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terça-feira, 4 de outubro de 2011

Solar

                                                            Para meus cachorros

Quem sabe também não estejamos lá
Eu e meus cachorros, 
Às seis horas da tarde, no Viaduto do Chá
À espera do ocaso, se acaso ele chegar.

Trouxe Pozzo e Lucky na coleira, mas nem precisaria.
Eles não avançariam em você nem por um afago, estão tristes como o quê.
Não latem mais, rabos retraídos, a tigela de comida intacta.
Parece até que descobriram que não enxergam em colorido.

Pôr-do-sol no centro da cidade, mas que bobagem.
Só você mesmo para ter uma ideia dessas.
Como se Sol não fosse Sol em qualquer lugar do mundo,
Como se ele só se pusesse em São Paulo.

Esperar o Sol se por é pior que esperar Godot
Ele nunca chega, é justamente o oposto:
Poente é sempre partida. E disso eu entendo
Que estou sempre esperando, que estou sempre de partida.

Você é tão engraçado! Age como um semideus.
Acende um cigarro e pronto,
Procurar sentido é coisa para mortais.
Deixa isso para bestas melancólicas que levam cães para passear como desculpa. 

Você e seus cigarros, eu e meus cachorros.
Não dá valsa nem samba,
Ninguém dança de armadura.                                     
Cada um com seus escudos, paralelos, absurdos.

E quando a noite chegar? Eu fico me perguntando quem vai levar Godot para casa.
Mas é claro que estou variando.
O Sol, Godot, você e até meus cachorros,
Todos já se foram.

Agora, tudo são cadeiras vazias e uma noite sem fim.
Entretanto, sem esperar por mim, novos dias sempre chegam.
Então, antes que eu de fato enlouqueça,
Em vez de pôr-do-sol, é melhor que amanheça. 

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Ecce Homo

Bem que eu devia desconfiar daquele cara. Não obstante seu visu grunge que para mim ficou perdido lá nos 90 e alguma coisa, ele implicou com os bichinhos que aparecem no meu relógio digital. Disse que aquilo não parecia um canguru. É muita neurose. Comprei o relógio para ver hora, porra, não para ver canguru. Foda-se se não se parece com um. 

Lembrei-me disso numa hora bem à toa dentro do metrô, tentando trocar o canguru-que-não-se-parece-com-um-canguru pela data de hoje. Passamos mais horas dentro do metrô do que dentro do motel. E quanto mais cara de bunda você fazia por dar de cara com mais um motel lotado, mais eu ria. Nestes momentos, babe, tanto estoicismo não serve para nada: ou se tem um plano bê, pensando rápido, ou não se tem. E você não tinha. A vitória do senso prático sobre a abstração racionalista. Rá!

Saí correndo do metrô e antes de chegar ao meu destino, dei uma passada no Rei do Mate. Bem à minha frente, um copo do Romero Britto de brinde. Não aguento mais Romero Britto na minha frente. Arte Pop vendável piorada do caralho. Aí me deu vontade de rir mais ainda do que eu tinha rido da cara da recepcionista do motel barato: você detesta Romero Britto. Carne-de-vaca, você diria. 

Sabe que, se eu estivesse com tempo, até levaria um daqueles copos para você de presente? Só para ver sua boca entortando a esbravejar contra a banalização da Arte, assim, com um solene “A” maiúsculo. Só para você se recordar que é mais ordinário que aquele copo. Só para você saber que eu sou mais carne-de-vaca que todas as telas do Romero Britto juntas, e no entanto, você comeu. 

Logo, não adianta fazer cara de quem comeu e não gostou, porque você comeu, simplesmente comeu. Sem hibridismo, confluência ou contemporaneidade, pensando com o pau como qualquer um, tão carne-de-vaca quanto eu. 
Ecce homo.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Piadinhas...

1 - Sobre a bem-sucedida domesticação das futuras gerações:

O menino, junto com a mãe, para em frente a uma barraca de DVD´s e pergunta: "Você também tem original?" O camelô responde: "Não, só genérico!"

... Depois encontrei o mesmo menino no shopping checando seu Orkut numa Lan House.

2 - Sobre persuasivos vendedores metidos a espirituosos:

O vendedor de livros para em frente à moça, no meio da Paulista. Ela achou que ele ia pedir fogo, mas não. Faz a estupÍenda pergunta: "Você sabe qual a diferença entre corpo e alma?" "Não", responde a moça já tomando o caminho da roça. "A resposta está neste livro..." Ela hesita e para outra vez: "É de graça?". "Não, é de papel." "Ah! Então não quero!"

...E a moça vai embora, dando uma bela tragada no seu cigarro fedorento.

domingo, 6 de setembro de 2009

Paralelas

Resolvi aparecer, antes que achassem que sumi - como o Belchior- e começassem a me procurar, ou que também andei cantando o Hino Nacional Brasileiro meio grogue - como a Vanusa - e achassem que estou fugindo do assédio da imprensa.

Na verdade, não é nada disso. É que ando num momento Paralelas, saca? Correndo a cem por hora atrás de objetivos, trabalhando feito louca, como sempre. "E no escritório em que eu trabalho e (não) fico rico, quanto mais eu multiplico, diminui o meu amor"... Estou anti-poética, sem inspiração, nem tempo.

Porém, os micos da semana tornaram-se estímulo para eu retornar desse silêncio. Não gosto da desgraça alheia, mas é impossível não admitir que o chá de sumiço do Belchior - o Hugo Possolo soltou um caco sobre o tal desaparecimento em O Papa e a Bruxa e por pouco não caio da cadeira de tanto rir - e o Hino Lisérgico Nacional Brasileiro da Vanusa animaram as duas últimas semanas. Danilinho, num serviço de utilidade pública, me mostrou o video do hino na terça. Foi para isso que o senhor colocou computadores na sala dos professores, seu Serra? Se foi, meus parabéns, é uma excelente medida anti-stress para mestres esgotados pelo magistério. Deos meu, isso não é um mico, é um orangotango vestido de Carmen Miranda.¹ Não o Serra, a Vanusa.

Em entrevista a Silvia Poppovic, Vanusa declarou que estão desprezando seus 41 anos de carreira por conta de um mau momento que ela teve. Também pudera, não é um mau e sim um péssimo momento numa sessão solene da Câmara com nada mais nada menos que o Hino Nacional Brasileiro e na era Big Brother, em que a gente vive com câmeras em toda a parte. É muita ingenuidade. Nem um jogador de futebol tinha estragado nosso hino com tanto garbo e elegância.

O que é curioso é que eu dei mais risada com essa história da Vanusa não com o vexame do hino, mas com uma que Bozoca - a verdadeira - soltou um dia, no carro. Ela disse que quando ouvia Paralelas, na parte em que Vanusa canta "no apartamento, oitavo andar, abro a vidraça...", ela imaginava a cantora num clipe abrindo a janela intempestivamente, com a cabeleira loura chanel tamanho médio esvoaçando ao vento. Mais the 80´s, mais kitsch, impossível.

Quanto ao Belchior, compositor que admiro bastante, ri um tanto lembrando da homenagem feita a ele pelos Mamonas Assassinas no único disco da banda, se não me engano, na quarta faixa. Uma Arlinda Mulher é cuspida e escarradamente uma cópia do estilo de Belchior, desde a voz, a melodia, a batida do violão, até os versos. "Te ensinei os auto-reverse da vida e o movimento de translação que faz a Terra girar, te ensinei que o importante é competir, mas te mato de pancada se você não ganhar..." Sublime, poético, sacada genial daqueles doidos de Guarulhos. Só quem nasceu antes de 1995 entende isso.

Assim, decidi ceder aos apelos da cantora e mostrar um bom - talvez excelente - momento de sua carreira cantando Belchior, em um momento espetacular também. Paralelas é linda, e a gravação da Vanusa é um estouro, de longe a melhor de todas. Justiça seja feita. Todo mundo tem seu momento símio, até Fernando Pessoa disse isso².






Piadas Prontas à la Simão:
1 - O Zé não pediu, mas essa do orangotango coloquei por causa dele. Foi ele que disse que isso era piada pronta.
2 - Se você leu Poema em Linha Reta, do Fernando Pessoa, sabe do que estou falando. Também está farto de semideuses?

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Curtindo a Vida Adoidado

Não é exatamente uma notícia exclusiva, porque está agora na primeira página do UOL.

Diretor de "Curtindo a Vida Adoidado", John Hughes morre aos 59 anos

NOVA YORK (AP) - Uma porta-voz confirmou hoje, quinta (6), a morte de John Hughes, vítima de ataque cardíaco. O cineasta, diretor de "Curtindo a Vida Adoidado" (1986), "Clube dos Cinco" (1985) e produtor da série de filmes "Esqueceram de Mim", morreu aos 59 anos. Michelle Bega disse que Hughes morreu durante uma caminhada matinal. Ele estava visitando a família em Manhattan. Ele transformou a atriz Molly Ringwald em uma jovem estrela com o "Gatinhas & Gatões" (1984), sobre o problemático aniversário de 16 anos de uma garota, às vésperas do casamento da irmã mais velha. Ringwald também estrelou "Clube dos Cinco", sobre um grupo de alunos encrenqueiros que acaba na detenção da escola no sábado, e "A Garota de Rosa Shocking" (1986). Hughes morava no estado americano de Illinois e ambientou muitos de seus filmes na região de Chicago.

Isso me inspira um antológico momento Sessão da Tarde! Ferris Bueller curtindo a vida adoidado cantando Twist and Shout:



Save Ferris!

terça-feira, 28 de julho de 2009

Extra! Extra! Textículos de Mulher também são poderosos amuletos

Na tradição brasileira, existem diversas formas de espantar encostos e afins, tais como: ir à benzedeira, colocar galho de arruda atrás da orelha, tomar banho de sal grosso ou ainda... criar um blog chamado Textículos de Mulher. Primeiro, se o cara for analfabeto, vai pensar que você é um travesti, porque com esse nome, ele vai achar que você só pode ter bolas. Ou então, vai ver a cara da Marlene Dietrich fumando e de smoking e vai achar que você bota as aranhas pra brigar, como diria Raul Seixas.



Está rindo porquê, Dileta Audiência? Isso aconteceu! Nos esforços do "Desencalha, Bozo!", meu querido amigo Gazela mandou o link deste cafundó eletrônico a quem ele julgou adequado mandar e o resultado foi desastroso. (Pobre amigo. Esqueceu que a tradição machista manda a mulher conquistar um homem pelo estômago ou pela cama e jamais pelo cérebro.) Sabe o que aconteceu? O John Doe em questão bateu o olho no blog e soltou: "Pô, mas essa mina é lésbica!"


Eu nem sabia disso. Gazela me contou quase um ano depois, me explicando porque não apresenta mais ninguém nem para mim e nem para outra pessoa que seja por causa desse episódio, que o desagradou um tanto. Apesar de achar a atitude do John Doe - que graças ao Barbudão, eu nem conheço - totalmente primeva, eu ri. Eu nem poderia ficar ofendida - tenho amigos e amigas, além de parentes que são gays e sei que isso não é nem uma ofensa. (Ofensa é que se eu fosse lésbica, eu não ficaria no armário. Sei que teria culhões para assumir - usando mais uma metáfora fálica, para divertir a dileta audiência que consegue entender e confudir essa gente bur... quer dizer, sem humor.)


Como sou movida por uma curiosidade narcisista sobre como as pessoas me veem - sou uma assumidamente insólita e controversa, então sei que causo um furor em gente comum - fiquei me perguntando qual foi o código que o estupendo ser humano leu neste humilde cafundó para chegar a tão brilhante conclusão. É o nome? O layout? As fotos? O teor dos textículos? Na verdade, não quero fazer este levantamento para mudar estes elementos. Se eles servem para espantar gente dessa estirpe da minha vida, quero mais é aprimorá-los, porque descobri que meus amadíssimos Textículos de Mulher, além de ser um meio para fazer uma das coisas que mais gosto na vida, que é escrever, são um verdadeiro amuleto contra bocós. Viva meus textículos e minhas bolas cerebrais!

*Créditos da imagem: http://conversadeperua.blogspot.com/2009/01/frases-marlene-dietrich.html (Vale pela espirituosíssima frase de Dietrich)

sábado, 11 de julho de 2009

Ídolos

Ah, ídolos. A pseudo-morte do Michael Jackson e as comemorações do 50 anos de carreira do Roberto Carlos tem me feito pensar como a vida fica divertida com eles.

Minha mãe sempre dizia para minhas irmãs (com quilos e quilos de pôsteres e revistas primeiro do Menudo e depois do New Kids On The Block) que idolatria era pecado, sendo ela própria, fã-fanzaça-fanzoca do Rei: mais da metade dos discos de vinil de casa são de Sua Majestade O Brasa, mora?

Lá pelos distantes anos 1980, eu não escutava discos, eu via discos. Crianças não mexiam nas ainda incipientes parafernalhas eletrônicas e quando uma mãozinha esperta se aproximava do 3 em 1, era batata escutar: "Tira a mão daaaaaaaaaaaaííííííííííííííí, meninaaaaaa!". O máximo que a gente fazia sem ter os tímpanos estourados era ligar a TV -sem controle remoto.

Com essa restrição tecnológica me restava entrar no meu mundim estranho e perder tardes e mais tardes fuçando os discos de casa, o que explica o fato de a memória do que eu escutava por tabela quando era criança ser visual. (Eu disse que era estranho!) Manusear as capas dos discos era muito mais fácil para minhas mãos pequenas de então, do que equilibrar o braço do toca-discos entre dois dedinhos e colocar a agulha no início da faixa com precisão.

As capas dos discos então, é o que restou de tudo, apesar de ainda existirem os vinis. Depois de quebrar o toca-discos, a gente matava a saudade olhando para elas, grandes e muito mais vistosas que os encartes de CD. Duas capas povoam meu imaginário até hoje: do disco da Clara Nunes, a Guerreira, com aquela imagem célebre, coroada de búzios e olhando ao longe e o Thriller, do Michael Jackson. Sim, texticular audiência: a família Teodoro contribuiu para as estatísticas do Guiness Book. Eu olhava perplexa para a capa e pensava: Ué, ele era negro???? Nem lembrava das músicas do álbum, mas tudo indica que dei meus primeiros passos na Vila Ede escutando isso por tabela, porque ao escutar Thriller agora, eu reconheci todas as músicas - Beat It, Billie Jean e Thriller não valem, é claro - porque são os maiores hits do álbum.

Pois é, procura-se este exemplar do disco mais vendido em toda a história desesperadamente. Há uns três anos atrás, fui mostrar este disco para uma amiga e cadê o dito cujo? Sumiu, escafedeu-se, finou-se. Então, de todas as dúvidas que povoam a morte do ídolo, para mim a maior delas é: Onde foi parar meu Thriller? Paga-se bem, porque isso é pior que procurar agulha no palheiro. Já estou até conformada, crendo até que achar o Santo Graal é mais fácil.

Pelo menos aqui em terras tupiniquins, os holofotes estão mais voltados para a turnê do Rei do que para a morte do Rei do Pop. O que a gente não faz para agradar a nossa mãe? Fui comprar os ingressos do show do Brasa hoje e passei duas horas dando com os burros n´água tentando comprar os benditos no site de uma rede de compra de ingressos chamada Ingresso RÁPIDO. Fico pensando se a rede se chamasse Ingresso Lento, quantos dias essa provação iria durar. A turnê do mais popular artista brasileiro, patrocinada pelos gigantes Nestlè e Itaú, não tem uma operação específica de venda de ingressos. O Rei não merecia um hotsite só pra ele, ora essa?

Resultado: tive que ligar. Quando consegui, era a 74ª na fila de espera e quando consegui comprar, tinha a cadeira azul, Vip dos Vips? Que nada, os clientes Personalitté paparam todas, sem exceção. Assim não tem nem graça ser classe média! Nunca quis tanto ser cliente Irritaú Personalittè.

O máximo que consegui foi o setor verde, meio de banda, na penúltima fila, desembolsando mais de 300 cru e falando com um atendente pra lá de garoto-enxaqueca. E para que fazer tudo isso? Além de deixar Betona feliz, uma maluca por música perderia este momento histórico? Mais que assistir à turnê de 50 anos de carreira do Roberto Carlos, só ver o Jimi Hendrix tocando Star Spangled Banner em pleno Woodstock. Mas para conseguir isso, só com sessão espírita ou máquina do tempo, e não disponho de nenhum dos recursos agora. Ou seja: que venha o Rei!

Peço a texticular audiência que lancem mão de seus credos religiosos, sejam lá quaisquer que forem, porque há outra provação que está por vir para chegar no Ginásio do Ibirapuera: o trânsito!

E é para mamãe esta cambalhota*!

Notas:
* Outra história da carochinha, mas esta é da minha irmã. Ela ficava olhando na janelinha da porta da casa da Vila Ede, morrendo de medo, toda vez que minha mãe ouvia a fita do Brasa com a música: "O leão está solto nas ruas, já faz uns dias que ele fugiu...." Não é de se estanhar que ela fosse brincar comigo ainda bebê, usando um coelho azul com fundo de ferro. Eita, era de Aquário!

* Meu pai também gosta de Roberto Carlos e foi ele que ficou esperando no telefone, porque sabia que eu ia desistir, se eu ficasse na linha. Morrer de ciúmes do Brasa, só mesmo o Lineu Silva, dA Grande Família, porque com meu pai não tem crise.

* E a imagem que ilustra este textículo é uma das minhas capas preferidas - o disco também - de Sua Majestade O Brasa, com pérolas como Eu sou Terrível, Quando e O Sósia.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Peeeeeeeense positivo!

Esse é textículo mesmo, uma coisa até 'twittante' - acabei de entrar nessa coisa me perguntando: "Uátarrel is dis?"
A long, long time ago, nos tempos da Terra Média, escrevi sobre o pensamento não-positivo macabeico, e hoje estes pensamentos me vieram a tona novamente. Não cedi um milímetro na minha opinião: eu me ralo em dois empregos, preciso ser competente igualmente nos dois e ainda:
  • Não ter pontas duplas no cabelo;
  • Usar o Bankline;
  • Lembrar de usar o Renew para sinais mínimos de envelhecimento facial;
  • Utilizar fio dental;
  • Ir para a balada no final de semana, mesmo morrendo de sono;
  • Lembrar de mandar uma carta para o meu primo;
  • Fazer musculação quando não estou com a menor vontade;
  • Fechar a boca (isso serve tanto para comer como para falar menos);
  • Fazer book para meu currículo de atriz - puro, casto e imaculado no momento;
  • Mesmo sem tempo para nada, achar que sinto falta de um namorado, sendo que não sei há espaço para um na minha neste exato momento e por fim:
  • Escrever textículos engraçados, mas consistentes, inspirados e com regularidade para a Seleta Audiência que agora monitoro de perto no Google Analytics - mais uma tarefa inútil para minha vida, mas essa ao menos mata minha curiosidade insana, se alguém realmente lê este Festival de Bobagens neste mar de blogs sem fim.

E depois de tudo isso sou obrigada a ter tempo para pensar positivo?!?!?! Fala sério. Sou obrigada a fazer uma auto-citação:

"(...)Rabungentices à parte, o pior dessas auto-ajudices não é a pilha de clássicos que as pessoas deixam de conhecer. É essa obrigação permanente e implícita de vencer sempre, se dar bem sempre, ser bem comida sempre, sorrir sempre. (...)"

...Melhor mesmo é não pensar. Quem diria que eu terminaria este texto à maneira zen, hein, Alice Ruiz*?

Nota inutiél:

*Por pura sem-vergonhice não escrevi sobre a oficina de hai-kais que fiz com essa figura fodástica no Sesc Pompeia em abril. Quem sabe me dá na telha um dia desses, mas com certeza é uma experiência que pre-ci-sa ser compartilhada.

domingo, 10 de maio de 2009

Crianças

Não é novidade para os leitores de textículos que desde o seu nascimento, este cafundó eletrônico bate uma bola e tanto com a sua vizinhança real e virtual, mais precisamente com o OkComput3r e seu dono Luiz Filipe.

Logo depois do Viva Boal (logo abaixo), ele me mandou um link de um jornal alemão ressaltando a importância do teatrólogo no exterior - que eu tornei disponível para esta audiência heroica em me aguentar. Sua nova postagem, inspirada ou não na minha primeira observação sobre estar realmente informado no mundo de hoje, fala do mesmo assunto com a profundidade que merece. A postagem anterior a essa fala da robô-professora que encanta as crianças japonesas com seu "realismo emocional". Até aí, tudo bem. A piada é que nosso futuro professor de História deixou o melhor pro final: sua sarcástica observação sobre o real sentimento que a robô precisaria externar para parecer uma professora bem humana. A minha gargalhada foi tão sonora que acho que até ele ouviu, do outro lado da parede.

Esta observação sobre crianças me lembrou um breve episódio deste fim de semana, marcado por uma festinha de aniversário de criança típica, com direito a bedel vigiando os brigadeiros antes do parabéns. Sobre uma horda de crianças adoráveis (com uma maçã cravada na boca e devidamente assadas, claro), meu tio me pergunta: Você que é professora, como é que a gente dá jeito nesse monte de crianças sem-educação?

Eu, sem pestanejar, respondi: "Anticoncepcional".

Ps: Antes que eu me esqueça, roubei vááááários brigadeiros antes do parabéns. Sou subversiva, esqueceram?

domingo, 3 de maio de 2009

Machado Skylábrico

Falta agora pouco menos de meia hora para a Virada Cultural acabar, e já rendeu bons frutos, como por exemplo, a minha vontade de matar as antas organizadoras do evento (o transporte estava uma bosta completa, mais do que nos outros dias do ano), tanto que já estou aqui texticulando sobre.

A gama de opções era tanta, mas tanta, mas tanta... que acabei indo em um evento só e perto de casa, o que não me impediu de dar uma volta pelo centro da cidade para ver o que dava pra aproveitar. Como estava tudo muito lotado, fui ao CCJ ver o Zé do Caixão e o Rogério Skylab, este último não conhecia até então, e garanto que já não vivo sem ele, hahaha.

Zé do Caixão não decepcionou, mas é muito difícil ser mito, então a surpresa da noite foi o Skylab. Sua obra é marcada pelo grotesco e pelo bizarro, não só exatamente pelo horror. Rola também uma sacanagem e um gosto pela escatologia também. Como o terror me diverte, acho que nunca dei tanta risada, perto dos muros do cemitério da Cachoeirinha, nem quando eu e a velha guarda íamos para lá tomar uns porres à meia-noite. Hoje, fui caçar informações do meu novo ídolo e sex simbol (sua reboladinha só não é mais gostosa que a do Ney) no Oráculo, obviamente.

No seu blog, descobri que ele abordou um tema que já há algum tempo me instigava, mas ainda não tinha compartilhado com a minha Seleta Audiência. Quem já leu Dom Casmurro, que não é meu caso, sabe que Bentinho deixou um soneto que só tem o primeiro e o último verso, deixando o miolo para ser preenchido por um leitor desocupado. Eu fiz o tal soneto, como um treino, já que nunca consegui obedecer métrica, número de versos, estrofes, e também pelo fato de nunca ter gostado dessa poesia romântica, fofinha. E vi que Skylab também o fez, totalmente ao seu estilo pós-vanguardista. Vi que isso era um sinal dos deuses para veicular o tal soneto. Primeiro vai a minha versão:


Soneto que Bentinho não fez


Ó, flor do céu! Ó, flor cândida e pura!
Suas pétalas exalam frescor de doçura
Ao ver-te, esqueço-me das mazelas
De não ter o teu amor, nem as estrelas

Do céu, que nos permite somente vê-las,
Como quem deseja os amores de uma donzela
E desvendar os mistérios da sua candura,
Impossível de penetrar na realidade mais dura.

O choque entre verdade e ilusão escancara
A fragilidade da pétala arrancada
Da flor do meu sonho, que a vida me roubara.

Por vencido não me dou, que a história inda não é acabada,
Pois o desejo de fato nunca falha.
Perde-se a vida, mas ganha-se a batalha!

E o do Rogério:

Oh! Flor do céu! Oh! Flor cândida e pura
às margens de um córrego
cheio de esgoto.
O adubo que te alimenta,

te fez crescer.
Flor do brejo,
onde crianças são desovadas:
é aqui teu habitat.

Floresces em meio às fezes,
epidemias e corpos mutilados.
Tua haste delicada, tuas pétalas,

foram forjadas no inferno.
Será assim teu epitáfio:
Perde-se a vida, ganha-se a batalha.

E isso é só a ponta do iceberg... Até que estou bem, para quem detestava blogs com poesia. Se eu soubesse que participariam, até relançaria o desafio machadiano à minha seleta audiência, mas acho que esse Machado Skylábrico matou a pau, quer dizer, a machadadas, quaisquer tentativas que se façam de escrever este soneto novamente.

Beijo do Bozo!

Textículo jorrado em 03/05, 18h13.

sábado, 11 de abril de 2009

Desencalha Wanderson - Boletim de Caras

Já dizia o gênio Chacrinha que nada se cria, tudo se copia. Em tempos digitais então, essa máxima chacrinhesca se repete à velocidade da luz. Aliás, as coisas caem na obsolescência em ritmo frenético por aqui. Olha só, mal publiquei um textículo novo, me aparece um assunto absurdamente irresistível.

Ontem, Forrest tinha comentado comigo que tinha um mar de blogs escrevendo sobre o guru do DB (Desencalha, Bozo!), o engenheiro químico e moço casadoiro Wanderson. Agora há pouco, neste feriadozinho encardido, resolvi jogar no Oráculo o mantra "Desencalha Wanderson" para ver o que acontecia. Textos e mais textos hilários sobre o assunto, um blog inclusive, teve o cuidado de se certificar se este site não era uma pegadinha publicitária. Jesus, que medo: não é. O cara (http://www.interney.net/blogs/virunduns/2009/03/25/desencalha_wanderson/) certificou-se de que existe uma pessoa chamada Wanderson T. S. Rodex proprietária deste dominío, e até puxou o CPF do cara no site da Receita Federal e foi atrás da monografia do casadoiro no site da Escola Superior de Química das Faculdades Oswaldo Cruz. Sim, Texticular Audiência, Wanderson existe e quer desencalhar.

Sem contar as atualizações feitas no Quartel General E Virtual da cruzada mesopotâmica do meu guru por uma noiva. Sempre com aquela redação horrível, ele agradeceu e diz estar assustado com a repercussão do caso: "Peço para todos os repórteres esperarem alguns dias, pois, eu ainda não estou preparado para conceder entrevistas. Por favor, repórteres, não insistam por enquanto."

Toda a nação blogueira, impressionada com a comoção do caso, menor apenas que a causada pelas mortes de Eloá e Isabella, se riu do pobrezinho, porque achou que está exigente demais para um encalhado. Eu, como boa encalhada, esclareço: todo encalhado É exigente, assim como todo louco, que jura que é normal.
Na verdade, estou com uma ponta de pena deste mancebo, porque ele mirou no que viu e acertou no que não viu. Virou hit internético, e sabe Deus se vai achar uma noiva nos seus rígidos padrões de moça casadoira. É unanimidade - burra ou não, isso não importa - que tem que ser muito doida pra entrar nessa. E eu, mesmo encalhada - como diria o mestre - concordo.

Acho que nem é preciso tanta pena, porque o guru Wanderson está se deliciando com sua fama repentina. Gaba-se da grande quantidade de acesso em seu site em míseras três semanas e criou uma comunidade para os encalhados como ele: "Vamos desencalhar". Estamos vendo o cumprimento de outra profecia: Wanderson está amando seus 15 minutos de fama, garantidos por Andy Warhol.

Notas inútieis:

1 - Esclareço a Texticular Audiência que NÃO entrei na comunidade supracitada e nem vou entrar, afinal já tenho minha campanha particular de desencalhamento, subversiva como eu.

2 - Uso os termos encalhada e desencalhar do léxico wandersoniano para certificar que meu textículo sairá nas buscas pelo Oráculo, já que o textículo "Desencalha, Bozo!" não saiu no Google-Ex-Machina, pelo menos nas primeiras páginas. Tive que me prestar ao papel ridículo de mandar uma mensagem pro Wanderson divulgando meu latifúndio na blogosfera, já que também veiculei de graça a campanha do rapaz. Também quero ser celebridade internética, pô! Vocês acham que os TM existem pra quê?
3 - É lamentável, gente, mas "Desencalha, Bozo!" é uma campanha tão séria quanto "Desencalha Wanderson" para minha saída do caritó. Mesmo que eu não esteja pegando nem resfriado, não tenho estômago nem nervos de aço para me candidatar e rezo para Santo Antônio para que não esteja afugentando pretendentes em potencial com tão minha ridícula campanha, e o que é pior, nada original.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Corpitcho Bacana

Para manter este corpitcho bacana, resolvi me matricular em uma academia. Ainda acho coisa de maluco, mas fazer o quê? Metabolismo é luxo, ou pensa que todo mundo é como o Fê, meu primo, que come feito lima nova e não engorda nem a pau?
Vocês precisam me entender, meus heróis não são ratos de academia. Vocês conseguem imaginar a Billie Holiday numa aula de step? O Renato Russo puxando ferro ou Fernando Pessoa correndo na praia, recitando: Ó mar portuguez*, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal? Ah, faça-me o favor!
Sempre achei academia um sofrimento sistematizado. "Um, dois, três, vamo lá, gente!" E na minha primeira aula de step, eu tive certeza. A cena, se fosse editada em preto e branco e com um ragtimezinho de fundo, viraria esquete cômica de cinema mudo, sem perder para Buster Keaton ou Chaplin. Com a diferença que eu não estava representando. Odeio passinho e esforço físico, que merda fui fazer lá? Perder peso, oras! Mas logo vi que esse não era o caminho.
Já são três meses dessa epopeia fitness, com bons resultados, admito, mesmo ainda detestando roupas de academia (acho legging a coisa mais horrível do mundo, não entendo como tem gente que usa isso no dia-a-dia) e vendo instrumentos de tortura nos aparelhos de musculação. Eles não me causam medo, mas acho que eles tem um design parecido, sei lá.
A ideia era fazer Fit Ball (aula de alongamento junto com ball pilates), porque sempre achei elasticidade mais importante que enrijecimento, mas os horários das aulas não batem com meus horários. Uma pena, porque realmente adorei. Aí fiquei com a musculação mesmo, já que detestei aquelas aulas aeróbicas. Até que me adaptei, porque não perco um dia sequer da minha única aula semanal, já que o horário anda apertado. E percebi que vale a pena. Dancei um rockabilly ontem e nem arfei direito, sendo que, com meus antigos 74 Kg, eu terminaria a música botando os bofes pra fora.
Ainda não saquei bem qual é a desse textículo. É para divulgar os benefícios da vida saudável, sendo que ainda resisto e grito aos quatro ventos que não sou saúde? É para dar boletim de Caras da minha vida sem graça? Para provar que estou melhor que o Fenômeno (fenômeno do quê?) e já sequei mais peso que ele? Pode ser tudo isso misturado, não sei direito. É que eu acho engraçado não me ater a rótulos, afinal não sou saúde, mas também não quero ficar a vida inteira me xingando quando vejo que fiquei tão bonita quanto um tanque de guerra vestido nas fotos. Ou lamentando meus antigos 52 Kg nos tempos pré-junkie, quando eu fazia natação e até sonhava com a carreira esportiva, na única modalidade que eu realmente gosto.
A real de tudo isso é que esta história começou mesmo como na canção da Maria Rita: "Juro que tentei mudar/Para algum lugar longe daqui/(...)/Mas eu resolvi voltar/Não adiantou nada fugir/O mundo é que mudou/(...)/Pra manter esse corpitcho bacana/Acho até que vou virar marombeira/Corro o calçadão de Copacabana/De segunda a sexta-feira...
Eu queria sumir mesmo, mas não adiantaria, meus fantasmas permaneceriam comigo. Então me fixei neste objetivo que poderia ser outro, mas por um acaso, resolvi encarar de frente a minha vontade de ter meu corpo de volta. Assim meus detratores me verão maaaaaaaaaagra! É rídiculo, eu sei, mas é divertido. E aí, que tal um supino reto, hein?

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Links de utilidade pública

Já disse inúmeras vezes aos meus amigos que perdi as contas de quantas reencarnações eu preciso para viver, ver, ler e assistir tudo que eu quero na minha vida, curta para tantos desejos. Eles concordam comigo e compartilham dessa sensação. Muitas outras pessoas também devem ter esse tipo de paranóia, porque é moda agora livros e afins do tipo: "501 Must See Movies" ou "1001 discos para ouvir antes de morrer". Sinceramente, escorreu uma baba no cantinho da minha boca por estes livros. Ai, como é difícil ser cult e cool...

Na verdade, sou fanática por listas como essa. Nunca mais publiquei textos com Top5, porque minha seletíssima audiência regula sua mixaria e a grande maioria não posta comentários, mas continuo gostando muito. Ontem me diverti com "As 100 mais em 100 anos", lista das 100 músicas mais tocadas de 1904 a 2003. Você olhou a lista do ano em que você nasceu? Bingo! É praticamente impossível não se sentir curioso? Será que na sala de parto onde nasci tinha um rádio ligado, como em Cidade dos Anjos? (Filme que para mim, por um acaso, só prestou mesmo pela trilha sonora.) Fico rindo, de pensar em mamãe se esguelando na sala, enquanto a Zizi Possi se esguelava no rádio: "Me faz pequena, aaaaaaaaaaaaaaaaaaasa morena..." Rá! Eu sei que não tem graça nenhuma, Duley.

Também é tentador olhar a lista do ano que mudou a sua vida. E a decepção do Vizinho: na lista de 1997 não tem Radiohead! Na verdade a lista serve para rir, porque a quantidade de porcarias e guilty pleasures é imensa. A lista mais chiquérrima foi a de 1948, ano de nascimento da Betona: primeiro lugar para Dick Farney, considerado em sua época o Sinatra brasileiro. Na verdade, o popular era naturalmente mais sofisticado. Essa coisa que para o povão tem que ser ralé, é uma ideia lamentavelmente recente.

Mesmo antes deste festival de listas, estava começando a formar a lista dos 100 sites que você precisa acessar antes de bater a caçoleta, finar-se, bater as botas. (Já reparou como são numerosos os eufemismos para a morte? E o pior, os mais engraçados.)

Voltando a lista: eu mal tenho 5 para um Top, mas como eu sou teimosa, eu chamo a audiência para dar a sua contribuição:

1 - Desencalha Wanderson (http://www.desencalhawanderson.com.br/) - Indispensável pelas fotos com cara de "Manhê, eu tô com gases" e pelo texto comicamente mal redigido;
2 - Vida de merda (http://www.vidademerda.com.br/) - A vida é uma merda, mas ainda assim, é capaz de te matar de rir;
3 - Horóscopo Astral (http://www.horoscopo-astral.com/) - Ótimo para formar "Astrólogos de Mouse", como eu. Este site, com sua data, hora e local de nascimento, não descobre apenas seu signo ascendente, como também a cor do seu MM´s favorito;
4 - Nimportequi.com (http://nimportequi.com/) - Não tenho muitas informações a respeito, este link foi mandado por Forrest ao especularmos a formação desta lista. Grupo de comédia francês com esquetes genais no mesmo nível que as do Monthy Pynton. Humor finérrimo;
5 - Textículos de Mulher - Dispensa comentários. Se você não acessar, eu choro!

Dispensei os links que eu já recomendo usualmente, exceto o do guru da campanha pela minha saída do caritó. Por este motivo, é que não está aí meus blogs preferidos, como o OkComput3r e HTP, nem os sites que reconheço como utilidade pública. As nobres almas que me acompanharão nesta empreitada, por favor, defendam os pequenos e desconhecidos. Sem culpa cristã, excluirei listas do tipo "Orkut, Youtube, MSN, Myspace, UOL", porque estes não são novidade nenhuma. Mas Pérolas do Orkut e GTO aceito sim, obrigada.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Smells like a gunpowder spirit


Na última quarta-feira, a Seleta Audiência pode ter ouvido falar que, em uma escola municipal da Zona Norte de São Paulo, um aluno de 14 anos atirou acidentalmente em sua colega com revólver calibre 38 cano longo. É uma tendência nossa acreditar que isso pode acontecer em qualquer lugar, nunca perto da gente. Pois é, Seleta Audiência, até o ano passado, eu trabalhei nessa escola. E mais: tenho uma leitora de textículos trabalhando lá agora e que estava na sala ao lado quando isso aconteceu. Por muito pouco teria sido ela a professora a estar naquela sala na hora do ocorrido.

Todo mundo acha um absurdo, todo mundo se pergunta onde vamos parar assim, e principalmente, coloca a culpa na direção e no corpo docente da escola, como vi pela TV. O mané-pipoca do Percival de Souza falou naquele 'espreme-sai-sangue' do Cidade Alerta que isso era falha da direção da escola. E a gente tem direito de revistar mochila de aluno por um acaso, Sr. Especialista em Generalidades?


Ano passado, em outra escola em que trabalho, eu vi, ouvi e cheirei uma bomba no corredor bem na volta do intervalo. A confusão foi tanta que me perguntei se estava na Faixa de Gaza e cogitei mudar o patrono da escola para "Bin Laden". Naquela época já fiquei atordoada, me perguntando com que tipo de gente eu estava lidando. Imagine hoje, ao saber que por pouco não tomei uns pipocos, se tivesse continuado naquela escola da prefeitura, isso sem contar a Bozonifácia, que acompanhou tudo de perto.


Certa vez, na minha sala de aula, um colega trouxe uma arma, só que era de brinquedo e a munição de chumbinho. Ainda assim, a professora ficou desesperada: "Menino, me dá essa arma!"


"Mas professora, é de brinquedo!" E a professora: "Claro que não é, menino, já estou sentindo o cheiro da pólvora, me dá isso!"


Depois dessa frase, a prô perdeu o respeito, a sala desabou a rir. Se não tinha nem munição, que dirá pólvora pra ter cheiro?


Imagino o desespero da minha ex-professora, hoje colega de profissão, mas não deixa de ser engraçado o pânico da pobre com aquele 'treisoitinho' em cima da carteira do meu colega. Se ela estivesse no lugar da Bozonifácia, ela cairia dura. Renata, que mal teve tempo de sentir o cheiro da pólvora, teve que sentir também o legítimo cheiro de sangue, afinal o tiro acertou o joelho da infeliz que fez o favor de ficar perto de um zé-ruela armado sabe-Deus-porquê.


Por essas e outras começo a achar românticos estes anos 90. As pequenas transgressões - como uma arma de chumbinho - tinham graça. Porque, para mim, esta notícia não é nem um pouco engraçada, assim como os ares de Mcgyver que ganhou o Magistério contemporâneo. Não tem graça nenhuma, Duley.


*Por razões óbvias troquei a imagem original por uma foto do Kurt com armas: http://media.photobucket.com/image/kurt%20cobain%20with%20guns/afewrandomdrunks/Kurt_20Cobain_20Gun.jpg

domingo, 29 de março de 2009

Desencalha, Bozo!

É cada uma na vida, gente, que pega de surpresa até os insetos mais aracnídeos¹. Você acha que já viu de tudo na vida e aí aparece na sua frente mais uma bizarrice que das duas, uma: ou você sai correndo com Síndrome do Pânico arrancando os cabelos, ou se mata de rir, porque não lhe resta mais nenhuma alternativa. Foi o que eu fiz quando a verdadeira Bozoca me mandou este link: http://www.desencalhawanderson.com.br/ . O nome do domínio já me causou espasmos, mas o melhor/pior estava por vir ao abrir o tal sítio. Nem vou descrever, para não cortar a graça da Seleta Audiência. Quem sabe eu não ajudo o cara a achar uma noiva? Se bem que acho difícil uma leitora de textículos dando bobeira por aí como eu se interessar pela figura em questão.

Mas este cara me deu um alento e uma ideia. O alento é que sou mesmo uma moça casadoira, ora essa! Para comprovar a veracidade do fato, basta ver a descrição das prerrogativas do moço para escolher a louca, ops, quer dizer, a eleita. Eu me encaixo em todas elas, apesar de não saber muito bem o que é "uma mulher que queira agradar o Deus que fez os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há". Ele não falou nada em ser virgem...

Se vocês pensam que vou me candidatar, esqueçam que eu tenho amor a vida. Farei melhor, vou copiar a ideia do rapaz, mas sem gastar dinheiro para comprar um domínio só para isso porque já tenho meu Grande Meio de Comunicação em Massa, os TM. Estou lançando agora a campanha² "Desencalha, Bozo!", porque mesmo curtindo a vida ao máximo numa pós-adolêscencia assumida, sou filha de família de comercial de margarina e também quero casar, apesar de não parecer no textículo "Moças Casadoiras", publicado há algumas semanas atrás.

Minha descrição? Taí em cima: misto de Marlene Dietrich com Audrey Hepburn, tudo diluído em ácido ascórbico, mas deixa isso pra lá porque toda descrição É ridícula. Isso me lembra um papo na escola, com a Internet se popularizando, quando a gente ficava criando descrições para salas de bate-papo. Coisas do tipo "moreno alto" (negão), "seios fartos" (peituda), mignon ("tampinha"), "cheia de curvas" (gorda) e por aí vai.

Não deixarei, porém, de dar o detalhamento do pretendente ideal para minha pessoa. Diz meu pai que quem muito escolhe, acaba escolhido, mas também é preciso saber o que se quer dessa vida, né, papito? Vamos lá:

1 - No mínimo, precisa entender o que eu falo. Não sou nenhum gênio, mas eu não consigo suportar homem burro.
2 - Chega dessa cambada de machos indecisos. Cabras-macho desse mundo, uni-vos!
3 - Não gosto de cabra-frôxo e muito menos de metido a valentão. Se meu pai nunca falou mais alto comigo ou me bateu, não é qualquer mané-pipoca que pode fazer isso, se nem DNA me deu.
4 - Cabra-macho que se preze é bom de cama. Esse papo de que quem gosta de homem é viado porque mulher gosta é de dinheiro, é papo de quem não dá no couro. Mulher gosta de sexo, e no meu caso, não preciso de quem me sustente.
5 - Não estou a fim de dar golpe no baú, mas é evidente que estou muito menos a fim de sustentar vagabundo.
6 - Não vivo sem meus amigos e amigas, e se o cabra em questão quer contrato de exclusividade, esqueça a fazedora de textículos, porque essa besteira de perder a própria identidade por um tonto que pode te largar a qualquer momento eu não faço mais.
7 - Precisa suportar uma doida em estado criativo permanente. Criar é algo mais que necessário na minha vida. Lavar cuecas deixo para a máquina de lavar.
8 - De preferência, que seja engraçado. Afinal, se homem é tudo palhaço, no mínimo tem que me fazer rir!

Para os candidatos interessados: não me mandem e-mail com foto, não me procurem no Orkut, não deixem comentários no TM. Como sou romântica, gosto do charme do acaso. Um dia a gente se esbarra por aí e toca musiquinha, igual ao filme dos Normais.

Notas inútieis:
1 - Citação em homenagem ao meu batráquio amigo Zé, que fez aniversário ontem, data em que comecei a escrever este textículo, antes de ser surpreendida por uma Hora do Planeta forçada.
2 - Esta campanha não afeta em nada a minha cruzada mesopotâmica para chegar aos 30 no auge, viu, Vizinhíssimo?
3 - Quando disse que lançaria a campanha, alguns não acreditaram nela, outros acreditaram em excesso. Poderiam ser menos cartesianos, pessoal? E outra, não sou baleia para encalhar, muito menos para desencalhar. Mas o moço casadoiro não precisa ter medo do meu pH, pois, parafraseando Garnier, meu melhor lado é Ácido.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Moças Casadoiras

Dedicado à toda equipe que se esforçou em me casar a todo custo!

Tinha começado, há pouco, um textículo de solteirona em crise à la Sex and The City; o fato é que estou f-a-r-t-a desse tipo de discussão. Não sei porque ser amada precisa ser um luxo hoje em dia e como diz Amorzona Layr Ribeiro, não sei também se eu tenho mesmo que arrumar um "namoradinho crasse média" e ir pra Ubatuba todo fim de semana. Será?

Como boa Pré-Balzaquiana em Crise Anônima (agora declarada), só por hoje não vou cair na besteira de achar que preciso casar antes do 30. Sinto, porém, que avancei um dos doze passos, hehe.

Há uma semana atrás, "ganhei" um pretendente, segundo a Bozo de Calças Vermelhas, fofo, inteligente e educado. Inclusive, me senti nos anos 1950, vestida de I Love Lucy. Quem, em plenos anos 2000 (por mais contra-revolucionários que tem sido), vai ter um pretendente, igualmente casadoiro como você?

O fato é que fui apresentada ontem, com ares de mega-evento de Caras e casamento arranjado à moda indiana - na onda da novela - a meu pretendente, como eu já disse fofo, inteligente e educado. Mas sabe o que acontece? Nem ele, nem eu estamos na vibe de caçar um noivo e casar amanhã. Há outras necessidades, outras prioridades, outros desejos. Ficamos amigos sem dor no coração, pelo menos de minha parte. Dele também, eu acho.

Pode ser que as coisas mudem? Sim, por que não? Não importa, só por hoje eu desencanei, e é um grande avanço não se agarrar a ninguém numa crise de carência, causando dor e decepção totalmente desnecessárias para mim e para outra pessoa que não tem nada a ver com a Light. Demorou anos para a Bozo de Calça Quadrada aqui entender esse preceito básico. E isso me faz bem.
(E outra: não tenho mais medo dos 30. Iniciei, acompanhada pelo igualmente nascido em 1982 Vizinho das Galáxias, uma cruzada mesopotâmica para se chegar aos 30 no auge em todos os sentidos possíveis e imagináveis. Que 'moça véia' que nada.)

*Renata, Fernanda, João, os bozos-cupidos de plantão: aquele abraço! Ao Carlos também, o pretê-gonista dessa história.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Mulheres-andróide*

Sabe que ando com muito assunto e pouco tempo, e não gosto de texticular quando a vontade de escrever é mediana. Só que tomei vergonha na cara ao dar uma passadinha no OKComput3r, vizinhíssimo anda postando feito doido por lá. E todas as postagens são excelentes, então esse papo de quantidade X qualidade é conversa de blogueiro preguiçoso, como eu.

Um dos assuntos que eu tinha planos pra falar aqui foi sobre o Dia Internacional da Mulher e aniversário da Bozoca*, que nasceu num dia "danado de porreta". Acabei falando meio de soslaio, com a última postagem, porque a piada pronta da semana foi o dileto arcebispo meter a colher onde não foi chamado bem na semana do 8 de março, pra deixar os movimentos feministas beeeeeeeeeem contentes. E não pude deixar passar.

Comecei este textículo ontem, mas apaguei tudo quando li uma notícia no Terra, agora mesmo, cujo título dispensa qualquer comentário:


Ah, Cabral, fala sério. Mulher para ser perfeita tem que fazer café? Então, apaguei tudo, porque eu vi que minha discussão estava séculos atrasada. Eu falando de igualdade (de condições) entre gêneros, violência à mulher, patriarcado, raçãowhiskhasblábláblá e o babado está bem mais forte que eu pensava. Diz a notícia que "o inventor canadense Le Trung decidiu não perder tempo em busca da mulher ideal e criou sua própria. Aiko é uma robô androide que fala inglês e japonês, é boa em matemática e, segundo Trung, é muito paciente e nunca reclama." Lá pelas tantas, a notícia conta que "além de fazer companhia ao inventor e ajudá-lo com as contas, Aiko tem habilidades mais servis, como limpar o banheiro" e mais: "prepara chá e café, serve sushi, faz o café da manhã e limpa as orelhas de seu criador." O doutíssimo inventor ainda declara: "Ela não precisa de feriados, comida ou descanso, e pode trabalhar quase 24 horas por dia. Ela é a mulher perfeita."

Percebam que para a anta do inventor mulher perfeita não pensa, não tem desejos, não cria. É boa em matemática para as contas de um suposto orçamento doméstico e lava banheiros! E, apesar de ter sensores "lá embaixo" - palavras dele - é garantidamente virgem! Ou seja, para o tal, mulher perfeita nem precisa ser boa de cama.

Existe um paradoxo -quase um oximoro - entre o arcaico e o contemporâneo na ideia do tal cara. Uma pessoa capaz de criar um software de 50 mil reais tem um cérebro de minhoca desse? E o cabra choveu no molhado: alguém precisa contar para ele que cafeteira já existe e robô-empregada também. Lembram da Rose, dos Jetsons? E o Luís Fernando Veríssimo já tinha feito o seu exercício futurista sobre um cara que compra um robô-mulher-perfeita para substituir a esposa. Está no A Mãe do Freud (L&PM Pocket).

Então, quanto mais a gente discute sobre cibercultura, Vizinho das Galáxias, eu me pergunto: cheguei ao século XXI para isso? É contra-revolução pura, mermão! No meu tempo, o futuro era uma coisa bem mais interessante: os Jetsons eram descolados e a Rose é muito mais fofa que a tal da Aiko. Me manda direto pros 1960, por favor.

* Créditos da imagem: http://naredesaude.files.wordpress.com/2008/12/rose.jpg


domingo, 4 de janeiro de 2009

Pedra que rola não cria limo

Estou de volta!!! Um pouco triste por ter deixado um montão de textículos a serem publicados no meu Blog Mais Sem Audiência do Ciberespaço e feliz por ter voltado bem no mês de janeiro, mês em que este cafundó eletrônico faz aniversário.

Não sei se estas ideias que estão na fila vão ser colocadas em órbita na Blogosfera, porque algumas se tornaram piadas velhas (lembram dessa?), outras talvez sejam relidas, retransformadas e, colocando algum óleo nas juntas, quem sabe elas rodem novamente. Aguardem cenas dos próximos capítulos, crianças.

Estou com um pouco de medo de ter perdido o jeito de texticular, mas acho difícil, dado o meu vício de escrever. Aí, pra dar uma animada, e ver que quem é Macabéa nunca perde sua macabeíce, fui revisitar os arquivos dos Textículos. Não é por nada não, mas vi muita coisa linda lá, e não é do meu talento pra literatura orgulhosa medríocre que estou falando. É que consegui extrair com alguma arte, beleza das dores, das frustrações, da melancolia que às vezes me diverte. Terminei este ano comemorando, sobretudo o fato que o mesmo acabou-se. Mas agora, revendo os textículos, vi que as jorradas foram realmente férteis, cumprindo a profecia do primeiro textículo e que alguma coisa boa se realizou e as ruins viraram lenha pra queimar, porque do que eu gosto mesmo é de ver o circo pegar fogo.

Ainda não pensei em nada a respeito de repaginar este cafofo na Blogosfera, mas acho que a ocasião merece e coisas novas virão e não só as ideias requentadas que citei acima. O que importa é que estamos em movimento de novo, e pedra que rola não cria limo. Quero mais que o mundo se acabe em barranco, e eu, like a rolling stone, não dou pelota para meus joelhos esfolados, vou rolando junto. É para mim mesma esta cambalhota!

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Felicidade Guerreira

Bozoca defende uma tese que em dezembro existe um cheiro quente pairando no ar que, se você procurar por ele em 30 de novembro não tem e em 1º de janeiro, ele já passou.

Confesso, não gosto de fim de ano. Trauma da faculdade, porque sempre entregava a porcaria da pasta de estágios no fio da navalha, prestes a pegar DP por causa de um monte de relatórios que logo depois iria virar comida de Baratinha, literalmente e não literalmente. Gente que estudou ou estuda na Famosp-pi sabe bem do que estou falando. E como professor tem mais é que se f*, ano passado era a Via-Sacra de entrega de diários nas três mil escolas em que eu trabalhei para compor a jornada de professor contratado do Estado. Sem contar os três mil amigo-secretos em que eu cheguei a ouvir "Como dizia o poeta Manuel Bandeira... 'Tudo vale a pena se a alma não é pequena'!"¹ dito por uma professora de português em altíssimo estado etílico. Sorte de todos os presentes que não perceberam a gafe, provavelmente por acompanhá-la no alto grau etílico da festa. Azar o meu, que não tinha bebido o suficiente.

Sem contar o quanto que se engorda nesta época do ano, recorde em orgias alimentares.

Como 2008 é o Ano do Bozo, este ano é diferente. De uma hora pra outra, meu bode decorrente de todas as bozices que aconteceram este ano, foi embora. De semi-cegueira a reprise de filme sem-graça da minha vida, passando por um assalto, um mega arranca-rabo com baixista e amigo de muitos anos e um telefone jogado pela janela por causa de empresas que não prestam um serviço decente, eu quase enlouqueci. Gente, foi por pouco, muito pouco. Não sei como eu não me joguei pela janela.

Na verdade, quando Bozoca (a verdadeira, meninas²) falou desse cheiro quente, não consegui acompanhá-la na brisa, mas agora sei exatamente do que ela está falando. É ele que me faz sentir agora a melhor das esperanças: aquela sem motivo, que surge do nada e não nos decepciona, porque não é expectativa vazia colocada em coisas externas.

Como não sei e não quero saber qual é o motivo dessa mudança de humor - quero mais é curtir, resolvi achar um bode expiatório, à mesma maneira de Volver³: a culpa é desse cheiro quente que só dezembro é capaz de ter, que me faz rir sem motivo, dançar sem parar e principalmente, achar que só de virar a folhinha do calendário, minha vida vai mudar radicalmente e pra melhor. Que venha 2009!

"N
otas inútieis"
1 - Quem escreveu isso foi Fernando Pessoa, que conste nos autos.
2 - À maneira de Silvio Santos, um esclarecimento para minhas colegas de trabalho, que me chamam de Bozo: originalmente não sou o Bozo de Calça Amarela, no trio das losers eu era a Macabéa. Alilás, vale um Feliz Aniversário pra Renata-que-não-é-a-minha-irmã, que completou primaveras dia 13, que recomendou os Textículos no seu perfil do Orkut e tudo.
3 - Neste filme do Almodovar, dizia-se que na cidade do interior de onde vinham as personagens, as mulheres enloqueciam por conta dos ventos que sopravam na região.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

O dia em que fui trabalhar na Bienal do Livro


De volta aos boletins da minha dura vida na Ilha de Caras que não interessam a ninguém, mas que insisto em fazer. A última vez que fiz isso foi quando relatei a minha emocionante estréia no mundo dos testes para atriz-teza, semi-cega, sozinha e na chuva. Nem pude ver a cara de desgosto do Hugo Possolo com meu teste, cheio de buracos de esquecimento no texto, rsrsrs.

Hoje fui à Bienal do Livro, fugindo descaradamente do instinto defenestrador de alunos que me atacou essa semana e da rouquidão -estou prestes a ficar afônica e estou sim desesperaaaaaada! Como é que vou gravar a voz da demo da nossa banda sem nome? Aulas são mero acessório nesta história - e antes dei uma passadinha no médico pra ver se dou jeito nesta tosse de cachorro. Pausa para esclarecimento - o posto não dá atestado médico, ou seja acesso negado para fugida estratégica do trabalho por vias malandras tradicionais que todo vagabundo que se preza conhece.

Na real, entrei pela porta da frente da Bienal. Porque sexta passada eu descobri que eu poderia ir à Bienal hoje, assinando ponto lá e ainda ganhando o dia de trabalho, bastava levar o holerite - atestado de pobreza e insanidade do magistério. (E nenhuma boa alma para divulgar isso na escola. Por que será??) Como eu não consegui confirmar esta notícia, eu passei no médico antes.

E essa visita ao médico merece uma parada especial, porque eu sou o Bozo de Calça Amarela. Reclamei de tosse seca por tempo prolongado e ganhei um pedido de exame de tuberculose. É, isso mesmo! Sou uma tísica em potencial. Sendo que não tive febre e tô 'gorda lisa', como diz a minha mãe. Sendo que tenho rinite e sofro com tempo seco, desde que me entendo por gente. Sendo que contei que sou professora em turno duplo e faço esforço vocal constantemente. Ainda assim, tive que cuspir no potinho - eca! (Ops, na verdade é teste de escarro, mas a minha tosse é seca. Não tem nem vapor d´água pra escarrar) e amanhã tenho que levar de novo meu cuspe para análise. Cuspe em jejum, coisa duplamente nojenta.

Livre da sina dos cuspes, eu corri pra Bienal. Com medo, afinal eu sou formiguinha, operária-padrão, com marmita e livro-ponto. Não é coisa à-toa fugir do trabalho na cara larga. Mas como eu descobri que era verdade que eu ganharia o dia na Bienal, se fosse hoje, eu não fugi do trabalho, fui trabalhar na Bienal. Com credencial e tudo, porque apresentei meu atestado de pobreza e insanidade e peguei credencial. Na sequência, fui falar com os representantes dos 'patrão' e fui muito bem recebida, diga-se de passagem. (Nota brechtiana¹: por que será que pobre adora essas pequenas provas de status, né? A 'crasse' média também gosta, então tá tudo em casa!)

Fui zanzando por lá, comprei alguns livrinhos e assisti a um bate-papo com o João Batista de Andrade, cineasta brasileiro pra lá de consagrado e diretor de O Homem que Virou Suco, filme genial, na minha modesta opinião. Comprei o livro-roteiro do filme e peguei autógrafo do cara, super boa gente. Comentei da passagem deste filme na minha vida, e como ele me influencia e tal.

Na verdade eu tinha me esquecido que ele iria participar da Bienal, fui atraída para o local da palestra por "forças estranhas". Meu destino foi desviado por um daqueles chatos que vendem livro de poesia na porta do MASP, que me assaltou com meu aval. Como eu fiquei dura, tive que sacar dinheiro para comer. Do lado do caixa eletrônico tinha uma lanchonete e o estande onde o João Batista estava.

Gosto de acreditar que a gente segue o caminho certo sem roteiro, desde que a gente saiba o que quer. Isso até me consola, já que sou uma perdida de carteirinha. É o triunfo da intuição hipertrofiada feminina que me persegue, e às vezes até me contraria. Tudo isso me fez sair do Anhembi dando pulos secretos², tal e qual uma bicha legítima presa num corpo feminino que sou³.

Saldo da epopéia: ganhei duplamente o dia, porque fiz tudo isso trabalhando!

E é para mim mesma esta cambalhota!
Notas inúteis:

1 - Princípio do Distanciamento, segundo Brecht. Se vira e vai pesquisar, estou com preguiça de explicar.

2 - Bozoca sempre sai pulando de felicidade quando consegue algo que quer muito, e eu também faço isso. Sua cunhada diz que isso é bichice pura, mas a gente pode, porque a gente É bicha, e das loucas.

3 - Tal qual Madonna e Bozoca, eu sou um viado (com 'i' mesmo) que nasceu num corpo de mulher. E tenho dito.