domingo, 12 de junho de 2011

Aprendendo a amar vol. 1

Este texto é o primeiro da série "Aprendendo a amar", escrito em 2009. Dedicado a meus alunos, ex-alunos, colegas e principalmente para quem amou e se decepcionou, mas que deu a volta por cima!

Um dia no intervalo das aulas, uma conversa entre os professores: aquela escola estava muito parada ultimamente, era preciso animar o período da tarde.  Então, é surge a idéia de fazer uma festa do dia dos namorados, já que a professora de inglês estava trabalhando com textos sobre São Valentim com as sétimas séries. O professor que quisesse entrar na dança era só contribuir com a sua idéia e a professora de inglês escreveria o projeto pedagógico da coisa.

A professora de Artes aderiu ao projeto na hora, mas com a dúvida de qual trabalho poderia fazer sobre seus alunos, afinal, se resolvesse trabalhar com Arte Erótica ou com o Nu na História da Arte poderia até ser exonerada do cargo, dado o moralismo indecente de sua época. Alguém soprou no seu ouvido para fazer cartões para correio elegante com as suas turmas. Ela, que normalmente xingaria quem deu essa idéia, dessa vez, sabe Deus porque, aceitou a idéia com simpatia.

Quando os alunos começaram a fazer os cartões nas aulas, ela entendeu porque ela topou fazer uma atividade que não tinha nada a ver com sua concepção vanguardista de Arte-Educação. A última vez que tinha feito correio elegante foi para as quermesses da Igreja, que tinham ficado para trás há um bom tempo. Tinha se esquecido a diversão que era aquele recorta-e-cola, somado à chuva de glitters, purpurinas, lantejoulas e corações feitos em série, como se fosse uma linha de produção.

Corações grandes, pequenos, em duplas, em trios e, em sua grande maioria, vermelhos. Todos de um vermelho pulsante, cor de cartolina comprada na papelaria da esquina. Lá pelas tantas, a professora se pergunta que cor estaria seu coração neste momento e apostou num azul, já que seu pobre coração andava um tanto gelado.

Não que seu coração nunca tivesse sido vermelho, só que da última vez que ele ficou vermelho foi de raiva, depois de uma decepção daquelas. Já estava recuperada do tombo, mas se deu conta, às vésperas de promover uma Festa do Dia dos Namorados com seus alunos, que tinha se fechado em copas para o amor. Como poderia reclamar que ninguém gostava dela? Ela não achava mais graça em ninguém. Todo mundo era feio, todo mundo era chato.

“Sou muito nova para ficar assim”, preocupou-se a professora. E sua preocupação foi ficando cada vez mais provinciana, apavorando-se com a idéia de se tornar uma professora solteirona típica, daquelas que usam “saia-lápis na altura do joelho, coque e óculos armação-tartaruga”. Sua preocupação, porém, durou poucos segundos, até um aluno cortar seus pensamentos com uma tesourinha sem ponta e dúvidas bem menos filosóficas: “É para cortar para direita ou para a esquerda, Prô?”

Longe da bagunça das salas, a professora foi avaliar o resultado da produção dos seus alunos. Contar os cartões, ver erros de português, essas coisas. Em contato com os corações, que ora escondiam, ora revelavam mensagens apaixonadas – tão clichês para os mais velhos, mas pura novidade para aquela molecada que está começando a descobrir os prazeres do amor – sentiu o seu próprio se aquecer. Entendeu o que seus velhos professores lhe diziam com: “Ensinar é via de mão dupla, a gente também aprende com nossos alunos”. Ela passou anos achando que isso era um bordão vazio, agora viu que era pura verdade. Graças a seus alunos e àquela bagunça de cartões sem fim, estava reaprendendo a amar.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

O impeachment mais rápido da Brasilândia!

Hoje, o coração da professorinha está em polvorosa, porque viu o poder ultrajovem mostrar que não está para brincadeiras. 
Adorei esta bandeirinha de festa junina!
Começou na última segunda-feira, com uma dispensa misteriosa dos alunos no período noturno da escola, com a chegada do diretor designado.  No dia seguinte se descobre que a vice-diretora havia sido dispensada, sem maiores esclarecimentos. Dona Célia Carioca está no JTX desde sua fundação, mas não é este o único fato que mobilizou o protesto primeiro dos professores, e depois dos alunos. Ela conhece a realidade do bairro, de cada pessoa que está ali e sempre fez o seu trabalho com dedicação ímpar. Até quem não morre de amores por ela reconhece este fato. Isto sim moveu a comunidade a reagir contra os desmandos de quem acha que a burocracia vai salvar o mundo, que se consegue mandar só na base da canetada. 

Este diretor que havia sido designado para assumir a direção do JTX já era velho conhecido nosso. "Digam para quem gosta e principalmente para quem não gosta que eu voltei!" foi sua frase de apresentação. Ele ficou na direção da escola no ano letivo anterior, à base de soluções unilaterais, decisões impostas debaixo para cima e discurso focado na burocracia massacrante que caracteriza a educação pública (lembrando, por exemplo, aos professores contratados e efetivos em estágio probatório tinham que "se cuidar", porque era ele quem assinava e deliberava, raçãowhiskasblabláblá...)

Ele até conquistou um pequeno secto de puxa-sacos, como em todo lugar acontece, mas as coisas não foram fáceis para ele por lá. Boa parte do corpo docente do JTX é questionador e combativo, e não é que lá tenha a maior concentração de che guevaras por metro quadrado. Só se trata de um grupo em que as coisas precisam ser explicadas, esclarecidas. E não é bem disso que ele gosta, sabe? Então, acredito que ele voltou para uma desforra e ele é quem foi bem desforrado.

Acha que nossas hérnias e bicos de papagaio nos permitiriam colar um cartaz aí?
Na terça-feira, a primeira reação do corpo docente foi não subir para a aula no período vespertino, para forçar uma explicação. Parados lá ficamos toda a primeira aula e ele aparece. Seu discurso de burocrata não convence e na base de muita prepotência e arrogância, a todo tempo ele tentou usar contra nós os nossos questionamentos. A supervisora de ensino apareceu por lá para abafar o escândalo, pedindo que não prejudicássemos os alunos que estavam sem aulas naquele momento e prometeu uma explicação, que ficou para o final do período. As coisas também não foram fáceis para ela, confesso que ela também não nos convenceu muito. Deixamos avisado que iríamos ao dirigente da diretoria de ensino e assim foi feito. Na quarta-feira pela manhã, fomos recebidos na Norte 1. Cheguei nos 45 do segundo tempo, que foi o que deu para fazer, mas estávamos bem representados. Ele ouviu e argumentou também, se comprometendo a apurar o caso, pois até então não havia nada que desabonasse o então diretor designado regularmente. 

Quando chegamos à escola para dar aula à tarde, com os alunos já inteirados do caso e a escola repleta de cartazes com mensagens de apoio à Célia. Desde a noite de terça, nas redes sociais estava circulando a tag #voltacelia. O movimento dos alunos - totalmente espontâneo, nem um pouco forçado - já estava articulado. As turmas do fundamental, vendo os cartazes deixados pelo pessoal do matutino, aderiram também, escrevendo na lousa, colando etiquetas no uniforme e tudo mais. Para alguns alunos da quintas séries, que chegaram para nós com uma alfabetização sofrível, o Volta Célia virou "vouta celha". (Para vocês verem que os professores destas turmas precisam fazer é milagre, lecionar é pouco). E infelizmente, houve quem joselitasse o movimento. No segundo intervalo da tarde, uma rebelião teve que ser contida!  Parecia o Egito no começo do ano, gente.



O dia letivo ontem acabou com um protesto combinado pelos alunos: que comparecessem à escola hoje de manhã que não entrassem na escola até que fosse dada uma explicação a eles. E foi o que aconteceu: debaixo da chuva e do frio que fez hoje estavam lá, alunos e pais na porta da escola, numa manifestação pacífica, tranquila, mas que incomodou o suficiente para o diretor designado cair fora espontaneamente!

Mesmo com frio e chuva, a galera resistiu!

Eu não estava lá hoje, lecionei na escola da prefeitura pela manhã, mas sempre recebendo notícias frescas no celular e acompanhando o movimento pelas redes sociais na hora do intervalo. Na hora de ir embora, não resisti e abri o Facebook pela última vez. Quanto vi os primeiros vídeos da manifestação que a garotada postou, não resisti e pulei de alegria!



Nos meus tempos de estudante e militante, houve lá algumas lutas, algumas manifestações bem-sucedidas como esta, mas nunca fiquei tão feliz como hoje. Simplesmente porque todo este movimento surgiu de uma juventude que a todo tempo é acusada de ser alienada e individualista. Agora, esta acusação se mostra no mínimo infundada.



Tudo que aconteceu não se deve unicamente ao bom trabalho que a Célia desenvolveu todos estes anos, também porque a galera não aceitou a injustiça e soube protestar! Não houve líderes, não houve incitadores. Todos foram. E o resultado está aí: o impeachment mais rápido da história da EE Prof Jair Toledo Xavier!

Até Sófocles postou a tag no seu twitter!
Agora, uma das atuais vices fica na direção até segunda ordem e Dona Célia, assim que voltar das suas férias (a dispensa aconteceria depois das férias e o bestão já tinha aberto a boca!), volta também a seu posto.

No meio do fogo cruzado, escutei de uma colega: "Você acha que essa história vai dar em alguma coisa? A gente é descartável neste mundo". Os fatos mostraram o totalmente oposto. E contra fatos não há argumentos, não é o que dizem?
Hoje o dia foi deveras longo! Então, uma cambalhota para todos e um grande uuuuuh! para os mandões deste mundo!

sábado, 4 de junho de 2011

O Louco

Eu quero a folha em branco, o espaço vazio,
O vácuo da experiência. 
O útero oco que mês a mês se prepara para receber. 
Uma sala sem móveis, 
onde minhas canelas estejam livres de tropeções em pés de mesas de jacarandá.

Cansei de acumular, de ter que ter, de ter que saber, de ter que ser.
Pros diabos quem se garante na base do “quem guarda, tem”.
À beira do abismo,
“O centro era eu, de tudo!”