, cadeados, chaves. Por que a gente é assim? Sinceramente, não sei. Quando cheguei já era deste jeito, e a gente só começa a entender a partir do intento de mudar. Eu poderia arriscar explicações a respeito disso, mas o momento é visceral. Deixo para os teóricos teorizarem. 



Para viver são necessários espaços vazios. Experiência não acontece a partir de lugares repletos de tralhas. E nunca vi numa escola, nas quais estudei ou trabalhei pelo menos, uma única sala que pudesse ser esvaziada. Nem a sala de vídeo escapa, vira almoxarifado em época de recebimento de materiais e insumos enviados pela Rede. Até as tentativas de deixar o ambiente mais alegre deixam o ambiente atulhado. Montes de cartazes, desenhos, frufrus e afins fariam Mies Van der Rohe se retorcer no túmulo. 

E como a professorinha se move nestes não-espaços?  Como propor que os alunos se movam nestes espaços em que se configurou no chão uma trilha batida? Como criar realidades poéticas dentro desta realidade engessada?

Este, a meu ver, foi o ponto de partida do último encontro, que culminou numa proposta de intervenção, primeiro nas escadas do IA, depois no Terminal da Barra Funda. 

II
Moro num sobrado, escadas fazem parte da minha vida desde cedo. Minha frustração de infância é que elas não possuem corrimão, para escorregar feito Lucas Silva e Silva em O Mundo da Lua. Mas, pensando bem, sem o corrimão, dava para pular dos degraus direto para o chão, começando dos mais baixos para os mais altos. Subir de dois em dois, depois de três em três degraus. Descer batucando com os chinelos, saber quem subia as escadas pelo ritmo dos passos. Subverter escadas, então, é uma antiga diversão. Seria agora a hora de subverter novas escadas?



Primeiro, as escadas do próprio IA. Mudanças de nível, planos, corrimões... A criança aqui se quebra toda, mas se diverte! Depois o grupo foi dividido em dois, e foi proposto pensar uma improvisação no esquema Viola Spolin (onde, quem, o quê), dentro do espaço da escada. Agora, parei para pensar como a realidade que a gente cria pode ser muito mais forte que aquilo que a gente vê: no momento da improvisação, a escada já não era mais escada, era cachoeira. Era capaz da gente terminar a cena ensopadas!

III
E então, o ápice do encontro: escada por escada, no Terminal da Barra Funda é o que a gente mais encontra. Vai para lá todo o bando: alunos, professoras, coordenadores, equipe de vídeo. A gente tinha 15 minutos para montar uma intervenção, a partir de duas palavras dadas.

Pressa e Contemplação. Pressa existe de sobra nestas escadas, mas há espaço para contemplação? Tivemos que criá-lo. É muito engraçado, já no ensaio a gente já tem uma prévia dos olhares com que vai se deparar. Os de estranhamento são a maioria, mas a gente também encontra quem se diverte com uma pausa nesta marcha interminável rumo a lugar nenhum.

Apresentar o nosso grupo foi moleza: a gente ensaiou com a escada vazia, mas a hora de fazer a cena foi um momento de pico, o que para nós foi uma puta sorte.

O segundo grupo escolheu uma escada rolante, o que acabou fazendo com que outras personagens involuntárias entrassem para a cena como antagonistas. Três, como as feiticeiras de Macbeth, para ser mais exata. Uma delas era a Segurança, a outra era Burocracia e a terceira, Incompetência. A direção do terminal já havia autorizado as intervenções, a Prof. Kathya estava lá com o documento comprovando a autorização e ainda assim ninguém sabia de nada, e fizeram tudo para impedir. Kathya e Roberto em cima tentando negociar, a gente embaixo, esperando com cara de glúteos com um monte de seguranças em volta. Acho que eles pensaram que dentro da câmera tinha uma bomba, ou que seria gravado um clipe póstumo do Michael Jackson, sei lá.




Quando as palavras falham, parte-se para a ação. Uma hora a Bianca se encheu de tudo isso, deu uma olhadela esperta para as outras meninas do grupo e saiu correndo subindo as escadas rolantes que desciam, e a cena acabou acontecendo. Tudo que eles fizeram para impedir, virou parte da cena: desligar as escadas, tentar impedir de quem estava embaixo subir.

Pelo menos em mim, o sentimento que este episódio foi um misto de indignação com riso. Indignada como num país e numa cidade cheia de problemas, uma intervenção de dança em um local público causa mais comoção e preocupação que se alguém tivesse sido assaltado lá dentro, e o rindo de tudo isso porque gente normal é mais louca que a gente pensa.

E a cada escada que subo ou desço naquele terminal ainda hoje, um pouco deste riso ainda permanece. Sempre me lembro da Marília, que sempre detestou aquele terminal: você ainda vê aquelas escadas da mesma maneira?

Conseguimos furar o tédio, o asfalto e o nojo, pelo menos por um dia, e o valor disso é incalculável.

É para todos nós esta cambalhota! Em breve, o registro de mais encontros!

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Poéticas da Dança II - Descendo para o Playground


O segundo encontro do Poéticas da Dança fez todo mundo descer para o play e ir brincar. Essas meninas são danadas, sabem o que estão fazendo. Ao ler o texto da Isabel Marques durante a semana, já me deu uma vontade incrível de brincar. Eu sempre proponho brincadeiras com meus alunos, mas como eu tenho estar atenta a uma série de coisas, como o tempo, o espaço que precisa ser modificado, a organização e a bendita da disciplina, estou o tempo todo fritando o peixe e olhando o gato. A minha vontade, então, era de brincar como brincava quando criança: brincar por brincar, porque eu quero, porque é bom. 


Então, no último dia 17 de março, a sala de dança do IA havia se transubstanciado em um playground para crianças mais avançadas em idade, mas o negócio tinha cara de ritual e não de aula: sem dizer palavra, uma das meninas me entregou a almofada de jogar amarelinha. Depois, era só circular: pular corda, elástico, jogar bola e tudo acabou com um Siga o Mestre, em que o mestre era todo mundo e ninguém ao mesmo tempo. 


Na segunda parte do encontro, a ideia era estabelecer uma relação do texto da Isabel Marques com nosso espaço de trabalho: "Em que momentos da rotina escolar você percebe os 'corpos lúdicos' e 'não lúdicos'? De que maneira ou em quais momentos sua prática contribui para reforçar a construção de  corpos 'não lúdicos'? Em quais momentos você se contrapõe?" 


Com a canção da Dani Lasalvia e as perguntas escancaradas ali no diário de bordo, eu caí em mim e fiquei triste por alguns momentos. Querer brincar num espaço tão anti-lúdico e anti-poético como o espaço da escola se configura tantas vezes é um grande desafio para professores (que querem ser) brincantes. E ele estava lá, bem na minha frente. Que será, será?





Neste ponto a minha metralhadora verbal ligou-se sozinha. Eu vivo esta ansiedade o tempo todo. Quero brincar com meus alunos, não ensinar a brincar. Às vezes eu caio nesse erro, não sei se eu já disse isso aqui, mas a professorinha cansou-se de ser didática, daquela que nos "ensinaram" desde os primeiros momentos na escola: professor é um semideus que ensina. Por mais que eu tente ir na direção contrária, eu ainda carrego este repertório. É como subir uma escada rolante que desce, saca? 

"(...) Esqueçam também aquela ideia de que vamos ensinar alguma coisa para vocês. É muita pretensão da nossa parte acreditar nisso. Aprende quem quer aprender, e ninguém aprende sem se colocar a mão na massa, sem dar a cara para bater e isto, nós, os professores, não podemos fazer por vocês. O máximo que nós podemos fazer é indicar caminhos, e nenhum será atraente para todos ao mesmo tempo. (...)"


Depois partimos para os jogos teatrais, brincadeira muito da boa que felizmente fez parte do repertório primeiro da minha graduação. Este sistema, quando bem aplicado - perdão pela palavra não-acadêmica- é foda! Subversivo, libertador, inteligente, divertido. Quem começa, não quer mais parar. Jogamos um jogo de escultor e esculturas que se metamorfoseava em dança. Comentar e analisar o que visto/jogado  é parte fundamental do sistema de Jogos Teatrais e durante a avaliação da nossa sessão vimos (ou revimos) os princípios que regem este sistema que para ser libertador, precisa ser de uma disciplina livre e orgânica, nunca imposta. E conseguir isto não é nada fácil, mas é possível!


Antes de findar esta cambalhota e já emendar uma outra, deixo para vocês o que as brincadeiras da minha infância me mostraram da vida: 


"A gente fica olhando a corda bater no chão. As outras crianças já estão cantando "Um homem bateu em minhaporta e eu a-bri!". E a gente lá, entre a ousadia e a cautela, tentando achar a hora exata de entrar. Depois que a gente entra, porém, não pode parar de pular, porque é arriscado levar um tropeção. (...). Eu sei, eu também sou assim. "Porque eu sou medrosa. Mas se eu desço pro play é pra brincar"!"


Ps: Não sei se autocitação é falta de criatividade ou de tomar vergonha e escrever algo novo, mas a questão é muito simples. Não é de hoje que estas coisas me incomodam, e acolho estes incômodos: se não me incomodassem, jamais tentaria mudá-las, certo? 

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Três de Espadas


Três sabres afiados
Cravados no peito sem anestesia.


O lombo já não sangra mais, a carne está seca.
Correndo pela arena,
Já não tem mais graça meter os chifres no toureador.

sábado, 15 de outubro de 2011

Aos alunos, com carinho

Esta cambalhota é para o poder ultrajovem 

Todo ano eu penso em escrever no Dia dos Professores, mas nunca faço, por vários motivos. O primeiro deles é o cansaço. Outubro é o mês da ladeira da preguiça, quando ela fica mais inclinada, perto do topo. O outro é que modestamente penso que nós precisamos de respeito e não de homenagens, apesar de agradecer todo o carinho dos meus alunos, que brigam para apagar a lousa e carregar meu material todo santo dia (risos); dos meus colegas, principalmente aqueles que não perdem o bom humor frente à árdua ralação dentro e fora da sala de aula e da minha família, que ainda se orgulha de ter uma professorinha no clã. O terceiro é que durante o ano inteiro, meu ofício me instiga a escrever. Para quem nunca provou textículos, tente o marcador Educadora em Chamas ou Professorinha para comprovar o que estou dizendo. 



Pensando melhor, tenho mais motivos e mais convincentes para fazer este textículo do que para não fazê-lo. O papo é diretamente com meus alunos. O negócio é com vocês, molecada. Esqueçam aquela conversa de futuro. Educação não é para o futuro, é para o presente. Se existir algum futuro, será consequência. Esqueçam também aquela ideia de que vamos ensinar alguma coisa para vocês. É muita pretensão da nossa parte acreditar nisso. Aprende quem quer aprender, e ninguém aprende sem se colocar a mão na massa, sem dar a cara para bater e isto, nós, os professores, não podemos fazer por vocês. O máximo que nós podemos fazer é indicar caminhos, e nenhum será atraente para todos ao mesmo tempo. E o melhor que vocês tem a fazer é ao menos olhar nas direções que a gente aponta. Só assim vocês vão descobrir o que gostam de fazer e o que fazem melhor. 

Professores, em primeiro lugar, são seres humanos. É prerrogativa nossa errar. Professores não são pais, nem mães (pelos menos dos alunos), nem psicólogos - a não ser que seja professor de Psicologia! - nem juízes ou delegados (com alguma sorte vocês podem encontrar alguns em faculdades de Direito). O Magistério é um ofício, nada mais do que isso. Não é sacerdócio, nem martírio. Perde-se muito tempo confundindo as funções, criando um desgaste horroroso e desnecessário. Por isso tantos colegas enlouquecem - de verdade. A carga emocional é mais pesada que a intelectual e nas licenciaturas (cursos  para formação dos professores), só se fala, lê e pratica questões a respeito da segunda e não se fala NADA a respeito da primeira, talvez porque não seja mesmo o nosso ofício ser madres-teresas-de-calcultá e mahatmas-ghandi da Educação. 

Então, ô garotada! Parem já com esta palhaçada de colocar seus professores ora no pedestal, ora na ante-sala do inferno, porque a gente é normal - e de perto ninguém é! O poderzinho que nós temos na mão é como as forças armadas da Suíça, não serve pra nada! Se obedecer é chato, mais chato ainda é ter que ficar mandando. E além do mais, tenho o direito de ter prazer em fazer meu trabalho, porque Educação, pelo menos para mim é isso - descobrir possibilidades, talentos, habilidades, e tudo isto é diversão para mais de metro! Vou ter marcado o gol de placa da minha vida toda se vocês aprenderem a cultivar este gosto também, porque foi por isso que me tornei professora - por um amor tão grande ao conhecimento e ao ser humano. O resto são papéis, e isto o vento leva. 

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Desdobramentos da visita do Ministro

Já se passou mais de um mês desde que o Ministro da Educação, Fernando Haddad esteve na Comunidade Nossa Senhora de Fátima, no Jardim Elisa Maria. Até parece que não houve desdobramentos nesta história, o que felizmente não é verdade. Eu é que não dei conta de transmitir a notícia, mas como o movimento segue com a sua marcha, não é tarde para falar sobre isso, até porque não vamos encontrar nada sobre este assunto na primeira página de um jornal de grande circulação. Se encontrarmos, vai ser críticas. Pobre estudar, para que? Escola pública de qualidade? Para quem? 

Manhã de sábado fria, chuvosa, chatinha para deixar a cama cedo, mas muita gente não ligou para isso. A comunidade estava lotada, e assembleia pacientemente esperou uma hora a mais que o combinado.  Nem tudo eram flores à espera da visita do ministro. Grevistas do Ensino Federal marcaram presença com um protesto silencioso, apontando para vários problemas que de maneira alguma devem ser ignorados. 

E a quem mais interessa o acesso a vagas de ensino técnico e superior, estava lá e fez bonito. Camila não pensou duas vezes. Olhou bem para a cara do senhor ministro e disse, sem pestanejar, que quer estudar para ter a chance de estar no lugar dele no futuro. O que de fato prova que esta conversa mole de juventude alienada é mais velha que andar para frente. Não era todo mundo. por exemplo, que tomou borrachada e choque elétrico nos Anos de Chumbo. Uma parcela da população jovem, nestes mesmos anos, estava tranquilamente descendo a Rua Augusta a 120 por hora, tomando hi-fi com Gini Crush e dançando um twist, nem aí com a Light, enquanto o pau comia Brasil afora.   



E por fim, a fala de Haddad, que anunciou que a Brasilândia será beneficiada com o Pronatec. O objetivo do movimento agora é a escolha do local onde a escola será construída. Uma das coisas que particularmente eu gostei no discurso do ministro foi ele ter ressaltado a importância de que esta escola tenha um projeto pedagógico condizente com as demandas da população, que dialogue com a realidade do bairro. Se isso realmente acontecer, maravilha. A Educação terá, enfim, servido para alguma coisa séria. 



No Portal do Ó e no blog do movimento tem mais alguma coisa sobre. E como eu já disse, a marcha segue. Estou mantendo contato com Marcos, colega professor e ativo neste movimento, que tem me trazido informações frescas sobre o assunto. No último dia 26 recebi dele o convite:

Queridos amigos,

Escrevo para lembrar a todas e todos que remarcamos a reunião do movimento para o dia 1º de outubro às 14h00.


O local será o mesmo da reunião anterior: EMEF Padre Leonel Franca - Estrada das Taipas altura do nº 2500







Seria importante todos priorizarem, ainda que seja para ficar um tempo apenas na reunião, pois nesse dia teremos os folhetos que todos deverão sair com um punhado para ajudar na mobilização para o seminário.

Sugestão de pauta:

1 - Balanço e avaliação dos últimos dias
2 - Terrenos
3 - Seminário: 22 de outubro
4 - Outras questões

Qualquer dúvida ou proposta, é só responder para todos e pôr em discussão.



Bjo e abraço fraterno

Marcos Manoel



Repasso o convite, e se eu conseguir sobreviver à prova do inglês, quem sabe vocês não me veem lá! 





sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Ministro da Educação visita região da Brasilândia para anunciar programa de expansão das escolas técnicas e Universidade Federal


Exibir mapa ampliado

Eu moro neste bairro há 25 anos e há pelo menos quatro também trabalho nele. Logo, não posso me furtar a divulgar este evento, apesar de não estar envolvida no movimento que resultou nele. Conheço quem está envolvido neste movimento, que tem consistência e a informação é quente.


O deputado estadual Simão Pedro irá acompanhar, no próximo sábado (20), a visita do Ministro da Educação, Fernando Haddad, à Comunidade Nossa Senhora de Fátima (região episcopal da Brasilândia). A convite do Bispo Dom Milton Kenan Jr, Haddad irá ouvir as demandas de sua pasta - educação, além de conversar sobre a criação de uma Universidade Pública na região Norte / Noroeste, o Pronatec (Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego) e a expansão das escolas técnicas.
A expectativa é que mais de 300 pessoas das subprefeituras da Brasilândia/Freguesia do Ó, Perus/Anhaguera, Pirituba/Jaraguá e parte de Casa Verde e Cachoeirinha compareçam neste evento.
O quê: Fernando Haddad na Brasilândia
Quando: 20 de agosto (sábado)
Horário: 10h
Local: Comunidade Nossa Senhora de Fátima – Rua Rômulo Naldi, 68, Jardim Elisa Maria 



Dispensa comentários, mas eu vou fazer. Mestres, doutores, mestrandos, doutorandos, e quem mais for: isto é chance de mais emprego, mesmo que esta universidade não lhes interessem de maneira direta. Para quem mora no bairro, nem se fala: a Brasilândia é um destes lugares que o mundo esqueceu, digo o poder público. Mas para ter visibilidade, o povo tem que se manifestar! Na minha cabeça dura idealista, era para este evento estar lotado de professores que trabalham por aqui na base do giz-lousa-e-saliva todos os dias, que são ameaçados, que correm riscos de vida, que precisam conviver com o tráfico, e todas estas coisas que estamos cansados de saber. Mas já cantei a bola aqui na escola, de onde eu escrevo, e a pouquíssimas se interessaram. Será mesmo que estamos insatisfeitos? Insensato Coração e quem matou a Norma é muuuuuuuuuito mais interessante. 

Só sei que eu estarei lá. Como diria Chapolin Colorado: sigam-me os bons! 

quinta-feira, 9 de junho de 2011

O impeachment mais rápido da Brasilândia!

Hoje, o coração da professorinha está em polvorosa, porque viu o poder ultrajovem mostrar que não está para brincadeiras. 
Adorei esta bandeirinha de festa junina!
Começou na última segunda-feira, com uma dispensa misteriosa dos alunos no período noturno da escola, com a chegada do diretor designado.  No dia seguinte se descobre que a vice-diretora havia sido dispensada, sem maiores esclarecimentos. Dona Célia Carioca está no JTX desde sua fundação, mas não é este o único fato que mobilizou o protesto primeiro dos professores, e depois dos alunos. Ela conhece a realidade do bairro, de cada pessoa que está ali e sempre fez o seu trabalho com dedicação ímpar. Até quem não morre de amores por ela reconhece este fato. Isto sim moveu a comunidade a reagir contra os desmandos de quem acha que a burocracia vai salvar o mundo, que se consegue mandar só na base da canetada. 

Este diretor que havia sido designado para assumir a direção do JTX já era velho conhecido nosso. "Digam para quem gosta e principalmente para quem não gosta que eu voltei!" foi sua frase de apresentação. Ele ficou na direção da escola no ano letivo anterior, à base de soluções unilaterais, decisões impostas debaixo para cima e discurso focado na burocracia massacrante que caracteriza a educação pública (lembrando, por exemplo, aos professores contratados e efetivos em estágio probatório tinham que "se cuidar", porque era ele quem assinava e deliberava, raçãowhiskasblabláblá...)

Ele até conquistou um pequeno secto de puxa-sacos, como em todo lugar acontece, mas as coisas não foram fáceis para ele por lá. Boa parte do corpo docente do JTX é questionador e combativo, e não é que lá tenha a maior concentração de che guevaras por metro quadrado. Só se trata de um grupo em que as coisas precisam ser explicadas, esclarecidas. E não é bem disso que ele gosta, sabe? Então, acredito que ele voltou para uma desforra e ele é quem foi bem desforrado.

Acha que nossas hérnias e bicos de papagaio nos permitiriam colar um cartaz aí?
Na terça-feira, a primeira reação do corpo docente foi não subir para a aula no período vespertino, para forçar uma explicação. Parados lá ficamos toda a primeira aula e ele aparece. Seu discurso de burocrata não convence e na base de muita prepotência e arrogância, a todo tempo ele tentou usar contra nós os nossos questionamentos. A supervisora de ensino apareceu por lá para abafar o escândalo, pedindo que não prejudicássemos os alunos que estavam sem aulas naquele momento e prometeu uma explicação, que ficou para o final do período. As coisas também não foram fáceis para ela, confesso que ela também não nos convenceu muito. Deixamos avisado que iríamos ao dirigente da diretoria de ensino e assim foi feito. Na quarta-feira pela manhã, fomos recebidos na Norte 1. Cheguei nos 45 do segundo tempo, que foi o que deu para fazer, mas estávamos bem representados. Ele ouviu e argumentou também, se comprometendo a apurar o caso, pois até então não havia nada que desabonasse o então diretor designado regularmente. 

Quando chegamos à escola para dar aula à tarde, com os alunos já inteirados do caso e a escola repleta de cartazes com mensagens de apoio à Célia. Desde a noite de terça, nas redes sociais estava circulando a tag #voltacelia. O movimento dos alunos - totalmente espontâneo, nem um pouco forçado - já estava articulado. As turmas do fundamental, vendo os cartazes deixados pelo pessoal do matutino, aderiram também, escrevendo na lousa, colando etiquetas no uniforme e tudo mais. Para alguns alunos da quintas séries, que chegaram para nós com uma alfabetização sofrível, o Volta Célia virou "vouta celha". (Para vocês verem que os professores destas turmas precisam fazer é milagre, lecionar é pouco). E infelizmente, houve quem joselitasse o movimento. No segundo intervalo da tarde, uma rebelião teve que ser contida!  Parecia o Egito no começo do ano, gente.



O dia letivo ontem acabou com um protesto combinado pelos alunos: que comparecessem à escola hoje de manhã que não entrassem na escola até que fosse dada uma explicação a eles. E foi o que aconteceu: debaixo da chuva e do frio que fez hoje estavam lá, alunos e pais na porta da escola, numa manifestação pacífica, tranquila, mas que incomodou o suficiente para o diretor designado cair fora espontaneamente!

Mesmo com frio e chuva, a galera resistiu!

Eu não estava lá hoje, lecionei na escola da prefeitura pela manhã, mas sempre recebendo notícias frescas no celular e acompanhando o movimento pelas redes sociais na hora do intervalo. Na hora de ir embora, não resisti e abri o Facebook pela última vez. Quanto vi os primeiros vídeos da manifestação que a garotada postou, não resisti e pulei de alegria!



Nos meus tempos de estudante e militante, houve lá algumas lutas, algumas manifestações bem-sucedidas como esta, mas nunca fiquei tão feliz como hoje. Simplesmente porque todo este movimento surgiu de uma juventude que a todo tempo é acusada de ser alienada e individualista. Agora, esta acusação se mostra no mínimo infundada.



Tudo que aconteceu não se deve unicamente ao bom trabalho que a Célia desenvolveu todos estes anos, também porque a galera não aceitou a injustiça e soube protestar! Não houve líderes, não houve incitadores. Todos foram. E o resultado está aí: o impeachment mais rápido da história da EE Prof Jair Toledo Xavier!

Até Sófocles postou a tag no seu twitter!
Agora, uma das atuais vices fica na direção até segunda ordem e Dona Célia, assim que voltar das suas férias (a dispensa aconteceria depois das férias e o bestão já tinha aberto a boca!), volta também a seu posto.

No meio do fogo cruzado, escutei de uma colega: "Você acha que essa história vai dar em alguma coisa? A gente é descartável neste mundo". Os fatos mostraram o totalmente oposto. E contra fatos não há argumentos, não é o que dizem?
Hoje o dia foi deveras longo! Então, uma cambalhota para todos e um grande uuuuuh! para os mandões deste mundo!

terça-feira, 31 de maio de 2011

Até que enfim

Já faz duas semanas, mas até que enfim alguém falou a verdade. Não que ela não seja largamente conhecida por todos, não que ela nunca tenha sido esbravejada aos quatro cantos do mundo. É que finalmente esta verdade foi dita com uma assertividade tamanha a ponto do PIG ter fingido que faz coro a ela, abrindo o microfone para que fosse dita sem cortes em rede nacional, num momento de audiência privilegiada.


Agora, eu confesso: eu não teria metade da coragem da Prof. Amanda, nem da sua eloquência. Porque nós, professores, caímos muitas vezes no erro de reclamar, reclamar, reclamar, como uma metralhadora verbal, geralmente quando não há ninguém para nos ouvir além de nós mesmos. Isto é de um onanismo completamente inútil, masoquista!  Chega um momento em que ninguém mais nos dá ouvidos. Então, o que fez com que todos ouvissem o que Amanda Gurgel disse?  Ela convocou todo o seu poder de síntese para não se perder com eufemismos e frases ambíguas e sem delongas, foi para as cabeças.



Engana-se quem pensa que isto é problema exclusivamente brasileiro, de nações subdesenvolvidas ou em desenvolvimento. Para elucidar esta questão, este vídeo é sensacional.



Já é uma recorrente dizer que o vídeo da professora Amanda tornou-se símbolo, não só de tudo o que ela disse no seu discurso, mas do real poder de mobilização da sociedade em rede. O protesto da Gente Diferenciada, em frente ao Shopping Pátio Higienópolis, foi um exemplo - bem-humorado, mas mesmo assim, eficiente. A recente inssurreição no Egito que derrubou Hosni Mubarak também foi forjada online.

O ativismo digital sozinho não vai muito longe, mas é uma ferramenta e tanto para o ativismo fora da rede. Estou na rede Salário digno aos professores do Brasil e dia 12 de junho, tem evento marcado no Facebook. O bom da Era Digital é que tudo quanto é coisa é capaz de se espalhar feito rastilho de pólvora, das mais altas bobagens às realmente relevantes. A oportunidade é realmente única, porque o PIG está fingindo fazer coro aos apelos dos professores - geralmente o discurso é contrário.  É hora de aproveitar o microfone aberto da Prof. Amanda e mandar ver.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Não tem graça nenhuma, Dooley

Está ficando chato essa história de trazer para os TM impressões minhas sobre o mundo exterior. É tudo tão igual, tão previsível que fico condenada à repetição de mim mesma. O Massacre do Realengo, como atração para o Império Romano, virou histeria coletiva sem um mínimo de reflexão. 

Colocar este assunto como pauta do dia com a molecada foi minha reação quase imediata, tentando dizer justamente isso: passado o susto, é preciso dissecar o que aconteceu, quem sabe possamos evitar. Só espero que eu não tenha caído para o discurso moralizante ou demagógico, e eu bem me conheço, é bem capaz que isso tenha acontecido. Tenho uma queda para o clichê piegas.(Acho até que funcionou, sem a pretensão de acabar com todos os casos de bullying da escola. Este assunto causou discussões inflamadas em algumas turmas, o que considerei bom sinal.)

Se há neste largo mundo mais leitores de textículos que sejam professores preocupados com esta questão do bullying - que definitivamente está sendo tratada como "carne de vaca" pelo PIG brasileiro - tenho duas singelas sugestões para alimentar uma discussão fundamentada sobre o assunto em sala de aula.

Uma é o documentário Tiros em Columbine, do Michael Moore, rodado em 2002. Não é exatamente uma novidade, pois este filme teve bastante projeção à época, ganhando até um Oscar. Assistir de novo, anos depois, só confirma que o estilão contestador e sarcástico do Moore presta grande serviço àquela nação de gente com cérebro de ameba autointitulada América. Só Borat escrachou melhor.

A outra é o livro Bullying: Mentes perigosas nas escolas (Fontanar), da psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva. Eu já tinha encomendado o livro e chegou bem na semana passada. Serve para todos: estudantes, pais, professores, gestores, porque ela esclarece bem todos os ângulos da questão e ajuda a entender. Devia ser bibliografia obrigatória para todo mundo que está envolvido na educação de crianças e adolescentes em geral. Aqui está sua entrevista no Roda Viva de alguns meses atrás,  ainda no formato antigo do programa.

Bullying é um assunto que sempre me incomodou bastante, então é bem provável que eu volte a falar nisso, mas não agora. Já temos farto material inútil na grande mídia para saciar um público sedento por sangue - ou nem tanto, mas mesmo assim o sangue é oferecido. Essa notícia mostra bem onde foi parar a "liberdade de imprensa" tão sonhada por quem viveu tempos de repressão. 

Ô séculozinho XXI de merda esse que estamos vivendo. 

Ah! E no dia 20 de abril, data em que comecei a jorrar este textículo, completaram-se 12 anos do Massacre em Columbine e ainda morrem pessoas inocentes pelos mesmos motivos. Não tem graça nenhuma, Dooley. 




quinta-feira, 7 de abril de 2011

Columbine à brasileira


Não sei se há algo novo a dizer sobre o que aconteceu hoje na escola do bairro do Realengo, no Rio de Janeiro. Toda a sorte de bobagens e coisas sensatas já foram ditas a respeito.
Primeiro pensamento que me veio a mente quando soube: é um Columbine à brasileira. Pavorosamente, uma carnificina deste porte não é mais novidade para nós. 

Então, eu dei um tempo, fiz o que eu tinha de fazer e só agora, à noite, fui me informar o melhor que eu podia sobre o acontecido, tentando evitar distorções e informações desencontradas. Para se ter uma ideia de como o PIG viaja na maionese em busca da tal da "notícia em tempo real", a primeira notícia que eu li, já retirada do ar, dizia que o assassino em questão era um fundamentalista islâmico. (Que absurdo, meu Deus. Só faltam agora responsabilizar o mundo árabe pelos terremotos do Japão...)

Não sou dada à manifestações emotivas ou afetadas frente à tragédias coletivas, mas dessa vez eu chorei. E queria ter ainda mais lágrimas para chorar a morte dessas crianças e a miséria da alma deste louco que fez isso. O que me deixa mais triste é que eu tive que provocar esse choro, como alguém que coloca o dedo na garganta para vomitar. "Isto não pode se tornar algo normal, a gente não pode se acostumar", eu pensava.

E fica o alerta: este cara foi vítima de bullying na escola. Não sou profeta, nem gênio, nem guru, mas o que eu disse no último textículo? Uma hora essas vítimas podem reagir, de uma hora para outra, anos depois, décadas depois. Boomerang blues, baby.

Este massacre pode ser chamado de carnificina, cenário de guerra, do que quiserem, menos de tragédia. Tragédia é teoria do caos, imponderável e imprevisível. Agora este banho de sangue foi forjado durante anos a fio, sem ninguém perceber. A única coisa imprevisível é quando isto aconteceria. Foi hoje.

Agnus Dei, qui tolis pecata mundi, miserere nobis,
Agnus Dei, qui tolis pecata mundi, miserere nobis,
Agnus Dei, qui tolis pecata mundi, dona nobis pacem.


quarta-feira, 23 de março de 2011

Hadouken, Zangief!

Ou ainda: Chupa, dentuço!

Rita Lee e Zélia Duncan já disseram: só quem já morreu na fogueira sabe o que é ser carvão*. Hoje fala-se tanto em bullying que até parece novidade. A novidade é a superexposição da vida da molecada através das redes sociais, vídeos no celular e coisas do gênero. O que acabou gerando o cyberbullying,  uma versão ainda mais assustadora deste fenômeno, porque aterroriza e tortura até quando se está fora da escola.


Provavelmente, a agressão foi gravada para depois exaltar o ego do agressor na rede, mas bem que dizem  por aí que só os idiotas são cem por cento autoconfiantes. Este estava tão seguro de si a tal ponto que esqueceu: o trouxa de que ele pretendia tripudiar tinha pelo menos o triplo do seu tamanho, e como não contava que ia levar um hadouken de foder, o tiro saiu pela culatra.

Este assunto caiu nas minhas mãos ontem, através do meu amigo e novo provador de textículos, Porpeta, que postou em seu perfil o link do texto de uma amiga sobre o caso, muito bem escrito e corajoso, porque fugiu da hipocrisia e falou com todas as letras: quem mexe com quem está quieto merece sim levar uma na cara para aprender. Não é revanchismo, é o direito que todos têm de se defender quando sua dignidade é ameaçada.

Sei bem o que é isso, fui vítima de bullying na escola. E digo que é horrível, e olha que não sou de ficar quieta. O motivo: até o ensino fundamental, eu fatalmente era a primeira aluna da sala e visivelmente a protegidinha da mamãe. Estava estampado na minha cara. Alvo fácil para bullies, que eram não só moleques, como pode-se cair na tentação de pensar. Meninas também perseguem com tortura psicológica, agressão física, colocando apelidos, roubando suas coisas. Maldade não tem idade nem sexo definido: não adianta dizer que isso é coisa de moleque ou que é briga de criança que logo passa. 

A minha sorte é que eu nunca fui de sofrer calada, então eu sempre pus a boca no trombone, o que criou uma par de situações hilárias na minha época de escola. Porque sim, a Betona ia com toda fúria de leoa defender sua cria na escola, como uma Dona Florinda vai defender seu Quico. A única diferença é que ela não batia em ninguém, ia reclamar direto na Direção da escola, num voo praticamente sem escala. 

Eu, que não sou nenhum Ghandi, também cerrava meus punhos de vez em quando para acertar meus algozes. E como não tenho juízo até hoje, eu levava uma com qualquer um que mexesse comigo, até aqueles ditos mais perigosos. Afinal, eu também sou mano da Brasilândia, pô!

Uma hora isso acabou passando, hoje acho foi que por conta do meu temperamento explosivo. Como não aguento sofrer calada, faço logo um estardalhaço. Mas na maioria das vezes a vítima de bullying é retraída e não consegue reagir. E quando reage, sai de perto, porque vem muita merda pela frente. 

Casey Heines só revidou o ataque e deu a sorte de ser gravado. Só que esse tipo de reviravolta pode ser muito, mas muito pior. Alguém se lembra do Massacre em Columbine? Não é totalmente aceito o fato, mas considera-se que eles eram excluídos da ala dos descolados, atletas e populares da escola. O que eles fizeram foi coisa de psicopata, é claro, mas nunca se conhece totalmente os demônios que há dentro de cada ser humano. Aqui no Brasil, aconteceu coisa parecida, alguns anos atrás, acho que numa cidade do interior de São Paulo. Antes de se matar, o garoto fez questão de levar a arma pra escola e atirar para tudo quanto é lado.

De tudo isso, o que mais me assusta é a completa ignorância das famílias sobre o fato. Há pais e mães que simplesmente não conhecem o filho que tem ou que não conseguem perceber quando o filho está sofrendo agressões na escola, principalmente a psicológica, mais sutil e perigosa. Mesmo meus pais, que sempre foram super presentes, não entendiam totalmente o quão horrível é ser torturado o tempo todo, principalmente na adolescência, onde a autoestima é algo tão frágil. No caso do Zangief Kid, nem o pai da vítima nem do agressor sabiam do que acontecia com seus filhos.

E a escola? Agora sou professora, este assunto está na pauta do dia hoje, não é coisa do passado para mim. O que tenho a dizer sobre o outro lado dessa história é que é muito difícil identificar bullying em sala de aula, porque: 

1 - O comportamento bully é covarde. Vai aprontar quando não tiver chances de ser pego;

2 - Aquilo que alguns pais e mães não dão conta quando estão com duas em três crianças em casa, deve ser multiplicado por pelo menos 35 no caso do professor em sala de aula. Se a gente parar para resolver  todas as situações de conflito em sala de aula, abandonando todo o resto, dependendo de quão danada é a turma, em meio segundo vai ter gente até no teto. E nós somos responsáveis por TODOS que estão dentro da sala quando estamos em aula. Se alguém se machuca, a gente é que responde pelo fato.

Para a escola, não adianta combater situações isoladas com punições igualmente isoladas. O bullying é um fenômeno que acontece de maneira sistemática e deve ser combatido da mesma maneira pela escola e pela academia. É um absurdo, não se estuda este assunto nas licenciaturas e só agora estudos acadêmicos e livros sobre o assunto estão ganhando alguma notoriedade. Então a escola dos dois garotos que puniu a briga com uma suspensão para os alunos e depois lavou as mãos, está errada. Pode-se até punir para deixar claro que a violência não será tolerada, mas onde toda esta tolerância zero estava quando Casey Heines era constantemente agredido? Como eu disse, é difícil descobrir, mas a partir do momento que se descobre, a escola como instituição deve se posicionar contra isso. O bullying é um câncer da sociedade, que se reflete na escola. Logo, a gente tem que fazer alguma coisa, sim. E rápido.

Defende-se que o agressor não pode ser jogado na fogueira  como herege pura e simplesmente e que também precisa de atenção, talvez até de tratamento. É  mesmo doentio ter que rebaixar o outro para se sentir melhor, isto deve ser cuidado, mas jamais tratando os agressores como coitadinhos. E o bestiário pedagogês adora o jogo do coitadinho. A mídia norte-americana também entrevistou Richard Gale, o menino que tentou agredir Heines e ele diz: "minha mãe diz para eu ter sucesso na vida", chora uma lagriminha de crocodilo, mas depois deixa escapar que não lamenta ter agredido Casey e ainda mente muito mal dizendo que ele tinha sido agredido antes.



O caso Zangief Kid é emblemático, trouxe à tona um assunto importante que deve ser tratado por toda a sociedade. Mas é lógico que o PIG estadunidense reduziu este acontecido a um mero heroes and vilains muito do chinfrim. Casey Heines virou heroi sem ter feito nada heroico, ele só revidou a agressão e isto é instintivo. Colocá-lo nesta posição de maneira tão simplista só incita mais o ódio e apologiza a violência, o que não resolve o assunto. E será que o garoto que antes era tratado como o mosquito-do-cocô-do-cavalo-do-bandido está preparado para tanta exposição na mídia e do dia para noite passar a ter duzentos mil amigos no Facebook? Ele só queria que o deixassem em paz. (Sem contar que agora é o Gale que está sendo perseguido. Reviravolta a là Tom&Jerry esta, hein?)

Mais que um heroi, Casey tornou-se um símbolo de uma situação que só agora está sendo vista pela sociedade em geral com um pouco mais de consciência. Deve-se aproveitar a situação para conversar sobre o bullying não somente dentro das escolas, mas em casa também. Então, pais e mães: por favor, conheçam de fato seus filhos e o que acontece com eles dentro e fora da escola, principalmente  quando estão online.  Isto não é controle, é cuidado. Vítimas de bullying: não sofram calados e não esperem para tomar uma atitude quando se está no limite da razão, como Casey Heines fez. Educadores: não podemos mais ignorar o assunto. Bullying sempre existiu e sempre foi grave, mas na era digital 2.0 conseguiu ficar pior. E para acabar, Bullies:  tomem cuidado com quem vocês batem. Vocês podem apanhar feio. 

Epílogo: 
Com todo o politicamente correto que nos massacra neste mundo, atire a primeira pedra quem não viu o moleque magricela e dentuço beijando o chão e não pensou: "Se fo-deu!"
(Ok, os mais educados podem ter pensado somente um Bem feito. Mas equivale em sentido.)

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Netinho agora, só o da Dilma


Chupa, Netinho!
Há mais coisas entre o eleitor e a urna que possa provar sua vã filosofia, Datafolha (ou Ibope, que seja). Dilma não levou de primeira. O golpe do PIG deu certo.

Se é para palpitar, acho que Serra não leva essa. O segundo turno foi orquestrado para que o candidato do PSDB não saísse totalmente desmoralizado deste pleito. Nem o Lula levou o primeiro turno nas duas eleições que ganhou. Seria a morte do tucano e sim, eles estão em extinção. O PSDB é totalmente quebrado por dentro.

Se o Datafalha não dá uma dentro, o Educação Política acertou no palpite Marina.  Ela bagunçou o coreto e agora, mais que Cléo Pires, é "a mulher mais desejada do Brasil", como vi algum gaiato comentar no Tuiter. O discursinho em cima do muro da candidata do PV é perfeito agora para ela e para o PIG, que hoje nela jogou um confetinho básico, em razão da "votação expressiva" que ela obteve. Uhum, sei.

O clima é totalmente pessimista, afinal eu vou aguentar mais quatro anos de PSDB como meu patrão. Ouvi no rádio logo de manhã Seu Alckmin falar. Quando ele é apertado pelo jornalista da Band a respeito do fracasso retumbante da educação paulista, em quem ele bota a culpa? No professor, claro. Só podia ser o Chaves mesmo. Ele disse algo mais ou menos como: "os alunos são reprovados apenas por faltas. Se ele vai à escola e não aprende, a culpa é de quem? Existe reforço para alunos que não aprendem. "

Ele se esqueceu de dizer, no entanto, que a escola não tem nenhuma garantia legal para fazer os alunos frequentarem o reforço. Conselho Tutelar? Conta outra, irmão. Desafio a me provarem que estou enganada, adoraria estar. Tanto que há pouco, o atual governo lançou a "incrível" ideia de pagar alunos para frequentar o reforço. Ideia que de tão ruim não recebeu apoio nem da Revista Nova Escola, notório aparelho do PIG para aplaudir toda porcaria que o PSDB fizer na educação por aqui, agora e sempre, amém.

Essa é a pior notícia para mim e para todos os educadores da Rede Estadual que não estão anestesiados pela ideia de ganhar um bônus de merda em abril próximo. Mas sabe que estas eleições tiveram algumas boas notícias?

Todos só conseguem ver que o Tiririca ganhou um milhão de votos, mas ao menos sua candidatura foi colocada em xeque, um pouco tarde, é fato. Em contrapartida, várias velhas raposas da política estão de fora como Genoino, Jereissati e Arthur Virgílio. A bancada do PFL (porque muda o nome, mas as moscas são as mesmas) DESPENCOU em relação aos pleitos anteriores. É só ver a composição do Congresso.

E o melhor de tudo: Netinho, só se for o da Dilma. Desacreditei quando vi o partido ao qual já fui filiada tentando colocar no Senado um "camarada" que andou por aí dando uns boxes na mulher. É como diz o Vizinho das Galáxias: "Para os homens, o Netinho não tem nenhum projeto, mas para mulher, ele tem uma porrada."

Vizinho matou a pau. Depois dessa, vou dormir, Forrest. Um beijo pro meu pai, pra minha mãe e pra você.


sábado, 24 de julho de 2010

O Pequeno Nicolau

Nunca tinha ido assistir a um filme só pelo cartaz. No cinema de hoje, em que se pode assistir trailers no Youtube, e talvez nem precise ir até o cinema para ver, com a possibilidade de fazer um download e ver em casa, ou nem fazer o download e assistir em streaming, achava que cartaz só funcionava para moderninhos colocarem na parede ou fazerem camisetas de filmes icônicos como Pulp Fiction, Matrix, ou Laranja Mecânica. Lembro de uma vez que saí do cinema e havia o cartaz de "Uma noite no museu", com uma estátua de um suposto homem das cavernas. Se você passasse do lado, ele pulava na sua frente. O negócio era tão engraçado que a gente sentou no saguão do cinema só para assistir o susto dos passantes.

O fato é que um bom cartaz ainda funciona. Na fila de outro filme, vi este e achei engraçado estes meninos com nomes de velho, terninho, calça curta e cara de Mad - lembra da revista? Pois é, fiquei curiosa e fui conferir.

Hoje em dia, há animações tão boas no mercado de filmes para crianças, e agora em 3D, que é raro encontrar bons filmes "de verdade" com temática infantil. "O Pequeno Nicolau" é a adaptação de uma série de livros francesa do escritor René Goscinny com ilustrações de Jean-Jaques Sempé que eu também não conhecia.

Nicolas é um menino comum, que adora sua vida de filho único em uma família pequeno-burguesa parisiense e estuda em uma escola só para garotos. A possível gravidez de sua mãe é a ameaça para sua vida perfeita, ele sente medo de ser abandonado na floresta e faz de tudo para se desfazer desse bebê que nem existe de fato. A partir daí, é uma trapalhada atrás da outra, dele e de seus amigos.



Ri litros com as cenas de escola. O filme se passa nos anos 1950, tanta coisa mudou na família e na infância desses tempos para cá, mas é incrível como outras não mudam. A educação continua sendo um misto de martírio com sadismo. Pobre daquela professora.

Apesar dos moleques serem umas pestes, o filme é realmente muito bonitinho, singelo, sem duvidar da inteligência e perspicácia da garotada. Para adultos, nos lembra que a criança tem seu próprio universo, mas que não está dissociado do mundo em que ela vive. Os medos infantis - como o do abandono, por exemplo - podem ou não ter fundamento, mas dentro do seu universo são verdadeiríssimos. A gente já sentiu esses medos, alguns destes nos acompanham a vida toda, mesmo que a gente não admita. Se isso fosse mentira, Freud não teria causado metade do frisson que causou.

Gostei tanto que estou pensando levar meu sobrinho mais velho para ver, que há um ano deixou de ser filho único. Só tenho medo que ele se inspire a contratar um gângster para tentar se livrar do irmãozinho. Vai saber!