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domingo, 20 de fevereiro de 2011

Orientupis, judárabes e ciganagôs

Depois eu reclamo que os TM são um fracasso na blogosfera. Foi só voltar a trabalhar, que parei de alimentar meu bichinho virtual. Mas depois do meu amigo Victor me dizer que toda vez que entra nesse cafundó eletrônico,  ele pira junto comigo nessas brisas todas, lembrei para que eu me tornei fazedora de textículos. (Se você é curioso, leia o primeiro textículo.)

Uma madrugada que se estica demasiadamente - como a última, com uma hora a mais por conta do fim do horário de verão - pode ser de uma surrealidade galopante! Sei disso porque ainda sou bicho noturno.  Mesmo que ultimamente esteja aflorado meu lado solar e diurno, o encanto da noite sempre me atiça. Lua Cheia então, nem se fala! Já até escuto os cães uivando, só de falar.

Mas a cena é: sentados na porta de um supermercado 24 horas depois da balada, com um saco de salgadinhos e uma barrona de chocolate, nem sei como a gente puxa papo com um galego tomando Heineken ao nosso lado. A gente oferece nosso festival de gordura trans, ele oferece cigarros. Eu tinha esquecido os meus e aceitei um. Ele não aceita, só consome produtos kasher (!?). Pegou um Doritos depois de alguma insistência. Era uma madrugada de sábado para domingo, na minha cabeça perguntei: e o Shabbat? Vai até o pôr-do-sol do sábado. Já tinha passado faz tempo.

O garoto é completamente perdido nos seus preconceitos. Começa falando de uma garota de roupa curta, eu pergunto: "Você viu o tamanho do meu vestido? Sou vulgar por isso?". Ele: não, imagina, que isso. Desata a falar mal de católicos, eu conto para que ele está em meio a um papo multicultural e multireligioso - Ele se diz judeu, eu sou católica, o Victor é evangélico. Ele abaixa a bola. Resolve endossar o discurso de que tem nordestino demais nessa cidade, faço questão de contar: minha mãe é paraibana, tão galega quanto você. Está nessa cidade há 40 anos, não está fazendo número, muito pelo contrário: ajudou a construir esta cidade, como todos que vem para cá, de todas as partes do mundo. Ah, sua mãe é diferente.

Resultado: dando a hora do bus, o Victor se enche, levanta e a gente vai embora. Eu não fiquei ofendida em nada, na verdade, ri um bocado do menino. Vi perfeitamente o exemplo da pequeno-burguesia que se sente ameaçada nessa cidade e tenta colocar a culpa do nosso caos justamente nas classes mais pobres, e que aqui definitivamente se fodem muito mais que eles. Gente que reproduz o discurso do PIG achando que têm ideias próprias. Que concebe esse mundo imaginário que se desfaz como castelo de areia com uma madrugada sentado na rua conversando com dois estranhos.

Não gosto de ufanismo, mas senti um grande alívio de ser uma brasileira típica, com pais, avós e bisavós nascidos aqui. Sem exaltar que sou descedente de sei lá o quê, afinal a mistura é tão grande que se preocupar com isso é uma grande perda de tempo. Exaltar origens por aqui é completamente ridículo, não faz o menor sentido. Fiquei com um trecho de um poema do Amor da Minha Vida e duas canções na cabeça - todos falam por si, dispensam comentários. Cambalhota tripla para vocês, minha pequena e querida audiência.

"Para mim, de todas as burrices a maior é suspirar pela Europa.

A Europa é uma cidade muito velha onde só fazem caso de dinheiro (...)
Aqui ao menos a gente sabe que tudo é uma canalha só (...)"

(Explicação, Carlos Drummond de Andrade)





Inclassificáveis!

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Raro caso de abdução

Fui abduzida. Totalmente retirada deste universo, durante os aproximadamente 7 minutos da Ária das Bachianas Brasileiras nº5, a Cantilena, na voz de Bidu Sayão. Engraçado, que abduções musicais raramente me acontecem com a música chamada erudita ou orquestral, pelo menos com gravações. (Sempre achei que nada substitui assistir uma boa orquestra ao vivo, se você estiver numa sala de concertos de acústica formidável como a São Paulo, é capaz de sentir a vibração da música até nos ossos, é uma experiência transcendental para quem ama música e a escuta até pelo fígado, como eu. E existe gente assim aos montes, felizmente.)





Mas estamos falando de Villa-Lobos, então essa discussão sobre ser ou não música erudita, de concerto, o que seja, é pura bobagem. A obra que ele deixou não conhece fronteiras entre popular e erudito, virou até lugar-comum dizer isso. Conheço ainda pouco sua obra - muito aquém do que todo brasileiro devia conhecer até de trás pra frente - e até então admirava, mas já não admiro mais. Hoje, passei a amá-la. Também, como todo brasileiro poderia amá-la, do fundo da alma, de verdade, caso conhecesse com propriedade.

É incrível como poucas pessoas sabem de fato quem foi esse compositor brasileiro admirado e executado em todo o mundo. Como já observou o caro colega ex-famosp, dar o nome de Villa-Lobos, para parques e shoppings é pouco e 50 anos após a sua morte, sua obra sequer foi catalogada ainda.

Pelo menos eu estou fazendo minha parte de professorinha de Artes. Passei a semana lendo o Crianças Famosas do Villa para a molecada das quartas séries. E está fazendo sucesso. A primeira pergunta - Prô, tem a ver com o Parque Villa-Lobos? Fazer esta associação já é um começo. Quisera eu ter ouvido Villa ainda criança e na escola!

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Mr. America

A esta hora já devem jorrar resenhas e postagens sobre a exposição Andy Warhol - Mr. America, porque ela está totalmente coerente com o artista que ela retrata - mais pop, impossível. Mas quem disse que a Garota Clichê vai resistir e andar contra a corrente?

Confesso que estava ansiosa para ver os originais da série das latas de sopa Campbell´s e dos retratos da Marilyn Monroe. Então, na última quarta, assim que saí da Sala São Paulo, tive a "brilhante" ideia de ir até a Pinacoteca para ver a exposição. "Mas aos sábados a entrada é franca...", pensei. "É, mas nada paga o prazer de circular pelas salas vazias da exposição em plena tarde de quarta-feira...", respondi a mim mesma. Ódio extremo e absoluto ao saber que a exposição não está na Pinacoteca e sim na Estação Pinacoteca, ex-Memorial da Liberdade, sediado no antigo prédio do DOPS, que se tornou um anexo da Pinacoteca do Estado. Detalhe: este prédio fica DO LADO da Sala São Paulo, onde eu estava. Pensa então, na minha cara de tacho...

Estando lá dentro e com três míseros reais investidos nisso, não desisti e dei uma olhada nas exposições da Pinacoteca. E curti vários Portinaris sorvidos lentamente. Só mudou o artista, oras! Não tinha me enganado por completo. Museu deserto é uma delícia, ainda mais com Portinari.

De qualquer maneira, sábado estaria de volta à Sala São Paulo e visitei a exposição do Andy na hora do almoço, para honrar a viagem perdida de quarta.

Sempre gostei de pop art e não me lembro com exatidão quando entrei em contato com as obras do Andy pela primeira vez, só ficou gravado na memória um grafite da Tomato Soup, da série Campbell´s numa parede do Tendal da Lapa. Será que ainda está lá? Não sei, só espero que os grafites deste lugar não tenha sido tragados por paredes bege cor-de-repartição pública. Eca.

Achava que isso não aconteceria, mas a exposição me trouxe surpresas. Por exemplo, não sabia que o artista era religioso - católico ortodoxo e segundo os textos da exposição, seus refúgios foram sempre a igreja e as salas de cinema. Também desconhecia que a morte estava entre seus temas recorrentes. As famosas serigrafias do rosto da Marilyn Monroe foram feitas após a morte da atriz, já transformada em mito trágico, sem contar a série das Cadeiras Elétricas, dos Most Wanted Man, com os criminosos mais procurados da América e Car Crash: Death and Disaster Series, retratando acidentes de carro cheios de lata amassada e gente morta no asfalto. Engana-se quem pensa que Andy se contentava só com glamour e celebridades.


Na verdade, sua obra parece bem contraditória, quase conflitante. Entre autorretratos, latas de sopa, nuvens prateadas e artistas de cinema, há alguma coerência? O fato é que ele não estava preocupado em ser coerente com coisa alguma. Ele dizia apenas retratar o universo a seu redor e não se considerava crítico da sociedade norte-americana. Mas o que e como mostrar implica sim em crítica, no sentido mais puro da palavra. O olhar de Andy sobre a America que ele dizia amar era naturalmente subversivo, sem levantar bandeiras. Polêmico sem fazer força.

Mesmo sua fixação pela beleza e pelo narcisismo tem outra face. "Quando pessoas e civilizações se tornam degeneradas e materialistas, elas sempre apontam para sua beleza externa e riquezas, e dizem que se o que elas estivessem fazendo fosse errado, elas não estariam tão bem, tão ricas e bonitas. Mas beleza e riquezas não tem nada a ver com o quão bom é você, é só pensar em todas beldades que tiveram câncer. E muitos assassinos são bonitos, então isso resolve a questão."

Ele olhou para a "beleza americana" com reverência e deboche ao mesmo tempo. "Be a somebody with a body!"¹

Marlene Dietrich dizia que na América o sexo é uma obsessão e no resto do mundo, é um fato.² Para Andy, não é nem uma coisa, nem outra. "Sex is an ilusion. The most exciting thing is no making it"³. Um de seus filmes é intitulado Blow Job (boquete) e o que mostra não é óbvio ou surpreendente, fica entre as duas coisas.

Andy também se sairia um ótimo analista: "A fonte dos problemas das pessoas são suas fantasias, se você não tivesse fantasias, você não teria problemas, porque você aceitaria qualquer coisa que estivesse na sua frente. Mas aí, você não teria romance, porque romance é encontrar sua fantasia em pessoas que não são sua fantasia..."

Apesar do mundaréu de gente, me diverti bastante com a exposição, porque a criança contente aqui estava aproveitando para brincar com seu brinquedo novo, fazendo anotações no Bloco de Notas do smart, já que tirar fotos é proibido. Isso até o negócio empacar e eu me irritar, sem saber porque aquela joça não funcionava. Só depois que eu percebi que o limite de caracteres tinha acabado. Andy riria desse besteirol tecnológico, todo mundo está colocando sua vida nessas coisinhas de plástico, que por mais inteligentes que pareçam, ainda não aprenderam se fazer entender.

É chavão que Andy Warhol estava a frente do seu tempo, só por causa daquela frase idiota que qualquer pessoa teria 15 minutos de fama no futuro - ele disse frases muito mais espirituosas. E a unanimidade - burra, como diria Nelson Rodrigues - só celebra essa frase porque ela se tornou uma profecia, em um tempo de Big Brothers, orkuts e facebooks para todo mundo expor sua vida à exaustão, chegando, muitas vezes ao ridículo. (Se há dúvidas, olhe blogs como Pérolas do Orkut ou PGA, ou ainda as fotos da Geisy pré-bafão na Uniban. Se queriam aparecer, conseguiram!). Mas o que Andy retrataria em sua obra, se vivo estivesse agora? E se vivesse no Brasil? Saí de lá com essas perguntas na cabeça. Tenho alguns palpites:

a) Casal Nardoni com julgamento cinematográfico (Popular, você é popular...)
b) Ronalducho Fenômeno
c) Barack E Michele Obama
d) Lixo tecnológico
e) Canções de uma palavra e uma nota só cantadas por apenas uma parte do corpo, como créus, rebolêixons e merdas parecidas
f) Cantoras de axé que se acham, tipo Claudia Milk e Ivete Frangalo. Alguém ainda aguenta ver a cara delas?

E por aí vai. Apareçam na exposição e façam suas apostas!

Andy Warhol - Mr. America. De 23 de março a 23 de maio na Estação Pinacoteca. Aos sábados, entrada franca.

Portinari na Coleção Castro Maia. De 10 de abril a 06 de junho de 2010 na Pinacoteca do Estado. Aos sábados, entrada franca. (A exposição que eu vi na quarta passada)


Notes:
1- Seja alguém com um corpo.
2 - In America sex is an obsession, in other parts of the world it is a fact.
3 - Sexo é uma ilusão. O mais excitante é não fazê-lo.

domingo, 31 de janeiro de 2010

Léxico Nordestino 2.0 - A redenção

Passei minhas férias na terrinha onde não chove, mas o mato é verde, a pequenina Paraíba. Nessa história, fui bater em mais outros três estados do Nordeste: Mossoró (RN), Tibau (CE) e Recife / Olinda (PE). A caminho do aeroporto, Zé, esse cabra bom que alegra nossa vida até quando ele não quer, me ligou e disse: "Que esta viagem te traga muitas ideias." E trouxe, até mesmo antes de partir.

Apesar de não usar constantemente, sou uma pessoa bilíngue no meu próprio idioma: falo paulistês e paraibês fluentemente. E precisava informar minha companheira de viagem, Mácia - no paraibês, este R praticamente some - a respeito de alguns verbetes, para ela não boiar muito e ainda assim, algumas vezes, ela me olhou com cara de conteúdo e disse: traduz! Mas isso durou pouco, porque rapidinho ela trocou o "cara" por cabra e em vez de falar "Isso!", começou a falar "Pronto!". Parecia até que a galega era de lá. Deu nela uma muléstia dos cachorro, que gastou tudinho as precata no forró!

Quem conhece os TM de longa data, deve se lembrar de um textículo chamado Léxico Nordestino, comentando verbetes do dicionário de Cearês e Pernambuquês. Na época, achei um de Paraibês, que de tão fulêra nem coloquei no textículo, por achar indigno da terrinha que até Gonzagão elogiou!

Acabou que antes de viajar, encontrei no Oráculo um cordelista de Patos, radicado em João Pessoa, que não contente em compilar o léxico paraibês, fez isso em forma de cordel, um cabra muito do desenrolado chamado Vicente Campos Filho!¹. Cheguei de lá com dois exemplares, e também existe um em forma de verbetes mesmo num chaveirinho, que eu também trouxe para meu cunhado, para ele começar a estudar e não chegar lá passando vergonha.

Segundo o autor, ele compilou expressões do interior, do sertanejo mesmo, e isso é tanto verdade que ouvi até a voz do velho Zaca falando algumas delas. E sentada na praça de alimentação do Mercado de Artesanato, fiz um jogo de adivinhação com o cabra safado do meu primo, Luiz Carlos, um legítimo paraibano e baieense (apesar dele negar sua procedência da Terra dos Corno, Bayeux, ele é de lá). Eu lia metade do verso, e ele tinha que dizer o resto, e pasme, ele errou várias! Normal, existem variações joão-pessoenses. Por exemplo, longe no sertão é lá na caixa-prego, na baixa da égua ou em caixa-bozó. Para Luiz Carlos, o Miami Visse, longe é lá no inferno das cuia. E por aí vai.

Não vou reproduzir parte do cordel do Vicente Campos Filho, porque ele já fez isso. Vou fazer é uma espécie de Parte Dois, de coisas que ele não colocou em seu cordel. Fica uma sugestão para você fazer isso, visse, bichin?

Pegar Ar - Ficar nervoso, estressado
Tá c´a Muléstia dos Cachorro - Mais ou menos a mesma coisa que o anterior, pode ser também uma coisa muito boa
Tá c´a Gota Serena - Sinônimo de Tá c´a Muléstia dos Cachorro. É só lembrar da Clara Nunes elogiando Sivuca em Feira de Mangaio: "Eita sanfoneiro da gota serena!"
Tá c´a Gota - O mesmo do anterior, mas da gota serena exagera a expressão.
Marminino - Interjeição de admiração. O mesmo que "Mas, menino!"
Márrapai - Variação de Marminino. O mesmo que "Mas, rapaz!"
Bilôra - Mal-estar do estomâgo, gastura, desmaio. Acontece muito com quem não tá acostumado com a soma de cumê com sustança com o calorão da bixiga de John Person. Oferece um rubacão para Mácia, para ver se ela aceita!
Rubacão - Receita que leva feijão com pedaços de queixo de coalho derretido com carne de charque picada por cima.
Cumê - Refeição. "Dê um cumê pra esse minino!"
Suadô - A suadeira que dá depois de um cumê quente e com sustança, tipo uma cabeça de galo no café da manhã.
Sustança - Alto valor nutricional, geralmente gorduroso.
Minino - Criança, sendo de qualquer sexo. "Essa mulé tá esperando minino outra vez!"
Da bixiga/ Da gota/Da porra - Expressões que exageram o valor de qualquer coisa que se fale. Por exemplo: "Eita, forró bom da gota!" ou "Remédio rim da bixiga"
Rim - O mesmo que ruim.
Com força - Muito. "Era gente com força naquele lugar!"
Pense! - Expressão praticamente multiuso, geralmente serve para fazer o seu interlocutor imaginar exatamente o que você está dizendo. "Pense numa marmota!"
Marmota - pessoa desajeitada, ou maluquice. "Que marmota é essa, menino?"
Pão Bola - o mesmo que pão de hambúrguer.
Pão Caixa - o mesmo que pão de forma.
Desenrolado - Gente decidida, ativa, vivaz, articulada, sem frescura.
Pronto! - Expressão de concordância.
Homi, pelamor de Deus!
ou Homi, por caridade! - Expressão para pedir encarecidamente um favor, ou ainda, para exagerar uma narrativa.

E quem quiser que conte outra, ou outras. Todas essas expressões são tipicamente paraibanas, ou ainda, não apareceream² nem no Dicionário de Matutês de Pernambuco, ou no Dicionário Cearês, que aproveito para atualizar os links. Deixo para outro textículo o capítulo Placas de João Pessoa e adjacências, que também me fez rir um bocado lá. E é para todos leitores de textículos essa cambalhota, quer dizer, esse cangapé!

Notas:
1 - Recomendo também o Cordel do mesmo autor "O marciano que invadiu a Paraíba para roubar a rapadura". Ri litros.
2 - Marmota apareceu no dicionário de Pernambuco.


domingo, 1 de novembro de 2009

Sobre minissaias e universitários

Essa fornalha anda tão parada, onde se meteu a dona dos textículos? Na roda-viva, evidentemente. É incrível, pode se passar duzentos anos, meus questionamentos são os mesmos, não por falta de criatividade, mas porque os motivos permanecem. Como diz papi: "mudam as moscas, mas a merda é a mesma!" Para variar, um monte de ideias ficaram pra trás, mas nem acho isso tão ruim. Estou vivendo, e num ritmo tão frenético que capturar certos momentos é quase impossível. Foda é que não consigo viver sem isso: sem escrever, sem criar, sem Textículos. Socooooooooorro!

O que me salva é que quando acho que já me tornei definitivamente uma professorinha adequada ao status quo, esperando pacientemente o dia em que o magistério vai me deixar totalmente louca para conseguir uma licença pinel no sexto andar do Servidor, acontece uma que solta meus bichos subversivos na rua. O que me soltou os bichos dessa vez o foi o prosaico caso da minissaia na Uniban.


De início, me revoltei com a reação esdrúxula dessas pessoas. Gente de vinte e poucos anos chocada com minissaia? Como assim, Cabral? Depois, assisti à entrevista da garota na Record domingo passado. Primeiro, ela diz que sua vida se travestiu num inferno depois do ocorrido, mas não consegue disfarçar que está saboreando seus 15 segundinhos de fama com mucho gusto (os 15 minutos de Andy Wahrol, hoje em dia parecem uma eternidade), fazendo questão de conceder as entrevistas (sim, no plural) com o famigerado vestido que causou furor na multidão de estudantes sem cérebro do campus da UNIBAN de Diadema. Ela poderia se tornar uma heroína contra a neo-caretice do século XXI, como uma Rosa Parks do terceiro milênio, que com uma atitude simples de se recusar a se levantar de um lugar no ônibus reservado para brancos em Montgomery, no Alabama, provocou um boicote de 381 dias ao transporte coletivo capitaneado por Marthin Luther King em 1955. Mas aí é que tá, minha gente. A garota não tem cacife para isso. É burra feito uma porta. Soltou pérolas na entrevista como "Desde que eu me entendo POR EU uso roupas desse tipo" e "O tumulto era tão grande que eu não consegui nem SAIR PRA FORA". Dois pleonasmos viciosos em menos de 15 segundos. Pobre de mim, em frente a TV sonhando com uma revolução neo-feminista... Com esse nível de cultura, a tal estudante de turismo no máximo consegue uma vaga em um reality show ou um convite para posar nua e dar bastante trabalho para os arte-finalistas da revista se matando de disfarçar celulites no Photoshop.

A grata surpresa do caso minissaia da Uniban foi encontrar o blog Educação Política, do professor de Ciências Sociais da PUC de Campinas Glauco Cortez, um verdadeiro antídoto para essa burrice institucionalizada. Sobre este acontecido, ele disse: "O caso da estudante da Uniban, que foi covardemente insultada porque vestia uma minissaia, mostra um pouco a cara de São Paulo e também que há um aprendizado educacional no Brasil que está muito distante das humanidades e das capacidades reflexivas. É o exercício da irracionalidade."

Agora, me fala: que eu vou fazer nesse mundo, com uma elite universotária, que se enfurece com uma estudante indo para a faculdade de minissaia e que fala sair pra dentro e entrar pra fora? Este país não é mesmo sério. Aqui tudo vira farofa, não só o metal do Massacration. Por essas e outras continuo congregando pessoas para me acompanharem na minha mudança DE mundo. Quem quiser que follow me.


Notas:
*Sobre Rosa Parks e Martin Luther: Bethinha, obrigada pela troca de ideias e tanto entusiasmo!
*Sobre Massacration: essa farofa pelo menos é inteligente e engraçada. Nada como não se levar a sério, como estes GoodBlood Headbangers.
*Créditos da imagem: http://temasparamulheres.blogspot.com/2008/09/minissaia-e-maxipolmica.html

domingo, 20 de setembro de 2009

Che 2 - A Guerillha

No último domingo, assisti à Che 2 - A Guerrilha e gostei, mais do que o primeiro. Gosto da estética naturalista do filme, com uma ação lenta, focada na marcha da guerrilha e não nos combates, quase sem triha sonora, com iluminação natural. Benicio del Toro é um Che Guevara sem afetação nenhuma, acertou na mosca em interpretar o líder revolucionário de uma maneira humana, sem pesar para o lado do heroísmo, mesmo assim, mostrando o grande caráter do guerrilheiro.

Essas características estão nas duas partes do filme, é óbvio, mas no primeiro filme chega uma hora em que a ação se arrasta e na segunda parte isso não aconteceu, apesar do ritmo da ação ser exatamente o mesmo.

É triste você ver na sua frente uma história que você conhece bem, sabendo que o final foi desastroso. Não é nada catártico ver o fim de Ernesto Che Guevara na sua frente. Primeiro porque é História - com H maiúsculo, não tem aquela de respirar aliviado no fim porque era mentirinha, como na tregédia clássica grega. Segundo porque sabemos qual é a implicação de não termos tido uma revolução popular na América Latina. Tivemos uma série de ditaduras militares ao longo do século XX que criaram feridas que ainda não fecharam, e duvido que vão fechar, porque sempre aparece uma contrarrevolução para estancar este processo. Honduras que o diga, e isso é sim, problema nosso. O mais estapafúrdio é a justificativa para esse golpe: preservar a democracia (?!). E como um Maquiavel ao contrário, digo que pouco importam as supostas causas nobres para os fatos, e sim os métodos totalitários adotados pelo regime golpista, como por exemplo, sitiar a embaixada brasileira em Tegucigualpa, onde o presidente deposto Zelaya se encontra.

Revoltante que no caso da presença de Che na Bolívia, o próprio partido comunista de lá se opôs, não queriam estrangeiros no seu ninho e abertamente boicotaram a ação. Não sei se foi ingênuo ou corajoso da parte de Che crer que todos eram tão internacionalistas quanto ele, porém quando ele poderia sentar o traseiro em um gabiente como o segundo homem mais importante da Revolução Cubana, ele começou tudo de novo. O que prova, para mim pelo menos, que ele não estava interessado em poder e sim na transformação deste mundo de fato.
Mesmo sabendo de tudo isso, não conseguia de repetir um bocado de vezes para mim mesma, até cochichando, sozinha no cinema, que eu preferia uma revolução latino-americana triunfante, do que a figura do herói morto, tatuada na minha mente.
Depois de tudo isso, foi no mínimo indigesto sair da sala escura e dar de cara com um shopping. Não consegui tomar nem um milkshake.

sábado, 18 de julho de 2009

Um Bonde Chamado Desejo

Todo mundo já pegou este bonde, eu por pouco não me esmaguei nele, descendo ladeira abaixo. Tenessee Williams mostrou que pegar este bonde pode ser trágico, mas não se desiste dele. Tomei uma overdose desse cara nos últimos tempos.

Assisti a Gata em Teto de Zinco Quente (com um Paul Newman lindo e uma Liz Taylor deslumbrante), e como nunca tinha lido sua obra mais célebre, resolvi dar uma conferida na peça e comprei uma edição barata de bolso de Um Bonde Chamado Desejo e no último domingo, encontrei o DVD da versão cinematográfica deste texto a um preço módico, cujo título em português sei lá por qual motivo se tornou Uma Rua Chamada Pecado. O título original (A Streetcar Named Desire) é a cara do texto, achava mais justo uma tradução literal. Depois eu vi que muita coisa do original foi mudada, para escapar da censura, e que a mudança do título é um fato mínimo em relação a mudança da gênese do conflito da protagonista.

Quando se assiste a um filme baseado em um livro que já foi lido, geralmente a preferência é pela obra original ou a gente lê o livro depois de ter visto o filme e percebe que o filme não é tão bom quanto o livro - li O Diabo Veste Prada e descobri que Andrea Sachs não era aquela tonta com a cara da Anne Hathaway. No caso de Uma Rua Chamada Pecado, mesmo com as perdas em relação original, isso não aconteceu. Adorei o filme. Talvez porque o roteiro foi assinado pelo próprio Tenessee Williams e o diretor foi o mesmo da primeira montagem - Elia Kazan, com o elenco teatral em peso, exceto a protagonista, no filme vivida pela Vivien Leight, que também interpretou Blanche no teatro, só que em Londres (alguém lembra da Scarlett O´Hara, de ...E o Vento Levou ? Então, é ela alguns anos mais velha, mas uma atriz ainda sensacional que correspondeu exatamente à imagem que fiz da quase-doida Blanche DuBois enquanto lia o texto da peça).
O brucutu Stanley Kowalski é um caso à parte. É mau-caráter, nojento, semi-humano, mas está no corpo (e que corpo!) do Marlon Brando, interpretando seu personagem com uma fúria impressionante. Morre-se de ódio e de tesão por este cara.



Este DVD é um verdadeiro achado: duplo, no primeiro disco apresenta o filme em sua versão integral, contendo as cenas cortadas para o filme não ser condenado pela Legião da Decência(Pensou sacanagem? Foi só o olhar decidido da Stella antes de correr para seu marido depois de ter tomado uns sopapos do próprio e o blues quente que toca ao fundo no primeiro contato de Blanche e Stanley, simbolizando uma tensão sexual entre os dois) e o segundo, com extras sobre a montagem teatral, o teste de Marlon Brando para Um Rebelde Sem Causa (para o personagem que se tornou antológico com James Dean), detalhes sobre a censura e os takes não utilizados para o filme.

Fui totalmente tragada pelo filme, chorei mais de uma hora pelo trágico destino de Blanche Dubois e perdi uma rara tarde de ócio com este DVD de Informações Especiais. Não sou cinéfila, só ando louca por cinema ultimamente. :P

Gostou? Morra de inveja:
Uma Rua Chamada Pecado, 1951. Dir: Elia Kazan. Com Marlon Brando, Vivien Leight, Kim Hunter e outros.
Um Bonde Chamado Desejo, de Tennesse Williams. Tradução de Beatriz Viégas-Faria. L&PM Pocket, 2008.

domingo, 7 de junho de 2009

Grito em fatias

Ensaiei este início de textículo inúmeras vezes e para arrematar, ensaiei mais uma. Existem coisas sobre as quais penso em falar e não falo, outras, simplesmente me dão vontade de falar. E é a vontade quem manda. E o fato é que nestes últimos dias não tive a menor vontade de escrever nada, por mais que existam coisas que merecem e que precisam ser ditas.

Paralisei não só porque os dedos congelaram de frio, mas também por ter um nó gigante na garganta, que não consigo cuspir com um grito bem sonoro, daqueles de ensurdecer o mundo.

Para não deixar minha seleta audiência mouca, eis que vem um grito em fatias.

Fatia nº1 - tenho lido jornal ultimamente: o Estado (Novo) e a Folha (Ditabranda) - de graça porque não dou um real em nenhum dos dois - e tanto um quanto o outro desataram a falar de Educação e do professorado. Não sei o que é pior: se é quando criticam ou quando resolvem defender. As duas vertentes põem a classe para baixo do cu da cobra do mesmo jeito. Mas que merda: a Educação não precisa ser um ato heroico ou fruto de idealismo puro. É uma carreira como qualquer outra, precisa ser atraente para trazer para si gente talentosa e competente, não idealista. E para deixar bem claro: atraente não só financeiramente, porque engana-se redondamente quem pensa que é só grana que move uma pessoa a escolher e permanecer numa carreira. É satisfação pessoal também, até mais que dinheiro, para alguns. E há quem chame isso de idealismo. Uma pinoia. Idealismo é coisa pra gente burra¹.

Fatia nº2: O penúltimo post do blog do Skylab recomenda um DVD do Luiz Tatit, fodíssimo compositor e estudioso da canção, que me faz pensar nas minhas, se são canções mesmo ou um monte de fórmulas repetidas ouvidas no rádio à exaustão desde os tempos da terra média. Skylab, então, cita um outro post seu, mais antigo, sobre a "nova safra" brasileira de cantoras, da Marisa Monte em diante. Nunca tinha entendido porque eu tinha enjoado da tal "nova MPB", que no início dessa década foi uma opção para mim àquele rock farofa chinfrim que tocava na rádio nessa época; entendi quando li esse texto. Tudo muito asséptico, tudo muito certinho, o que torna tudo irremediavelmente um porre. Pena que a discussão do texto descambou em quem comeria qual cantora dessa geração - papo que de fato não me interessa - por causa da piadinha final do texto: "Você comeria a Marisa Monte?"

Este texto me abriu um clarão na mente e exagero até que pode mudar a minha vida: digamos que agora sei em que cavalo apostar. Se bem que Skylab me deu uma esperança como intérprete (não-asséptica e cheia de erros, porém original) com uma das mãos, mas estrangulou a pobre com a outra, colocando todo mundo no mesmo balaio:

"qualquer cantora, da nova geração, não mencionada e qualquer outra que venha ainda a surgir, por favor, se sinta incluída – não há escapatória."

Fodeu! Desisto de ser diva. Prefiro continuar sendo vocalista de banda de rock de garagem em franca ascensão mesmo!

Fatia nº 3: Os TM estão sendo frequentados e comentados por gente nunca dantes vista, o que é realmente muito bom, mas me sinto meio como Wanderson, saca? "Não estou preparada para a repercussão: repórteres, não insistam por enquanto!" Um moço educado veio elogiar o sabor acentuado dos textículos que andou provando e citou que o trabalho do Skylab "vai além do grotesco e escatológico" e eu, como bufão e cachorro sarnento que sou, rosnei pro pobre, afinal a estética do grotesco é complexa, a ponto de ter que "ir além" dela. "Os bufões estão a nossa volta: inspirem-se neles", já postulava Titio Jorge Didaco. Foi mal aí, galera, mas é que o tal do "humor ácido" não é puramente performático, é a verdade mais profunda do bufão que vos fala.

Notas 'inútieis'

1- Idealismo vazio é coisa de gente burra sim, porque é exatamente aquele que não move uma palha do lugar. Eu ainda mantenho uma ponta de idealismo sim, mas com uma boa dose de cinismo.

2 - Ilustrar este textículo com O Grito, de Edvard Münch é um lugar-comum quase imperdoável, mas quem resiste à poesia dessa tela? Nem Homer Simpson se safou! Créditos da imagem: dimensaoestetica.blogspot.com/2008/01/o-grito...

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Viva Boal

É incrível como a gente fica desinformado quanto mais a gente tenta se informar. Ainda há perigo de se enlouquecer com a quantidade absurda de informação inútil que a gente recebe. Nessa semana, deliberadamente fiquei sem assistir TV, sem acessar a internet, nem ouvindo rádio. Abri meu e-mail só na quarta-feira e só aí descobri que Augusto Boal, gênio do teatro brasileiro, diretor e dramaturgo, criador da metodologia do Teatro do Oprimido, havia falecido no sábado.

Como Villa-Lobos, Paulo Freire e outros gênios brasileiros, o trabalho de Boal é mais conhecido lá fora do que em terras tupiniquins. Sou formada em Artes Cênicas e garanto que o que sei sobre a metodologia do Teatro do Oprimido consegui aprender por fora*, porque falou-se muito pouco sobre o trabalho de Boal durante a minha formação, alicerçada no método de teatro-educação de Viola Spolin e Ingrid Koudela.


Quando um desses morre fico com medo, porque não tem gente fazendo arte da mesma envergadura que esses caras. Os renovadores do teatro brasileiro são todos da geração do Boal e continuam na vanguarda: Zé Celso, Abu, Antunes, José Renato. Boal e Gianfrancesco Guarnieri já foram ter com o Barbudão. E aí, quem vai quebrar as estruturas e renovar o que agora é consagrado? A Arte vive disso. De quebrar estruturas, sempre.


Digo isso porque tenho certeza que Boal será sempre lembrado e mais, seu trabalho continua, através do Centro do Teatro do Oprimido. Além disso, a gente precisa de outros trabalhos tão revolucionários quanto. Mas como isso vai acontecer, se vivemos cercados de gente alienada, burra e reacionária o tempo todo? Nunca se teve tantas fontes de informação, e nunca fomos tão burros para não aproveitá-las. Tá vendo como eu tinha razão?


O Teatro do Oprimido faz parte do meu relicário de lembranças adoradas, daquelas que a gente vai ver a importância anos depois, como o clipe de No Surprises no sofá da casa do Daniel.


Em 2002 eu fiz um curso ministrado pelo MST e pela Unicamp, no campus da mesma universidade e que foi puro risco, apesar de não ter participado de nenhuma ocupação. Eu estava com 19 anos, nunca tinha viajado sozinha e pouco sabia sobre o que ia fazer lá, só sabia que representaria o Mire, movimento do qual participei até 2004. Este evento correu em paralelo com o Fórum Social Mundial em Porto Alegre e contou com a participação de alguns feras como José Arbex Jr., João Pedro Stedile, Plínio de Arruda Sampaio, e alguns políticos, quando o PT ainda era oposição. Era gente do Brasil inteiro, um monte de sotaques, gente jogando capoeira, dançando todas as noites. Foi uma experiência maravilhosa. E foi lá, numa tarde de sábado, que fiz uma oficina de teatro com gente do CTO, porque o MST usa a metodologia do teatro do opimido. Depois participamos de uma sessão. Quem já participou, sabe: a representação acontece até o momento do conflito, quando se chama a plateia para resolvê-lo como acha que poderia ser. Eu, como toda minha cara-de-pau do mundo, fui. Nessa época, nem no meu devaneio mais maluco, imaginava que cursaria uma licenciatura em Artes Cênicas.


Minha militância (nem sei se fui militante mesmo, porque nunca arrisquei minha pele de fato) durou até 2004, ano que colocou a minha vidinha de pernas pro ar. De repente, todo aquele discurso pareceu estranho, e fiquei cansada. Não via mais motivo em militar, então simplesmente parei. Não foi fruto de uma decepção ou coisa parecida, aliás, minhas posturas políticas nunca mudaram.


Isso foi uma coisa muito estranha que nunca entendi direito. Na verdade, destes anos para cá, tenho vivido como uma "pequeno-burguesa que só pensa em si mesma", primeiro ralando para me formar, depois para conseguir um emprego minimamente decente. Então, era como se minha vida fosse dividida em duas partes totalmente diferentes. Agora sinto estas duas partes se unindo, sinto outra vez estas cócegas revolucionárias, devido a este escabroso cheiro de ditabranda no ar, suave, mas incômodo, que só eu e uns poucos "privilegiados" podemos sentir.

Não estou mais interessada em militância nem nas suas instituições, que dançam conforme a música do jogo político. Descobri que um militante pode não ser subversivo, e que não precisa haver militância para haver subversão, talvez algum engajamento. Subversão é o que me interessa. Isso com certeza, Augusto Boal foi. Um subversivo de mão cheia.

Notas inúteis:
* O CTO vai prestar uma homenagem a Augusto Boal nesta sexta-feira, se existe algum leitor de textículos no Rio, por favor, vá por mim. E se alguém souber de alguma homenagem a ele aqui na Terra da Garoa, por favor, me avise. Minhas bolas voltam para a esquerda, gente!!!
*Um de seus livros que eu li foi "O Arco-Íris do Desejo - Método Boal de Teatro e Terapia", da Editora Civilização Brasileira.

domingo, 3 de maio de 2009

Machado Skylábrico

Falta agora pouco menos de meia hora para a Virada Cultural acabar, e já rendeu bons frutos, como por exemplo, a minha vontade de matar as antas organizadoras do evento (o transporte estava uma bosta completa, mais do que nos outros dias do ano), tanto que já estou aqui texticulando sobre.

A gama de opções era tanta, mas tanta, mas tanta... que acabei indo em um evento só e perto de casa, o que não me impediu de dar uma volta pelo centro da cidade para ver o que dava pra aproveitar. Como estava tudo muito lotado, fui ao CCJ ver o Zé do Caixão e o Rogério Skylab, este último não conhecia até então, e garanto que já não vivo sem ele, hahaha.

Zé do Caixão não decepcionou, mas é muito difícil ser mito, então a surpresa da noite foi o Skylab. Sua obra é marcada pelo grotesco e pelo bizarro, não só exatamente pelo horror. Rola também uma sacanagem e um gosto pela escatologia também. Como o terror me diverte, acho que nunca dei tanta risada, perto dos muros do cemitério da Cachoeirinha, nem quando eu e a velha guarda íamos para lá tomar uns porres à meia-noite. Hoje, fui caçar informações do meu novo ídolo e sex simbol (sua reboladinha só não é mais gostosa que a do Ney) no Oráculo, obviamente.

No seu blog, descobri que ele abordou um tema que já há algum tempo me instigava, mas ainda não tinha compartilhado com a minha Seleta Audiência. Quem já leu Dom Casmurro, que não é meu caso, sabe que Bentinho deixou um soneto que só tem o primeiro e o último verso, deixando o miolo para ser preenchido por um leitor desocupado. Eu fiz o tal soneto, como um treino, já que nunca consegui obedecer métrica, número de versos, estrofes, e também pelo fato de nunca ter gostado dessa poesia romântica, fofinha. E vi que Skylab também o fez, totalmente ao seu estilo pós-vanguardista. Vi que isso era um sinal dos deuses para veicular o tal soneto. Primeiro vai a minha versão:


Soneto que Bentinho não fez


Ó, flor do céu! Ó, flor cândida e pura!
Suas pétalas exalam frescor de doçura
Ao ver-te, esqueço-me das mazelas
De não ter o teu amor, nem as estrelas

Do céu, que nos permite somente vê-las,
Como quem deseja os amores de uma donzela
E desvendar os mistérios da sua candura,
Impossível de penetrar na realidade mais dura.

O choque entre verdade e ilusão escancara
A fragilidade da pétala arrancada
Da flor do meu sonho, que a vida me roubara.

Por vencido não me dou, que a história inda não é acabada,
Pois o desejo de fato nunca falha.
Perde-se a vida, mas ganha-se a batalha!

E o do Rogério:

Oh! Flor do céu! Oh! Flor cândida e pura
às margens de um córrego
cheio de esgoto.
O adubo que te alimenta,

te fez crescer.
Flor do brejo,
onde crianças são desovadas:
é aqui teu habitat.

Floresces em meio às fezes,
epidemias e corpos mutilados.
Tua haste delicada, tuas pétalas,

foram forjadas no inferno.
Será assim teu epitáfio:
Perde-se a vida, ganha-se a batalha.

E isso é só a ponta do iceberg... Até que estou bem, para quem detestava blogs com poesia. Se eu soubesse que participariam, até relançaria o desafio machadiano à minha seleta audiência, mas acho que esse Machado Skylábrico matou a pau, quer dizer, a machadadas, quaisquer tentativas que se façam de escrever este soneto novamente.

Beijo do Bozo!

Textículo jorrado em 03/05, 18h13.

domingo, 19 de abril de 2009

Abril Pro Rock*

Não só pro Rock, mas também, pro soul, jazz, choro, MPB... Aproveitando a onda de bons shows em 2009, o mês de abril segue fodástico. Sem grandes shows (em porte, que fique bem claro), como o do Radiohead ou do Ney - sorvidos sem vão receio no mesmo fim de semana - neste mês, estou aproveitando ótimos shows nos Sesc´s da cidade, coisa que faço com assiduidade, dado o excelente custo-benefício da coisa. Todos, evidentemente, mereceriam textículos à parte, mas para deixar a audiência texticular salivando, resolvi contar todos em uma talagada só.

Época de Ouro e Nó em Pingo D´água (Sesc Vila Mariana, 11/04/2009): Comprei para ver o Época de Ouro, antológico conjunto de choro fundado por nada menos que Jacob do Bandolim. Hoje, o único da formação original é o Jorginho do Pandeiro, mas o grupo mantém a tradição do chorinho de corte clássico, diferente do Nó em Pingo D´água, grupo carioca já das antigas, mas que faz um choro mais experimental e até pop. Deu até vontade de voltar a estudar violão só pra tocar choro. Detalhe que neste palco em 2004 vi o mestre Sivuca tocar, já bem velhinho e doente, mas não menos endemoniado com seu acordeão. Vi também o Mawaca e a Fernanda Porto neste palco. Deu saudade, viu. Mais um show antológico entrou para esta coleção.

Ed Motta (Choperia do Sesc Pompeia, 17/04/2009): Show há muito tempo aguardado, porque sei que é um evento raro. Várias vezes já ouvi o Ed Motta falar em entrevistas que prefere ficar compondo no estúdio do que fazer turnê e talz. Então, a Bozo de Calça Roliça aqui achava que seria um show sei lá, intelectualizado. Que nada, um show de Stand-up Comedy não seria tão engraçado. O Ed é um adorável doidão, como um nerd que viaja careta e falou de um tudo: desde taxistas que confundem as músicas dele com as do seu tio, Tim Maia, até questões de altíssimo cunho filosófico como: "Por onde estará Stevie Wonder?" E é claro, ele e sua banda tocaram, por assim dizer, pracaralho. A-do-rei! Passei por um doce dilema na noite desta sexta: meus amigos e companheiros de banda, Zé e Forrest estavam num show do Scandurra na mesma hora e tinham me chamado também. Só não fui porque as entradas do show do Ed estavam compradas há umas duas semanas pelo menos. Não obstante os apuros passados (meus pais quase foram barrados no baile por suas carteirinhas do SESC estarem supostamente vencidas e os meninos "roubaram" a mesa de um noia em um boteco nas imediações do Clube Berlin, onde aconteceu o show do Scandurra), essa sexta foi no mínimo fecunda, em matéria de bons shows.

Lô Borges e Milton Nascimento (Teatro Paulo Autran, Sesc Pinheiros, 18/04/2009): Não sei se o Lô Borges foi genial ou fez uma cagada em chamar o Milton Nascimento para fazer parte de seu show, porque todo mundo foi lá para ver o Milton. Apesar de a-m-a-r as músicas do Lô Borges, eu tava a fim mesmo era de ver o mestre, porque Milton Nascimento É uma lenda viva da música brasileira. Show perfeito, mesmo com a rasgação de seda mútua entre Milton e Lô. Como era um show de mineiros, eles contaram uma série de causos, até de sapos cantores acompanhando "Para Lennon e McCartney", com o Milton regendo o coro de anfíbios. (Mas eu e o Zé chegamos a conclusão que eles deram é uma bela lambida nas costas de um cururu para ter uma viagem dessas.) Durante o show, passei por vários momentos em que abri minha boca à la Didi Mocó, porque foi um clássico atrás do outro, só pra citar alguns: Paisagem da Janela, Um Girassol da Cor do seu Cabelo, Nada Será Como Antes, Dois Rios, Resposta, Para Lennon e McCartney, e Clube da Esquina 2, que eu amoooooooo! Quase me joguei do balcão do Teatro Paulo Autran, de tanto tesão auditivo e saí de lá feliz por ter um sanguezinho mineiro correndo nas veias (meu avô paterno era mineiro de "Bêrába"), porque eita gente pra fazer música boa, sô!

Los Porongas (Livraria Cultura do Shopping Bourbon, 18/04/2009): Opa, dois shows no mesmo dia? Sim, senhores! Antes de partir pro Sesc Pinheiros, estava de bobeira na Livraria Cultura, quando me vi subindo as escadarias da loja atraída pelo som da banda, tal e qual Pica-Pau sendo levado pelo cheiro de uma comida apetitosa. Peguei uns 15, talvez 20 minutos de show e fiquei hipnotizada pelo vocal afinado e ao mesmo tempo urrado, o lirismo das letras e o teclado endemoniado do violonista/tecladista que algumas vezes até me lembrou o Ray Manzarek, dos The Doors. Os caras tem uma alquimia com estes estes ingredientes na mesma medida que nós do In-pessoa estamos buscando desde que começamos. Agradabilíssma surpresa, tanto que no final fui trocar uma ideia com o baixista, o Magrão, pra saber se os caras tem My Space. E tem, oras! Segura essa: www.myspace.com/losporongas.


Gente, quem quiser que conte outra porque este final de semana me deixou exausta! Beijo do Bozo!
*Referência ao mítico festival de música independente de Recife: www.abrilprorock.com.br

terça-feira, 24 de março de 2009

Sonho de um sonho II

Neste domingo, fui uma das 30 mil pessoas que assistiram ao show do Radiohead em São Paulo, e aquela sensação duplipensante de viver o momento ao mesmo tempo em que se tenta racionalizar a experiência para relatar depois funcionou só durante alguns instantes, porque o que eu vivi foi tão surreal, que me sinto como o Segismundo, protagonista de A vida é sonho: estava dormindo e acordei aqui ou foi o contrário, tudo isso é um sonho?

Engraçado porque quem é fã absoluto e irrestrito de Radiohead não sou eu, acho difícil superar Vizinhíssimo e TioZé em loucura insana por Thom Yorke e seus parceiros, mas isso não impediu que eu me comportasse como uma fã, a começar pelo dia em que eu comprei o ingresso, uns três meses antes. Por que eu fiz isso, se não era tão fã assim? Simples, eles decidiram vir ao Brasil no seu melhor momento, e conta-se nos dedos as bandas internacionais que fazem isso. Sabia, desde sempre, que seria este um show histórico¹. E foi.

A surrealidade da experiência começa pelo fato que faz uns 10 anos que eu não vou a um grande show de rock e sinceramente pensei que esta fase já tinha passado. Clichê muito piegas, mas verdadeiro: é como se eu tivesse a minha adolescência de volta. E isso é bom demais.

Minha mente ainda tagarelava no show do Los Hermanos, que no início eu desprezei, mas que depois ganhou um gosto de piada velha envelhecida em barris de carvalho, como um bom vinho. O show foi melhor que eu esperava e achei muita graça em eu não conhecer nada de Los Hermanos que ultrapassasse a chatice da "Anna Julia". Eles que não são bobos nem nada, não tocaram essa pérola do cancioneiro chato do pop-rock brasileiro. Conclusão: apesar de ter apanhado do Chorão e de dar uns sapecos na pirralha da Mallu Magalhães, o Marcelo Camelo merece algum respeito musical, mesmo com sua cara de funcionário da Nasa dos anos 70, misturada com cara de judeu de Higienópolis com traços de estudante de sociais da USP ou coisa que o valha que me irrita um tanto, eu confesso. E o Rodrigo Amarante fez mais bonito que nosso idish-apollo13. Alguém tem o telefone dele, por favor? :-P

Outra piada velha, mas que eu conheci estes dias, portanto tem graça foi o Kraftwerk. Eles tem mais de 20 anos de carreira, mas para mim foi a descoberta da pólvora. Vi tudo naquele show: poesia concreta, Mondrian, crítica social. Mais um drama tostines na minha vida: eles são realmente vanguarda ou o que a gente faz e ouve em termos de música é que está datado? We are the robots!

O Radiohead, como bem informa a notícia do link, entrou pontualmente em cena. E aí que começou meu desespero, do alto dos meu 1,63m de altura. Não adiantava ficar na grade, como bem observou o já iniciado em shows do Radiohead - o dono do... OKcomput3r! - para que se pudesse ver o show na íntegra, com os efeitos de luz que ajudaram ainda mais a criar o clima de "isso é verdade mesmo?" que permeou todo o show. Só que era gente demais naquele lugar e ver mesmo o show, eu não vi. Demorou um tempo para entender que aquilo não era um show, era uma experiência, e que em shows de rock o legal não é ver e sim participar. Foi aí que a coisa ficou boa para mim, quando rolaram os melhores momentos do show, na minha opinião: Paranoid Android, Karma Police, e do In Rainbows, Reckoner. No bis, Fake Plastic Trees foi atrapalhada por uma briga perto de mim. Como bem observou um outro cara que estava por lá: "Brigar logo na hora do Carlinhos, pô?" Aí, estragou.

Hora de ir, quase um enrosco, em plena madrugada de domingo para segunda. E lá estávamos, mais uma vez, eu e meus companheiros de aventura, tentando sobreviver na cidade. Chegamos três da manhã em casa e em vão tentei acordar às 5h30 para ir trabalhar e abri os olhos com essa sacada do Segismundo: estou acordando agora ou voltando a dormir?

Esta pergunta se mantém sem resposta. Desde que acordei/dormi, tenho ouvido Radiohead feito uma louca, tentando "concretar o fluido", reter na memória o que passou, o que eu senti. Essa bola eu cantei para o Zé, na saída do show: acho que só vou entender o que aconteceu de verdade daqui a alguns anos. E olhe lá.

Por isso fica para o próximo textículo um pouco mais da minha relação com o Radiohead, como se fosse os TM um filme do Tarantino, que vai e volta no tempo com garbo e elegância, como eu*. É para nós mesmos esta cambalhota!

1 - Aos que sobreviveram para contar esta história comigo, aquele abraço!

sábado, 21 de março de 2009

Inclassificáveis

Fui assistir ontem ao show do Ney Matogrosso de um de seus trabalhos mais recentes, o sucesso de crítica e público Inclassificáveis. Estava tentando ir deste agosto do ano passado, quando diziam que seria a última passagem deste show em São Paulo, o que se mostrou um belíssimo papo furado. Quando fiquei sabendo que neste final de semana rolariam mais três shows, eu corri para comprar a mesa mais próxima que eu pudesse e não perder este show por nada deste mundo e ainda carreguei junto Filhutti e TioZé, amigo, companheiro de banda, parceiro e compositor que até me faz às vezes eu me sentir uma diva, por conta das canções fodásticas que ele me dá para cantar, apesar de toda a desafinação que me acompanha. Seria ele um chamariz para invadir o camarim do Ney? Mistérios insondáveis da Velha Guarda.

Eu já conhecia o produto. Em 2004 assisti ao show da turnê Vagabundo, que ele fez junto com Pedro Luís e a Parede, que eu já conhecia e gostava também. Desta vez, porém, houve um mega-salto de qualidade. No show do Vagabundo, eu fiquei no poleirão, o setor em cima do camarote do finado Olympia (ah, que saudade, assisti ao primeiro show do Offspring no Brasil lá, no inesquecível ano de 1997). Desta vez no Citibank Hall (antigo Palace e DirecTV Music Hall), fiquei nas mesas do Setor 1 e escutei até as tomadas de fôlego do Ney na hora de cantar.


Essa coisa de ser blogueiro nerd é uma bosta. No show, entre uma gozada e outra, eu só pensava nessa merda de blog, nas frases que escreveria, em como descreveria aquela pélvis endemoniada que deixa Elvis Presley parecer um coroinha de igreja. E o Elvis nem chegou aos 67 anos - idade do gostosão Ney Matogrosso - e aos 40 já parecia um cachaço perto de ser abatido. Eu tive que respirar e abstrair, para poder viver a experiência como se deve, sem pirações ciberculturais.


O show é uma rara experiência de espetáculo completo: visual, performático, musicalmente perfeito. O Ney é artista consagrado, e neste show fica evidente sua segurança, sua experiência, seu domínio de cena absolutamente indiscutível e com tudo isso, ainda executa sua performance com uma paixão de primeira vez no palco. O Vagabundo também foi assim, mas no Inclassificáveis houve uma diferença. Senti uma maior economia nos gestos, aquela malandragem que só a idade é capaz de nos trazer. É diferente de estar contido, sua rebolada continua fantástica, tanto que ele não a gasta à toa. Nada mais perfeito para o tema do álbum e do show, a passagem do tempo e como isso nos espanta, passando pelo amor, pelo sexo, e acaba sendo um retrato dele: inclassificável. Sendo gay ou não, pouco importa: a figura dele causa tesão até na ponte Rio-Niteroi, e com este show ele prova (mesmo sem precisar) que é também atemporal.


Eu já conhecia o álbum, fui atrás de me afiar que não sou besta nem nada, mas ainda assim tive surpresas. Na passagem da primeira para a segunda parte do show, quando ele tira o primeiro figurino em cena e fica apenas com uma malha finíssima que até parece que está seminu com o corpo pintado, ele canta Cavaleiro de Aruanda, do repertório do Ronnie Von na sua fase mais fantástica. Quando ele canta "Por que a gente é assim?", de longe a minha preferida do álbum, ele desce do palco e canta - literalmente - na minha frente!!!! Se não morri naquela hora, não morro nunca mais. No bis, ele canta Simples Desejo, canção do primeiro álbum da Luciana Mello, que eu também adoro. Puta que pariu, gente. É de gozar mesmo.


Falando em gozar, desde que eu comprei o ingresso até a hora de sentar à mesa, eu disse que ia gritar lindo, gostoso, vai lá em casa e etc., coisa que eu e mais um monte de malucas fizeram no show do Vagabundo lá no Poleirão do Olympia. Mas ontem, quando o show começou, eu mal piscava, e suspirava. Só conseguia fazer isso. Como o Bozo de Calça Quadrada aqui só faz se f****, tinha umas pós-balzaquianas que fizeram isso por mim e pela plateia inteira, e mais pareciam um bando de adolescentes histéricas gritando pro Zac Efron no High School Musical, e o pior, só para aparecer, porque gritavam até no meio das músicas, das mais lentas inclusive, como Coisas da Vida, por exemplo.

Nestas horas se justifica meu ódio extremo pela "crasse média" medíocre que a gente tem nesse país. Nem dá para colocar a culpa na falta de estudo, de cultura ou de dinheiro, é falta de camisinha mesmo. Nascer já foi o erro. Filhutti estava bem atrás dessas frígidas e sofreu a pobrezinha. Nem sei como eu e ela não enfiamos nosso copo na boca daquelas malditas e um nabo em outro lugar, para tentar ver se sossegavam. Traduzindo: fora pela visão de palco, grande merda ficar no Setor 1. Sem contar o trânsito de garçons, às vezes tampando a visão do show. A culpa não é nem deles, que trabalhavam como se estivessem numa trincheira de guerra, quase de joelhos: era da plateia mesmo. Quer beber, que vá pro boteco e se quer comer, que vá pro restaurante. A última coisa que interessa a este tipo de público é a música. Nota zero para eles.

E quem quiser que conte outra, porque este fim de semana tem mais: amanhã assisto ao Radiohead e Kraftwerk, primeiro show internacional que vejo em quase dez anos, acompanhada de dois verdadeiros radioheadmaníacos. Segunda tem mais textículo, para mim e para esta seleta audiência que me acompanha. É para nós esta cambalhota!

Créditos da imagem: http://portal180graus.tempsite.ws/musicapelomundo/wp-content/uploads/2008/03/ney.jpg

quinta-feira, 12 de março de 2009

Mulheres-andróide*

Sabe que ando com muito assunto e pouco tempo, e não gosto de texticular quando a vontade de escrever é mediana. Só que tomei vergonha na cara ao dar uma passadinha no OKComput3r, vizinhíssimo anda postando feito doido por lá. E todas as postagens são excelentes, então esse papo de quantidade X qualidade é conversa de blogueiro preguiçoso, como eu.

Um dos assuntos que eu tinha planos pra falar aqui foi sobre o Dia Internacional da Mulher e aniversário da Bozoca*, que nasceu num dia "danado de porreta". Acabei falando meio de soslaio, com a última postagem, porque a piada pronta da semana foi o dileto arcebispo meter a colher onde não foi chamado bem na semana do 8 de março, pra deixar os movimentos feministas beeeeeeeeeem contentes. E não pude deixar passar.

Comecei este textículo ontem, mas apaguei tudo quando li uma notícia no Terra, agora mesmo, cujo título dispensa qualquer comentário:


Ah, Cabral, fala sério. Mulher para ser perfeita tem que fazer café? Então, apaguei tudo, porque eu vi que minha discussão estava séculos atrasada. Eu falando de igualdade (de condições) entre gêneros, violência à mulher, patriarcado, raçãowhiskhasblábláblá e o babado está bem mais forte que eu pensava. Diz a notícia que "o inventor canadense Le Trung decidiu não perder tempo em busca da mulher ideal e criou sua própria. Aiko é uma robô androide que fala inglês e japonês, é boa em matemática e, segundo Trung, é muito paciente e nunca reclama." Lá pelas tantas, a notícia conta que "além de fazer companhia ao inventor e ajudá-lo com as contas, Aiko tem habilidades mais servis, como limpar o banheiro" e mais: "prepara chá e café, serve sushi, faz o café da manhã e limpa as orelhas de seu criador." O doutíssimo inventor ainda declara: "Ela não precisa de feriados, comida ou descanso, e pode trabalhar quase 24 horas por dia. Ela é a mulher perfeita."

Percebam que para a anta do inventor mulher perfeita não pensa, não tem desejos, não cria. É boa em matemática para as contas de um suposto orçamento doméstico e lava banheiros! E, apesar de ter sensores "lá embaixo" - palavras dele - é garantidamente virgem! Ou seja, para o tal, mulher perfeita nem precisa ser boa de cama.

Existe um paradoxo -quase um oximoro - entre o arcaico e o contemporâneo na ideia do tal cara. Uma pessoa capaz de criar um software de 50 mil reais tem um cérebro de minhoca desse? E o cabra choveu no molhado: alguém precisa contar para ele que cafeteira já existe e robô-empregada também. Lembram da Rose, dos Jetsons? E o Luís Fernando Veríssimo já tinha feito o seu exercício futurista sobre um cara que compra um robô-mulher-perfeita para substituir a esposa. Está no A Mãe do Freud (L&PM Pocket).

Então, quanto mais a gente discute sobre cibercultura, Vizinho das Galáxias, eu me pergunto: cheguei ao século XXI para isso? É contra-revolução pura, mermão! No meu tempo, o futuro era uma coisa bem mais interessante: os Jetsons eram descolados e a Rose é muito mais fofa que a tal da Aiko. Me manda direto pros 1960, por favor.

* Créditos da imagem: http://naredesaude.files.wordpress.com/2008/12/rose.jpg


segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Sujeito Jóia

Ultimamente tenho me voltado à cena nordestina da Música Brasileira. Nos ensaios da nossa banda praticamente inbatizável, temos falado muito do Mangue Beat, Nação Zumbi, Chico Science, essa coisa toda. Só que nessa semana que passou, eu descobri o blog do sujeito mais jóia saído de Fortaleza*, que me mata de rir toda vez que dá o ar de sua graça: Falcão.

Tudo tem história, então vamos lá. Primeiro eu me lembro desse sujeito cantando "I´m not dog no", versão em inglês macarrônico de "Eu Não Sou Cachorro Não", de Waldick Soriano, mestre do brega brasileiro, que morreu nesses dias (por causa disso achei o link pro blog falconesco na UOL). Depois, me vem a mente a última vez que fui "pras Paraíba" com a minha mãe, em 1995, quando minha prima me contou que o obscuro Falcão em São Paulo (mesmo daquele tamanho e com aquela indumentária minimalista só dele) fazia o parte do top10 das paradas das rádios FM de João Pessoa e me apresentou outras pérolas do repertório desse ser. Uau.

Já em 2004, no primeiro semestre da faculdade, descobri um fã de Falcão na minha sala, o igualmente pequenino Minduim (que cai na risada toda vez que eu o mando sifu). Peguei um CD* emprestado do cabra, porque eu me lembrei do que minha prima tinha me dito e fiquei curiosa pra conhecer a obra deste gênio incompreendido. Eu chego em casa e conto a novidade e meu pai "Falcão, filha?????", desacreditado que a ex-estudante de violão erudito tinha pego emprestado pra escutar. Ele também quis ouvir e teve acessos de risos - nisso eu puxei 'Seu Teodoro', que adora uma piadinha - e não tirou o CD do som enquanto esteve de férias do trabalho. (O feitiço virou contra o feiticeiro. Eu também estava de férias nessa época. Ouvi Falcão até o uc fazer bico.)

Tirando toda a gozação dessa história, o cara é crânio sim. Arquiteto de formação e de um humor finérrimo, pisa no calo de meio mundo, muito mais que muita bandinha punk de protesto que tem por aí aos montes. Por isso, vou com as fuças desse sujeito. Ridendo castigate moris*. E tenho dito.

O que prova o que estou dizendo por a-mais-bê, é o caso clássico da versão falconiana de Another Brick in The Wall, do Pink Floyd, com a letra de Atirei o Pau no Gato, canção censurada pelo PETA do folclore brasileiro. Ele conta que a gravadora dele pediu autorização para Roger Waters para liberar as música para gravação e descobre que "este corno não libera nenhuma de suas músicas". Sobre essa atitude pouco artística de Waters, Falcão foi categórico: "Não vou ceder nenhuma música minha para o Pink Floyd também!" Lei de Talião* neles.

Recomendo ler este post do blog, onde ele conta essa história bem melhor do que eu, mas eu vou colar aqui a tradução de Atirei o Pau no Gato que ele mandou pro Waters, na tentativa de convencer o mano...



Shoot the wood in the cat
But the cat not died
Mrs. Chica appreciated
Of the meow that cat gave
Hey, Chica! Leave the cat in peace.
No let's go traumatize the pitiful animal
I only play the wood in the beast, for listen the meow!



... Que dispensa qualquer comentário. Se o leitor de textículos não gostar desse nicho jocoso da música brasileira, mesmo que ache Música Brasileira é só Bossa Nova* e MPB, ou nem isso, no mínimo vai dar boas risadas ao ler o blog deste galã bufônico. Vocês sabem, é muito raro eu gostar de Blogs (só gosto mesmo do meu, do Forrest, e o da Bozoca quando escreve), então pra eu recomendar, é porque é jóia. E féxion como o dono.

Notas 'inútieis' fora de ordem:
1 - Quem não entender o dialeto cearês em que o cantor escreve, recomendo meu textículo Léxico Nordestino, onde há endereços dos Dicionários de Pernambuquês e Cearês na rede.
2 - O CD que eu trouxe pra casa e que quase mata meu velho de rir foi o "A um passo da MPB", de 1997 e produzido por nada menos que Robertinho do Recife.
3 - Rindo se castiga os costumes. Frase de um dramaturgo zé-ruela chamado Gil Vicente, já citado por aqui.
4 - "Olho por olho e dente por dente". Esta é a Lei de Talião.
5 - É o que estou ouvindo agora-now-neste instante. O mundo é mesmo estranho.
6 - Por que a dor-de-cotovelo do Chico Buarque é chique e a do Waldick Soriano é brega? Porque o Falcão é espalhafatoso e Jimi Hendrix é "psicodélico"? É essa pergunta que motivou este textículo. I´m not dog no!

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Abduzida por Tantra e Van Gogh



Fui abduzida por uma canção, há poucas horas. De vez em quando tocava no rádio e eu nem ligava muito pra ela, apesar de ter simpatia pela banda que toca. Na Antológica Festa da Chapinha, a última, que teve de tudo, desde ex-aluna presenciando minha esbórnia com meus queridíssimos amigos da Velha Guarda até fim de festa deprê em grau máximo, eu vi os meninos comentando que a canção "Corvos sobre o Campo", foi inspirada na tela "Campo de trigo com corvos", de Van Gogh. E aí, a lembrança empoeirada me veio a mente, mas não me retive muito nisso, porque O Menino que eu Gostava curtia essa banda. Ia dar curto-circuito lembrar, ainda mais naquele dia.



No último ensaio da nossa banda sem nome - o desespero é tanto que estou pensando em até fazer enquete com alguns nomes surgidos - o Renato, nosso caçula e genial guitarrista e talvez o único que tenha algum juízo na cabeça, comenta que só os primeiros versos realmente falam da imagem do quadro. Eu não exatamente discordei, porque não lembrava da letra toda, mas lembrei a ele do Universo Pirante que é Van Gogh, que seria impossível esgotar uma tela em uma canção, que dirá nos primeiros versos. Pausa para o café. Ou melhor, pra cerveja.



Do nada eu estava cantarolando essa canção na terça-feira, na mesa do bote, com a porção Velha Guarda da Banda, e Forrest me diz que é essa canção é ótima. Por sorte, lembrei de procurar e baixar hoje, qual a surpresa com o resto da letra, que vai por um caminho estranho mesmo, o que é absolutamente normal se lembrarmos que estamos falando de Vincent Van Gogh. O fato que a letra sou eu nos últimos tempos.



Como estou me despedindo definitivamente da minha dor, afinal há sobrevida depois da Pior Dor-de-Cotovelo da História, resolvi publicar a tela, com a letra de Corvos sobre o Campo. Não vou analisar a canção, nem dar o histórico do Tantra, porque acho que nosso baterista e último a ser escolhido nas aulas de Educação Física faz isso mil vezes melhor que eu. Só digo que fico satisfeita em redescobrir que os anos 90 produziu um bom rock brasileiro, ao contrário do que eu sempre disse. Corvos sobre o campo* é uma pequena maravilha, em termos de rock com pegada pop, feita para tocar no rádio a valer, e com uma letra bonita e criativa, cheia de poesia. É tudo que nós e nossa banda inbatizável queremos fazer.



Corvos sobre o campo - Tantra



Céu azul, campo amarelo

Corvos avançam em nossa direção

E não há porque se assustar

Deixa o medo entrar no seu coração



Tudo o que eu fiz foi por amor

Acho até que encontrei

O motivo de um final feliz

Nunca imaginei o nosso fim

Construí meu castelo com as pedras que eu te atirei



Yeah, yeah, yeah, nada vai durar

As maldades serão coisas belas, enfim

Nada vai durar tanto assim

Abra os olhos, então

Olha os corvos sobre o campo



Céu azul, campo amarelo

Corvos avançam em nossa direção

Vermelhos caminhos, ecos de cores

Vaga pulsação, de clara escuridão





...Minha dor se despede com a beleza lisérgica de Van Gogh. Deixa o medo entrar em seu coração. No meu, só cabe alegria agora.




Nota 'inutiél':



*Agora já tem Corvos sobre o campo no 4Shared.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

O dia em que fui trabalhar na Bienal do Livro


De volta aos boletins da minha dura vida na Ilha de Caras que não interessam a ninguém, mas que insisto em fazer. A última vez que fiz isso foi quando relatei a minha emocionante estréia no mundo dos testes para atriz-teza, semi-cega, sozinha e na chuva. Nem pude ver a cara de desgosto do Hugo Possolo com meu teste, cheio de buracos de esquecimento no texto, rsrsrs.

Hoje fui à Bienal do Livro, fugindo descaradamente do instinto defenestrador de alunos que me atacou essa semana e da rouquidão -estou prestes a ficar afônica e estou sim desesperaaaaaada! Como é que vou gravar a voz da demo da nossa banda sem nome? Aulas são mero acessório nesta história - e antes dei uma passadinha no médico pra ver se dou jeito nesta tosse de cachorro. Pausa para esclarecimento - o posto não dá atestado médico, ou seja acesso negado para fugida estratégica do trabalho por vias malandras tradicionais que todo vagabundo que se preza conhece.

Na real, entrei pela porta da frente da Bienal. Porque sexta passada eu descobri que eu poderia ir à Bienal hoje, assinando ponto lá e ainda ganhando o dia de trabalho, bastava levar o holerite - atestado de pobreza e insanidade do magistério. (E nenhuma boa alma para divulgar isso na escola. Por que será??) Como eu não consegui confirmar esta notícia, eu passei no médico antes.

E essa visita ao médico merece uma parada especial, porque eu sou o Bozo de Calça Amarela. Reclamei de tosse seca por tempo prolongado e ganhei um pedido de exame de tuberculose. É, isso mesmo! Sou uma tísica em potencial. Sendo que não tive febre e tô 'gorda lisa', como diz a minha mãe. Sendo que tenho rinite e sofro com tempo seco, desde que me entendo por gente. Sendo que contei que sou professora em turno duplo e faço esforço vocal constantemente. Ainda assim, tive que cuspir no potinho - eca! (Ops, na verdade é teste de escarro, mas a minha tosse é seca. Não tem nem vapor d´água pra escarrar) e amanhã tenho que levar de novo meu cuspe para análise. Cuspe em jejum, coisa duplamente nojenta.

Livre da sina dos cuspes, eu corri pra Bienal. Com medo, afinal eu sou formiguinha, operária-padrão, com marmita e livro-ponto. Não é coisa à-toa fugir do trabalho na cara larga. Mas como eu descobri que era verdade que eu ganharia o dia na Bienal, se fosse hoje, eu não fugi do trabalho, fui trabalhar na Bienal. Com credencial e tudo, porque apresentei meu atestado de pobreza e insanidade e peguei credencial. Na sequência, fui falar com os representantes dos 'patrão' e fui muito bem recebida, diga-se de passagem. (Nota brechtiana¹: por que será que pobre adora essas pequenas provas de status, né? A 'crasse' média também gosta, então tá tudo em casa!)

Fui zanzando por lá, comprei alguns livrinhos e assisti a um bate-papo com o João Batista de Andrade, cineasta brasileiro pra lá de consagrado e diretor de O Homem que Virou Suco, filme genial, na minha modesta opinião. Comprei o livro-roteiro do filme e peguei autógrafo do cara, super boa gente. Comentei da passagem deste filme na minha vida, e como ele me influencia e tal.

Na verdade eu tinha me esquecido que ele iria participar da Bienal, fui atraída para o local da palestra por "forças estranhas". Meu destino foi desviado por um daqueles chatos que vendem livro de poesia na porta do MASP, que me assaltou com meu aval. Como eu fiquei dura, tive que sacar dinheiro para comer. Do lado do caixa eletrônico tinha uma lanchonete e o estande onde o João Batista estava.

Gosto de acreditar que a gente segue o caminho certo sem roteiro, desde que a gente saiba o que quer. Isso até me consola, já que sou uma perdida de carteirinha. É o triunfo da intuição hipertrofiada feminina que me persegue, e às vezes até me contraria. Tudo isso me fez sair do Anhembi dando pulos secretos², tal e qual uma bicha legítima presa num corpo feminino que sou³.

Saldo da epopéia: ganhei duplamente o dia, porque fiz tudo isso trabalhando!

E é para mim mesma esta cambalhota!
Notas inúteis:

1 - Princípio do Distanciamento, segundo Brecht. Se vira e vai pesquisar, estou com preguiça de explicar.

2 - Bozoca sempre sai pulando de felicidade quando consegue algo que quer muito, e eu também faço isso. Sua cunhada diz que isso é bichice pura, mas a gente pode, porque a gente É bicha, e das loucas.

3 - Tal qual Madonna e Bozoca, eu sou um viado (com 'i' mesmo) que nasceu num corpo de mulher. E tenho dito.

sábado, 16 de agosto de 2008

Madonna Cinquentona

Estava vendo clipes da Madonna até agora. Como hoje ela completa a bagatela de 50 aninhos, a primeira página da UOL está cheia de coisas sobre ela.

Eu nunca fui fã de Madonna de uma maneira específica. Quando eu era criança gostava de Papa Don´t Preach e Vogue - eu adorava aquela coreografia à la Macarena dessa música. Lembro também de quando ela esteve no Brasil - a turnê do The Girlie Show - que eu queria assistir na TV e que meu pai não deixou, afinal essa era a época em que ela estava pegando fogo, era o tempo do Erotica, Sex e Na Cama com Madonna. Sou filha de família de comercial de margarina, esqueceram?

Eu nem sabia que ela estava pra fazer aniversário, e ouvia de longe comentários sobre seu último disco elogiado - "só porque tem o Justin Timberlake", eu pensava, "mas que bosta!". (Eu vi o clipe de "4 minutes" e é legal. Gênios também se enganam, hehehe.)

Nestes últimos dias eu estava próxima da rainha do pop e não sabia. Eu tinha baixado o The Stonewall Celebration Concert, o primeiro álbum solo do Renato Russo, que, 'por increça que parível', eu não conhecia. Ele gravou Cherish, da Madonna, canção que eu mal me lembrava (se é que eu conhecia) e fui abduzida por essa música. Fui atrás da original, é claro. Mal acreditei que Cherish é dela, porque é uma canção totalmente fofa, singela. Também tenho ouvido muito as versões do Trash Pour 4 de Material Girl e Like a Virgin, incrivelmente reiventadas.

Fui navegando sem perceber por este especial da cantora, porque, por mais que eu não tenha lembranças especiais dela - fora essas que eu contei - me impressiona como ela se mantém diva indiscutível do pop, um mercado com fama de ser superficial e descartável.

Nos anos 80, quando ela surgiu, e depois nos anos 90, sinônimo de pop era Madonna e Michael Jackson. Ele, a gente já sabe que fim levou, foi tragado pela areia movediça da sua vida pessoal, que todos sabemos como é difícil e cheia de lances bizarros. Enquanto Michael estava em tribunais por seus escândalos de pedofilia e brincando de "vamos jogar Isabella" com seu filho (agora que me dei conta - ele é que começou essa moda), Madonna continuava a lançar seus discos, sem alarde. Dizem que ela ainda é controversa e polêmica, mas acho isso coisa da imprensa marrom. Acho que ela não precisa provar mais nada pra ninguém. Por isso, ela pode tudo, até beijar Britney Spears (eca!) ou interpretar Evita Péron, quase matando os argentinos do coração.

Não conheço quase nada da sua fase mais recente. Lembro só do Ray of Light, da trilha de Evita e só. Fui dar uma olhada e ainda prefiro a Madonna platinada dos anos 80 cantando Like a Virgin. Mesmo não gostando tanto exatamente do que ela tem feito hoje, é de cair o queixo a sua capacidade de ser reiventar e ainda ser Madonna. Só que isso não é de hoje. Desde o início da sua carreira, ela foi uma mulher de contrastes. É só olhar o clipe de Material Girl, com um final totalmente antagônico ao que diz a letra e o próprio clipe. Genial.




Suas controvérsias e contradições mais notórias dançam entre o sagrado e o profano. Para começar, quis o destino que ela se chamasse Madonna - ícone religioso de Maria segurando o menino Jesus ao colo. E ela sempre gostou de brincar com estes contrastes. Ela aparece rezando em um figurino discreto em La Isla Bonita, alternando com um figurino de dançarina de flamenco megavermelho - há uma certa cafonice nesse clipe, o que me faz gostar dele (Risos).




Quem é mulher sabe como é difícil equilibrar estes dois pólos. A gente não quer ser condenada por querermos ser gostosas, absolutas, devoradoras, mas também acha às vezes ser "menina de prédio criada pela avó" um porre. A maioria de nós fica no meio termo disso, ou então nega um dos lados por completo, o que causa 10 entre 10 das neuroses femininas. Madonna, não. Ela dilatou as duas polaridades e vai de uma a outra com um pé nas costas. Veja só a sua vida. A Material Girl virou estrela de comercial de margarina - casou, teve filhos, adotou um - e continua aparecendo gostosona em seus clipes. Isso é Madonna.

Então, gostando ou não dela, sendo fã ensandecida ou não, da mesma maneira chego à conclusão: loiras ou morenas, toda mulher deveria ser Madonna e mangar do tempo e dos clichês que nos perseguem. Idealismo ou não, toda mulher tem a capacidade de ser maior que estes estereótipos que nos impõem. Ela fez 50 anos! E eu aqui, com medo dos 30. Ah, meu. Tomá no uc, mermão.
Ah, e só pra provocar, escolhi uma foto da cinquentona quando ainda era ninfeta e morena, como eu. Esperá só eu chegar aos 50, ninguém me segura.

sábado, 19 de julho de 2008

Para gente não loira¹

O ano era 1993, eu tinha 10 anos. Lembro quando estourou nas paradas What´s up?, canção de refrão mega-grudento, mas muito boa de se ouvir. Parece que ela estava esperando por mim, até. ("25 anos e minha vida ainda é uma escalada por uma grande montanha de esperança, por um destino". Que coisa, não?)


Naquele ano, minhas irmãs faziam encontro de jovens, coisa que nunca fiz, apesar de ter sido rata de igreja também. E lá tinha um cara, o Cao, que cantava essa música tal e qual no disco. O que me fazia perguntar se aquela música era cantada por um homem ou uma mulher. Tive sensação parecida quando ouvi Catedral, com a Zélia Duncan, pela primeira vez: é um cara de voz fina ou uma mulher de voz grossa? Não tinha me rendido ainda ao encanto de um contralto poderoso.


O fato é que minha irmã do meio adorava essa música e quis o destino que essa canção fosse o "love theme" do início de namoro dela com o cabeção que hoje é meu cunhado e pai do meu sobrinho. (Tudo bem que essa canção não fala niente de amor, mas o mundo é estranho desde essa época.)



Pula pra 1999. Minha irmã ainda namorava o cabeção e eu namorava um baterista ruim pra cacete de uma banda igualmente ruim pra cacete, se bem que até interessante em termos de punk rock e hardcore, os Intermitentes. Eles ainda existem? Acho que não, picardia não dura a vida toda.



Estávamos celebrando o fim da década e do século XX. Era um ano com gosto de adeus. O ano em que o mundo acabaria, segundo as previsões de Nostradamus. Enquanto o mundo não acabava, então, a gente enchia a cara de vinho barato, tocava violão e ouvia muito grunge. Meu camisão xadrez era capaz de ir sozinho pra escola e fazer a prova de português, de tanto que eu usava o pobre. E tal do mundo não se acabou. Ai, que chato.


No final deste ano, o namoro com o baterista ruim pra cacete já estava pior do que ele tocando bateria, dando sinais que acabaria em breve. E minha irmã acha o "inachável" CD dos 4Non Blondes para comprar, depois de anos de procura (ou não). Comprou para ela e um The Cranberries² para mim, banda que gosto bastante também.

Não contente apenas com The Cranberries, fui ouvir o 4Non Blondes da minha irmã, obviamente quando a pobre estava trabalhando e eu moscando em casa, porque eu sempre fui caçula do tipo vampiresca. E tive uma epifania, daquelas que o Forrest gosta tanto de descrever no Music Inside My Head. Que banda, que som. Fiquei completamente fissurada pela voz de leoa da Linda Perry, como sou até hoje.


Ouvindo o Better, bigger, faster, more da primeira à última faixa, percebe-se de cara que 4Non Blondes não se trata de uma simples "one hit wonder band". O álbum todo é fantástico, muito bem produzido, e tem o equílibrio perfeito entre o pop e o alternativo. Tem a sujeira grunge dos anos 90 (mesmo que a banda não fosse grunge, mas isso estava no clima da década) e fórmulas batidas do pop bem aproveitadas, mas também há raízes profundas da música norte-americana: blues, country, rock n´roll. Ou seja, é um álbum completo. Dizem até que houve um segundo álbum gravado, nunca lançado.


Nunca consegui saber direito o motivo do fim da banda, é que é difícil ser fã de uma One Hit Wonder Band, ainda mais em tempos pré-Internet. Mesmo hoje, não existe muita coisa. A teoria do oráculo Wikipédia é que Linda saiu em 1996 em carreira solo, por achar o trabalho da banda muito pop. Realmente, ela tinha potencial para ser muito mais rock n´roll do que ela vinha mostrando no 4 Non Blondes, mas mesmo assim, acho isso lorota. Devem ter ganhado tanto dinheiro com What´s up? , que daria para se aposentar por quatro gerações.


Entre a lorota e a realidade, acabo de formular a minha teoria. O primeiro álbum da banda acertou na mosca, mesmo não tendo nada de novo, necessariamente. É como eu já disse, foi muito bem feito, bem equilibrado. Não havia mais para onde ir, simplesmente. Difícil bater um álbum bom daquele, se bem que descobri nas minhas caçadas ao Santo Youtube, uma canção nunca lançada em disco que eu achei muito boa, e mostra o vozerão de leoa da Linda:


Como eu fico brava quando dizem que 4 Non Blondes é uma one hit wonder band, mesmo que seja ( E daí? Secos & Molhados duraram dois álbuns apenas, mas suficientes para abalar bangu), eu deixo o link para download no 4Shared, e que minha parca audiência tire suas conclusões. Façam suas apostas, crianças.

O fato é que este álbum está no meu relicário de lembranças adoradas (Ê, Bozoca!). Quando o namoro com o baterista ruim pra cacete estava mal, mas muito mal das pernas, eu ouvia Drifiting ('À Deriva') sem parar. Ai, meu Deus, que bode.

Depois, para curar o bode, resolvi entrar numa banda, e virei 'cantora de um hit só'. Advinha qual era a música? Isso mesmo, 'What´s up?'. Minha passada por essa banda não durou muito tempo, por algum motivo não rolou, mas aí já era tarde. Better, bigger, faster, more já tinha passado feito um rolo compressor na minha vida³.

Ps:
1 - Referência ao nome da banda, que segundo a lenda, seria "para gente não loira" (4 Non Blondes).
2 - O álbum que eu ganhei da minha irmã dos Cranberries, é o No Need To Argue, outro clássico dos anos 90.
3 - Um agradecimento singelo, porém verdadeiro a todos personagens deste 'causo' musical: desde o Cao, que com certeza não se lembra niente de mim, à minha irmã, por ter achado essa pérola em uma prateleira qualquer da Virtual Music, ao meu cunhado, porque tocava bateria enquanto eu era cantora de um hit só, e até ao Mauro, meu ex-baterista ruim pra cacete. (E ao Forrest, que não faz parte do conto, mas que me ensinou a postar vídeos do Youtube!!! Tá bom, eu descobri a pólvora, eu sei.)