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segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Sonho de um sonho 2.0

Há tempos não falo diretamente com vocês que me leem, eu sei. Ando preferindo o discurso indireto, não quero mais falar nada. Deixo que a dor fale por si mesma, deixo que ela cante, grite, role no chão. Não dá para racionalizar este discurso, se isto for mesmo um discurso. Eu queria mesmo era dormir e já acordar em outro ano, outra vida, e que o passou antes fosse tido como uma alucinação, o sonho de um sonho ruim.

Aliás, para que servem os sonhos? Diz o Segismundo que os sonhos, sonhos são. Não necessitam de porquê. Quando a realidade é muito dura e não se consegue olhar diretamente para ela, olhe para seus sonhos. Foram eles que me salvaram de um tombo maior. O que me dói é justamente é esse contato cru com a realidade. Lucidez pura enlouquece. Bem fazia Raulito em misturar a dele com a sua maluquez. 

Falando em sonhos, vou compartilhar com vocês algo que parecem estar procurando.


O segundo texto mais acessado deste cafundó é Sonho de um sonho, mas o texto que ele apresenta é feito de partes do poema original. Era a minha versão deste poema, ou melhor, da Susi, que anda mais viva do que nunca nestes últimos tempos. 

E olha que engraçado, ele agora me retrata inteiro, que acordei que estava sonhando, que queria sonhar mais, que queria que esta realidade bizarra fosse de fato o sonho. Certas coisas nos esperam a vida toda. O Drummond, este livro, este poema, tudo. 

De: ANDRADE, Carlos Drummond de. Reunião: 10 livros de poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 1976.
(Está no livro Claro Enigma). 

sábado, 4 de junho de 2011

O Louco

Eu quero a folha em branco, o espaço vazio,
O vácuo da experiência. 
O útero oco que mês a mês se prepara para receber. 
Uma sala sem móveis, 
onde minhas canelas estejam livres de tropeções em pés de mesas de jacarandá.

Cansei de acumular, de ter que ter, de ter que saber, de ter que ser.
Pros diabos quem se garante na base do “quem guarda, tem”.
À beira do abismo,
“O centro era eu, de tudo!”

quinta-feira, 1 de julho de 2010

O Universo Bufônico de Lady Gaga

Bufão reconhece outro bufão, mesmo a quilômetros de distância. É uma espécie de irmandade o negócio. Algo como a Maçonaria, a Internacional Comunista, sei lá.

Bufões jamais são minimalistas, tudo é exagero. Ou é muito magro, ou muito gordo. Ou é anão ou é gigante. Se não tiver nenhuma protuberância, falta-lhe uma parte do corpo. Não sendo nada disso, pode ser um excluído da sociedade, como mendicantes, putas ou bêbados. Ou somente um serzinho deslocado na galhofa. "Não tenho par nisto tudo neste mundo"...

O universo bufônico não está à parte desse mundo cão. "Os bufões estão à nossa volta. Inspirem-se neles!" - postula o Mestre dos Bufões, Jorge Didaco. Depois disso, vejo bufões a topo tempo. Onde as pessoas veem somente mais um esquisito, eu encontrei mais um bufão para me divertir e me fazer companhia.

Todos têm um bufão na alma, é questão de encontrar. E a experiência para quem encontra é doidíssima: aquele ser é você e é outro. A Susi tem muito da Flávia, a Flávia se exagera na Susi. As duas se necessitam e não se contrapõem.

Stefani Germanotta é Lady Gaga, disso todos já sabem. E o contrário, é também? Há quem diga que ela montou a personagem para entrar com os dois pés na porta no mundo pop, como entrou. Isso parece muito óbvio quando se vê seus clipes, seus figurinos amalucados e atitudes idem. Agora o mais engraçado é que ela está colocando cada vez mais a Stefani na LG. No último sábado saiu no Youtube, uma nova canção da doida, digo, da diva, em que todos disseram que é a melodia é muito mais orgânica, quente, sedutora, totalmente diferente do pop chiclete que tem mostrado. E é, de fato muito mais autêntica, com uma performance ao piano bem rock n´roll, endemoniada.


Em um dos comentários, algum gagaólogo proferiu: "não sei qual é a surpresa, antes de criar a LG, era esse o estilo com que ela se apresentava por aí, é só colocar 'Stefani Germanotta' no Google que vai aparecer." O gagaólogo tinha razão. Desde muito tempo ela mostrava maturidade na composição, segurança na performance, enfim, estava pronta faz tempo. E o bufão já estava lá.



Feinha, nariguda, meio magrela, cabelos "pretos como piche" - segundo ela mesma, uma deslocada, que se trancava no banheiro e copiava makes de estrelas hollywoodianas. Já era um ser estranho. Lady Gaga só veio para dilatar a garota esquisitinha, mas cheia de talento e decisão. Mais montada que dez drag queens juntas, tem o poder de se desmontar e remontar como bem entende.

Olhando por esse ângulo, ela não é tão doida quanto parece. Aliás, é capaz de uma lucidez que só os bufões são capazes de ter. Eu não disse que bufões se reconhecem? Ora pois, se não.

Só pra terminar: Uuuuuuuuuuuuuuh! Lady Gaga!

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Rain Down - Eu tavu lá!

Está na Rolling Stone brasileira de abril, na seção de resenhas: o show do Radiohead em São Paulo deste ano foi alçado a categoria de clássico. Essa edição, com a cara do Kurt Cobain, por mim alçada a categoria de clássico também, já virou relíquia. Resolvi guardar, afinal, como sabem, eu nunca acreditei muito que estive no Just a Fest, e isso não é uma frase de efeito. É como se eu tivesse sido teleportada, abduzida, algo assim. É sério, gente!

Não acreditei até domingo retrasado, quando ganhei da única futura autoridade* em Radiohead do Brasil (quiçá do mundo) um DVD com o sugestivo nome de Rain Down, feito por um outro cabeça-de-rádio, provavelmente tão louco pela banda quanto o Vizinho Intergaláctico.

A ideia só poderia ter vindo de um fã de Radiohead. O cara coletou vídeos de câmeras fotográficas e celulares feitos pelo público no show, editou e colocou o áudio original da mesa de som, que acabou vazando na Internet e dias depois, ele disponibilizou o vídeo do Just a Fest reconstituído fielmente para quem quiser copiar na rede, desde que ele não seja comercializado e que sejam citados os créditos do seu minucioso trabalho, feito num PC que, pelo jeito, era tão ou mais tosco que este que eu uso para me comunicar com a Seleta Audiência agora-now-neste-instante.

O resultado é uma loucura, porque a atmosfera do show está toda lá, a energia. Um trabalho profissional pode ter um resultado asséptico, sem gosto. A desvantagem de um video "caseiro" talvez fosse uma coisa meio frankestein, sem pé nem cabeça, mas não foi isso que eu vi. Ele soube tirar o melhor de cada video que ele coletou e a reconstituição do show é supercoerente.

Entendi o que realmente é um deja-vù. Quando coloquei o DVD no meu aparelho, a vinheta já me deu arrepios. Afinal, é muito difícil reviver uma situação integralmente, só com um vídeo ou uma foto. Forrest já tinha me alertado que alguns momentos do video seriam incríveis e não aguentei. Pulei para Karma Police, que foi um dos pontos altos do show, e meu também. Foi quando eu desencanei: "Meu, você está aqui! O que mais você quer?" Uma verdadeira epifania. Para mim, o show começou ali. Quando vi o video, só não chorei pra valer porque eu sou durona, mas bem que eu senti os olhos marejarem. Choreeeeeeeeeeeeeeeeeeei em Karma Police!

E foi seguindo assim, pelo vídeo inteiro. Música por música. Espertamente, ele manteve o áudio original em momentos-chave do show. Fiz bem em ter me conformado de ter visto um Thom Yorke do tamanho de um Playmobil. Eu ouvi, senti, participei e quanto a ver, deixei para alguns meses mais tarde, quase sem querer. Foi uma pena não ter podido ver lá, mas graças ao Andrews Ferreira Guedis e meu Vizinhíssimo, eu vi o show refestelada no sofá com minha colcha de chenile pré-histórica preferida. Tudo bem que no show de verdade não tinha mãe falando de geladeira em promoção, mas também não dá para se ter tudo nessa vida ao mesmo tempo, não?

Agora eu acredito de verdade que eu estive no Just a Fest em março deste ano. Copiando descaradamente o Oráculo de ZÉlfos, eu encho os pulmões e exclamo num ruído luminoso, alto e claro para quem quer que seja: Eu tavu lá!


Ps.: As imagens não carecem de créditos. Meu celular também estava em ação aquele dia. :-P

domingo, 7 de junho de 2009

Grito em fatias

Ensaiei este início de textículo inúmeras vezes e para arrematar, ensaiei mais uma. Existem coisas sobre as quais penso em falar e não falo, outras, simplesmente me dão vontade de falar. E é a vontade quem manda. E o fato é que nestes últimos dias não tive a menor vontade de escrever nada, por mais que existam coisas que merecem e que precisam ser ditas.

Paralisei não só porque os dedos congelaram de frio, mas também por ter um nó gigante na garganta, que não consigo cuspir com um grito bem sonoro, daqueles de ensurdecer o mundo.

Para não deixar minha seleta audiência mouca, eis que vem um grito em fatias.

Fatia nº1 - tenho lido jornal ultimamente: o Estado (Novo) e a Folha (Ditabranda) - de graça porque não dou um real em nenhum dos dois - e tanto um quanto o outro desataram a falar de Educação e do professorado. Não sei o que é pior: se é quando criticam ou quando resolvem defender. As duas vertentes põem a classe para baixo do cu da cobra do mesmo jeito. Mas que merda: a Educação não precisa ser um ato heroico ou fruto de idealismo puro. É uma carreira como qualquer outra, precisa ser atraente para trazer para si gente talentosa e competente, não idealista. E para deixar bem claro: atraente não só financeiramente, porque engana-se redondamente quem pensa que é só grana que move uma pessoa a escolher e permanecer numa carreira. É satisfação pessoal também, até mais que dinheiro, para alguns. E há quem chame isso de idealismo. Uma pinoia. Idealismo é coisa pra gente burra¹.

Fatia nº2: O penúltimo post do blog do Skylab recomenda um DVD do Luiz Tatit, fodíssimo compositor e estudioso da canção, que me faz pensar nas minhas, se são canções mesmo ou um monte de fórmulas repetidas ouvidas no rádio à exaustão desde os tempos da terra média. Skylab, então, cita um outro post seu, mais antigo, sobre a "nova safra" brasileira de cantoras, da Marisa Monte em diante. Nunca tinha entendido porque eu tinha enjoado da tal "nova MPB", que no início dessa década foi uma opção para mim àquele rock farofa chinfrim que tocava na rádio nessa época; entendi quando li esse texto. Tudo muito asséptico, tudo muito certinho, o que torna tudo irremediavelmente um porre. Pena que a discussão do texto descambou em quem comeria qual cantora dessa geração - papo que de fato não me interessa - por causa da piadinha final do texto: "Você comeria a Marisa Monte?"

Este texto me abriu um clarão na mente e exagero até que pode mudar a minha vida: digamos que agora sei em que cavalo apostar. Se bem que Skylab me deu uma esperança como intérprete (não-asséptica e cheia de erros, porém original) com uma das mãos, mas estrangulou a pobre com a outra, colocando todo mundo no mesmo balaio:

"qualquer cantora, da nova geração, não mencionada e qualquer outra que venha ainda a surgir, por favor, se sinta incluída – não há escapatória."

Fodeu! Desisto de ser diva. Prefiro continuar sendo vocalista de banda de rock de garagem em franca ascensão mesmo!

Fatia nº 3: Os TM estão sendo frequentados e comentados por gente nunca dantes vista, o que é realmente muito bom, mas me sinto meio como Wanderson, saca? "Não estou preparada para a repercussão: repórteres, não insistam por enquanto!" Um moço educado veio elogiar o sabor acentuado dos textículos que andou provando e citou que o trabalho do Skylab "vai além do grotesco e escatológico" e eu, como bufão e cachorro sarnento que sou, rosnei pro pobre, afinal a estética do grotesco é complexa, a ponto de ter que "ir além" dela. "Os bufões estão a nossa volta: inspirem-se neles", já postulava Titio Jorge Didaco. Foi mal aí, galera, mas é que o tal do "humor ácido" não é puramente performático, é a verdade mais profunda do bufão que vos fala.

Notas 'inútieis'

1- Idealismo vazio é coisa de gente burra sim, porque é exatamente aquele que não move uma palha do lugar. Eu ainda mantenho uma ponta de idealismo sim, mas com uma boa dose de cinismo.

2 - Ilustrar este textículo com O Grito, de Edvard Münch é um lugar-comum quase imperdoável, mas quem resiste à poesia dessa tela? Nem Homer Simpson se safou! Créditos da imagem: dimensaoestetica.blogspot.com/2008/01/o-grito...

quinta-feira, 26 de março de 2009

Cabeças de rádio

Lendário ano de 1998, com 15 anos, quase 16. Sentada no sofá da casa do meu namorado, esperava aquele adolescente maluco e com um cabelo que conseguia ser mais desgrenhado e revolto que o meu terminar de atender um telefonema na cozinha. Nem me lembro com quem ele falava, se senti ciúme ou não, e a verdade é que, por conta do que tinha acabado de acontecer, eu estava catatônica demais para pensar qualquer coisa que seja. E eis que dou de cara com o Thom Yorke pela primeira vez na minha vida.



A TV era grande, o sofá bem fofinho, assim eu me sentia acolhida - apesar daquela tarde ter sido puro risco. O rosto expressivo e a canção triste não tinha nada a ver com o momento que eu vivia, mas mesmo assim ela me chamou a atenção. Provavelmente não foi a primeira vez que eu ouvi Radiohead na minha vida, mas foi a primeira vez que me chamou a atenção, por um momento bem fugaz.

Essa canção não foi trilha sonora daquela tarde e se fosse, seria como de um filme do Tarantino: não faz parte da cena de um jeito arquitetado ou estético, aparece de um modo casual. Tanto que tinha me esquecido desse fato e eis que ele vem à tona com a ida ao show. Hoje, porém, percebo que esta horinha foi mais importante que eu imaginava.


Radiohead para mim sempre foi sinônimo de Luiz Filipe, o "historiador, baterista, desenhista, o último a ser escolhido nas aulas de Educação Física e contador de mentiras sobre si mesmo", que tenho como vizinho e amigo desde o 4 anos de idade. Quando o pessoal ainda chamava Fake Plastic Trees de "música do Carlinhos", ele já era louco, doente e alucinado pelo Radiohead e desde aquela época dizia que essa uma das maiores bandas de todos os tempos, coisa que tem gente descobrindo só agora, como eu.

Aliás, Fake Plastic Trees também faz parte do conjunto de lembranças esparsas da década de 90. Ainda existiam aquelas folhas com algumas letras de música traduzidas chamadas de Take One ("pegue um") distribuídas por cursos de inglês e que sumiram com a popularização da Internet. Não sei que OVNI trouxe essa letra até minhas mãos, o fato é que eu li e guardei durante muito tempo e suspeito que o mesmo disco voador a levou de volta para o lugar de onde ela surgiu. Sempre gostei de uma poesia meio dadaísta e foi nisso que Fake Plastic Trees me chamou a atenção. Na época da propaganda do Carlinhos, pasme, a gente estava sem TV em casa ou já tinha sido instalada uma antena parabólica que não faz transmissão local. Acredita que até hoje não vi essa propaganda, nem no Santo Youtube? Mesmo assim, nunca me esqueço do Mauro me chamando de Carlinhos toda vez que eu fazia uma burrada.

Quando resolvo ouvir Radiohead para valer, Forest me emprestou o The Bends, que ficou comigo durante um bom tempo. Na época, fui abduzida por High and Dry, que não é exatamente a melhor deles, mas eu gosto, pô! Simples assim.

Desde que os In-pessoa se juntaram para tocar, é grande minha aproximação com a banda, porque o Zé também é outro doido por Radiohead. Foi aí que assisti a alguns vídeos, baixei álbuns, mas tudo numa atitude de pesquisa, de curiosidade, não tinha sido tragada ainda pela profusão de sons e de timbres das guitarras cheias de pequenos detalhes, da bateria precisa, do vocal agudo e afinado do Thom. Tudo isso com a pegada experimental que rechaça de cara dois clichês mais que batidos sobre rock n´roll: que rock é um estilo pobre em sofisticação e que para fazer um som elaborado é preciso ser um virtuose mala-sem-alça. (Que chatice é essa coisa de "Steve Foi" - tão rápido que nem vi a nota que ele tocou. Ah, Cabral, fala sério.)

Durante esta semana, porém, tentando resgatar flashes de memória e guardando no corpo as memórias físicas do show, finalmente fui hipnotizada por estes cabeças de rádio. Meu mp4 chega a ter vida própria: de uma maneira totalmente instintiva, uma canção vai e volta feito bolinha de ping pong entre minhas orelhas. Advinha qual?

Acertou quem respondeu "No Surprises".

Isso parece ou não filme do Tarantino? É como se eu a película estivesse correndo para parar exatamente neste ponto. Adoro roteiros entrecortados.

terça-feira, 24 de março de 2009

Sonho de um sonho II

Neste domingo, fui uma das 30 mil pessoas que assistiram ao show do Radiohead em São Paulo, e aquela sensação duplipensante de viver o momento ao mesmo tempo em que se tenta racionalizar a experiência para relatar depois funcionou só durante alguns instantes, porque o que eu vivi foi tão surreal, que me sinto como o Segismundo, protagonista de A vida é sonho: estava dormindo e acordei aqui ou foi o contrário, tudo isso é um sonho?

Engraçado porque quem é fã absoluto e irrestrito de Radiohead não sou eu, acho difícil superar Vizinhíssimo e TioZé em loucura insana por Thom Yorke e seus parceiros, mas isso não impediu que eu me comportasse como uma fã, a começar pelo dia em que eu comprei o ingresso, uns três meses antes. Por que eu fiz isso, se não era tão fã assim? Simples, eles decidiram vir ao Brasil no seu melhor momento, e conta-se nos dedos as bandas internacionais que fazem isso. Sabia, desde sempre, que seria este um show histórico¹. E foi.

A surrealidade da experiência começa pelo fato que faz uns 10 anos que eu não vou a um grande show de rock e sinceramente pensei que esta fase já tinha passado. Clichê muito piegas, mas verdadeiro: é como se eu tivesse a minha adolescência de volta. E isso é bom demais.

Minha mente ainda tagarelava no show do Los Hermanos, que no início eu desprezei, mas que depois ganhou um gosto de piada velha envelhecida em barris de carvalho, como um bom vinho. O show foi melhor que eu esperava e achei muita graça em eu não conhecer nada de Los Hermanos que ultrapassasse a chatice da "Anna Julia". Eles que não são bobos nem nada, não tocaram essa pérola do cancioneiro chato do pop-rock brasileiro. Conclusão: apesar de ter apanhado do Chorão e de dar uns sapecos na pirralha da Mallu Magalhães, o Marcelo Camelo merece algum respeito musical, mesmo com sua cara de funcionário da Nasa dos anos 70, misturada com cara de judeu de Higienópolis com traços de estudante de sociais da USP ou coisa que o valha que me irrita um tanto, eu confesso. E o Rodrigo Amarante fez mais bonito que nosso idish-apollo13. Alguém tem o telefone dele, por favor? :-P

Outra piada velha, mas que eu conheci estes dias, portanto tem graça foi o Kraftwerk. Eles tem mais de 20 anos de carreira, mas para mim foi a descoberta da pólvora. Vi tudo naquele show: poesia concreta, Mondrian, crítica social. Mais um drama tostines na minha vida: eles são realmente vanguarda ou o que a gente faz e ouve em termos de música é que está datado? We are the robots!

O Radiohead, como bem informa a notícia do link, entrou pontualmente em cena. E aí que começou meu desespero, do alto dos meu 1,63m de altura. Não adiantava ficar na grade, como bem observou o já iniciado em shows do Radiohead - o dono do... OKcomput3r! - para que se pudesse ver o show na íntegra, com os efeitos de luz que ajudaram ainda mais a criar o clima de "isso é verdade mesmo?" que permeou todo o show. Só que era gente demais naquele lugar e ver mesmo o show, eu não vi. Demorou um tempo para entender que aquilo não era um show, era uma experiência, e que em shows de rock o legal não é ver e sim participar. Foi aí que a coisa ficou boa para mim, quando rolaram os melhores momentos do show, na minha opinião: Paranoid Android, Karma Police, e do In Rainbows, Reckoner. No bis, Fake Plastic Trees foi atrapalhada por uma briga perto de mim. Como bem observou um outro cara que estava por lá: "Brigar logo na hora do Carlinhos, pô?" Aí, estragou.

Hora de ir, quase um enrosco, em plena madrugada de domingo para segunda. E lá estávamos, mais uma vez, eu e meus companheiros de aventura, tentando sobreviver na cidade. Chegamos três da manhã em casa e em vão tentei acordar às 5h30 para ir trabalhar e abri os olhos com essa sacada do Segismundo: estou acordando agora ou voltando a dormir?

Esta pergunta se mantém sem resposta. Desde que acordei/dormi, tenho ouvido Radiohead feito uma louca, tentando "concretar o fluido", reter na memória o que passou, o que eu senti. Essa bola eu cantei para o Zé, na saída do show: acho que só vou entender o que aconteceu de verdade daqui a alguns anos. E olhe lá.

Por isso fica para o próximo textículo um pouco mais da minha relação com o Radiohead, como se fosse os TM um filme do Tarantino, que vai e volta no tempo com garbo e elegância, como eu*. É para nós mesmos esta cambalhota!

1 - Aos que sobreviveram para contar esta história comigo, aquele abraço!

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Sonho de um sonho


"Sonhei que estava sonhando, e que no meu sonho esculpido, os três sonhos superpostos dir-se-iam apenas elos de uma infindável cadeira de mitos organizados...


Sonhei que o sonho vinha como a realidade mesma...sonhei que o sonho existia não dentro, mas fora de nós, e era tocá-lo, sorvê-lo
gastá-lo sem vão receio...


Sonhava que o meu sonho retinha uma zona lúcida, para concretar o fluido...sonhava que estava alerta, e mais do que alerta, lúdica, e receptiva, e magnética e em torno de mim se dispunham possibilidades claras!


Sonhei que os entes cativos dessa livre disciplina plenamente floresciam, permutando no universo uma dileta substância e um desejo apaziguado de ser um com ser milhares, pois o centro era eu, de tudo! "


Bem, esta aí da foto é meu outro eu-lírico, a Susi. Ela é um bufãozinho anoréxico e que de tão bufão, ficou isolada até dos outros bufões (putas, anões, refugiados, só a 'nata' da sociedade). Foi ela que trocou todas as bolas do poema Sonho de um Sonho¹, do Carlos Drummond de Andrade, e quando chegou sua hora de falar, ela cuspiu seu poema predileto assim, todo trocado. Mas ainda assim fez sentido. Tanto que virou o nome da performance² toda, como se todo aquele universo onírico tivesse saído dos seus lisérgicos miolos. Puta merda, que saudade.

1- Para quem quiser conferir o poema inteiro, lá vai:
ANDRADE, Carlos Drummond.
Reunião: 10 livros de poesia. 7ª Ed., Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1976, p. 172 (Claro Enigma)
2 - Para quem não sabe lhufas de que estou falando: www.fotolog.com/dixie_bandit/31307963