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segunda-feira, 12 de abril de 2010

Antes que vire um latifúndio improdutivo...

...Estou aqui para dizer que ainda estou viva, e bem viva - que fique bem claro. Não me falta inspiração e nem temas para textículos. Nesse meio tempo, assisti o show do A-ha e do B.B. King, e isso não é pouco. Assisti a O Segredo dos Seus Olhos, sensacional produção argentina que mereceu o Oscar de melhor filme estrangeiro. Não se consegue desgrudar os olhos da tela, enquanto se assiste a um filme desses.

Vida é o que não me falta neste momento. E também não me falta tempo para parar para registrar o que ando vivendo, tampouco estou vivendo no automático. É que estou pouco interessada em racionalizar, e para escrever isso é necessário. Estou também sem paciência para sentar em frente ao computador, a não ser para jogar Paciência, o que sempre me falta. Fazer o quê? Paciência.

Estou cansada também de clichês internéticos, em que se vive a vida real para se ter uma vida virtual, para ter o que postar no Twitter, Facebook, Orkut, na frasezinha do MSN. Aprendi assistindo a Closer (peça e filme) que nem sempre é necessário saber tudo sobre os outros. Nem sempre é necessário saber tudo sobre mim. Eu estava assim com os TM. Durante os shows, filmes, baladas boas, ou coisas do tipo, eu ficava maquinando frases, esquecendo-me de viver lá, no exato momento da coisa. Não me pergunte, por exemplo, como foi o show do B.B. King. Só sei que foi do caralho, só não sei bem como. Sofri o mesmo teleporte dos melhores shows da minha vida, como o do Radiohead, por exemplo. "Não sei, só sei que foi assim", diria o Chicó numa hora dessas. Pergunte a meu duende, se for muito necessário saber.

And so it is, guys. There is so much to say, and even more to live.

domingo, 6 de setembro de 2009

Paralelas

Resolvi aparecer, antes que achassem que sumi - como o Belchior- e começassem a me procurar, ou que também andei cantando o Hino Nacional Brasileiro meio grogue - como a Vanusa - e achassem que estou fugindo do assédio da imprensa.

Na verdade, não é nada disso. É que ando num momento Paralelas, saca? Correndo a cem por hora atrás de objetivos, trabalhando feito louca, como sempre. "E no escritório em que eu trabalho e (não) fico rico, quanto mais eu multiplico, diminui o meu amor"... Estou anti-poética, sem inspiração, nem tempo.

Porém, os micos da semana tornaram-se estímulo para eu retornar desse silêncio. Não gosto da desgraça alheia, mas é impossível não admitir que o chá de sumiço do Belchior - o Hugo Possolo soltou um caco sobre o tal desaparecimento em O Papa e a Bruxa e por pouco não caio da cadeira de tanto rir - e o Hino Lisérgico Nacional Brasileiro da Vanusa animaram as duas últimas semanas. Danilinho, num serviço de utilidade pública, me mostrou o video do hino na terça. Foi para isso que o senhor colocou computadores na sala dos professores, seu Serra? Se foi, meus parabéns, é uma excelente medida anti-stress para mestres esgotados pelo magistério. Deos meu, isso não é um mico, é um orangotango vestido de Carmen Miranda.¹ Não o Serra, a Vanusa.

Em entrevista a Silvia Poppovic, Vanusa declarou que estão desprezando seus 41 anos de carreira por conta de um mau momento que ela teve. Também pudera, não é um mau e sim um péssimo momento numa sessão solene da Câmara com nada mais nada menos que o Hino Nacional Brasileiro e na era Big Brother, em que a gente vive com câmeras em toda a parte. É muita ingenuidade. Nem um jogador de futebol tinha estragado nosso hino com tanto garbo e elegância.

O que é curioso é que eu dei mais risada com essa história da Vanusa não com o vexame do hino, mas com uma que Bozoca - a verdadeira - soltou um dia, no carro. Ela disse que quando ouvia Paralelas, na parte em que Vanusa canta "no apartamento, oitavo andar, abro a vidraça...", ela imaginava a cantora num clipe abrindo a janela intempestivamente, com a cabeleira loura chanel tamanho médio esvoaçando ao vento. Mais the 80´s, mais kitsch, impossível.

Quanto ao Belchior, compositor que admiro bastante, ri um tanto lembrando da homenagem feita a ele pelos Mamonas Assassinas no único disco da banda, se não me engano, na quarta faixa. Uma Arlinda Mulher é cuspida e escarradamente uma cópia do estilo de Belchior, desde a voz, a melodia, a batida do violão, até os versos. "Te ensinei os auto-reverse da vida e o movimento de translação que faz a Terra girar, te ensinei que o importante é competir, mas te mato de pancada se você não ganhar..." Sublime, poético, sacada genial daqueles doidos de Guarulhos. Só quem nasceu antes de 1995 entende isso.

Assim, decidi ceder aos apelos da cantora e mostrar um bom - talvez excelente - momento de sua carreira cantando Belchior, em um momento espetacular também. Paralelas é linda, e a gravação da Vanusa é um estouro, de longe a melhor de todas. Justiça seja feita. Todo mundo tem seu momento símio, até Fernando Pessoa disse isso².






Piadas Prontas à la Simão:
1 - O Zé não pediu, mas essa do orangotango coloquei por causa dele. Foi ele que disse que isso era piada pronta.
2 - Se você leu Poema em Linha Reta, do Fernando Pessoa, sabe do que estou falando. Também está farto de semideuses?

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Links de utilidade pública

Já disse inúmeras vezes aos meus amigos que perdi as contas de quantas reencarnações eu preciso para viver, ver, ler e assistir tudo que eu quero na minha vida, curta para tantos desejos. Eles concordam comigo e compartilham dessa sensação. Muitas outras pessoas também devem ter esse tipo de paranóia, porque é moda agora livros e afins do tipo: "501 Must See Movies" ou "1001 discos para ouvir antes de morrer". Sinceramente, escorreu uma baba no cantinho da minha boca por estes livros. Ai, como é difícil ser cult e cool...

Na verdade, sou fanática por listas como essa. Nunca mais publiquei textos com Top5, porque minha seletíssima audiência regula sua mixaria e a grande maioria não posta comentários, mas continuo gostando muito. Ontem me diverti com "As 100 mais em 100 anos", lista das 100 músicas mais tocadas de 1904 a 2003. Você olhou a lista do ano em que você nasceu? Bingo! É praticamente impossível não se sentir curioso? Será que na sala de parto onde nasci tinha um rádio ligado, como em Cidade dos Anjos? (Filme que para mim, por um acaso, só prestou mesmo pela trilha sonora.) Fico rindo, de pensar em mamãe se esguelando na sala, enquanto a Zizi Possi se esguelava no rádio: "Me faz pequena, aaaaaaaaaaaaaaaaaaasa morena..." Rá! Eu sei que não tem graça nenhuma, Duley.

Também é tentador olhar a lista do ano que mudou a sua vida. E a decepção do Vizinho: na lista de 1997 não tem Radiohead! Na verdade a lista serve para rir, porque a quantidade de porcarias e guilty pleasures é imensa. A lista mais chiquérrima foi a de 1948, ano de nascimento da Betona: primeiro lugar para Dick Farney, considerado em sua época o Sinatra brasileiro. Na verdade, o popular era naturalmente mais sofisticado. Essa coisa que para o povão tem que ser ralé, é uma ideia lamentavelmente recente.

Mesmo antes deste festival de listas, estava começando a formar a lista dos 100 sites que você precisa acessar antes de bater a caçoleta, finar-se, bater as botas. (Já reparou como são numerosos os eufemismos para a morte? E o pior, os mais engraçados.)

Voltando a lista: eu mal tenho 5 para um Top, mas como eu sou teimosa, eu chamo a audiência para dar a sua contribuição:

1 - Desencalha Wanderson (http://www.desencalhawanderson.com.br/) - Indispensável pelas fotos com cara de "Manhê, eu tô com gases" e pelo texto comicamente mal redigido;
2 - Vida de merda (http://www.vidademerda.com.br/) - A vida é uma merda, mas ainda assim, é capaz de te matar de rir;
3 - Horóscopo Astral (http://www.horoscopo-astral.com/) - Ótimo para formar "Astrólogos de Mouse", como eu. Este site, com sua data, hora e local de nascimento, não descobre apenas seu signo ascendente, como também a cor do seu MM´s favorito;
4 - Nimportequi.com (http://nimportequi.com/) - Não tenho muitas informações a respeito, este link foi mandado por Forrest ao especularmos a formação desta lista. Grupo de comédia francês com esquetes genais no mesmo nível que as do Monthy Pynton. Humor finérrimo;
5 - Textículos de Mulher - Dispensa comentários. Se você não acessar, eu choro!

Dispensei os links que eu já recomendo usualmente, exceto o do guru da campanha pela minha saída do caritó. Por este motivo, é que não está aí meus blogs preferidos, como o OkComput3r e HTP, nem os sites que reconheço como utilidade pública. As nobres almas que me acompanharão nesta empreitada, por favor, defendam os pequenos e desconhecidos. Sem culpa cristã, excluirei listas do tipo "Orkut, Youtube, MSN, Myspace, UOL", porque estes não são novidade nenhuma. Mas Pérolas do Orkut e GTO aceito sim, obrigada.

domingo, 29 de março de 2009

Desencalha, Bozo!

É cada uma na vida, gente, que pega de surpresa até os insetos mais aracnídeos¹. Você acha que já viu de tudo na vida e aí aparece na sua frente mais uma bizarrice que das duas, uma: ou você sai correndo com Síndrome do Pânico arrancando os cabelos, ou se mata de rir, porque não lhe resta mais nenhuma alternativa. Foi o que eu fiz quando a verdadeira Bozoca me mandou este link: http://www.desencalhawanderson.com.br/ . O nome do domínio já me causou espasmos, mas o melhor/pior estava por vir ao abrir o tal sítio. Nem vou descrever, para não cortar a graça da Seleta Audiência. Quem sabe eu não ajudo o cara a achar uma noiva? Se bem que acho difícil uma leitora de textículos dando bobeira por aí como eu se interessar pela figura em questão.

Mas este cara me deu um alento e uma ideia. O alento é que sou mesmo uma moça casadoira, ora essa! Para comprovar a veracidade do fato, basta ver a descrição das prerrogativas do moço para escolher a louca, ops, quer dizer, a eleita. Eu me encaixo em todas elas, apesar de não saber muito bem o que é "uma mulher que queira agradar o Deus que fez os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há". Ele não falou nada em ser virgem...

Se vocês pensam que vou me candidatar, esqueçam que eu tenho amor a vida. Farei melhor, vou copiar a ideia do rapaz, mas sem gastar dinheiro para comprar um domínio só para isso porque já tenho meu Grande Meio de Comunicação em Massa, os TM. Estou lançando agora a campanha² "Desencalha, Bozo!", porque mesmo curtindo a vida ao máximo numa pós-adolêscencia assumida, sou filha de família de comercial de margarina e também quero casar, apesar de não parecer no textículo "Moças Casadoiras", publicado há algumas semanas atrás.

Minha descrição? Taí em cima: misto de Marlene Dietrich com Audrey Hepburn, tudo diluído em ácido ascórbico, mas deixa isso pra lá porque toda descrição É ridícula. Isso me lembra um papo na escola, com a Internet se popularizando, quando a gente ficava criando descrições para salas de bate-papo. Coisas do tipo "moreno alto" (negão), "seios fartos" (peituda), mignon ("tampinha"), "cheia de curvas" (gorda) e por aí vai.

Não deixarei, porém, de dar o detalhamento do pretendente ideal para minha pessoa. Diz meu pai que quem muito escolhe, acaba escolhido, mas também é preciso saber o que se quer dessa vida, né, papito? Vamos lá:

1 - No mínimo, precisa entender o que eu falo. Não sou nenhum gênio, mas eu não consigo suportar homem burro.
2 - Chega dessa cambada de machos indecisos. Cabras-macho desse mundo, uni-vos!
3 - Não gosto de cabra-frôxo e muito menos de metido a valentão. Se meu pai nunca falou mais alto comigo ou me bateu, não é qualquer mané-pipoca que pode fazer isso, se nem DNA me deu.
4 - Cabra-macho que se preze é bom de cama. Esse papo de que quem gosta de homem é viado porque mulher gosta é de dinheiro, é papo de quem não dá no couro. Mulher gosta de sexo, e no meu caso, não preciso de quem me sustente.
5 - Não estou a fim de dar golpe no baú, mas é evidente que estou muito menos a fim de sustentar vagabundo.
6 - Não vivo sem meus amigos e amigas, e se o cabra em questão quer contrato de exclusividade, esqueça a fazedora de textículos, porque essa besteira de perder a própria identidade por um tonto que pode te largar a qualquer momento eu não faço mais.
7 - Precisa suportar uma doida em estado criativo permanente. Criar é algo mais que necessário na minha vida. Lavar cuecas deixo para a máquina de lavar.
8 - De preferência, que seja engraçado. Afinal, se homem é tudo palhaço, no mínimo tem que me fazer rir!

Para os candidatos interessados: não me mandem e-mail com foto, não me procurem no Orkut, não deixem comentários no TM. Como sou romântica, gosto do charme do acaso. Um dia a gente se esbarra por aí e toca musiquinha, igual ao filme dos Normais.

Notas inútieis:
1 - Citação em homenagem ao meu batráquio amigo Zé, que fez aniversário ontem, data em que comecei a escrever este textículo, antes de ser surpreendida por uma Hora do Planeta forçada.
2 - Esta campanha não afeta em nada a minha cruzada mesopotâmica para chegar aos 30 no auge, viu, Vizinhíssimo?
3 - Quando disse que lançaria a campanha, alguns não acreditaram nela, outros acreditaram em excesso. Poderiam ser menos cartesianos, pessoal? E outra, não sou baleia para encalhar, muito menos para desencalhar. Mas o moço casadoiro não precisa ter medo do meu pH, pois, parafraseando Garnier, meu melhor lado é Ácido.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Moças Casadoiras

Dedicado à toda equipe que se esforçou em me casar a todo custo!

Tinha começado, há pouco, um textículo de solteirona em crise à la Sex and The City; o fato é que estou f-a-r-t-a desse tipo de discussão. Não sei porque ser amada precisa ser um luxo hoje em dia e como diz Amorzona Layr Ribeiro, não sei também se eu tenho mesmo que arrumar um "namoradinho crasse média" e ir pra Ubatuba todo fim de semana. Será?

Como boa Pré-Balzaquiana em Crise Anônima (agora declarada), só por hoje não vou cair na besteira de achar que preciso casar antes do 30. Sinto, porém, que avancei um dos doze passos, hehe.

Há uma semana atrás, "ganhei" um pretendente, segundo a Bozo de Calças Vermelhas, fofo, inteligente e educado. Inclusive, me senti nos anos 1950, vestida de I Love Lucy. Quem, em plenos anos 2000 (por mais contra-revolucionários que tem sido), vai ter um pretendente, igualmente casadoiro como você?

O fato é que fui apresentada ontem, com ares de mega-evento de Caras e casamento arranjado à moda indiana - na onda da novela - a meu pretendente, como eu já disse fofo, inteligente e educado. Mas sabe o que acontece? Nem ele, nem eu estamos na vibe de caçar um noivo e casar amanhã. Há outras necessidades, outras prioridades, outros desejos. Ficamos amigos sem dor no coração, pelo menos de minha parte. Dele também, eu acho.

Pode ser que as coisas mudem? Sim, por que não? Não importa, só por hoje eu desencanei, e é um grande avanço não se agarrar a ninguém numa crise de carência, causando dor e decepção totalmente desnecessárias para mim e para outra pessoa que não tem nada a ver com a Light. Demorou anos para a Bozo de Calça Quadrada aqui entender esse preceito básico. E isso me faz bem.
(E outra: não tenho mais medo dos 30. Iniciei, acompanhada pelo igualmente nascido em 1982 Vizinho das Galáxias, uma cruzada mesopotâmica para se chegar aos 30 no auge em todos os sentidos possíveis e imagináveis. Que 'moça véia' que nada.)

*Renata, Fernanda, João, os bozos-cupidos de plantão: aquele abraço! Ao Carlos também, o pretê-gonista dessa história.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Mulheres-andróide*

Sabe que ando com muito assunto e pouco tempo, e não gosto de texticular quando a vontade de escrever é mediana. Só que tomei vergonha na cara ao dar uma passadinha no OKComput3r, vizinhíssimo anda postando feito doido por lá. E todas as postagens são excelentes, então esse papo de quantidade X qualidade é conversa de blogueiro preguiçoso, como eu.

Um dos assuntos que eu tinha planos pra falar aqui foi sobre o Dia Internacional da Mulher e aniversário da Bozoca*, que nasceu num dia "danado de porreta". Acabei falando meio de soslaio, com a última postagem, porque a piada pronta da semana foi o dileto arcebispo meter a colher onde não foi chamado bem na semana do 8 de março, pra deixar os movimentos feministas beeeeeeeeeem contentes. E não pude deixar passar.

Comecei este textículo ontem, mas apaguei tudo quando li uma notícia no Terra, agora mesmo, cujo título dispensa qualquer comentário:


Ah, Cabral, fala sério. Mulher para ser perfeita tem que fazer café? Então, apaguei tudo, porque eu vi que minha discussão estava séculos atrasada. Eu falando de igualdade (de condições) entre gêneros, violência à mulher, patriarcado, raçãowhiskhasblábláblá e o babado está bem mais forte que eu pensava. Diz a notícia que "o inventor canadense Le Trung decidiu não perder tempo em busca da mulher ideal e criou sua própria. Aiko é uma robô androide que fala inglês e japonês, é boa em matemática e, segundo Trung, é muito paciente e nunca reclama." Lá pelas tantas, a notícia conta que "além de fazer companhia ao inventor e ajudá-lo com as contas, Aiko tem habilidades mais servis, como limpar o banheiro" e mais: "prepara chá e café, serve sushi, faz o café da manhã e limpa as orelhas de seu criador." O doutíssimo inventor ainda declara: "Ela não precisa de feriados, comida ou descanso, e pode trabalhar quase 24 horas por dia. Ela é a mulher perfeita."

Percebam que para a anta do inventor mulher perfeita não pensa, não tem desejos, não cria. É boa em matemática para as contas de um suposto orçamento doméstico e lava banheiros! E, apesar de ter sensores "lá embaixo" - palavras dele - é garantidamente virgem! Ou seja, para o tal, mulher perfeita nem precisa ser boa de cama.

Existe um paradoxo -quase um oximoro - entre o arcaico e o contemporâneo na ideia do tal cara. Uma pessoa capaz de criar um software de 50 mil reais tem um cérebro de minhoca desse? E o cabra choveu no molhado: alguém precisa contar para ele que cafeteira já existe e robô-empregada também. Lembram da Rose, dos Jetsons? E o Luís Fernando Veríssimo já tinha feito o seu exercício futurista sobre um cara que compra um robô-mulher-perfeita para substituir a esposa. Está no A Mãe do Freud (L&PM Pocket).

Então, quanto mais a gente discute sobre cibercultura, Vizinho das Galáxias, eu me pergunto: cheguei ao século XXI para isso? É contra-revolução pura, mermão! No meu tempo, o futuro era uma coisa bem mais interessante: os Jetsons eram descolados e a Rose é muito mais fofa que a tal da Aiko. Me manda direto pros 1960, por favor.

* Créditos da imagem: http://naredesaude.files.wordpress.com/2008/12/rose.jpg


segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Felicidade Guerreira

Bozoca defende uma tese que em dezembro existe um cheiro quente pairando no ar que, se você procurar por ele em 30 de novembro não tem e em 1º de janeiro, ele já passou.

Confesso, não gosto de fim de ano. Trauma da faculdade, porque sempre entregava a porcaria da pasta de estágios no fio da navalha, prestes a pegar DP por causa de um monte de relatórios que logo depois iria virar comida de Baratinha, literalmente e não literalmente. Gente que estudou ou estuda na Famosp-pi sabe bem do que estou falando. E como professor tem mais é que se f*, ano passado era a Via-Sacra de entrega de diários nas três mil escolas em que eu trabalhei para compor a jornada de professor contratado do Estado. Sem contar os três mil amigo-secretos em que eu cheguei a ouvir "Como dizia o poeta Manuel Bandeira... 'Tudo vale a pena se a alma não é pequena'!"¹ dito por uma professora de português em altíssimo estado etílico. Sorte de todos os presentes que não perceberam a gafe, provavelmente por acompanhá-la no alto grau etílico da festa. Azar o meu, que não tinha bebido o suficiente.

Sem contar o quanto que se engorda nesta época do ano, recorde em orgias alimentares.

Como 2008 é o Ano do Bozo, este ano é diferente. De uma hora pra outra, meu bode decorrente de todas as bozices que aconteceram este ano, foi embora. De semi-cegueira a reprise de filme sem-graça da minha vida, passando por um assalto, um mega arranca-rabo com baixista e amigo de muitos anos e um telefone jogado pela janela por causa de empresas que não prestam um serviço decente, eu quase enlouqueci. Gente, foi por pouco, muito pouco. Não sei como eu não me joguei pela janela.

Na verdade, quando Bozoca (a verdadeira, meninas²) falou desse cheiro quente, não consegui acompanhá-la na brisa, mas agora sei exatamente do que ela está falando. É ele que me faz sentir agora a melhor das esperanças: aquela sem motivo, que surge do nada e não nos decepciona, porque não é expectativa vazia colocada em coisas externas.

Como não sei e não quero saber qual é o motivo dessa mudança de humor - quero mais é curtir, resolvi achar um bode expiatório, à mesma maneira de Volver³: a culpa é desse cheiro quente que só dezembro é capaz de ter, que me faz rir sem motivo, dançar sem parar e principalmente, achar que só de virar a folhinha do calendário, minha vida vai mudar radicalmente e pra melhor. Que venha 2009!

"N
otas inútieis"
1 - Quem escreveu isso foi Fernando Pessoa, que conste nos autos.
2 - À maneira de Silvio Santos, um esclarecimento para minhas colegas de trabalho, que me chamam de Bozo: originalmente não sou o Bozo de Calça Amarela, no trio das losers eu era a Macabéa. Alilás, vale um Feliz Aniversário pra Renata-que-não-é-a-minha-irmã, que completou primaveras dia 13, que recomendou os Textículos no seu perfil do Orkut e tudo.
3 - Neste filme do Almodovar, dizia-se que na cidade do interior de onde vinham as personagens, as mulheres enloqueciam por conta dos ventos que sopravam na região.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

O dia em que fui trabalhar na Bienal do Livro


De volta aos boletins da minha dura vida na Ilha de Caras que não interessam a ninguém, mas que insisto em fazer. A última vez que fiz isso foi quando relatei a minha emocionante estréia no mundo dos testes para atriz-teza, semi-cega, sozinha e na chuva. Nem pude ver a cara de desgosto do Hugo Possolo com meu teste, cheio de buracos de esquecimento no texto, rsrsrs.

Hoje fui à Bienal do Livro, fugindo descaradamente do instinto defenestrador de alunos que me atacou essa semana e da rouquidão -estou prestes a ficar afônica e estou sim desesperaaaaaada! Como é que vou gravar a voz da demo da nossa banda sem nome? Aulas são mero acessório nesta história - e antes dei uma passadinha no médico pra ver se dou jeito nesta tosse de cachorro. Pausa para esclarecimento - o posto não dá atestado médico, ou seja acesso negado para fugida estratégica do trabalho por vias malandras tradicionais que todo vagabundo que se preza conhece.

Na real, entrei pela porta da frente da Bienal. Porque sexta passada eu descobri que eu poderia ir à Bienal hoje, assinando ponto lá e ainda ganhando o dia de trabalho, bastava levar o holerite - atestado de pobreza e insanidade do magistério. (E nenhuma boa alma para divulgar isso na escola. Por que será??) Como eu não consegui confirmar esta notícia, eu passei no médico antes.

E essa visita ao médico merece uma parada especial, porque eu sou o Bozo de Calça Amarela. Reclamei de tosse seca por tempo prolongado e ganhei um pedido de exame de tuberculose. É, isso mesmo! Sou uma tísica em potencial. Sendo que não tive febre e tô 'gorda lisa', como diz a minha mãe. Sendo que tenho rinite e sofro com tempo seco, desde que me entendo por gente. Sendo que contei que sou professora em turno duplo e faço esforço vocal constantemente. Ainda assim, tive que cuspir no potinho - eca! (Ops, na verdade é teste de escarro, mas a minha tosse é seca. Não tem nem vapor d´água pra escarrar) e amanhã tenho que levar de novo meu cuspe para análise. Cuspe em jejum, coisa duplamente nojenta.

Livre da sina dos cuspes, eu corri pra Bienal. Com medo, afinal eu sou formiguinha, operária-padrão, com marmita e livro-ponto. Não é coisa à-toa fugir do trabalho na cara larga. Mas como eu descobri que era verdade que eu ganharia o dia na Bienal, se fosse hoje, eu não fugi do trabalho, fui trabalhar na Bienal. Com credencial e tudo, porque apresentei meu atestado de pobreza e insanidade e peguei credencial. Na sequência, fui falar com os representantes dos 'patrão' e fui muito bem recebida, diga-se de passagem. (Nota brechtiana¹: por que será que pobre adora essas pequenas provas de status, né? A 'crasse' média também gosta, então tá tudo em casa!)

Fui zanzando por lá, comprei alguns livrinhos e assisti a um bate-papo com o João Batista de Andrade, cineasta brasileiro pra lá de consagrado e diretor de O Homem que Virou Suco, filme genial, na minha modesta opinião. Comprei o livro-roteiro do filme e peguei autógrafo do cara, super boa gente. Comentei da passagem deste filme na minha vida, e como ele me influencia e tal.

Na verdade eu tinha me esquecido que ele iria participar da Bienal, fui atraída para o local da palestra por "forças estranhas". Meu destino foi desviado por um daqueles chatos que vendem livro de poesia na porta do MASP, que me assaltou com meu aval. Como eu fiquei dura, tive que sacar dinheiro para comer. Do lado do caixa eletrônico tinha uma lanchonete e o estande onde o João Batista estava.

Gosto de acreditar que a gente segue o caminho certo sem roteiro, desde que a gente saiba o que quer. Isso até me consola, já que sou uma perdida de carteirinha. É o triunfo da intuição hipertrofiada feminina que me persegue, e às vezes até me contraria. Tudo isso me fez sair do Anhembi dando pulos secretos², tal e qual uma bicha legítima presa num corpo feminino que sou³.

Saldo da epopéia: ganhei duplamente o dia, porque fiz tudo isso trabalhando!

E é para mim mesma esta cambalhota!
Notas inúteis:

1 - Princípio do Distanciamento, segundo Brecht. Se vira e vai pesquisar, estou com preguiça de explicar.

2 - Bozoca sempre sai pulando de felicidade quando consegue algo que quer muito, e eu também faço isso. Sua cunhada diz que isso é bichice pura, mas a gente pode, porque a gente É bicha, e das loucas.

3 - Tal qual Madonna e Bozoca, eu sou um viado (com 'i' mesmo) que nasceu num corpo de mulher. E tenho dito.

sábado, 16 de agosto de 2008

Madonna Cinquentona

Estava vendo clipes da Madonna até agora. Como hoje ela completa a bagatela de 50 aninhos, a primeira página da UOL está cheia de coisas sobre ela.

Eu nunca fui fã de Madonna de uma maneira específica. Quando eu era criança gostava de Papa Don´t Preach e Vogue - eu adorava aquela coreografia à la Macarena dessa música. Lembro também de quando ela esteve no Brasil - a turnê do The Girlie Show - que eu queria assistir na TV e que meu pai não deixou, afinal essa era a época em que ela estava pegando fogo, era o tempo do Erotica, Sex e Na Cama com Madonna. Sou filha de família de comercial de margarina, esqueceram?

Eu nem sabia que ela estava pra fazer aniversário, e ouvia de longe comentários sobre seu último disco elogiado - "só porque tem o Justin Timberlake", eu pensava, "mas que bosta!". (Eu vi o clipe de "4 minutes" e é legal. Gênios também se enganam, hehehe.)

Nestes últimos dias eu estava próxima da rainha do pop e não sabia. Eu tinha baixado o The Stonewall Celebration Concert, o primeiro álbum solo do Renato Russo, que, 'por increça que parível', eu não conhecia. Ele gravou Cherish, da Madonna, canção que eu mal me lembrava (se é que eu conhecia) e fui abduzida por essa música. Fui atrás da original, é claro. Mal acreditei que Cherish é dela, porque é uma canção totalmente fofa, singela. Também tenho ouvido muito as versões do Trash Pour 4 de Material Girl e Like a Virgin, incrivelmente reiventadas.

Fui navegando sem perceber por este especial da cantora, porque, por mais que eu não tenha lembranças especiais dela - fora essas que eu contei - me impressiona como ela se mantém diva indiscutível do pop, um mercado com fama de ser superficial e descartável.

Nos anos 80, quando ela surgiu, e depois nos anos 90, sinônimo de pop era Madonna e Michael Jackson. Ele, a gente já sabe que fim levou, foi tragado pela areia movediça da sua vida pessoal, que todos sabemos como é difícil e cheia de lances bizarros. Enquanto Michael estava em tribunais por seus escândalos de pedofilia e brincando de "vamos jogar Isabella" com seu filho (agora que me dei conta - ele é que começou essa moda), Madonna continuava a lançar seus discos, sem alarde. Dizem que ela ainda é controversa e polêmica, mas acho isso coisa da imprensa marrom. Acho que ela não precisa provar mais nada pra ninguém. Por isso, ela pode tudo, até beijar Britney Spears (eca!) ou interpretar Evita Péron, quase matando os argentinos do coração.

Não conheço quase nada da sua fase mais recente. Lembro só do Ray of Light, da trilha de Evita e só. Fui dar uma olhada e ainda prefiro a Madonna platinada dos anos 80 cantando Like a Virgin. Mesmo não gostando tanto exatamente do que ela tem feito hoje, é de cair o queixo a sua capacidade de ser reiventar e ainda ser Madonna. Só que isso não é de hoje. Desde o início da sua carreira, ela foi uma mulher de contrastes. É só olhar o clipe de Material Girl, com um final totalmente antagônico ao que diz a letra e o próprio clipe. Genial.




Suas controvérsias e contradições mais notórias dançam entre o sagrado e o profano. Para começar, quis o destino que ela se chamasse Madonna - ícone religioso de Maria segurando o menino Jesus ao colo. E ela sempre gostou de brincar com estes contrastes. Ela aparece rezando em um figurino discreto em La Isla Bonita, alternando com um figurino de dançarina de flamenco megavermelho - há uma certa cafonice nesse clipe, o que me faz gostar dele (Risos).




Quem é mulher sabe como é difícil equilibrar estes dois pólos. A gente não quer ser condenada por querermos ser gostosas, absolutas, devoradoras, mas também acha às vezes ser "menina de prédio criada pela avó" um porre. A maioria de nós fica no meio termo disso, ou então nega um dos lados por completo, o que causa 10 entre 10 das neuroses femininas. Madonna, não. Ela dilatou as duas polaridades e vai de uma a outra com um pé nas costas. Veja só a sua vida. A Material Girl virou estrela de comercial de margarina - casou, teve filhos, adotou um - e continua aparecendo gostosona em seus clipes. Isso é Madonna.

Então, gostando ou não dela, sendo fã ensandecida ou não, da mesma maneira chego à conclusão: loiras ou morenas, toda mulher deveria ser Madonna e mangar do tempo e dos clichês que nos perseguem. Idealismo ou não, toda mulher tem a capacidade de ser maior que estes estereótipos que nos impõem. Ela fez 50 anos! E eu aqui, com medo dos 30. Ah, meu. Tomá no uc, mermão.
Ah, e só pra provocar, escolhi uma foto da cinquentona quando ainda era ninfeta e morena, como eu. Esperá só eu chegar aos 50, ninguém me segura.

segunda-feira, 31 de março de 2008

Inentregáveis

Lembram do poema do Álvaro de Campos? "Todas as cartas de amor são ridículas, não seriam cartas de amor se não fossem ridículas...Mas, afinal, só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são...ridículas."
As minhas cartas, não só de amor, eram ridículas porque eu não as entregava nunca. Tanto que Bozolina e eu pensamos na idéia de blogar só com estas cartas inentregáveis.
Há muito tempo eu não fazia isso, muito tempo mesmo. No começo deste ano fiz uma, inentregável. Não pelo seu conteúdo, mas pela sua necessidade, franqueza, pelo seu desespero contido.
É inentregável...mas perfeitamente publicável. Quem me conhece, sabe quem é o destinatário, os motivos, tudo. Publico hoje, porque me agora me sinto livre do peso das confissões que ela carrega, ela perdeu sua razão de ser. Mas não sua verdade e sua beleza. Por isso, merece estar aqui.
"SP, 07/01/2008
DR* é uma chatice, eu sei. Quando não tem mais o “R”, deixa de ser chatice para se tornar aberração, daquelas que nem Freud explica. Nossa, como eu e minha camarada Nadja Caroline Um Tanto Lispector Macabéa Charlie Brown rimos com isso. (Comprido o nome dela, né?)
Tudo isso só para dizer que eu queria muito explicar – ou tentar, que seja – as razões das reações esdrúxulas que eu tive com você nos últimos anos, o que aconteceu comigo internamente para eu surtar daquela maneira. Mas sabe o que é? Eu não acho justo com você e não conserta nada. Mesmo assim, a minha necessidade de palavrório inútil não passa. Coisa de maluco isso.
Sinto saudade, também. Já devo ter falado isso para você da maneira mais casual possível, para não assustá-lo. Porque esta saudade que sinto é muito grande, não cabe em mim direito. Tanto que demorou meses para eu entender (ou admitir) que era exatamente isso que sentia/sinto. Saudade. De teclar com você todos os dias. De chamar você de Chuchu, ou Chu. De deixar que você me chamasse assim. Do seu jeito avoado. (Porra! Olha só a minha melancolia. Logo eu, que acho que você merece o total oposto, uma alegria leve e descompromissada. Você merece ser absurdamente feliz, já disse isso? :) )
Já disse para você tanta coisa sobre amor, culpa e perdão, mas nunca falei em vergonha. As atitudes imaturas que tomei me fizeram sentir muita vergonha. Ainda fazem, é lógico. Tanto que travo os quatro pneus só de pensar em procurar você. T-R-A-V-0. Simplesmente. Mesmo sabendo que você não daria o troco. Não é de você que eu sinto medo. É de me expor. Se eu comparo a minha atitude com as suas, minha vergonha triplica. Acompanhei, mesmo à distância, as adversidades que você enfrentou nos últimos anos, e vi você fazer isso com muita dignidade, muita força. Eu disse inúmeras vezes que gosto de você, que você é querido, mas nunca disse que o admiro. Sempre gostei de enfatizar os seus defeitos, mas nunca disse que as suas qualidades tem faltado para muita gente. Fico feliz em saber que o garoto que eu conheci se tornou um cara bacana, do bem.
A DR alongou-se por demais, justamente o que eu não queria. Por favor, entenda. Fiquei um tempo considerável sem admitir essas questões sequer para mim mesma, o que dirá confessá-las todas a você. Isto se você chegar a ler essa pataquada toda. Suspeito que essa carta seja da espécie das “inentregáveis”, daquelas que a gente faz para nós mesmos. Como se fosse um espelho, talvez. Ou uma punheta, quem sabe.
Ternura. Entendi o significado desta palavra, vendo o quanto eu te quero bem, sem aquela afetação de 'Eu te amos' e coisa e tal. E tem sido assim, e como é bom. Tenho o maior carinho por você, pela nossa história, e por tudo que ela nos ensinou. Espero encontrar você em ocasiões mais alegres.
With terderness,
Flávia.

PS.: DR – discutir relação. Aquele vício chatérrimo que algumas mulheres (como eu) carregam. Mas eu sigo firme no meu tratamento de desintoxicação."

sexta-feira, 14 de março de 2008

Em defesa da Teoria da Jucicreide

Não, a Jucicreide não formulou teoria nenhuma, ela é o objeto de estudo em questão. Não, eu também não conheço Jucicreide alguma, nunca vi nem mais gorda. Também não se trata de nenhuma pesquisa sobre obesidade, o foco da Teoria da Jucicreide é o seu nome. Estou aqui para fazer coro à reivindicação de Bozolina Doe para que as pessoas batizem seus filhos com nomes e não com criativas invenções ridículas.

Não sei bem quando começou essa mania de querer ser original na hora de batizar seus filhos. Na minha cabeça, antigamente as pessoas se chamavam José, João, Maria, Joaquim, sei lá. Enfim, nomes para pessoas. Talvez meu pai, um anti-estadunidense nato, um caipira esclarecido, diga que isso começou com a invasão cultural norte-americana em nossas terras tupiniquins. Quando o primeiro "Clark Gable da Silva" foi registrado em algum cartório de um cu-de-judas qualquer deste país, a merda já estava feita.

Ao falar em nomes ridículos, é praticamente automático se pensar em casos esdrúxulos como o "Um Dois Três de Oliveira Quatro" e a "Maidenusa" - corruptela de "Made in USA", este último confirmando definitivamente as idéias do meu pai. É culpa dos americanos. Pau neles.Também tem aquela mania de juntar o nome do pai e da mãe, como se nome fosse uma coisa que se formasse a partir de um 24º par de cromossomos imaginários. O meu pai tem um 'causo' emblemático, perfeito para a ocasião. O pai se chamava Clementino, a mãe Creuza. Resolveram batizar o rebento com uma mistura dos nomes. Advinha o que deu? (Resposta no fim do textículo*)

Os nordestinos, coitados, levaram a má fama de ter mau gosto na hora de batizar os filhos. Eu, como filha de uma, protesto. Meu bisavô escolheu o nome de praticamente todos os netos, e nomes bonitos. Minha mãe se chama Elisabete (isso mesmo, grafado com "s" e "te" no final), minha tia se chama Cecília, um nome adorado por Bozoca. Minha avó se chamava Irene. Nomes de gente, nada de Jusivaldo, Estrongoberto ou Sinusvânia. Há também alguns nomes diferentinhos, a única Ediluze que eu conheço no mundo é a minha tia e madrinha. Mas nada se compara à Estufagnauer. Gente, este nome existe!

Imagino que esse modismo de escolher este festival de bobagens americanizado para nomes dos filhos começou justamente para fugir dos tradicionalíssimos Raimundo, Severino e Nonato. Para fugir do estigma de nome de porteiro, dá-lhe um "Michael Stepheen", mesmo sem saber pronunciar. Em vez de "Maria Aparecida", vamos de "Marylin Victoria". Nomes fortes, praticamente uma bordoada no lugar da certidão de nascimento. Como nem tudo na vida é perfeito, moda agora é por estes "nomes de velho" nos filhos. Angélica batizou seu primeiro filho como Joaquim. Palmas pra ela. Evitou mais um "Maicow Jordan de Souza" no mundo. (Definitivamente, não estou inventando. Tirei essa pérola de uma conversa com um cara que eu conheço, justificando o nome do filho, obviamente, cafona e mal-escolhido. Ele disse que só rico batiza os filhos com "nomes de velho", porque fica "pra eles é chique", mas que pobre precisa de 'nome forte', porque se chamar "Zé", tá ferrado, vira zé-ninguém. Ai, Céus, quanta bobagem.)

Então, de uma coisa todo mundo sabe, mesmo que às vezes de uma maneira meio torta: dar um nome a alguém é praticamente dar um destino. Nome é coisa séria. Por mais que digam que gosto não se discute, quando assunto é dar nome pra gente, assim, com cabeça, tronco e membros, há que se ter um mínimo de bom gosto e senso estético. Se você por um acaso tiver uma vontade louca de criar ou usar um nome estranho, que compre um cachorro ou faça como eu e batize seus objetos. Minhas mochilas, sempre da Risca e roxas, formaram uma dinastia de "Roxonildas". Meu violão se chama Astrogildo, e ele nunca reclamou. Meu primeiro celular se chamava Segismundo, em homenagem ao protagonista da peça de Calderón de La Barca.

Bozoca defende sua teoria sobre o tema com uma pergunta impagável, que de certa maneira batiza este Textículo: "Qual as reais chances de uma pessoa chamada Jucicreide ter um destino brilhante na vida? Praticamente zero." Pode até soar reacionário, sectário até. Mas não dá pra discordar de Bozolina Doe, tanto que me convenço cada dia mais que as pessoas tem que ter os nomes mais simples e comuns possíveis. Quando a República dos Flamingos dominar o mundo, vamos copiar Portugal. Lá as pessoas só podem ser batizadas com nomes que realmente existem numa lista, e somente pertencentes ao nosso vernáculo. Lá minha mãe se chamaria Isabel em vez de Elisabete, por exemplo, porque as versões estrangeiras dos nomes são proibidas. Elisabete ou Isabel dá praticamente na mesma, os dois são bonitos. O que eu queria ver se haveria este festival de "Stéphanies" que a gente vê por aí, se essa lei pegasse por aqui, já que a versão em português deste nome é "Estefânia". Du-vi-de-o-dó!

Além do Festival de Bobagens em forma de certidões de nascimento, a gente tem que agüentar também mil grafias diferentes e ridículas para os mais simples nomes, a ponto de esquecerem a grafia correta e original. "Caíque", por exemplo, já vi escrito de tudo quanto é jeito e nenhum coloca o acento que a palavra pede. Meu amigo Gazela sempre chia se escrevem seu nome com o "h" que a princípio não existe na palavra "Tiago". Detesto quando escrevem meu nome sem acento. "Flávia" é paroxítona terminada em ditongo e por isso, precisa ser acentuada. Forest odeia quando o chamam de Felipe, seu nome é com 'i', como está na Bíblia. Engraçado que a gente reclama, e parece que é a gente que está inventando. Eu, hein?

Meu pai também reclama dessa mania de o povo colocar o nome dos filhos com trocentos 'enes', não sei quantos mil 'ipsilón', mais não sei quantos "agás". É que pra escrever dá um trabalhão. Só que, quando o assunto é nome, Seu Teodoro também não é inocente. Queria me batizar como Dejanira! Já pensou eu com nome de marca de sandália? Minha sorte é que minha mãe não gostou nem um pouco e meu pai não resolveu fazer uma traquinagem com ela na hora de me registrar. E eu sou tão bozo que minha irmã mais velha tira troça de mim por causa de um nome que nem chegou a ser meu, imagina se fosse. Perdôo meu pai porque com o resto, ele acertou em cheio. Além de Flávia, temos Cristiane e Renata. Pensa só, a Cris nasceu no Natal. Em vez de Natália, poderia ser Natalina. Ai, que meda.


Por hoje, é só, pessoal! É pra mim mesma esta cambalhota. Quem quiser pode assistir, quem quiser que faça outra!


*Ah, antes que eu me esqueça. O resultado da mistura infeliz é "Cretino
".

sábado, 8 de março de 2008

Piadas Velhas, O Provocador e Eu*

Hoje, tive a honra de contar uma piada velha para o Abu e ele rebateu com uma provocação das boas, tanto que ainda estou sob os seus efeitos. A sorte do velhote (e minha) é que eu me deixo provocar, assim como ele - apenas com a vantagem de ter mais tempo de Provocação pela frente, ao passo que ele precisa passar adiante suas Provocações, antes que se tornem piadas irremediavalmente velhas.
Pode até ser que ele tenha pensado que eu tentei ser agradável contando o "causo" da Carmina Burana, mas não. É que eu não bato bem do pino mesmo. Como 2008 é o Ano do Bozo, eu tenho Licença Poética para o Festival de Bobagens. Era quase uma obrigação compartilhar da minha bozice com o Provocador.
O pai da Helga diz que não existem piadas velhas. As pessoas é que não as ouviram ainda. (Concordo com isso. As piadas de Dona Irene, por exemplo, não envelhecem nunca! E faço questão de manter a linhagem de velho-piadistas da família.) Hoje, porém, terei de discordar da Teoria da Relatividade Piadística do Seu Thomas, porque o Provocador logrou êxito. Tomada por essa Provocação toda, voltei para casa pensando no Arsenal de Piadas Velhas que povoam a minha vida, mas que ainda assim, me fazem rir.
Ouvir quase todo dia a trilha sonora d´A Gata Comeu é piada velha, assim como os rockers de jacão de couro e cigarro no canto da boca, rodopiando suas garotas de saia godê. Renato Russo e Cazuza são piadas velhas. Aquele bando de barbudos sem banho bradando "É preciso instaurar a Ditadura do Proletariado!!!", também. Dançar Frenéticas na festa do Paulo no Copan no último domingo é mais velho que andar pra frente. A nossa geração 80 é inteirinha piada envelhecida em barris de carvalho. Pudera, nascemos na "Década Perdida"!
Filhos da Revolução (de qual delas eu não nem sei mais), nascemos com saudades dos anos 60, até da repressão. Ah, os presos, torturados, exilados e até os desaparecidos é que foram felizes! Eles tinham uma ideologia para viver!
Tenho a impressão de que a gente cresceu com a idéia de que não era necessário lutar por mais nada. Com esta democracia instantânea (basta adicionar água e pronto), lutar por qual causa? Tantas vezes acreditei nessa piada velha, mesmo sem achar graça. Enganada redondamente, é claro. As coisas não vão nada bem, este século XXI está sendo uma grandissíssima merda, por motivos vários que renderiam um novo Textículo.
Cheguei à conclusão que a única piada nova digna de nota que o século XXI gerou foi a Amy Winehouse, e só faz rir porque tem cara de piada velha. Seu visual retrô totalmente irreal, aquela cabelereira gigantesca; seus conflitos, suas composições desesperançadas, até seus vícios, têm sido uma antítese do policamente correto absolutamente odioso e falso do nosso tempo. Ela me faz acreditar que temos salvação, ou melhor, que ela não virá. Se vier, também, não estamos nem aí pra ela. "They tried to make me go to rehab, I say no, no, no!"
*Este Textículo seria para quinta-feira, mas como este foi um dia que não teve graça nenhuma, não fazia o menor sentido falar de Piadas Velhas. Seu prazo de validade, porém, é intedeterminado. Podem ser consumidas sem vão receio.

Textículo jorrado por Flaming00 em 06/07/2008

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Porque eu sou medrosa. Mas se eu desço pro play é pra brincar.

Dedicado a todos os meus amigos

Às vezes, Bozoca me chama de Layr Ribeiro por conta de uns chavões proféticos que de vez em quando sai da minha boca, ou dos dedos, meus fazedores de Textículos. Mas ela não fica atrás, viu. Primeiro foi o "Nós temos Licença Poética para o festival de bobagens", que eu até anotei de tão apocalíptico que foi. Revelação das boas. Nunca tinha visto a coisa sob este prisma.
A última foi essa do título. O que importa mesmo é o impacto da pérola profética de Bozolina Doe, e o que ela tem a ver com a nossa vida. A minha, a sua, de qualquer um que leia isso e que esteja vivo, ou quase.

Medo. Cheiramos com frequência flores amarelas e medrosas¹. Esqueça os clichês de comercial das Havaianas, aquela coisa de viver a vida intensamente. Uma hora ou outra, a gente deixa de lado nossa felicidade, nossos amigos, tudo aquilo que pode nos ser caro de fato.
Eu também odeio ver poesia escorrendo pelo ralo e por isso dói a consciência de tudo que (não) tenho feito da minha vida.
A verdade é que sinto uma falta brutal dos meus amigos. Dos antigos, daqueles que presenciaram as minhas metamorfoses todas. Não é a primeira vez que isso acontece, assim como não é novidade que, de tempos em tempos, a gente se espalha e se ajunta outra vez. O que muda é que agora temos a real consciência da morte. Sofremos perdas muito duras e as feridas ainda não fecharam, se é que vão fechar. Hoje sabemos que um dia, vamos nos separar definitivamente e cair em si desse jeito, sem nenhum colchãozinho para aparar a queda é muito doloroso, pelo menos para mim.
Por essas e outras que combater o imobilismo que a rotina aos poucos nos impõe chega a ser um desafio, o décimo terceiro trabalho de Hércules. É preciso furar a bolha, derrubar os cibermuros à marretadas. Só que isso dá medo. Um medo infundado, mas medo é sempre medo.
Quando se chega à uma conclusão dessa natureza, a vida parece uma brincadeira de corda. A gente fica olhando a corda bater no chão. As outras crianças já estão cantando "Um homem bateu em minha porta e eu a-bri!". E a gente lá, entre a ousadia e a cautela, tentando achar a hora exata de entrar. Depois que a gente entra, porém, não pode parar de pular, porque é arriscado levar um tropeção.
De tudo isso, eu tiro um certo alívio. Eu sei, eu também sou assim. "Porque eu sou medrosa. Mas se eu desço pro play é pra brincar"!

1 - ANDRADE, Carlos Drummond. Reunião: 10 livros de poesia. 7ª Ed., Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1976, p. 81 (A Rosa do Povo)