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quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Desdobramentos da visita do Ministro

Já se passou mais de um mês desde que o Ministro da Educação, Fernando Haddad esteve na Comunidade Nossa Senhora de Fátima, no Jardim Elisa Maria. Até parece que não houve desdobramentos nesta história, o que felizmente não é verdade. Eu é que não dei conta de transmitir a notícia, mas como o movimento segue com a sua marcha, não é tarde para falar sobre isso, até porque não vamos encontrar nada sobre este assunto na primeira página de um jornal de grande circulação. Se encontrarmos, vai ser críticas. Pobre estudar, para que? Escola pública de qualidade? Para quem? 

Manhã de sábado fria, chuvosa, chatinha para deixar a cama cedo, mas muita gente não ligou para isso. A comunidade estava lotada, e assembleia pacientemente esperou uma hora a mais que o combinado.  Nem tudo eram flores à espera da visita do ministro. Grevistas do Ensino Federal marcaram presença com um protesto silencioso, apontando para vários problemas que de maneira alguma devem ser ignorados. 

E a quem mais interessa o acesso a vagas de ensino técnico e superior, estava lá e fez bonito. Camila não pensou duas vezes. Olhou bem para a cara do senhor ministro e disse, sem pestanejar, que quer estudar para ter a chance de estar no lugar dele no futuro. O que de fato prova que esta conversa mole de juventude alienada é mais velha que andar para frente. Não era todo mundo. por exemplo, que tomou borrachada e choque elétrico nos Anos de Chumbo. Uma parcela da população jovem, nestes mesmos anos, estava tranquilamente descendo a Rua Augusta a 120 por hora, tomando hi-fi com Gini Crush e dançando um twist, nem aí com a Light, enquanto o pau comia Brasil afora.   



E por fim, a fala de Haddad, que anunciou que a Brasilândia será beneficiada com o Pronatec. O objetivo do movimento agora é a escolha do local onde a escola será construída. Uma das coisas que particularmente eu gostei no discurso do ministro foi ele ter ressaltado a importância de que esta escola tenha um projeto pedagógico condizente com as demandas da população, que dialogue com a realidade do bairro. Se isso realmente acontecer, maravilha. A Educação terá, enfim, servido para alguma coisa séria. 



No Portal do Ó e no blog do movimento tem mais alguma coisa sobre. E como eu já disse, a marcha segue. Estou mantendo contato com Marcos, colega professor e ativo neste movimento, que tem me trazido informações frescas sobre o assunto. No último dia 26 recebi dele o convite:

Queridos amigos,

Escrevo para lembrar a todas e todos que remarcamos a reunião do movimento para o dia 1º de outubro às 14h00.


O local será o mesmo da reunião anterior: EMEF Padre Leonel Franca - Estrada das Taipas altura do nº 2500







Seria importante todos priorizarem, ainda que seja para ficar um tempo apenas na reunião, pois nesse dia teremos os folhetos que todos deverão sair com um punhado para ajudar na mobilização para o seminário.

Sugestão de pauta:

1 - Balanço e avaliação dos últimos dias
2 - Terrenos
3 - Seminário: 22 de outubro
4 - Outras questões

Qualquer dúvida ou proposta, é só responder para todos e pôr em discussão.



Bjo e abraço fraterno

Marcos Manoel



Repasso o convite, e se eu conseguir sobreviver à prova do inglês, quem sabe vocês não me veem lá! 





quarta-feira, 23 de março de 2011

Hadouken, Zangief!

Ou ainda: Chupa, dentuço!

Rita Lee e Zélia Duncan já disseram: só quem já morreu na fogueira sabe o que é ser carvão*. Hoje fala-se tanto em bullying que até parece novidade. A novidade é a superexposição da vida da molecada através das redes sociais, vídeos no celular e coisas do gênero. O que acabou gerando o cyberbullying,  uma versão ainda mais assustadora deste fenômeno, porque aterroriza e tortura até quando se está fora da escola.


Provavelmente, a agressão foi gravada para depois exaltar o ego do agressor na rede, mas bem que dizem  por aí que só os idiotas são cem por cento autoconfiantes. Este estava tão seguro de si a tal ponto que esqueceu: o trouxa de que ele pretendia tripudiar tinha pelo menos o triplo do seu tamanho, e como não contava que ia levar um hadouken de foder, o tiro saiu pela culatra.

Este assunto caiu nas minhas mãos ontem, através do meu amigo e novo provador de textículos, Porpeta, que postou em seu perfil o link do texto de uma amiga sobre o caso, muito bem escrito e corajoso, porque fugiu da hipocrisia e falou com todas as letras: quem mexe com quem está quieto merece sim levar uma na cara para aprender. Não é revanchismo, é o direito que todos têm de se defender quando sua dignidade é ameaçada.

Sei bem o que é isso, fui vítima de bullying na escola. E digo que é horrível, e olha que não sou de ficar quieta. O motivo: até o ensino fundamental, eu fatalmente era a primeira aluna da sala e visivelmente a protegidinha da mamãe. Estava estampado na minha cara. Alvo fácil para bullies, que eram não só moleques, como pode-se cair na tentação de pensar. Meninas também perseguem com tortura psicológica, agressão física, colocando apelidos, roubando suas coisas. Maldade não tem idade nem sexo definido: não adianta dizer que isso é coisa de moleque ou que é briga de criança que logo passa. 

A minha sorte é que eu nunca fui de sofrer calada, então eu sempre pus a boca no trombone, o que criou uma par de situações hilárias na minha época de escola. Porque sim, a Betona ia com toda fúria de leoa defender sua cria na escola, como uma Dona Florinda vai defender seu Quico. A única diferença é que ela não batia em ninguém, ia reclamar direto na Direção da escola, num voo praticamente sem escala. 

Eu, que não sou nenhum Ghandi, também cerrava meus punhos de vez em quando para acertar meus algozes. E como não tenho juízo até hoje, eu levava uma com qualquer um que mexesse comigo, até aqueles ditos mais perigosos. Afinal, eu também sou mano da Brasilândia, pô!

Uma hora isso acabou passando, hoje acho foi que por conta do meu temperamento explosivo. Como não aguento sofrer calada, faço logo um estardalhaço. Mas na maioria das vezes a vítima de bullying é retraída e não consegue reagir. E quando reage, sai de perto, porque vem muita merda pela frente. 

Casey Heines só revidou o ataque e deu a sorte de ser gravado. Só que esse tipo de reviravolta pode ser muito, mas muito pior. Alguém se lembra do Massacre em Columbine? Não é totalmente aceito o fato, mas considera-se que eles eram excluídos da ala dos descolados, atletas e populares da escola. O que eles fizeram foi coisa de psicopata, é claro, mas nunca se conhece totalmente os demônios que há dentro de cada ser humano. Aqui no Brasil, aconteceu coisa parecida, alguns anos atrás, acho que numa cidade do interior de São Paulo. Antes de se matar, o garoto fez questão de levar a arma pra escola e atirar para tudo quanto é lado.

De tudo isso, o que mais me assusta é a completa ignorância das famílias sobre o fato. Há pais e mães que simplesmente não conhecem o filho que tem ou que não conseguem perceber quando o filho está sofrendo agressões na escola, principalmente a psicológica, mais sutil e perigosa. Mesmo meus pais, que sempre foram super presentes, não entendiam totalmente o quão horrível é ser torturado o tempo todo, principalmente na adolescência, onde a autoestima é algo tão frágil. No caso do Zangief Kid, nem o pai da vítima nem do agressor sabiam do que acontecia com seus filhos.

E a escola? Agora sou professora, este assunto está na pauta do dia hoje, não é coisa do passado para mim. O que tenho a dizer sobre o outro lado dessa história é que é muito difícil identificar bullying em sala de aula, porque: 

1 - O comportamento bully é covarde. Vai aprontar quando não tiver chances de ser pego;

2 - Aquilo que alguns pais e mães não dão conta quando estão com duas em três crianças em casa, deve ser multiplicado por pelo menos 35 no caso do professor em sala de aula. Se a gente parar para resolver  todas as situações de conflito em sala de aula, abandonando todo o resto, dependendo de quão danada é a turma, em meio segundo vai ter gente até no teto. E nós somos responsáveis por TODOS que estão dentro da sala quando estamos em aula. Se alguém se machuca, a gente é que responde pelo fato.

Para a escola, não adianta combater situações isoladas com punições igualmente isoladas. O bullying é um fenômeno que acontece de maneira sistemática e deve ser combatido da mesma maneira pela escola e pela academia. É um absurdo, não se estuda este assunto nas licenciaturas e só agora estudos acadêmicos e livros sobre o assunto estão ganhando alguma notoriedade. Então a escola dos dois garotos que puniu a briga com uma suspensão para os alunos e depois lavou as mãos, está errada. Pode-se até punir para deixar claro que a violência não será tolerada, mas onde toda esta tolerância zero estava quando Casey Heines era constantemente agredido? Como eu disse, é difícil descobrir, mas a partir do momento que se descobre, a escola como instituição deve se posicionar contra isso. O bullying é um câncer da sociedade, que se reflete na escola. Logo, a gente tem que fazer alguma coisa, sim. E rápido.

Defende-se que o agressor não pode ser jogado na fogueira  como herege pura e simplesmente e que também precisa de atenção, talvez até de tratamento. É  mesmo doentio ter que rebaixar o outro para se sentir melhor, isto deve ser cuidado, mas jamais tratando os agressores como coitadinhos. E o bestiário pedagogês adora o jogo do coitadinho. A mídia norte-americana também entrevistou Richard Gale, o menino que tentou agredir Heines e ele diz: "minha mãe diz para eu ter sucesso na vida", chora uma lagriminha de crocodilo, mas depois deixa escapar que não lamenta ter agredido Casey e ainda mente muito mal dizendo que ele tinha sido agredido antes.



O caso Zangief Kid é emblemático, trouxe à tona um assunto importante que deve ser tratado por toda a sociedade. Mas é lógico que o PIG estadunidense reduziu este acontecido a um mero heroes and vilains muito do chinfrim. Casey Heines virou heroi sem ter feito nada heroico, ele só revidou a agressão e isto é instintivo. Colocá-lo nesta posição de maneira tão simplista só incita mais o ódio e apologiza a violência, o que não resolve o assunto. E será que o garoto que antes era tratado como o mosquito-do-cocô-do-cavalo-do-bandido está preparado para tanta exposição na mídia e do dia para noite passar a ter duzentos mil amigos no Facebook? Ele só queria que o deixassem em paz. (Sem contar que agora é o Gale que está sendo perseguido. Reviravolta a là Tom&Jerry esta, hein?)

Mais que um heroi, Casey tornou-se um símbolo de uma situação que só agora está sendo vista pela sociedade em geral com um pouco mais de consciência. Deve-se aproveitar a situação para conversar sobre o bullying não somente dentro das escolas, mas em casa também. Então, pais e mães: por favor, conheçam de fato seus filhos e o que acontece com eles dentro e fora da escola, principalmente  quando estão online.  Isto não é controle, é cuidado. Vítimas de bullying: não sofram calados e não esperem para tomar uma atitude quando se está no limite da razão, como Casey Heines fez. Educadores: não podemos mais ignorar o assunto. Bullying sempre existiu e sempre foi grave, mas na era digital 2.0 conseguiu ficar pior. E para acabar, Bullies:  tomem cuidado com quem vocês batem. Vocês podem apanhar feio. 

Epílogo
Com todo o politicamente correto que nos massacra neste mundo, atire a primeira pedra quem não viu o moleque magricela e dentuço beijando o chão e não pensou: "Se fo-deu!"
(Ok, os mais educados podem ter pensado somente um Bem feito. Mas equivale em sentido.)

sábado, 4 de julho de 2009

Orgulho de ser gente

Quer ver como Educação virou futebol? Quem mais fala de Educação? Gilberto Dimenstein (jornalista), Içami Tiba (médico), sem contar um tal de Gustavo Não-Sei-O-Quê¹ (economista) - este último não tem nem um mestrado na área ou ao menos uma pós em docência do ensino superior para falar uma linha sequer sobre educação com alguma propriedade. Todos estes apontam o "fracasso escolar", expressão banalizada de uma maneira tal, que se transformou numa instituição difícil de ser derrubada, pois serve de munição para as formulações e teorias destes "figurões". Se de repente tivermos uma educação digna da Escandinávia, de quem eles vão falar mal, na falta dos professores? Dos lixeiros? Dos garis? Dos personal stylists?

O fato é que certas coisas foram feitas para não dar certo e a Educação escolar, nos moldes tradicionais, é uma delas. Até porque se der certo, um monte de burocratas sentados vão perder o emprego. A gente trabalha engessado, escola é uma instituição engessada, num formato que remonta ao fim do século XVIII, aliás! Ou seja, não existe fracasso escolar, ele está dando muito certo.

Estou, a partir de agora, na contramão do coro de lamentações que até nós, professores ajudamos a engrossar: está na hora de falar de iniciativas bem-sucedidas.

A Secretaria Municipal de Educação possui um projeto de rádio escolar intitulado EDUCOM e a escola onde trabalho participa deste projeto. Como estava parado há algum tempo e na iminência de perder os equipamentos por conta disso, a coordenação pedagógica pediu para reativarmos este projeto, repletos de possibilidades pedagógicas. Nova na escola, senti meus olhos míopes brilhando neste momento, afinal eu sempre quis trabalhar com rádio, e é lógico que dei meu nome e a cara à tapa para participar desta empreitada.

Desde 28 de maio, estamos tocando o projeto de reativação da Radio Jovem Cidadão, com dois ou três alunos de algumas turmas do Ciclo II e a molecada é talentosíssima. Estávamos em compasso de espera até sábado passado, 04/07/2009, quando a radio funcionou ao vivo na Festa Junina da escola, com inserções que divulgavam desde o Conselho de Escola até as matrículas para o EJA, anunciando as barracas e as atrações da festa. Tudo muito simples, porém eficiente e regado com o carisma dos nossos meninos e meninas, agora locutores, roteiristas, operadores de som e tudo mais que uma rádio de verdade tem direito. Ah, antes que eu me esqueça, também me aventurei na locução neste dia.

Este dia funcionou como um pré-lançamento da rádio, que funciona pra valer a partir do segundo semestre. Já temos uma grade de programação montada com música, informação e prestação de serviços, um acervo variadíssimo montado a toque de caixa, para contar com uma programação musical que vai do funk ao samba-canção, e alguns roteiros prontinhos para rodar, sem contar os canais de comunicação via Internet, para interagir com a galera.

Grande parte destas ações partiram espontaneamente da garotada, rápida no gatilho a ponto de me deixar zonza, com tantas ideias para organizar. E olha que me deixar zonza é tarefa para poucos, porque sou ligada no 440.

Então só posso agradecer ao poder ultrajovem destes meninos e meninas. Será que vou esquecer de alguém? Vamos lá: Murilo, Douglas, Victor, Fabio, Jéssica, Sarah, Eduarda, Cássia, Cris, Alan (o único valente a operar o som das 8 às 15 da tarde), Prof Nelson, pioneiro nesta iniciativa e veterano da Radio Jovem Cidadão, e à Mariana, minha parceira no Velharia: aquele abraço!

Lembrando a todos que estamos apenas começando, porque muita coisa boa ainda está por vir!
Uma cambalhota coletiva para os que ainda preferem o fracasso escolar!

Nota:
1. Lembrei. O nome do cabra é Gustavo Ioschpe. O bonitão fez mestrado em Economia em Yale! Mas por que cargas d´água não vai falar de Economia? Só a Veja para nos brindar com bobageiras-de-terno de tão alto nível.

2. A imagem não precisa de créditos, porque é minha-feita-por-mim-mesma. Quem quiser ver as outras, estou postando no Orkut.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Vergonha de ser gente

Uma vez ouvi que o professor é uma criatura burra por excelência, porque nunca sai da escola. Claro que isso é um trocadilho, mas sabe-se muito bem que hoje em dia, declarar-se professor desperta no senso comum dois sentimentos, ambos antagônicos e nada lisonjeiros: piedade ou escárnio. Quem opta por essa carreira é tido como burro, mesmo que seja de uma forma velada e tem uma gente escrota que declara isso abertamente, através de discursos e de certas posturas que a gente vê em alunos e suas famílias - diria eu apenas doadoras de DNA, família para mim é outra coisa.


Já disse isso anteriormente, e isso não é papo café-com-bolacha¹ apenas. É fato. A falta de valores em que se basear é tão grande que dia desses, me dei conta que esse tipo de discurso que defendo são valores burgueses puríssimos - escola, família, lutar pra ter um emprego, etc. Por mais à esquerda que eu me considere, fui criada à maneira pequeno-burguesa e outra, a crise de valores está tão grande que qualquer valor serve - burguês ou não. Se eles ainda valessem alguma coisa, a atual juventude teria porque lutar, mas como não tem, estão cada vez mais letárgicos e agressivos - outra contradição.

Duas notícias pinçadas recentemente exemplificam bem o que estou falando. Como contra fatos não há argumentos, deixo que elas falem por si mesmas:



Preciso dizer que a primeira notícia mostra que este caso não passa de um refinamento de algo que existe desde tempos imemoriais na instituição escolar - o bullying - com a diferença de que este citado agora fez uso das chamadas mídias 2.0 (Orkut, principalmente). A segunda trata-se de mais uma descoberta da pólvora. Escola é, por excelência, uma instituição cruel com as pessoas, por ser um microcosmo da sociedade, uma amostra grátis do pior do ambiente em que a gente vive. Muita gente não entende o oximoro que sou: quando criança e adolescente, adorava estudar, mas detestava escola, assim como sou hoje uma professora que adora seu ofício, mas que odeia a instituição escola o triplo que odiava nos seus tempos de estudante. Ô lugarzinho medíocre, e olha que adoro as minhas escolas (eu não contente com uma, tenho duas dores de cabeça para privilegiar os dois lados do cérebro).

Sem contar os casos que vejo ou que fico sabendo no dia-a-dia e que não são noticiados. Nesta semana soube de dois que são de amargar, me dá vergonha de ser gente por essas garotas. TODAS as protagonistas são garotas. Qual é a desculpa pra isso: excesso de testosterona ou falta dela?

Essa primeira notícia deu no último Jornal Nacional, e é lógico que foram consultar um "especialista em Educação". Quando ouço essa expressão já começo a tremer - algum tonto graduado vai desfilar o rosário do Bestiário Tucanês da Educação², e aposto minha coleção de figurinhas que nenhum deles pisou numa sala de aula do ensino básico. No máximo algum pode ter dado aula no ensino superior, porque se virar nos quarenta e cinco no ensino fundamental e médio é coisa pros peões da Educação, como eu. No caso do JN de hoje, bingo! O desavisado da vez bateu mais uma vez na tecla do diálogo, como se a molecada de hoje quisesse isso. Eles pedem por limite e cada vez mais de uma forma consciente. Quantas vezes não ouvi: "Professora, bate nele!" ou "Manda ele pra diretoria!". Como a impunidade é grande, os nossos alunos sentem isso e esta ânsia por limites em casa e na escola acaba virando um catalisador de contrarrevolução. Ficam com saudade do tempo da palmatória. Nem eles aceitam esse discurso hipócrita que transforma um ECA num desserviço à educação dos mais jovens, principalmente na escola, que é um espaço público e visado, ao contrário do espaço doméstico, mais difícil de fiscalizar.

Muita gente me pergunta: mas por que você não sai dessa? Um dia posso até sair, mas quando EU quiser. Quero ter o direito de gostar do que eu faço, oras. De uma hora pra outra, educação virou futebol: todo mundo entende, todo mundo dá pitaco, mas sempre prevalece a aura romântica em torno da figura do mestre, embora constantemente desmoralizada. Não sou um Dom Quixote, porra! Estudei para ser professora, não para lutar com moinhos de vento e não me sinto na menor obrigação disso, porém...

...Do que dá certo ninguém fala, só das desgraças mesmo. Tenho uma notícia muito boa para dar aqui, só estou esperando que ela tome mais consistência para ser divulgada. É como a Bruna citou no seu blog:
"A árvore cai com grande estrondo, mas ninguém ouve a floresta crescer."
Patrick Pardini


O poder ultrajovem vem aí. Aguardem!

Inútieis:
1 - Papo café-com-bolachas é a conversa típica de sala dos professores: ora reclamando da vida, ora rindo das pequenas desgraças cotidianas.
2 - Existe um outro sinônimo para o Bestiário Tucanês da Educação, criado por alguns colegas: chalitar. Quer coisa mais irritante que ele, querendo se parecer com Dalai Lama falando? Ah, me poupe!

domingo, 10 de maio de 2009

Crianças

Não é novidade para os leitores de textículos que desde o seu nascimento, este cafundó eletrônico bate uma bola e tanto com a sua vizinhança real e virtual, mais precisamente com o OkComput3r e seu dono Luiz Filipe.

Logo depois do Viva Boal (logo abaixo), ele me mandou um link de um jornal alemão ressaltando a importância do teatrólogo no exterior - que eu tornei disponível para esta audiência heroica em me aguentar. Sua nova postagem, inspirada ou não na minha primeira observação sobre estar realmente informado no mundo de hoje, fala do mesmo assunto com a profundidade que merece. A postagem anterior a essa fala da robô-professora que encanta as crianças japonesas com seu "realismo emocional". Até aí, tudo bem. A piada é que nosso futuro professor de História deixou o melhor pro final: sua sarcástica observação sobre o real sentimento que a robô precisaria externar para parecer uma professora bem humana. A minha gargalhada foi tão sonora que acho que até ele ouviu, do outro lado da parede.

Esta observação sobre crianças me lembrou um breve episódio deste fim de semana, marcado por uma festinha de aniversário de criança típica, com direito a bedel vigiando os brigadeiros antes do parabéns. Sobre uma horda de crianças adoráveis (com uma maçã cravada na boca e devidamente assadas, claro), meu tio me pergunta: Você que é professora, como é que a gente dá jeito nesse monte de crianças sem-educação?

Eu, sem pestanejar, respondi: "Anticoncepcional".

Ps: Antes que eu me esqueça, roubei vááááários brigadeiros antes do parabéns. Sou subversiva, esqueceram?

segunda-feira, 30 de março de 2009

Smells like a gunpowder spirit


Na última quarta-feira, a Seleta Audiência pode ter ouvido falar que, em uma escola municipal da Zona Norte de São Paulo, um aluno de 14 anos atirou acidentalmente em sua colega com revólver calibre 38 cano longo. É uma tendência nossa acreditar que isso pode acontecer em qualquer lugar, nunca perto da gente. Pois é, Seleta Audiência, até o ano passado, eu trabalhei nessa escola. E mais: tenho uma leitora de textículos trabalhando lá agora e que estava na sala ao lado quando isso aconteceu. Por muito pouco teria sido ela a professora a estar naquela sala na hora do ocorrido.

Todo mundo acha um absurdo, todo mundo se pergunta onde vamos parar assim, e principalmente, coloca a culpa na direção e no corpo docente da escola, como vi pela TV. O mané-pipoca do Percival de Souza falou naquele 'espreme-sai-sangue' do Cidade Alerta que isso era falha da direção da escola. E a gente tem direito de revistar mochila de aluno por um acaso, Sr. Especialista em Generalidades?


Ano passado, em outra escola em que trabalho, eu vi, ouvi e cheirei uma bomba no corredor bem na volta do intervalo. A confusão foi tanta que me perguntei se estava na Faixa de Gaza e cogitei mudar o patrono da escola para "Bin Laden". Naquela época já fiquei atordoada, me perguntando com que tipo de gente eu estava lidando. Imagine hoje, ao saber que por pouco não tomei uns pipocos, se tivesse continuado naquela escola da prefeitura, isso sem contar a Bozonifácia, que acompanhou tudo de perto.


Certa vez, na minha sala de aula, um colega trouxe uma arma, só que era de brinquedo e a munição de chumbinho. Ainda assim, a professora ficou desesperada: "Menino, me dá essa arma!"


"Mas professora, é de brinquedo!" E a professora: "Claro que não é, menino, já estou sentindo o cheiro da pólvora, me dá isso!"


Depois dessa frase, a prô perdeu o respeito, a sala desabou a rir. Se não tinha nem munição, que dirá pólvora pra ter cheiro?


Imagino o desespero da minha ex-professora, hoje colega de profissão, mas não deixa de ser engraçado o pânico da pobre com aquele 'treisoitinho' em cima da carteira do meu colega. Se ela estivesse no lugar da Bozonifácia, ela cairia dura. Renata, que mal teve tempo de sentir o cheiro da pólvora, teve que sentir também o legítimo cheiro de sangue, afinal o tiro acertou o joelho da infeliz que fez o favor de ficar perto de um zé-ruela armado sabe-Deus-porquê.


Por essas e outras começo a achar românticos estes anos 90. As pequenas transgressões - como uma arma de chumbinho - tinham graça. Porque, para mim, esta notícia não é nem um pouco engraçada, assim como os ares de Mcgyver que ganhou o Magistério contemporâneo. Não tem graça nenhuma, Duley.


*Por razões óbvias troquei a imagem original por uma foto do Kurt com armas: http://media.photobucket.com/image/kurt%20cobain%20with%20guns/afewrandomdrunks/Kurt_20Cobain_20Gun.jpg

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Quer saber? Eu vou subir num banquinho e xingar a rainha que eu ganho mais.

Foi-se o tempo em que eu queria mudar o mundo, agora eu quero mudar de mundo. Porque não pode ser possível eu ser da mesma espécie de gente que solta uma bomba no corredor da escola em pleno horário de intervalo ou que ateia fogo em área de Preservação Ambiental em dia de tempo seco. Aliás, estou me perguntando o que estes seres precisam para serem promovidos a categoria de ser humano.

Ficar sabendo desse tipo de coisa já me preocuparia bastante. Presenciar me deixa com vontade de me enforcar no pé-de-salsinha mais próximo. Além dos motivos tradicionais, com questionamentos clichês e vazios do tipo "Onde nós vamos parar assim?", também me preocupa o fato de que esta falta de ordem total é capaz de fazer com que até Mahatma Ghandhi se torne um porco reacionário. É o meu caso.

Primeiro eu acreditava que as pessoas teriam que tirar habilitação para pôr mais gente no mundo. Pensa só: se as pessoas fazem merda no trânsito com habilitação, imagina se não existisse. É só ver no que dá qualquer um ser capaz de copular com uma fêmea, fecundá-la, e esta por sua vez, conceber um novo ser e jogá-lo no mundo. Eu também era a favor da restrição da distribuição de óvulos, até porque a maioria não é usado. E TPM dá um prejuízo do cacete.

Mas isso era antes de querer mudar de mundo. Habilitação para procriar era uma solução progressista, quase de centro-esquerda. Minha porção Stálin acordou e ela acredita que o melhor é esterilização em massa. Já tem gente demais no mundo. Chega. "Você gosta de sexo, meu filho? Então só brinca, sem procriar, por favor! Além do que seu DNA não tem nada de bonito.", ele diria.

Já que tem gente demais no mundo e gente que definitivamente não pensa, o meu Stálin de estimação acha que estes conjuntos de ossos e músculos flácidos podem servir para alguma coisa. Campo de trabalhos forçados, por exemplo. Minha porção Stálin saliva só de imaginar os autores das façanhas relatadas em uma pedreira sem nenhuma sombra, com Sol a pino, preso a uma bola de ferro, quebrando pedras com uma picareta.

Ter minha porção Stálin acordada me entristece. As gerações anteriores lutaram tanto por liberdade, tanto individual quanto política, para que anos depois alguém ateie fogo à uma área remanescente da Mata Atlântica e este seja tratado como "menor infrator". Esse tipo de coisa é capaz de deixar muita gente com saudades da Ditadura Militar.

O mundo padece de estupidez crônica. E acordar Stálin também é estupidez. Até porque esta desordem toda não é originada por falta de leis, ou de leis que não são cumpridas. A própria lei pode provocar a impunidade.

No Inglaterra, a lei é clara: "Não se pode ofender a rainha em solo sagrado". O cara resolveu testar esta lei. Pegou um banquinho, daqueles de alcançar as prateleiras mais altas do armário, foi até um daqueles guardas reais, que nem piscam mesmo que você peide na cara deles. Foi lá, subiu no banquinho e xingou a rainha. O guarda o levou preso. O acusado alegou: "Eu respeitei a lei. É proibido desacatar a rainha em solo sagrado. Eu estava em cima do banco. Este, que estava em solo sagrado, não ofendeu a rainha." O cara foi solto.

Chega. Vou externar a minha indignação, antes que eu entre para a TFP. Vou xingar a rainha em cima do banquinho que eu ganho mais.

domingo, 6 de abril de 2008

Sobre João Hélios e Isabelas

A grande mídia é uma grande merda também. Cada dia é um espetáculo novo, e quanto mais sangue e horror, melhor. Será que não saímos do Império Romano? Costumo dizer que o lema do Império Romano sempre foi imcompleto: não é só Pão e Circo para manter o povo quieto, deveria ser "Pão, circo e sangue". Ou então esqueceram de contar que o circo era sangrento. Quem duvida disso é só lembrar que diversão de romano era jogar cristão na arena para os leões, ver dois trogloditas se degladiando até a morte e ainda os mimos, os bisavôs do Happy Tree Friends feito com gente de verdade.
Neste Império Romano e midiático, estão aparecendo aos montes os piores crimes contra crianças e adolescentes. Adolescentes acorrentadas, Isabelas atiradas, João Hélios arrastados. É impossível não se perguntar para que serve a porcaria do ECA e seus respectivos Conselhos Tutelares.
(Essa piada velha eu preciso explicar: no professorado às vezes rola uma impressão, algo que nem sempre é falado abertamente, que o ECA só serve pra tolher o trabalho do professor e para os menores folgados em questão dizer na sua cara que você não pode fazer nada contra eles. "Eu sou dimenor!!!", eles falam. Hahaha, comigo não, violão. Cansei de dizer: "Ah, é? Vai agora no Conselho Tutelar me denunciar, mas vai agora, tá?" Como eles não sabem se isso é de comer, de encaixar ou montar, eles deixam pra lá. Touché!
Baideuéi, preciso explicar também que esta falta de limite deliberada é um perigo, porque é uma porta aberta para cada vez mais e mais regressão. Eu não quero sentir falta da palmatória, até porque, graças ao Barbudão, isso não foi usado comigo. E pasmem vocês: se alguém experimentar pedir a opinião da molecada sobre essa falta de limite na educação deles próprios, vocês vão ver as respostas mais conservadoras, algumas até reacionárias. Fico bege de pensar na possibilidade de meus alunos serem mais caretas que eu.)
Voltando à arena do Coliseu, volta e meia o contrário também ocorre. Um menor comete um crime terrível, e a burra unanimidade começa a discutir se não era hora de reduzir a idade penal, porque o ECA só serve pra proteger bandidos da periculosidade do Champinha, e bláblábláraçãowhiskasblábláblá. A outra parte da unanimidade burra, por sua vez, diz que os coitadinhos não tem culpa, a culpa é da pobreza. É, só se for dos pobres, na cabeça de Veja desse povo. Sérgio Adorno, sociólogo estudioso das questões da violência já afirmou categoricamente: a violência urbana é fruto da riqueza, e não da pobreza.
O que ninguém diz, por falta de informação ou coragem, é que a violência contra nossos jovens, crianças e adolescentes vai além das histórias conhecidas, que o índice de homicídios de tendo jovens como vítimas aumentou assustadoramente nos últimos anos. Vítimas anônimas, as quais ninguém mais chora além de suas mães. Ninguém fala também que, dessas vítimas anônimas, boa parte não estava metida com o tráfico, ou devendo pra eles. Muitos apenas estavam no lugar errado em hora mais errada ainda.
Tudo isso já me assusta muito, pela natureza dos fatos. Eu também me pergunto: "De quantos paus se faz um ser humano?". O que me assusta muito mais é o tratamento dado a eles pelo senso comum e pela "grande mídia". Aquilo que a gente vê na televisão não pode ser chamado de realidade, não chega a ser nem um recorte dela. São como reality shows: só tem show, realidade mesmo não tem.
Choro por todas as vítimas, espetacularizadas ou não. Choro mais ainda porque este mundo que os matou não dá nenhuma pista que vá mudar tão cedo. Muito pelo contrário, vamos regredir ainda mais, até não ser possível mais distinguir quem é humano e quem é porco, sentados à mesa, na sala de jantar, preocupados em nascer e morrer. Morrer, principalmente.