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domingo, 31 de maio de 2015

A caixa mágica de gibis

 Para Adriana Malaquias e prima Cynthia
Escrevi este texto há doze anos, como denuncia a piadinha com o slogan do governo do JK. O tempo que passa pode até não voltar (e como ando triste com meus tempos perdidos), mas também sei hoje em dia que a vida tem lá os seus estica-e-puxas. Como numa brincadeira de elástico, este texto voltou com uma conversa muito elucidativa com a prima Cynthia sobre Barbies, Susies e Ganha-Nenês. E vejo que o tempo passa, mas a saudade do meu quarto cheio de brinquedos espalhados não! 
"Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!" 
(Casimiro de Abreu)
Quem me conhece sabe que minha saudade é crônica. Saudade que nem a da música do Gonzagão, Que nem jiló, "pro cabra se convencer que é feliz sem saber".  Vivo para juntar histórias. Tanto que, se eu fosse o Juscelino, meu lema seria "200 anos em 20", ao invés de 50 anos em 5. Não que minha vida seja alucinante, ela é até bem prosaica. É que qualquer coisinha é uma dramão pra mim. Devo ser roteirista frustrada e nem fiquei sabendo. 

A saudade que me doi mesmo são a dos meus brinquedos, mais do que primeiro namorado, primeiro beijo, essas coisas. Claro que existem alguns desenhos animados da minha época em exibição na TV, mas nada se compara a minhas bonecas perdidas. Poucos brinquedos me restaram, porque é costume da minha mãe doar tudo que vê pela frente sem uso. A maioria deles foi para os meus primos mais novos e minhas preciosidades como minha boneca Ganha-Nenê e meu Cachorro-Detetive já devem ter ido para o espaço agora, porque meus primos cresceram também.



Inútil dizer que a saudade que eu tenho não é de nada material, é do que eles representam e que os desenhos animados não conseguem sintetizar da minha infância.  Minha amiga Adriana disse que quando não está bem, vai ler sua coleção de gibis. Segundo ela, isso é um bálsamo, uma espécie de Fonte da Eterna Juventude. Tenho certeza que todo mundo já disse: "Ai quero voltar para minha infância!" num momento de extremo saco cheio com a vida. Pois é, só a Dri consegue com sua caixa mágica de gibis. "


Para ver que a vida é uma brincadeira de estica e puxa, olha só quanto está valendo uma Ganha Nenê agora: http://bit.ly/1M29u4s

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

O patriarcado segundo Agostinho Carrara

Cena1
Bebel: Qual o problema de ser olhada?
Agostinho (exaltado): Não gosto! Não gosto! Não gosto de vagabundo olhando a mulher da gente, que isso!
(...)
Bebel: Quer dizer que a gente nunca mais vai à praia? (Olha para seus novos seios siliconados)
Agostinho: Maria Isabel, não tenho culpa, a gente vive num mundo em que as pessoas estão degradadas moralmente... (Exaltando-se ainda mais) Vagabundo não respeita mais a mulher dos outros! ´Cê tá com a sua mulher, nego olha pra ela, olha dentro dela! Lá de onde eu vim isso é coisa inadmissível! Não tem mais condição de ir à praia não!
Bebel: Escuta aqui, neguinho: não sou cuscuz pra morrer abafada, hein? Pronto, falei! (Levanta, estufa ainda mais o peito, e sai rebolando)


Cena 2

(Bebel tomando sol no quintal de casa. Um bando de marmanjos olhando)

Bebel: Acontece, neguinho que o corpitcho é meu!
Agostinho: Não é não! É nosso! Nós casamos em comunhão de bens, metade é meu!
Bebel: Isso diz respeito aos bens materiais, não ao meu corpo!
Agostinho: Mas, Maria Isabel, acontece que eu considero que certas partes do seu corpo são bens materiais meus!
Bebel: Tá falando de que? Do meu silicone, é?
Agostinho: É, tô falando dos 120 ml de silicone, que eu tô pagando em 36 vezes, tenho direito de não querer que marmanjo usufrua de um investimento que fui eu que fiz!



Cena 3:

Agostinho: É território! O que é dele, tem que limitar! Tem que lutar pelo o que é dele, ficar alerta, ficar de guarda, senão, vagabundo toma posse, entendeu? Toma posse! Vagabundo chega junto!

Que Simone de Beauvoir que nada! O filósofo do horário nobre Agostinho Carrara (Pedro Cardoso) sintetizou a posse do corpo feminino enquanto território do macho como ninguém, explicando o conceito e demonstrando! E ainda há quem tome as discussões de gênero como coisa de feminista ultrapassada.




Lineu Silva (Marco Nanini), quem diria, também não fica atrás. Enquanto sua esposa estava cantando como hobby, tudo bem, agora quando ela começa a gostar da brincadeira e a virar profissional, hum, não vai dar, não! Começa a se deslumbrar com o mundo, com o próprio sucesso... Isso chama a atenção de outros homens.





Assistir a Globo para esperar a transmissão da Record do voleibol feminino também enriquece meus estudos – amadores – sobre a questão de gênero.  Aliás, não sei por que tanto me espanto. Mídia serve para isso mesmo: criação e reiteração da norma. Onde está a surpresa?

Não sei porque também me surpreendo com o final. Dentro do ônibus, ao perceber um olhar de cachorro-olhando-frango-de-padaria de um malandro em sua direção, Bebel olha para Agostinho e diz: “Você não vai fazer nada, neguinho?” Quem primeiro contribui com a reiteração da norma são, em geral, as próprias mulheres. 



O mais engraçado de tudo isso é que o tiro sai pela culatra. Agostinho esquece toda sua cabra-machice ao encarar o marmanjo que estava olhando a sua mulher, que era duas vezes maior que ele, um autêntico sibito de lagoa de tão magricela. Não dá para levar este mundo a sério mesmo! Ainda neste século, tudo que a mulher ainda não conseguiu é ser dona da sua própria voz.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Metaleira, eu?

Engraçado que algumas coisas passam e outras sobrevivem na vida sem pedir a sua licença. Pois é, até eu tinha me esquecido que gostava de Metallica. Banda que me remete a tardes vagabundas na casa da Carol e do Juninho, quando a gente passava horas e horas escutando o Black Album e outras pérolas noventistas, como o Dookie do Green Day, ou Melancholy and Infinite Sadness, do Smashing Pumpkins. Ou ainda sábados na casa da Priscila ouvindo os discos mais antigos do Metallica como o Master of Puppets ou And Justice for All. Mas nostalgia é uma gripe que não me dá mais. Não sinto saudade de mais nada, não lamento mais nada. Para que se apegar a tantas lembranças?


Não sei que milagre aconteceu para a Globo transmitir o show na íntegra, sem aqueles cortes horríveis que ela costuma fazer até em show do Brasa. Não sei que outro milagre ocorreu para eu assistir o show inteiro, sem dar uma cochilada sequer. Na verdade, eu sei. Foi um puta showzaço!


Aí me dei conta: Metallica é uma banda balzaquiana, só um ano mais velha do que eu. Nem no auge, nem decadente, na confortável posição de não ter mais que provar nada para ninguém. Fez umas bobagens na vida - o Load inteiro foi limado deste show sem fazer falta, e do Reload, só foi tocada a única música que presta, Fuel. Não abusaram de hits o tempo inteiro e fizeram um line-up não linear, o que eu gostei bastante. Prova de que o tempo que passa se mistura com o de agora, e ainda com o que está por vir. Não sei o que me espera, e que eu deixei para trás era excesso de bagagem. Viajante que se preza, só carrega o essencial.



No, je ne regrette rien! Só eu mesma para começar falando de Metallica e terminar com Piaf. E daí? 

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Filme de Mulherzinha Ataca Novamente

Está provado cientificamente: comédias românticas podem estragar a sua vida. Mas eu, particularmente não estou nem aí. Quando nasci, cinto de segurança não era obrigatório e merthiolate ardia e ainda assim, estou viva, vivinha. Da Silva, Teodoro Alves, o que quiserem. Acreditem!

Tentei me recuperar, mas é inútil: o dano cerebral causado pelas comédias românticas noventistas estreladas por Meg Ryan, Renè Zellwegger, Julia Roberts e afins é acumulado. Já era, meus miolos foram indiscutivelmente carcomidos. Só restou o coração, que sem um pingo de vergonha na cara, ainda pulsa: bridget-jones, bridget-jones. Happy-end, happy-end. 

Além do mais, comédia romântica pode até estragar uma vida, mas não um blog. O textículo mais acessado deste faroeste é a resenha sobre Falando Grego, da Nia Vardalos. Aqui, elas até ajudam!

Anos depois, adicionando uma licencinha poética para o festival de bobagens que lhe são devidas, vejo que comédias românticas tem lá suas pilulazinhas de sabedoria. Tolas, inocentes, mas ainda assim válidas, verdadeiras em sua tolice. 

Como Medianeiras, Buenos Aires na Era do Amor Virtual. Em se tratando da ideia de discutir cultura digital, é uma ótima propaganda para os produtos da Mac. De tão escancarada, nem parece merchandising. Parece peça publicitária mesmo, na cara-larga. 


Gosto de filmes em que cidades são personagens. Uma Buenos Aires contemporânea, pós-crise, de longe é a personagem mais fascinante. A protagonista é arquiteta, e é dela que vem a metáfora das medianeiras, aquele lado dos edifícios que não serve para nada, a não ser para abrigar propaganda e limo. Como nas pessoas, expõe o lado mais frágil, feio e vulnerável de construções que precisam se fazer sólidas e fortes. Abra uma janela na sua medianeira, mesmo que ilegalmente. Deixe entrar luz no seu apartamento, vai te fazer bem.

Também gosto de gente neurótica nos filmes. Mitigam minha vergonha. Além do que são muito mais verossímeis: Mariana taca coisas na parede, chora por bobagem e carência, fuma mais que preto-velho no terreiro. Martin é fóbico, hipocondríaco, insone, atrapalhado. Leve seus cachorros para passear, mesmo que eles sintam medo. Eles precisam se acostumar com outros cachorros. 


Se toda essa firula ao final vendesse só iPod, eu até perdoaria. Foda é vender a ilusão de um amor único perdido na cidade, vestido com uma blusa listrada de vermelho e branco, óculos e gorro à sua espera, prontinho para ser encontrado. Se você começar a procurar onde está o Wallie com 14 anos, quem sabe você o encontre aos 30! Mas use uma lupa, porque isso é trabalho para mais de metro. 

Procurar Wallie é uma tarefa muito difícil para míopes não operados como eu, então fica para outro dia. Não comprei a ilusão, mas me diverti com a conversa mole do vendedor. Atitude típica de 1984, um duplipensar para esquentar as turbinas. Porque só agora posso começar a abrir um vitrô na minha medianeira, sair com meus cães assustados por aí. Spring is coming! 

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Sobre o tempo II

Enquanto a maioria ainda insiste em esticar seus cabelos para baixo com ferro quente, ela se ocupou em levantar o seu num legítimo beehive casa-de-maribondo. Enquanto uma meia-dúzia de louras-aguadas ainda insistem em poses sexy com dedinhos fake na boca;  sua cabeleira, negra e revolta, fez questão de ir na contramão. Enquanto os nossos, com iPads na mão e notícias em tempo real,  ainda desejam ser antenados com seu tempo, ela voltou aos 1950´s e se travestiu de diva da Montown. Enquanto um monte de gente ainda faz inúmeras tentativas - frouxas, ridículas e sem sucesso - de serem cada vez mais e mais  fitter, happier, more productive* (à base de academias, livros de auto-ajuda, dietas frustradas e Prozac)  tentaram faze-la ir para a reabilitação. A resposta a gente já sabe: No, no, no!





Este desejo de ser contemporâneo é mais velho que o mundo.  É o mesmo que nos faz datados, amarelados pelo tempo. Aquele que causa espanto, estranheza ao fazer com que a gente se reencontre com uma versão velha de si mesmo. (Atire o primeiro álbum de fotografias quem se viu numa foto antiga e agradeceu aos céus por não ser mais aquela imagem, que mesmo mais velho, com mais dores para contar, deu graças a Deus porque enfim o tempo passou).

No passado, quisemos ser modernos.  E agora, queremos ser o que, contemporâneos, pós-contemporâneos? E no futuro, quereremos o que? Ser uber-ultra-right-pós o que?

A passagem do tempo é outra discussão datada, literalmente. O tempo só é linear em aulas de História e Gramática, porque de resto, nunca foi.  A piada mais velha do mundo pode ser a Descoberta da América pelo Twitter para quem ainda não ouviu.

Às vezes eu me divirto sendo retrô-de-mim-mesma, como a minha volta ao chanel-curumim, ou aos óculos de Velma. Em outras feitas, o que eu mais quero é não me reconhecer em nada, atirar-se no abismo do futuro é capaz de nos proporcionar um tesão irrepreensível.  Em outras, ainda, o foco no presente é tão grande que nem sequer me lembro de toda essa bobagem. Aos 28, percebi: eu sou aquilo que eu sempre fui, o que pareço ser agora e o que eu ainda vou ser. Tudo ao mesmo tempo agora. Lembrando que o verbo ser é uma falácia. Não somos absolutamente nada, somente estamos. E tá bom demais.

Assim, voltamos às origens. Ser original é isso, afinal. A ela isto nunca faltou, uma verdadeira antítese barroca: profundamente original no seu desejo de ser retrô, contrário a todo esforço da nossa geração em se fazer original e não passar de cópia (mal feita, o que é pior). Pensa rápido: quantos ensaios de moda inspirada no estilo da Amy você já viu? Pois é, inúmeros. Todos se pretendendo Invenção da Pólvora. Todos cópia.

Sinto falta de Amy. Já sentia antes mesmo dela morrer. Ela, que quando surgiu no cenário, foi pura subversão, morreu como um arremedo tragicômico entre o que ela foi e o que poderia ter sido. Fiquei puta com ela por isso. Mas acho que ela nem estava muito aí para essas coisas, ela era de levar água para os papparazi que se aboletavam na porta de sua casa! Loucos não estão neste mundo para servir aos interesses das pessoas na sala de jantar, a não ser que isto lhes interesse. E ela, de tão louca, mais de amor por aquele babaca, do que pelas drogas em si, não percebeu a hora de tocar o foda-se outra vez e voltar a ela mesma. Se ela chegou a  perceber, foi tarde. E esta foi a triste constatação de quem assistiu aos seus shows na fase da derrocada, já havia cantado essa bola.   Sábias palavras do Rafa: A Elis morreu de overdose, mas com a voz inteira! A Amy poderia pelo menos usado as drogas certas!  Ressuscita, Amy!

Este textículo passa longe de homenagens, que é para mim o que há de mais ridículo neste mundo, sendo elas póstumas ou não. Ele é mais para dizer que lá se foi minha última heroína trágica. No último dia 23, ela se juntou ao mesmo panteão de loucas, subversivas e desajustadas como Pagu, Maysa, Frida Kahlo, Billie, Piaf. Não que eu queira me ajustar, mas não posso mais sonhar com um mundo que não existe mais, e é tão engraçado que eu tenha dito isso para o professorzinho dias antes de Amy bater a caçoleta oficialmente. Tenho sérios planos de ficar velha, e quanto mais velha eu ficar, tanto mais louca de pedra também! O tempo nos atualiza. Então, já dá pra perceber que o desejo do contemporâneo também está em mim, o que eu considero bem válido, até. É só não se levar muito a sério.

She´s reborn like Sarah Vaughan!

quarta-feira, 23 de março de 2011

Hadouken, Zangief!

Ou ainda: Chupa, dentuço!

Rita Lee e Zélia Duncan já disseram: só quem já morreu na fogueira sabe o que é ser carvão*. Hoje fala-se tanto em bullying que até parece novidade. A novidade é a superexposição da vida da molecada através das redes sociais, vídeos no celular e coisas do gênero. O que acabou gerando o cyberbullying,  uma versão ainda mais assustadora deste fenômeno, porque aterroriza e tortura até quando se está fora da escola.


Provavelmente, a agressão foi gravada para depois exaltar o ego do agressor na rede, mas bem que dizem  por aí que só os idiotas são cem por cento autoconfiantes. Este estava tão seguro de si a tal ponto que esqueceu: o trouxa de que ele pretendia tripudiar tinha pelo menos o triplo do seu tamanho, e como não contava que ia levar um hadouken de foder, o tiro saiu pela culatra.

Este assunto caiu nas minhas mãos ontem, através do meu amigo e novo provador de textículos, Porpeta, que postou em seu perfil o link do texto de uma amiga sobre o caso, muito bem escrito e corajoso, porque fugiu da hipocrisia e falou com todas as letras: quem mexe com quem está quieto merece sim levar uma na cara para aprender. Não é revanchismo, é o direito que todos têm de se defender quando sua dignidade é ameaçada.

Sei bem o que é isso, fui vítima de bullying na escola. E digo que é horrível, e olha que não sou de ficar quieta. O motivo: até o ensino fundamental, eu fatalmente era a primeira aluna da sala e visivelmente a protegidinha da mamãe. Estava estampado na minha cara. Alvo fácil para bullies, que eram não só moleques, como pode-se cair na tentação de pensar. Meninas também perseguem com tortura psicológica, agressão física, colocando apelidos, roubando suas coisas. Maldade não tem idade nem sexo definido: não adianta dizer que isso é coisa de moleque ou que é briga de criança que logo passa. 

A minha sorte é que eu nunca fui de sofrer calada, então eu sempre pus a boca no trombone, o que criou uma par de situações hilárias na minha época de escola. Porque sim, a Betona ia com toda fúria de leoa defender sua cria na escola, como uma Dona Florinda vai defender seu Quico. A única diferença é que ela não batia em ninguém, ia reclamar direto na Direção da escola, num voo praticamente sem escala. 

Eu, que não sou nenhum Ghandi, também cerrava meus punhos de vez em quando para acertar meus algozes. E como não tenho juízo até hoje, eu levava uma com qualquer um que mexesse comigo, até aqueles ditos mais perigosos. Afinal, eu também sou mano da Brasilândia, pô!

Uma hora isso acabou passando, hoje acho foi que por conta do meu temperamento explosivo. Como não aguento sofrer calada, faço logo um estardalhaço. Mas na maioria das vezes a vítima de bullying é retraída e não consegue reagir. E quando reage, sai de perto, porque vem muita merda pela frente. 

Casey Heines só revidou o ataque e deu a sorte de ser gravado. Só que esse tipo de reviravolta pode ser muito, mas muito pior. Alguém se lembra do Massacre em Columbine? Não é totalmente aceito o fato, mas considera-se que eles eram excluídos da ala dos descolados, atletas e populares da escola. O que eles fizeram foi coisa de psicopata, é claro, mas nunca se conhece totalmente os demônios que há dentro de cada ser humano. Aqui no Brasil, aconteceu coisa parecida, alguns anos atrás, acho que numa cidade do interior de São Paulo. Antes de se matar, o garoto fez questão de levar a arma pra escola e atirar para tudo quanto é lado.

De tudo isso, o que mais me assusta é a completa ignorância das famílias sobre o fato. Há pais e mães que simplesmente não conhecem o filho que tem ou que não conseguem perceber quando o filho está sofrendo agressões na escola, principalmente a psicológica, mais sutil e perigosa. Mesmo meus pais, que sempre foram super presentes, não entendiam totalmente o quão horrível é ser torturado o tempo todo, principalmente na adolescência, onde a autoestima é algo tão frágil. No caso do Zangief Kid, nem o pai da vítima nem do agressor sabiam do que acontecia com seus filhos.

E a escola? Agora sou professora, este assunto está na pauta do dia hoje, não é coisa do passado para mim. O que tenho a dizer sobre o outro lado dessa história é que é muito difícil identificar bullying em sala de aula, porque: 

1 - O comportamento bully é covarde. Vai aprontar quando não tiver chances de ser pego;

2 - Aquilo que alguns pais e mães não dão conta quando estão com duas em três crianças em casa, deve ser multiplicado por pelo menos 35 no caso do professor em sala de aula. Se a gente parar para resolver  todas as situações de conflito em sala de aula, abandonando todo o resto, dependendo de quão danada é a turma, em meio segundo vai ter gente até no teto. E nós somos responsáveis por TODOS que estão dentro da sala quando estamos em aula. Se alguém se machuca, a gente é que responde pelo fato.

Para a escola, não adianta combater situações isoladas com punições igualmente isoladas. O bullying é um fenômeno que acontece de maneira sistemática e deve ser combatido da mesma maneira pela escola e pela academia. É um absurdo, não se estuda este assunto nas licenciaturas e só agora estudos acadêmicos e livros sobre o assunto estão ganhando alguma notoriedade. Então a escola dos dois garotos que puniu a briga com uma suspensão para os alunos e depois lavou as mãos, está errada. Pode-se até punir para deixar claro que a violência não será tolerada, mas onde toda esta tolerância zero estava quando Casey Heines era constantemente agredido? Como eu disse, é difícil descobrir, mas a partir do momento que se descobre, a escola como instituição deve se posicionar contra isso. O bullying é um câncer da sociedade, que se reflete na escola. Logo, a gente tem que fazer alguma coisa, sim. E rápido.

Defende-se que o agressor não pode ser jogado na fogueira  como herege pura e simplesmente e que também precisa de atenção, talvez até de tratamento. É  mesmo doentio ter que rebaixar o outro para se sentir melhor, isto deve ser cuidado, mas jamais tratando os agressores como coitadinhos. E o bestiário pedagogês adora o jogo do coitadinho. A mídia norte-americana também entrevistou Richard Gale, o menino que tentou agredir Heines e ele diz: "minha mãe diz para eu ter sucesso na vida", chora uma lagriminha de crocodilo, mas depois deixa escapar que não lamenta ter agredido Casey e ainda mente muito mal dizendo que ele tinha sido agredido antes.



O caso Zangief Kid é emblemático, trouxe à tona um assunto importante que deve ser tratado por toda a sociedade. Mas é lógico que o PIG estadunidense reduziu este acontecido a um mero heroes and vilains muito do chinfrim. Casey Heines virou heroi sem ter feito nada heroico, ele só revidou a agressão e isto é instintivo. Colocá-lo nesta posição de maneira tão simplista só incita mais o ódio e apologiza a violência, o que não resolve o assunto. E será que o garoto que antes era tratado como o mosquito-do-cocô-do-cavalo-do-bandido está preparado para tanta exposição na mídia e do dia para noite passar a ter duzentos mil amigos no Facebook? Ele só queria que o deixassem em paz. (Sem contar que agora é o Gale que está sendo perseguido. Reviravolta a là Tom&Jerry esta, hein?)

Mais que um heroi, Casey tornou-se um símbolo de uma situação que só agora está sendo vista pela sociedade em geral com um pouco mais de consciência. Deve-se aproveitar a situação para conversar sobre o bullying não somente dentro das escolas, mas em casa também. Então, pais e mães: por favor, conheçam de fato seus filhos e o que acontece com eles dentro e fora da escola, principalmente  quando estão online.  Isto não é controle, é cuidado. Vítimas de bullying: não sofram calados e não esperem para tomar uma atitude quando se está no limite da razão, como Casey Heines fez. Educadores: não podemos mais ignorar o assunto. Bullying sempre existiu e sempre foi grave, mas na era digital 2.0 conseguiu ficar pior. E para acabar, Bullies:  tomem cuidado com quem vocês batem. Vocês podem apanhar feio. 

Epílogo
Com todo o politicamente correto que nos massacra neste mundo, atire a primeira pedra quem não viu o moleque magricela e dentuço beijando o chão e não pensou: "Se fo-deu!"
(Ok, os mais educados podem ter pensado somente um Bem feito. Mas equivale em sentido.)

domingo, 23 de janeiro de 2011

Summer Soul Festival

Nem sei se faz sentido falar do Summer Soul Festival uma semana depois, quando já saiu toda a sorte de críticas e resenhas sobre ele, com todos os lugares-comuns já explorados à exaustão.

O primeiro deles: o Mayer Hawthorne fez um show bacana, mas não empolgou. E deveria? Todo artista emergente com um mínimo de elegância não vai dar uma de Ivete Sangalo e querer que todo mundo já saia pulando no show de abertura. E vai do interesse do público também, que estava de fato marcando lugar para a hora do show da Amy. Para mim, ele foi ótimo: conversou com o público, tirou uma foto nossa e pediu pose, fez piada com o fato de ser desconhecido (contando que deu um autógrafo para o cara do aeroporto, confundido com o Tobey Maguire), e a música tem um balanço vintage que é uma delícia. As baladas têm uma cara de The Manhattans que tocariam no Love Line da Radio Cidade fácil, como "I wish I would rain". I love you, Spider Man!

O segundo: Janelle Monáe é uma diva em franca ascensão. Dããã! Esses críticos fazem observações muito perspicazes, hein? Até uma garota pré-balzaquiana com um blog laranja de título duvidoso já tinha cantado essa bola. Era a aposta da noite, e cumpriu o prometido. Sem chamar a atenção, sem tentar roubar a cena, com a elegância que só uma diva totalmente segura de si é capaz de ter. Ela faz um show meio como o Ney Matogrosso, entra no personagem e fica nele, totalmente concentrada. Não fica tentando animar o público como se fosse o Silvio Santos. Ponto para ela, nem precisava. Ela escolheu o filé do The Archandroid e mandou ver. O final com Come Alive foi apoteótico, com seu topete de retroescavadeira totalmente desmanchado. Apesar de tantas críticas e chavões, o comentário do Rafa sobre a Janelle foi definitivo: "Janellinha fez a lição de casa direitinho, hein?" A única coisa ruim foi que o show foi curtíssimo: 45 minutos não dá nem pra fazer cócegas, uma artista de mão cheia como essa baixinha merecia mais. Será que tinha gosto de "Volto logo" ? Pode ser.

O terceiro e principal: Amy fez um show morno. A gente é fã, mas não é idiota. Ninguém estava esperando que ela fizesse uma performance espetacular. Aliás, eu e a torcida do Curintia estávamos esperando muito mais um festival de bafões que um show de verdade, o que revela um certo sadismo por parte nossa. Mas a Amy tocou o foda-se e não deu o que o público que estava pedindo. Ela gosta de ser do contra e por isso  ela virou ícone, para o bem e para o mal. Agora, se ela resolveu surpreender poderia pelo menos fazer um  show que passasse do "Olha, eu ainda consigo cantar!" - não desafina, mas se perde nos floreios - e colocar um pouco mais de proximidade com sua própria obra. Era engraçado sua pose de diva que se economiza, como se não soubesse da sua decadência. Um tanto triste e poético, como seu olhar alheio e seus cabelos levemente movendo-se ao vento. A mídia e o público costumam ser cruéis com grandes artistas que tropeçam, logo, sua redenção provavelmente virá quando passar desta para uma melhor, tal e qual aconteceu com Elvis e Michael Jackson. Mas no caso da Amy, ela poderia pelo menos enxergar o apoio de uma plateia que topou pagar para vê-la, mesmo sabendo que ela não entregaria o seu melhor. Quem torcia por sua redenção, saiu do Anhembi convencido que ela precisa de muito mais, quem sabe uma ressurreição. Ressuscita, Amy!

Outras coisas passaram despercebidas da crítica, pelo menos não encontrei ninguém que comentasse: Miranda Kassin e André Frateschi, o casal Amy e Bowie, não conseguiam esconder que estavam felizes feito p no lixo abrindo o festival. A banda é muito boa, e fazem outros covers de clássicos do soul, já havia assistindo o show do Studio SP. Mas acabaram virando trilha sonora para a fila do caixa e da cerveja (Caaaaras, por sinal). E o show do Instituto foi bem bacana, achei melhor que o que eu vi no Contato de 2009, em São Carlos.

Pronto, já brinquei de crítica cultural hoje. Agora, o melhor de tudo isso: chegar em São Paulo e reencontrar os amigos. Como desculpa para isso, o Summer Soul foi excelente.

É para todos essa cambalhota, pessoal!

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Summer Soul Festival 2011

Finalmente, Amy Winehouse fará shows no Brasil, em uma generosa turnê passando por quatro cidades - é, acho que é isso. Nem tão generosa, se formos pensar que a nossa Terra de Tupiniquins virou uma espécie de galinha dos ovos de ouro do mercado pop - aqui, o público é simpático e topa pagar caro até por Milli&Vanilli *  - é atração internacional, tamo dentro!
Bem que eu reconheci este topete...
Como sou fã, é claro que o show dessa adorável pinguça terá um sabor especial e que não vou perdê-lo por nada neste mundo. É claro também que ela virou uma sombra de si mesma, e ainda está se refazendo, mas eu tenho a sensação que estes shows da Amy por aqui serão como o show do Nirvana no Hollywood Rock - uma droga, mas mesmo assim, inesquecível.

Surpresas já estão acontecendo, em todo caso. Não conhecia as outras atrações que tocarão no Summer Festival, e caiu em meus olhos um clip da Janelle Monáe. Em poucas palavras, esta baixinha é fantástica, mermão. Algum guru escreveu em um comentário no Youtube, que Janelle é tudo que Lady Gaga não é e gostaria de ser. Apesar de gostar de LG, tenho que admitir que ela tem muito mais talento para publicidade que para a música, apesar de ser criativa.

...de algum lugar! Ghostbusters!
Intisgada com estes comentários, fui ouvir os álbuns da Janelle. Entendi o porquê. Som contemporâneo, mas que bebeu da fonte do melhor da música pop afro-americana. Produção e arranjos sofiscados, principalmente no mais recente, The Archandroid, com orquestras e samplers e temática teatral e futurista. Falar do timbre de voz, afinação e swing é chover no molhado. Que Beyoncé o quê.

And so it is, guys and girls. Aguardo ansiosamente a visita de Amy ao Brasil, torcendo que ela consiga sobreviver à caipirinha (de pinga, que é a legítima) e conferir de perto o show da irmã gêmea de topete do Egon. 

Para fechar, Janelle cantando a música preferida do Michael Jackson - Smile, tema do filme Tempos Modernos, do Chaplin. Dessa, nem eu sabia:



Piadinha tosca: Você se lembra do Milli&Vanilli?  Caso não se lembre, não perdeu nada.   


Essa cambalhota é para todos!

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Chanel 4Ever

Copiei o corte da Mayana ou...
Gente, meu cabelo está causando.  Posei para a revista Cabelos&Cosméticos,  em (mais um) passo a passo do corte de cabelo da Melina/Mayana Moura, um dos mais pedidos nos salões de cabelereiros por aí afora. O resultado ficou muito bom: o cabelereiro (ou seria hair stylist?) é fera e meu cabelo é naturalmente liso, escuro e pesado, o que cai bem  para este corte. Lógico que o meu tutorial é o mais legal!


...ela que copiou o meu?
De fato, o chanel me persegue desde a mais tenra idade, o que faz deste meu novo visual um legítimo auto-retrô. Logo eu,  que tinha veementemente abandonado a franja reta de curumim na passagem da infância para a adolescência.

Como nunca recebi tantos apelidos diferentes e engraçados por conta do meu cabelo, resolvi fazer uma colagem de referências - das glamourosas às caricatas - para homenagear este corte de cabelo eternamente moderno, prático e chique. Viva Coco Chanel!


Louise Brooks - atriz de cinema mudo
A inspiração para o cabelo da Mayana

 Playmobil
Muita chapinha e laquê de gesso

 Amelie Poulain  
Gosto dessa versão mais bagunçadinha


Velma Kelly
All that jazz! Adoro essa vedete assassina

 

Edna Moda
Gêmea perdida

Uma Thurman
Vale um twist com o Travolta!
 
Velma - ScoobyDoo
Gêmea Perdida (2)

E para terminar...


Zacarias
E essa franjinha repartida, hein, hein? Tudo!


...E é para todos esta cambalhota! Cabelos&Cosméticos esta semana nas bancas!

domingo, 24 de outubro de 2010

Sobre bruxas, vampiros, bolinhas de papel e sapatadas

O meu primo escreveu no seu MSN: "Vamos aproveitar o Halloween e acabar com uma bruxa!". Eu não sou de discutir por divergências políticas, ainda mais com a nobre linhagem dos Teodoro Alves, mas o trocadilho é muito bom, então vou ter que retrucar - eu diria para gente aproveitar o Halloween e acabar com um vampiro.

Agora o meu ex-patrão é personagem pop. O episódio tosco da bolinha de papel virou um joguinho que me lembrou um do George W. Bush, em que você escolhia um pedaço de pau com um prego na ponta, uma toalha molhada ou um peixe ( um peixe!!) para surrar a cara dele. Bem catártico. Nessa época, nem pensaram no sapato. Aliás, quem acertou a bolinha na careca do Serra era quem devia ter jogado o sapato no Bush. Teria acertado bem no meio das fuças do infeliz. Mandou o candidato até para o hospital! Nem o capitão Mathias tem tanta mira.

Mas prefiro acertar os pingos nos is. Recebi um folheto virtual com vários paralelos entre os governos Lula e FHC baseado em fontes confiáveis, provando por A + B para quem ainda duvida que o modelo neo-liberal do PSDB de governar é desastroso para o Brasil, como é para São Paulo há pelo menos 16 anos.


Em política não existe nem heroi, nem milagre. O Brasil não está uma maravilha só por causa desses indicadores, mas está sim melhor do que era. Acho que é nisso que a gente deve focar. Então, aconselho a conferirem estes dados (foi o que eu fiz, apesar de não duvidar) e se você também prefere morar no Iraque pós-Bush do que ver o Serra eleito, faiz-favô: espalha este folheto!

sábado, 23 de outubro de 2010

Tropa de Elite 2


O coronel em seu lado humano e desarmado

Fui assistir Tropa de Elite 2 pensando: eu vou porque o Capitão Nascimento (Wagner Moura) é o cara - ops, agora é coronel. Logo no início do filme, percebe-se que nem tanto, mestre: o conflito da trama começa com uma cagada típica da polícia brasileira, não só da carioca: o dedinho que coça no gatilho na hora errada, vide casos como do sequestro da Eloá e do ônibus 174. A diferença é que nos casos reais morreram as vítimas, na ficção o Mathias (André Ramiro) acerta o bandido. Bom de pontaria, mas mesmo assim "puta dum mané, parceiro!" Simplesmente porque seu superior - o coronel - tinha mandado não atirar, ficar só de espreita. O que o zé-ruela fez? O total oposto, invadiu e atirou pra matar. Mesmo assim, o coronel dá cobertura para o amigo e toma a responsabilidade para ele, talvez porque no fundo era isso mesmo que ele queria fazer: mandar matar!

Esse tiro bem dado num traficante fudidaço em Bangu I muda a vida do Nascimento. "Os intelectuaizinhos de esquerda" e a imprensa - leia-se Diogo Fraga (Irandhir Santos), atual marido da ex-mulher do coronel - caem matando em cima do BOPE e por pouco Mathias e Nascimento não se fodem de verde e amarelo sendo expulsos da corporação. Mas a opinião pública pressiona e a Secretaria de Segurança Pública promove o coronel para o Setor de Inteligência da Secretaria de Segurança Púlica e o Mathias se fode sozinho: é expulso do BOPE, voltando para um batalhão comum e o coronel não consegue livrar a cara do parceiro. Esse é o ponto de partida da trama.



José Padilha diz que não gosta de fazer "filme intelectual" e no caso do Tropa de Elite 2 ele acerta no ponto. É um puta filmaço - a pegada pop é tão forte que fiquei imaginando que o sangue que escorria da tela do cinema tinha gosto de groselha Milani. Impagável a cena dos policiais no "crematório" - a terra do presunto perdido - com um crânio incinerado na mão, citando sarcasticamente o famoso monólogo de Hamlet e o outro policial responde: "Ê, parceiro, que mal gosto ficar citando a Bíblia aqui!" "Ê, mas como você é burro, isso é coisa da novela!"




Tropa de Elite 2 é de fato uma pérola pop, da qual Tarantino se orgulharia. Duas horas e quarenta minutos que não se desgruda os olhos da tela. Esteticamente falando é perfeito, mas politicamente falando é um desastre. Como levantar a discussão de um tema tão sério - e complexo - sendo superficial? Sim, porque o raciocínio do coronel é absolutamente simplista, como se tudo fosse um western de mocinhos e bandidos. Na verdade o fim do filme marca a mudança de pensamento do nosso heroi controverso, ele percebe um pouco tarde que o buraco é mais embaixo. A impressão que se tem é que esta película não poupa ninguém - políticos, a polícia, a sociedade, a direita, a esquerda, a mídia - mas não se livra totalmente dos clichês, como por exemplo o dos direitos humanos e a esquerda - como se direitos humanos fosse coisa só para defender bandidos sanguinários e como se a esquerda tivesse sido sempre "paz e amor". No escritório do Fraga, o intelectual de esquerda e pacifista do filme, mostra ao fundo um cartaz do Marighela e em outro momento um cartaz com o logo do MST, movimento que defende a luta armada. Como é que vai ser guerrilheiro sem pegar em armas e matar, hein, parceiro? Sem contar que o filme ainda mostra a tortura policial como método de investigação. A única vantagem é que para a grande massa a discussão do filme mostra porque NUNCA vai haver legalização das drogas aqui, simplesmente porque o tráfico beneficia o "sistema", pagando iates e caviar para muita gente caishca grossa, como diria o coronel.


O filme de fato é muito bom, mas me fez mudar de ideia. Não acho mais que o coronel Nascimento seja o cara. O Wagner Moura sim é que o é. Apesar do personagem em si ser bastante fascinante, cheio de nuances e controversões, ele não teria metade do carisma que tem se não fosse a competência do ator que o interpreta.


Tropa de Elite 2 empolga, mas não dá nenhuma vontade de fazer justiça com as próprias mãos. Dá vontade de fazer cinema.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Mary and Max

Ou A Vida é um soco no estômago



A fofa Mary Daisy Dinkle


Esta pequena maravilha caiu nas minhas mãos no último domingo. O soco na boca do estômago foi tão forte que nem vou me alongar: digo apenas que este desenho desanimado foi uma das coisas mais lindas, poéticas e comoventes que vi em toda minha vida. Esqueça os clichês e boa sorte.



domingo, 15 de agosto de 2010

Urbana Legio Omnia Vincit

Dedicado à minha irmã Renata

1980 e alguma coisa, com 5 ou 6 anos, uma música tocava na rádio e frases soltas ficavam ecoando, dançando na minha mente. Falava de pais, filhos, de amar sem amanhã. Não consigo precisar quanto tempo isso me consumiu, mas eu já estava impressionada com a letra e nem sabia disso.

Anos depois, a professora de português da 8ª série leva logo esta música para a gente analisar! Professora Miyoko, gente boníssima, me emprestou o CD, a essa altura eu já era fã da banda. No ônibus, lendo o encarte, um garoto mais ou menos da mesma idade me aborda: "Ei, você é fã de Legião?"

"Fã? Não. Doente. D-o-e-n-t-e!"

Ficamos amigos: ele tinha banda, eu escrevia. Dois roqueirinhos deslocados em salas lotadas de gente besta e insensível, cada um na sua escola, eu estudando no Derville, ele no Cedom. A gente passou a pegar o mesmo ônibus, depois, perdemos contato e nos reencontramos um ano depois, eu acho. Rolou uma paixonite aguda adolescente, lógico. Meio torta, enviesada. Como conseguir gostar de dois ao mesmo tempo? "Flávia, tô com medo. Longe de você, tenho medo de mim mesmo." Respondi: "Sete Cidades!" Foi o único beijo. "Se eu ao menos conseguisse me salvar, Lu... Não tenho como ser sua heroína..." Depois ele sumiu, como se tivesse sido somente uma viagem minha.

Meu Deus, são tantas lembranças!  Essa banda passou feito um rolo compressor pela minha vida, e sei que não sou a única. O dia em que o Renato morreu eu tenho inteiro na minha mente. Dois dias antes do meu aniversário de 14 anos, de manhã, eu tinha ido ao shopping escolher meu presente de aniversário, um tênis - em tempos de dureza extrema, usei até o bicho se desintegrar. Chegamos em casa, ouvi a notícia no rádio. "O quê??????" (Lembrem-se, ninguém sabia que ele estava doente.) Fui para escola de cara amarrada, o Gil, meu amigo, com a mesma cara. "Com tanta porcaria, morrer logo ele! Que merda!" Peguei o ônibus, mais que rápido para dar tempo de ver o Jornal Nacional. Só estava a Cris em casa, ela nem tinha se casado. No dia do meu aniversário, todo mundo aqui, até o padre legiãomaníaco que tinha acabado de chegar na paróquia. Todo mundo meio passado, cantamos Perfeição. Estranho, os bons morrem antes.

Durante a minha fase de perda de identidade, parei de ouvir Legião, sem deixar de gostar, claro. Voltei a ouvir em 2007, aninho desgraçado, cheio de perdas. E fui recuperar logo essa parte da minha vida! Comprei o primeiro álbum da Legião, o meu preferido, 10 conto nas Americanas. Sorvi no volume máximo, como sempre Dado, Bonfá e Renato recomendaram. O especial de TV Por Toda a Minha Vida do Renato também foi um marco na minha história, porque tomei consciência dos sonhos parados no meio do caminho, de que precisava voltar à minha essência, a ser aquilo que eu sempre gostei de ser. Para que ser certinha, se gosto da perturbação? Ver a Aninha, Chiquinho, Tio Nico e Seu Fernando partindo cedo demais aumentou meu desepero. Não temos tempo a perder. Se parar pra pensar, na verdade, não há. Ruuuuuuuuuuuuuuun, Forrest, ruuuuuuuuuuuuun! Não cheguei, mas tô correndo.



Semana passada, Gazela chamou a gente para assistir ao monólogo Renato Russo, em cartaz desde 2006. Como gostei da atuação do Bruce Gomslevsky no especial de TV - ele não interpreta, praticamente recebe a entidade, além do que ele naturalmente se parece muito com o Renato -  fui achando que era tiro certeiro, como bala que já cheira a sangue. De fato, foi, mas ainda havia surpresas. As soluções cênicas para resumir em duas horas uma vida de 36 anos controversa, cheia de poesia, conflitos e descobertas foram brilhantes e a produção é irretocável.

Não é só nostalgia. Legião Urbana e Renato Russo não fazem parte do meu passado. Fazem parte do meu DNA, até o fundo do osso. Ver a peça só fez aumentar essa certeza.

I´ve got you under my skin, Renato. Always, always, always. Forever.

Urbana Legio Omnia Vincit!


Ps: Renata, essa é pra você, minha irmã: UrbanaLegio...GiovannaBaby????? Kkkkkkkkkkk...

sábado, 24 de julho de 2010

O Pequeno Nicolau

Nunca tinha ido assistir a um filme só pelo cartaz. No cinema de hoje, em que se pode assistir trailers no Youtube, e talvez nem precise ir até o cinema para ver, com a possibilidade de fazer um download e ver em casa, ou nem fazer o download e assistir em streaming, achava que cartaz só funcionava para moderninhos colocarem na parede ou fazerem camisetas de filmes icônicos como Pulp Fiction, Matrix, ou Laranja Mecânica. Lembro de uma vez que saí do cinema e havia o cartaz de "Uma noite no museu", com uma estátua de um suposto homem das cavernas. Se você passasse do lado, ele pulava na sua frente. O negócio era tão engraçado que a gente sentou no saguão do cinema só para assistir o susto dos passantes.

O fato é que um bom cartaz ainda funciona. Na fila de outro filme, vi este e achei engraçado estes meninos com nomes de velho, terninho, calça curta e cara de Mad - lembra da revista? Pois é, fiquei curiosa e fui conferir.

Hoje em dia, há animações tão boas no mercado de filmes para crianças, e agora em 3D, que é raro encontrar bons filmes "de verdade" com temática infantil. "O Pequeno Nicolau" é a adaptação de uma série de livros francesa do escritor René Goscinny com ilustrações de Jean-Jaques Sempé que eu também não conhecia.

Nicolas é um menino comum, que adora sua vida de filho único em uma família pequeno-burguesa parisiense e estuda em uma escola só para garotos. A possível gravidez de sua mãe é a ameaça para sua vida perfeita, ele sente medo de ser abandonado na floresta e faz de tudo para se desfazer desse bebê que nem existe de fato. A partir daí, é uma trapalhada atrás da outra, dele e de seus amigos.



Ri litros com as cenas de escola. O filme se passa nos anos 1950, tanta coisa mudou na família e na infância desses tempos para cá, mas é incrível como outras não mudam. A educação continua sendo um misto de martírio com sadismo. Pobre daquela professora.

Apesar dos moleques serem umas pestes, o filme é realmente muito bonitinho, singelo, sem duvidar da inteligência e perspicácia da garotada. Para adultos, nos lembra que a criança tem seu próprio universo, mas que não está dissociado do mundo em que ela vive. Os medos infantis - como o do abandono, por exemplo - podem ou não ter fundamento, mas dentro do seu universo são verdadeiríssimos. A gente já sentiu esses medos, alguns destes nos acompanham a vida toda, mesmo que a gente não admita. Se isso fosse mentira, Freud não teria causado metade do frisson que causou.

Gostei tanto que estou pensando levar meu sobrinho mais velho para ver, que há um ano deixou de ser filho único. Só tenho medo que ele se inspire a contratar um gângster para tentar se livrar do irmãozinho. Vai saber!

sábado, 17 de julho de 2010

Besta é tu

Na estreia oficial do In-pessoa, o já antológico "Live at Forest´s House - Tormenting the Neighborhood", aconteceu um negócio curioso, sem deixar de ser corriqueiro. Folheando a Rolling Stone deste mês, cai nas mãos do Renato a reportagem sobre "o melhor disco da música popular brasileira", o Acabou Chorare (Novos Baianos, 1972). E ele desce a lenha, não exatamente no disco, mas nessa mania de pegarem de tempos em tempos alguma banda brasileira para Cristo, não para crucificar, mas para fazer de O Novo Messias da MPB.

Concordo com o Renato - é um verdadeiro porre esses críticos disfarçados de Indiana Jones o tempo todo caçando o tesouro da música brasileira, quando na verdade, ninguém devia levar muito a sério estas listas. Podem ter algum fundo de razão, mas eleger um único disco como representante da brasilidade musical equivale a procurar agulha no palheiro. Lembro de coisas tão distintas quanto Chega de Saudade (João Gilberto), Elis e Tom e Da Lama ao Caos (CS& Nação Zumbi) serem alçados a este posto.

Aliás, faz algum tempo que desisti do rótulo MPB. Como todo rótulo para arte, é arbitrário e reduz mediocremente o que tenta rotular. Olha só: música brasileira pode ser samba, choro, coco, maracatu, carimbó, xote, manguebeat, guitarrada, lundu, maxixe, fora os ritmos vindos de fora e incorporarados ao nosso repertório e a infinidade de ritmos nacionais que ficaram de fora destas linhas. E MPB, o que é? Chico, Caetano, Gal e Betânia. E o rock brazuca dos anos 80, não é Música, Popular e Brasileiro? E essa "nova MPB"? Colocar Maria Gadu ao lado de Chico Buarque na mesma prateleira é uma coisa tão esdrúxula que só o Nelson Motta mesmo para fazer e tentar nos convencer que é jóia! Troféu Joinha para ele.

Mas não deixo de adorar o Acabou Chorare, tanto que graças à reportagem da RS e o desabafo nervoso do Renato, eu lembrei de baixar para matar a saudade. Em 2005, assisti no SESC Pompeia a um show que reproduzia o álbum na íntegra com gente muito diferente tocando junto, o que literalmente botou abaixo a plateia do teatro. Todo mundo desceu das cadeiras e caiu na dança!

Antológico, divertido, e ainda honrou o original. Direção musical de Rômulo Fróes. A Baby fez o papel de testemunhar que toda aquela loucura aconteceu de verdade um dia, e até esqueceu um pouco das suas crentices. Lanny Gordin, genial guitarrista, fez as vezes de Pepeu, já que foi seu primeiro mestre. Davi Moraes, que também foi morador daquele sítio lisérgico, representou o pai Moraes Moreira. Lampirônicos exerceram a função da Cor do Som, o conjunto dentro do conjunto. Elza Soares e Luiz Melodia também estavam lá.

Quem ouvir somente o disco, ignorando o blá-blá-blá da crítica, com certeza vai gostar. Simplesmente porque é vibrante, alegre, criativo. Tem raízes brasileiras, mas também é rock n´roll, como em Um Bilhete para Didi. Gosto do timbre jovem e anti-virtuosísitico da então Baby Consuelo em Tinindo Tricando e A Menina Dança, da delicadeza de Acabou Chorare, da doideira de Mistério do Planeta e Swing de Campo Grande. Também tenho uma ligação sentimental com Preta Pretinha, porque lembra meu apelido de criança, Preta. (No caso, meus cabelos.)




Imagino que quando essa galera maluquete se reuniu, eles não pretendiam genialidade. Nesse ponto, todas as bandas (pelo menos as bacanas de se ouvir) são iguais: só querem saber de tocar e se divertir. Quem coloca a vontade de ser aprovado antes da vontade de fazer música, se lasca. O reconhecimento, da crítica ou do público, vem como acréscimo.


Então, um grito para a crítica: Besta é tu! Deixem as pessoas saborearem sem análises prévias!

terça-feira, 13 de julho de 2010

Metablogagem Reloaded

Esta dona de textículos é mesmo muito da "abestada". Como qualquer um, que com um blog na mão e qualquer ideia frouxa na cabeça vira de crítica de arte a it girl, eu só me meto a besta sem culpa por não ser nenhum geniozinho porque eu avisei desde o início: é para mim mesma essa cambalhota. Quer quiser pode assistir, é bem vindo.

Ultimamente só tenho feito textos sobre música, até acho que dão bem para o gasto. Mas eu vejo os textos de Skylab e fico brocha! O cara manda muito bem e muita gente pensa que ele só sabe matar passarinhos. Recomendo uma passada lá (godardcity.blogspot.com). Mas não é para brochar não. Afinal, século XXI é isso: não passamos de um bando de exibicionistas/voyeurs e todo mundo pode ser paparazzi, celebridade, escritor, músico, filósofo, mesmo que isso signifique brincar de tudo isso ao mesmo tempo, sem precisar ser de fato. Exceção é o nosso matador de passarinhos, afinal ele tem propriedade de sobra para falar sobre o que ele fala. Por isso, é bom visitar o cara, quem sabe a gente aprende.

Tentei, numa tentativa bem pouco convicta, tornar estes TM uma celebridade internética. Quem sabe não ganho um programa na MTV também? Segui as dicas da matéria sobre blogueiras de "sucesso" da edição da Gloss do mês passado, até porque nenhuma era absurda. Não sei se deu certo, mas eu fiquei pensando: para que diabos quero ser celebridade internética? Não tenho paciência para Twitter, texticulo de uma maneira quase bissexta. Para ganhar algum tutu com fazendo uma coisa para mim que é um grande divertimento, talvez. Mas tenho horror só de pensar neste painel alternando Audrey Hepburn e Marlene Dietrich cheio de links de publicidade em volta. Aí cheguei a uma magra conclusão que eu só quero que mais gente prove textículos, mas mesmo assim, é uma conclusão arbitrária. Ué, não era para mim mesma essa cambalhota?

Olha, não sei. Ando tão cansada de mim mesma que tenho feito tudo ao contrário do que eu habitualmente faria. E por um acaso alguém é obrigado a fazer tudo igual a vida toda? No entanto, é inegável a minha falta de talento para fazer das tripas coração para ser notada. Nunca precisei fazer muita força para isso. Não, eu não sou uma beldade de torcer o pescoço da homarada na rua. Mas para gente "normal", eu sou estranha. Tudo bem, perto da Lady Gaga pareço normal. Ai, ficou prolixo.

Então, vamos fazer assim, esquece essa história de celebridade internética. Vamos confiar na teoria do caos, uma hora alguém interessante "me descobre". Se não descobrir também, vou continuar me divertindo. E tenho dito!

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Perdeu, playboy

Ninguém gosta de perder, é evidente. Mas, como ensinam os layr-ribeiros por aí, vamos pensar positivo, acertei meu palpite: Brasil pararia nas quartas-de-final. Apostasse eu num bolão teria ganhado. Fué!

Copa do Mundo em ano de eleições presidenciais é totalmente providencial - no mesmo ano em que se escolhem também os governadores e cargos legislativos - aqueles em que as pessoas geralmente não se lembram em que votaram, mas sem se furtar a achincalhá-los de uma maneira totalmente ineficente a cada vez que um deles aparece com dinheiro de propina em cuecas, meias, bolsas, panetones e congêneres. Ou quando vira purpurina, como Clodovil.


Lamentavelmente só agora, as pessoas vão se lembrar disso, até porque o quarto poder vai tirar o foco da Copa do Mundo e voltar-se para as eleições. Mais previsível que um pênalti com paradinha, é fácil cantar essa bola, mas é sempre bom lembrar. Daniel teve o cuidado de dar essa alfinetada mesmo antes de a Copa começar. Rita Lee, no ano de 1998, alfinetou a farofada em torno da Copa com uma canção inteligente e sapeca e acabou sendo profética. A França que o diga:





Fica o refrão: A gente explode se for campeão, depois se f*** na eleição! Melhor o contrário. Nunca é tarde para virar o jogo, não é mesmo, Holanda?

quinta-feira, 1 de julho de 2010

O Universo Bufônico de Lady Gaga

Bufão reconhece outro bufão, mesmo a quilômetros de distância. É uma espécie de irmandade o negócio. Algo como a Maçonaria, a Internacional Comunista, sei lá.

Bufões jamais são minimalistas, tudo é exagero. Ou é muito magro, ou muito gordo. Ou é anão ou é gigante. Se não tiver nenhuma protuberância, falta-lhe uma parte do corpo. Não sendo nada disso, pode ser um excluído da sociedade, como mendicantes, putas ou bêbados. Ou somente um serzinho deslocado na galhofa. "Não tenho par nisto tudo neste mundo"...

O universo bufônico não está à parte desse mundo cão. "Os bufões estão à nossa volta. Inspirem-se neles!" - postula o Mestre dos Bufões, Jorge Didaco. Depois disso, vejo bufões a topo tempo. Onde as pessoas veem somente mais um esquisito, eu encontrei mais um bufão para me divertir e me fazer companhia.

Todos têm um bufão na alma, é questão de encontrar. E a experiência para quem encontra é doidíssima: aquele ser é você e é outro. A Susi tem muito da Flávia, a Flávia se exagera na Susi. As duas se necessitam e não se contrapõem.

Stefani Germanotta é Lady Gaga, disso todos já sabem. E o contrário, é também? Há quem diga que ela montou a personagem para entrar com os dois pés na porta no mundo pop, como entrou. Isso parece muito óbvio quando se vê seus clipes, seus figurinos amalucados e atitudes idem. Agora o mais engraçado é que ela está colocando cada vez mais a Stefani na LG. No último sábado saiu no Youtube, uma nova canção da doida, digo, da diva, em que todos disseram que é a melodia é muito mais orgânica, quente, sedutora, totalmente diferente do pop chiclete que tem mostrado. E é, de fato muito mais autêntica, com uma performance ao piano bem rock n´roll, endemoniada.


Em um dos comentários, algum gagaólogo proferiu: "não sei qual é a surpresa, antes de criar a LG, era esse o estilo com que ela se apresentava por aí, é só colocar 'Stefani Germanotta' no Google que vai aparecer." O gagaólogo tinha razão. Desde muito tempo ela mostrava maturidade na composição, segurança na performance, enfim, estava pronta faz tempo. E o bufão já estava lá.



Feinha, nariguda, meio magrela, cabelos "pretos como piche" - segundo ela mesma, uma deslocada, que se trancava no banheiro e copiava makes de estrelas hollywoodianas. Já era um ser estranho. Lady Gaga só veio para dilatar a garota esquisitinha, mas cheia de talento e decisão. Mais montada que dez drag queens juntas, tem o poder de se desmontar e remontar como bem entende.

Olhando por esse ângulo, ela não é tão doida quanto parece. Aliás, é capaz de uma lucidez que só os bufões são capazes de ter. Eu não disse que bufões se reconhecem? Ora pois, se não.

Só pra terminar: Uuuuuuuuuuuuuuh! Lady Gaga!

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Wanna be startin´somethin´

É curioso ver algo que não aconteceu. É e não é ao mesmo tempo. Assistir ao This Is It ontem na televisão me causou esta impressão.

Michael Jackson's This Is It in HD



Trailer Park Movies Vídeo do MySpace


Um relato sem palavras de uma produção de grande porte e nível técnico é um prato cheio para qualquer apaixonado por música. Com ensaios, audições, marcações de palco, montagem de cenários, luzes e figurinos à exposição, o prato torna-se ainda mais saboroso. É o que realmente me encanta na arte: o caminho, o processo criativo. Justamente por ser algo que já é sem ser.

Assistir a este making-off que acabou se tornando a própria obra me deixou ainda mais inquieta, como se eu naturalmente já não fosse. Como se eu já não estivesse pensando há algum tempo em sonhos, projetos, planos ou coisas que poderiam ter acontecido, mas não aconteceram, como essa não-turnê.

De todas essas coisas, as que mais me inquietam são as que mostram uma possibilidade de acontecer. As que poderiam ter acontecido e não aconteceram, felizmente, perderam a importância. (Até mesmo This is it: não fez diferença não ter sido concluída, porque a morte do ídolo fez justiça à sua obra, como fez a outros artistas. Ele vale mais agora morto, do que decadente e endividado, tentando se reerguer, como estava vivo.)

O que me causa um buraco no estômago são as coisas boas que posso e quero fazer, que ficaram para trás com a correria dos últimos anos. Mesmo que ainda seja jovem, a sensação é de estar aos 45 do segundo tempo sem direito à prorrogação. Não é pouca a dificuldade de parar com uma vida toda de elucubração e partir para a ação, ou melhor, para o ataque. A hora é mesmo agora. Tanto que nem esperei o fim do documentário para escrever este textículo.

Wanna be startin´something!





segunda-feira, 17 de maio de 2010

Sem querer, saiu sem título. Precisa? Então, Sorria!

É, acho mesmo que tenho menos a dizer, os TM não carregam mais a intensidade e a urgência do seu início. E como eu odeio a vida assim, em marcha lenta. Tudo bem, não tenho sofrido por conta de problemas imaginários, mas cadê a sensação de vento na cara, de vida à flor da pele? Droga, gosto mesmo é de uma Montanha Russa.


Evidente, porém, é que não vesti meu pijama de bolinhas e me dei por vencida. Caras como Brian Wilson não permitem que eu faça isso, nem de brincadeira. Explico: ouça Smile, mais do que isso, mergulhe neste álbum e em sua incrível história.


Em algum domingo perdido de 2009, depois de um ensaio, estavam lá os In-pessoa de bobeira em frente à TV. Quer coisa mais prosaica que assistir televisão na casa do vizinho? E eis que cai em nossos olhos, um documentário sobre o Brian Wilson, líder dos Beach Boys, do qual costuma-se dizer simplesmente que foi o único cara que ficou pau a pau com os Beatles, enquanto o resto da música pop sequer fazia cócegas no Fab Four, por ter feito o Pet Sounds (1966), após ter ficado literalmente enlouquecido ao ouvir Rubber Soul, e ter se determinado a fazer algo melhor. Conseguiu. Paul McCartney e George Martin fizeram reverências ao álbum, hoje devidamente sorvido por mim, que agora posso engrossar um coro de vozes que dura mais de 40 anos a dizer: é uma obra-prima. Sem exageros.


Os Beatles se propuseram a superar Pet Sounds, saiu Sgt. Peppers. Para quem gosta e entende de (boa) música pop, dizer isso basta. Brian Wilson ficou louco mais uma vez e se trancou no estúdio para gravar Smile. E aí que começa este tal documentário que assisti com os meninos. Wilson se atirou tanto na tarefa de produzir este álbum, tanto, mas tanto, e não chegou a concluí-lo na época. Ele compunha sozinho enquanto os outros Beach Boys saíam de turnê, isso mesmo antes de Pet Sounds. A loucura de Smile é tanta que os componentes do grupo não aguentaram o tranco, foram abandonando o projeto. E ele ficou sendo o álbum que mudaria a história do rock, que superaria a genialidade de Sgt. Peppers, tudo assim, no futuro do pretérito. Brian Wilson, 24 anos à época, já com uma saúde mental frágil, por pouco não sucumbiu. Anos depois, ele retira das catacumbas partituras, gravações incompletas, tudo, e parte para a missão de mergulhar na sua catarse e concluir, em 2004, a gravação de Smile, agora como um álbum solo de Brian.


Quando o programa acabou, fiquei catatônica, como fico quando me espanto diante da beleza. Primeiro, da história. A viagem, não só do artista, mas do ser humano, que desceu ao seu próprio inferno e voltou vivo, é comovente. Sem pieguices, fiquei realmente emocionada com isso. Depois, do álbum. Somente a sua história o faria surpreendente. 34 anos para ficar pronto! Mas ao ouvir o álbum, eu dei graças ao Barbudão por ele ter sido concluído.
Não sei mais o que dizer, estou desconcertada. Com o álbum, com a sua história, com a tarde besta que me levou a conhecê-lo. Chega. Veja e ouça, será que ainda terá algo a ser dito?