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quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Balada do cachorro louco

"O  homem que hoje me amar 
encontrará outro homem lá dentro.
Pois que o mate."
Elisa Lucinda

Demorei a te matar, mas matei. Passei algum tempo sofrendo por não saber o que fazer com o corpo, mas de uma hora para outra, eis que surge a grande ideia: dei-o de comer para meus cachorros.

 

Como não pensei nisso antes? Na verdade, eu sei. Tua carne é indigesta, dura, tem o gosto amargo. Comê-la não foi nada fácil, mas valeu a pena. Meus cãezinhos, agora regalados, podem sair por aí para passear um pouco e quem sabe cruzar com uma cadela rebolante mais no cio do que eu. 

Quando descobri, foi de matar. Você não vale uma foda, camarada, e como paguei caro por isso. Mas como virou comida de cachorro, seu destino é o mesmo de toda comida. Adieu!

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Uma história de amor a três

I'm glad to see you back. I thought you were gone forever.
(Vladimir, Waiting for Godot, Act 1, Scene 1)
I
Meu kefi estava perdido, ou eu é que havia me perdido dele. Estou começando a achar que ele gosta de brincar de esconde-esconde comigo. Adora se perder para eu ter de me achar.

Desta vez o encontrei no Rio de Janeiro, batendo um sambinha numa caixa de fósforo. Estava até mais bronzeado, o danadinho. Dei-lhe um costumeiro tapa no ombro: "Onde você esteve este tempo todo, seu safado?" "Tinha ido comprar cigarros, aí resolvi ficar aqui." E sorriu daquele jeitinho zombeteiro que lhe é peculiar.

"Hum, sei." E emendei: "Vou fingir que acredito. Poderia até ficar brava com você, mas não vou não, porque te manjo é de outros tempos, camarada." 

E saímos para brincar perto dos arcos da Lapa, em frente ao Circo Voador, debaixo de uma garoa indecisa. Daquelas que de quase-chuva foi virando Sol.

Conversamos sobre este assunto também: "Você ainda não se convenceu que é movida a bateria solar, mesmo, né? Olha só pra você. Cê tá amarela, menina! Vai tomar sol!"

"Ok, você venceu, estou aqui para isso. Até estiquei minha estadia, assim teremos mais tempo juntos." Demos as mãos e fomos ver se o Rio de Janeiro realmente continua lindo. E continua.

II
Passamos tanto tempo colocando o papo em dia que quando o Sol saiu em todo seu esplendor, no clímax do seu espetáculo, a gente tinha dormido. E acordamos feito o Vagabundo, com seus raios solares soando como uma sirene: "E este Sol na minha caaaaaaaaaaaara!"




"Este Sol indireto, assim batendo nesta janela enorme, me conforta. Necessariamente porque me faz saber que ele sempre esteve aqui, nunca me abandonou. Ao contrário de você, seu vagabundo!", disse-lhe. "Não seja injusta, você sabe porque eu sumo. Senti muito sua falta, sabia? Desta vez, fiquei sinceramente preocupado com você. Cheguei a pensar que não conseguiríamos nos reencontrar!" 

"Own... Mas que fofo é você. Você faz isso de propósito, pensa que eu não sei? 'Té parece índio!  Assim você vai acabar ganhando o Campeonato Mundial de Esconde-esconde, hein? Mas a sua sorte, baby, é que eu também estou ficando craque em te encontrar! Demora, mas eu te acho."

"Elementar, minha cara. Mas desta vez você me assustou com aquela coisa de melancolia, fome, mito de Narciso... Aliás, onde você estava com a cabeça que eu poderia estar em Toronto? Puta frio do cacete!"

"Ah, queria dar umas bandas.Você teria gostado de lá sim, tenho certeza. A gente pode voltar lá na primavera, que você acha? E por que você não poderia estar no Canadá? Parecia que o Brasil tinha se mudado para lá. Até a Luíza estava!"

"Engraçadinha... Embora seu trocadilho seja extremamente sem graça, vou te dar um desconto. Pelo menos você está de volta!"

... Depois de um tempo ouvindo jazz e comendo melancia, decidimos que era hora de ver o Drummond. E ficamos de fazer isso no dia seguinte. 

III

Vimos que o poeta bronzeado (afinal ele não sai daquele banco no calçadão de Copacabana) também é um poeta vigiado, um poeta 1984. Depois de seus óculos terem sido furtados uma par de vezes, agora uma câmera zela pelo poeta do alto de um edifício na Av. Atlântica. E como tudo é passível de se tornar piada pronta neste mundo, a sua estátua é patrocinada por uma marca de lentes. Pagaram a nova armação, colaram com superbonder e instalaram a câmera para não ter mais prejuízo. Rá! Nem a poesia está salva da lógica de mercado. 

Muita gente na fila para ter com o poeta, mas era rápido porque a maioria quer só tirar foto com ele. Quem passa sempre por lá, às vezes dá um sorrisinho e uma batidinha em sua careca, como se o cumprimentasse. E eu, louca, querendo abraçar aquela coisa metálica, dizer o quanto ele está debaixo do meu couro surrado, de quantas vezes ele falou diretamente comigo... Mas ele, sabendo muito bem que não era o poeta e sim sua representação, não se furtou de tirar troça da minha cara e me salvar de uma camisa de força: "Por que você não faz igual a todo mundo e tira uma foto? O poeta sabe da sua piração!" E assim o fiz, até me ofereci para tirar foto para alguns outros passantes. E ninguém sequer desconfiava que eu estava diante do Amor da Minha Vida. 

IV
Na última noite, eu não tinha medo de voltar: tudo estava no meu corpo. O sol nas minhas costas, o vento deslizando por cima delas, o balanço do mar que levei para cama. E o conto do Borges, transformado em canção de ninar naquela voz quente e doce, feito brigadeiro recém-saído da panela. 

Adormecer naquela composição era o gozo mais profundo que eu poderia oferecer. Ele, me vendo do teto, ria da minha boca aberta. Disse que parecia que eu tinha engolido uma estrela cadente. 

V
Na hora de rearranjar as malas e cair no mundo outra vez, por puro cacoete estudei onde levaria o meu amigo, até escutar um grito que quase me faz cair da beliche: "VOCÊ TÁ DOIDA???"

"Doida, eu??? Por quê? Cheirou, bebeu ?!" 

"Você realmente acha que eu vou me dignar a viajar junto do seu biquíni molhado e cheio de areia, para não dizer das outras coisas que você está levando aí nesta mochila? Que eu fiz pra você?"

"Tá bom, tá bom! Foi sem querer. Desculpa, tá, ô Primeira Classe! Mas você não vai voltar comigo?" Caprichei na cara de Gato de Botas.

"Claro que eu vou. Mas eu vou no chapéu da aeromoça, na ponta da asa, mas dentro da sua bolsa não!"

E assim ele fez. Quando cheguei, ele estava grudado na janela do avião. Me deu uma piscadinha e depois um tapa na bunda que me encheu de coragem para enfrentar a vida. Descendo do avião, ele me disse:

"Lembra do gravador do Lucas Silva e Silva? Quando quebrou, ele ficou desesperado, pensando em como ele faria para inventar suas histórias. Seu Orlando disse que para imaginar não era necessário o gravador. Quando ele mostra o gravador consertado, o Lucas dispensa e diz que conseguiu inventar só com a imaginação."



"Claro que eu me lembro! Lucas Silva e Silva ajudou a formar meu caráter!"

"Então, sou mais ou menos como o gravador do Lucas, gata. Agora você me tem na hora que quiser!"

Abri um sorriso enorme. Até que enfim, compreendi: meu kefi é uma entidade wi-fi! Como não pensei nisso antes?

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Poéticas da Dança II - Descendo para o Playground


O segundo encontro do Poéticas da Dança fez todo mundo descer para o play e ir brincar. Essas meninas são danadas, sabem o que estão fazendo. Ao ler o texto da Isabel Marques durante a semana, já me deu uma vontade incrível de brincar. Eu sempre proponho brincadeiras com meus alunos, mas como eu tenho estar atenta a uma série de coisas, como o tempo, o espaço que precisa ser modificado, a organização e a bendita da disciplina, estou o tempo todo fritando o peixe e olhando o gato. A minha vontade, então, era de brincar como brincava quando criança: brincar por brincar, porque eu quero, porque é bom. 


Então, no último dia 17 de março, a sala de dança do IA havia se transubstanciado em um playground para crianças mais avançadas em idade, mas o negócio tinha cara de ritual e não de aula: sem dizer palavra, uma das meninas me entregou a almofada de jogar amarelinha. Depois, era só circular: pular corda, elástico, jogar bola e tudo acabou com um Siga o Mestre, em que o mestre era todo mundo e ninguém ao mesmo tempo. 


Na segunda parte do encontro, a ideia era estabelecer uma relação do texto da Isabel Marques com nosso espaço de trabalho: "Em que momentos da rotina escolar você percebe os 'corpos lúdicos' e 'não lúdicos'? De que maneira ou em quais momentos sua prática contribui para reforçar a construção de  corpos 'não lúdicos'? Em quais momentos você se contrapõe?" 


Com a canção da Dani Lasalvia e as perguntas escancaradas ali no diário de bordo, eu caí em mim e fiquei triste por alguns momentos. Querer brincar num espaço tão anti-lúdico e anti-poético como o espaço da escola se configura tantas vezes é um grande desafio para professores (que querem ser) brincantes. E ele estava lá, bem na minha frente. Que será, será?





Neste ponto a minha metralhadora verbal ligou-se sozinha. Eu vivo esta ansiedade o tempo todo. Quero brincar com meus alunos, não ensinar a brincar. Às vezes eu caio nesse erro, não sei se eu já disse isso aqui, mas a professorinha cansou-se de ser didática, daquela que nos "ensinaram" desde os primeiros momentos na escola: professor é um semideus que ensina. Por mais que eu tente ir na direção contrária, eu ainda carrego este repertório. É como subir uma escada rolante que desce, saca? 

"(...) Esqueçam também aquela ideia de que vamos ensinar alguma coisa para vocês. É muita pretensão da nossa parte acreditar nisso. Aprende quem quer aprender, e ninguém aprende sem se colocar a mão na massa, sem dar a cara para bater e isto, nós, os professores, não podemos fazer por vocês. O máximo que nós podemos fazer é indicar caminhos, e nenhum será atraente para todos ao mesmo tempo. (...)"


Depois partimos para os jogos teatrais, brincadeira muito da boa que felizmente fez parte do repertório primeiro da minha graduação. Este sistema, quando bem aplicado - perdão pela palavra não-acadêmica- é foda! Subversivo, libertador, inteligente, divertido. Quem começa, não quer mais parar. Jogamos um jogo de escultor e esculturas que se metamorfoseava em dança. Comentar e analisar o que visto/jogado  é parte fundamental do sistema de Jogos Teatrais e durante a avaliação da nossa sessão vimos (ou revimos) os princípios que regem este sistema que para ser libertador, precisa ser de uma disciplina livre e orgânica, nunca imposta. E conseguir isto não é nada fácil, mas é possível!


Antes de findar esta cambalhota e já emendar uma outra, deixo para vocês o que as brincadeiras da minha infância me mostraram da vida: 


"A gente fica olhando a corda bater no chão. As outras crianças já estão cantando "Um homem bateu em minhaporta e eu a-bri!". E a gente lá, entre a ousadia e a cautela, tentando achar a hora exata de entrar. Depois que a gente entra, porém, não pode parar de pular, porque é arriscado levar um tropeção. (...). Eu sei, eu também sou assim. "Porque eu sou medrosa. Mas se eu desço pro play é pra brincar"!"


Ps: Não sei se autocitação é falta de criatividade ou de tomar vergonha e escrever algo novo, mas a questão é muito simples. Não é de hoje que estas coisas me incomodam, e acolho estes incômodos: se não me incomodassem, jamais tentaria mudá-las, certo? 

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Rock Brasília

"É para um dia a gente contar a história da nossa turma."

Adoro histórias. Contá-las, ouvi-las. Uma, duas, dez, oitocentas vezes. A oralidade me encanta desde que me entendo por gente. Os causos do meu avô, as piadas da Dona Irene, do meu pai, as minhas próprias pataquadas da adolescência e início da idade adulta que adoro contar, recontar, rir delas quantas vezes me der vontade.  



Só por isso, já me conquistaria Rock Brasilia - Era de Ouro. Confesso que só não gostei muito desse subtítulo. É piração minha ou este "Era de Ouro" engessa o furacão que bagunça meus cabelos até hoje? Deve ser mesmo excesso de análise e opinião da minha parte. Vladimir Carvalho, em entrevista à TV Brasil,  fala sobre o processo de criação do documentário, que começou lá nos final dos 1970. Pegando carona na metáfora, ele estava no olho do furacão - era professor da UnB - e soube reconhecê-lo no momento. É por isso que Rock Brasília não tem cheiro de naftalina, com gente saudosa falando de um passado longínquo. Tá tudo na carne, hoje. O grito do Planalto Central ecoa em nossos ouvidos agora mesmo.



Tudo isso é a parte conhecida, é um pouco óbvio demais que eu gostaria deste documentário, sendo que não só Legião que fez minha cabeça, pele e nervos desde a adolescência. O surpreendente - ou pelo menos, desconhecido até então para mim - é a visão de dentro do furacão de momentos-chave de destas trajetórias,   como o fatídico show da Legião Urbana no estádio Mané Garrincha - onde um bando de antas brasilienses identificaram o status quo na figura do Renato e da Legião e os atacaram, literalmente. Não sei se consigo captar a dor que este engano causou em toda a sua dimensão, mas conheço muito bem o sentimento mais do que amargo de fazer o diabo para conseguir um lugar ao palanque, com a ingênua ideia de subverter a ordem com o microfone "deles" na mão e ser identificado como um aparelho do sistema. Gente burra, mais do que raiva, me dá medo.

E a pegada "Pais e filhos" do documentário não é nem um pouco forçada, afinal essa galera é mesmo filha da Revolução! Filhos de diplomatas, professores universitários, funcionários públicos, eles foram os responsáveis diretos por tudo isso, acenderam a banana de dinamite sem nem se dar conta disso. Quem mandou se mudar com a família para o meio do nada, com um bando de moleques loucos por música sem xonga nenhuma para fazer, bem no final da ditadura militar, com o punk rock pegando fogo na Inglaterra? Agradeço-os imensamente por isso!

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Filme de Mulherzinha Ataca Novamente

Está provado cientificamente: comédias românticas podem estragar a sua vida. Mas eu, particularmente não estou nem aí. Quando nasci, cinto de segurança não era obrigatório e merthiolate ardia e ainda assim, estou viva, vivinha. Da Silva, Teodoro Alves, o que quiserem. Acreditem!

Tentei me recuperar, mas é inútil: o dano cerebral causado pelas comédias românticas noventistas estreladas por Meg Ryan, Renè Zellwegger, Julia Roberts e afins é acumulado. Já era, meus miolos foram indiscutivelmente carcomidos. Só restou o coração, que sem um pingo de vergonha na cara, ainda pulsa: bridget-jones, bridget-jones. Happy-end, happy-end. 

Além do mais, comédia romântica pode até estragar uma vida, mas não um blog. O textículo mais acessado deste faroeste é a resenha sobre Falando Grego, da Nia Vardalos. Aqui, elas até ajudam!

Anos depois, adicionando uma licencinha poética para o festival de bobagens que lhe são devidas, vejo que comédias românticas tem lá suas pilulazinhas de sabedoria. Tolas, inocentes, mas ainda assim válidas, verdadeiras em sua tolice. 

Como Medianeiras, Buenos Aires na Era do Amor Virtual. Em se tratando da ideia de discutir cultura digital, é uma ótima propaganda para os produtos da Mac. De tão escancarada, nem parece merchandising. Parece peça publicitária mesmo, na cara-larga. 


Gosto de filmes em que cidades são personagens. Uma Buenos Aires contemporânea, pós-crise, de longe é a personagem mais fascinante. A protagonista é arquiteta, e é dela que vem a metáfora das medianeiras, aquele lado dos edifícios que não serve para nada, a não ser para abrigar propaganda e limo. Como nas pessoas, expõe o lado mais frágil, feio e vulnerável de construções que precisam se fazer sólidas e fortes. Abra uma janela na sua medianeira, mesmo que ilegalmente. Deixe entrar luz no seu apartamento, vai te fazer bem.

Também gosto de gente neurótica nos filmes. Mitigam minha vergonha. Além do que são muito mais verossímeis: Mariana taca coisas na parede, chora por bobagem e carência, fuma mais que preto-velho no terreiro. Martin é fóbico, hipocondríaco, insone, atrapalhado. Leve seus cachorros para passear, mesmo que eles sintam medo. Eles precisam se acostumar com outros cachorros. 


Se toda essa firula ao final vendesse só iPod, eu até perdoaria. Foda é vender a ilusão de um amor único perdido na cidade, vestido com uma blusa listrada de vermelho e branco, óculos e gorro à sua espera, prontinho para ser encontrado. Se você começar a procurar onde está o Wallie com 14 anos, quem sabe você o encontre aos 30! Mas use uma lupa, porque isso é trabalho para mais de metro. 

Procurar Wallie é uma tarefa muito difícil para míopes não operados como eu, então fica para outro dia. Não comprei a ilusão, mas me diverti com a conversa mole do vendedor. Atitude típica de 1984, um duplipensar para esquentar as turbinas. Porque só agora posso começar a abrir um vitrô na minha medianeira, sair com meus cães assustados por aí. Spring is coming! 

domingo, 28 de agosto de 2011

Quando seu cheiro entrar de vez na minha pele


Quando seu cheiro entrar de vez na minha pele,
Vou leva-lo para passear.
Deitar em outras camas, provar de outros falos.
Para que você também prove de outras texturas, outros colchões.

Quando seu cheiro entrar de vez na minha pele,
Feito pomba-gira enfurecida vou rodopiar
Mais, mais e ainda mais
Para que ele, de uma vez por todas, se dissipe.

Quando seu cheiro entrar de vez na minha pele, vou fazer de tudo para ele sair.
Tomar banho de cachoeira, me vestir de freira, talvez de palhaço.
Quem sabe eu não o espante a base de escárnio?

Alecrim, canela, gengibre, baunilha, rosa branca.
Quando enfim seu cheiro sair de vez da minha pele,
O meu é que vai cair no mundo!



domingo, 12 de junho de 2011

Aprendendo a amar vol. 1

Este texto é o primeiro da série "Aprendendo a amar", escrito em 2009. Dedicado a meus alunos, ex-alunos, colegas e principalmente para quem amou e se decepcionou, mas que deu a volta por cima!

Um dia no intervalo das aulas, uma conversa entre os professores: aquela escola estava muito parada ultimamente, era preciso animar o período da tarde.  Então, é surge a idéia de fazer uma festa do dia dos namorados, já que a professora de inglês estava trabalhando com textos sobre São Valentim com as sétimas séries. O professor que quisesse entrar na dança era só contribuir com a sua idéia e a professora de inglês escreveria o projeto pedagógico da coisa.

A professora de Artes aderiu ao projeto na hora, mas com a dúvida de qual trabalho poderia fazer sobre seus alunos, afinal, se resolvesse trabalhar com Arte Erótica ou com o Nu na História da Arte poderia até ser exonerada do cargo, dado o moralismo indecente de sua época. Alguém soprou no seu ouvido para fazer cartões para correio elegante com as suas turmas. Ela, que normalmente xingaria quem deu essa idéia, dessa vez, sabe Deus porque, aceitou a idéia com simpatia.

Quando os alunos começaram a fazer os cartões nas aulas, ela entendeu porque ela topou fazer uma atividade que não tinha nada a ver com sua concepção vanguardista de Arte-Educação. A última vez que tinha feito correio elegante foi para as quermesses da Igreja, que tinham ficado para trás há um bom tempo. Tinha se esquecido a diversão que era aquele recorta-e-cola, somado à chuva de glitters, purpurinas, lantejoulas e corações feitos em série, como se fosse uma linha de produção.

Corações grandes, pequenos, em duplas, em trios e, em sua grande maioria, vermelhos. Todos de um vermelho pulsante, cor de cartolina comprada na papelaria da esquina. Lá pelas tantas, a professora se pergunta que cor estaria seu coração neste momento e apostou num azul, já que seu pobre coração andava um tanto gelado.

Não que seu coração nunca tivesse sido vermelho, só que da última vez que ele ficou vermelho foi de raiva, depois de uma decepção daquelas. Já estava recuperada do tombo, mas se deu conta, às vésperas de promover uma Festa do Dia dos Namorados com seus alunos, que tinha se fechado em copas para o amor. Como poderia reclamar que ninguém gostava dela? Ela não achava mais graça em ninguém. Todo mundo era feio, todo mundo era chato.

“Sou muito nova para ficar assim”, preocupou-se a professora. E sua preocupação foi ficando cada vez mais provinciana, apavorando-se com a idéia de se tornar uma professora solteirona típica, daquelas que usam “saia-lápis na altura do joelho, coque e óculos armação-tartaruga”. Sua preocupação, porém, durou poucos segundos, até um aluno cortar seus pensamentos com uma tesourinha sem ponta e dúvidas bem menos filosóficas: “É para cortar para direita ou para a esquerda, Prô?”

Longe da bagunça das salas, a professora foi avaliar o resultado da produção dos seus alunos. Contar os cartões, ver erros de português, essas coisas. Em contato com os corações, que ora escondiam, ora revelavam mensagens apaixonadas – tão clichês para os mais velhos, mas pura novidade para aquela molecada que está começando a descobrir os prazeres do amor – sentiu o seu próprio se aquecer. Entendeu o que seus velhos professores lhe diziam com: “Ensinar é via de mão dupla, a gente também aprende com nossos alunos”. Ela passou anos achando que isso era um bordão vazio, agora viu que era pura verdade. Graças a seus alunos e àquela bagunça de cartões sem fim, estava reaprendendo a amar.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

O impeachment mais rápido da Brasilândia!

Hoje, o coração da professorinha está em polvorosa, porque viu o poder ultrajovem mostrar que não está para brincadeiras. 
Adorei esta bandeirinha de festa junina!
Começou na última segunda-feira, com uma dispensa misteriosa dos alunos no período noturno da escola, com a chegada do diretor designado.  No dia seguinte se descobre que a vice-diretora havia sido dispensada, sem maiores esclarecimentos. Dona Célia Carioca está no JTX desde sua fundação, mas não é este o único fato que mobilizou o protesto primeiro dos professores, e depois dos alunos. Ela conhece a realidade do bairro, de cada pessoa que está ali e sempre fez o seu trabalho com dedicação ímpar. Até quem não morre de amores por ela reconhece este fato. Isto sim moveu a comunidade a reagir contra os desmandos de quem acha que a burocracia vai salvar o mundo, que se consegue mandar só na base da canetada. 

Este diretor que havia sido designado para assumir a direção do JTX já era velho conhecido nosso. "Digam para quem gosta e principalmente para quem não gosta que eu voltei!" foi sua frase de apresentação. Ele ficou na direção da escola no ano letivo anterior, à base de soluções unilaterais, decisões impostas debaixo para cima e discurso focado na burocracia massacrante que caracteriza a educação pública (lembrando, por exemplo, aos professores contratados e efetivos em estágio probatório tinham que "se cuidar", porque era ele quem assinava e deliberava, raçãowhiskasblabláblá...)

Ele até conquistou um pequeno secto de puxa-sacos, como em todo lugar acontece, mas as coisas não foram fáceis para ele por lá. Boa parte do corpo docente do JTX é questionador e combativo, e não é que lá tenha a maior concentração de che guevaras por metro quadrado. Só se trata de um grupo em que as coisas precisam ser explicadas, esclarecidas. E não é bem disso que ele gosta, sabe? Então, acredito que ele voltou para uma desforra e ele é quem foi bem desforrado.

Acha que nossas hérnias e bicos de papagaio nos permitiriam colar um cartaz aí?
Na terça-feira, a primeira reação do corpo docente foi não subir para a aula no período vespertino, para forçar uma explicação. Parados lá ficamos toda a primeira aula e ele aparece. Seu discurso de burocrata não convence e na base de muita prepotência e arrogância, a todo tempo ele tentou usar contra nós os nossos questionamentos. A supervisora de ensino apareceu por lá para abafar o escândalo, pedindo que não prejudicássemos os alunos que estavam sem aulas naquele momento e prometeu uma explicação, que ficou para o final do período. As coisas também não foram fáceis para ela, confesso que ela também não nos convenceu muito. Deixamos avisado que iríamos ao dirigente da diretoria de ensino e assim foi feito. Na quarta-feira pela manhã, fomos recebidos na Norte 1. Cheguei nos 45 do segundo tempo, que foi o que deu para fazer, mas estávamos bem representados. Ele ouviu e argumentou também, se comprometendo a apurar o caso, pois até então não havia nada que desabonasse o então diretor designado regularmente. 

Quando chegamos à escola para dar aula à tarde, com os alunos já inteirados do caso e a escola repleta de cartazes com mensagens de apoio à Célia. Desde a noite de terça, nas redes sociais estava circulando a tag #voltacelia. O movimento dos alunos - totalmente espontâneo, nem um pouco forçado - já estava articulado. As turmas do fundamental, vendo os cartazes deixados pelo pessoal do matutino, aderiram também, escrevendo na lousa, colando etiquetas no uniforme e tudo mais. Para alguns alunos da quintas séries, que chegaram para nós com uma alfabetização sofrível, o Volta Célia virou "vouta celha". (Para vocês verem que os professores destas turmas precisam fazer é milagre, lecionar é pouco). E infelizmente, houve quem joselitasse o movimento. No segundo intervalo da tarde, uma rebelião teve que ser contida!  Parecia o Egito no começo do ano, gente.



O dia letivo ontem acabou com um protesto combinado pelos alunos: que comparecessem à escola hoje de manhã que não entrassem na escola até que fosse dada uma explicação a eles. E foi o que aconteceu: debaixo da chuva e do frio que fez hoje estavam lá, alunos e pais na porta da escola, numa manifestação pacífica, tranquila, mas que incomodou o suficiente para o diretor designado cair fora espontaneamente!

Mesmo com frio e chuva, a galera resistiu!

Eu não estava lá hoje, lecionei na escola da prefeitura pela manhã, mas sempre recebendo notícias frescas no celular e acompanhando o movimento pelas redes sociais na hora do intervalo. Na hora de ir embora, não resisti e abri o Facebook pela última vez. Quanto vi os primeiros vídeos da manifestação que a garotada postou, não resisti e pulei de alegria!



Nos meus tempos de estudante e militante, houve lá algumas lutas, algumas manifestações bem-sucedidas como esta, mas nunca fiquei tão feliz como hoje. Simplesmente porque todo este movimento surgiu de uma juventude que a todo tempo é acusada de ser alienada e individualista. Agora, esta acusação se mostra no mínimo infundada.



Tudo que aconteceu não se deve unicamente ao bom trabalho que a Célia desenvolveu todos estes anos, também porque a galera não aceitou a injustiça e soube protestar! Não houve líderes, não houve incitadores. Todos foram. E o resultado está aí: o impeachment mais rápido da história da EE Prof Jair Toledo Xavier!

Até Sófocles postou a tag no seu twitter!
Agora, uma das atuais vices fica na direção até segunda ordem e Dona Célia, assim que voltar das suas férias (a dispensa aconteceria depois das férias e o bestão já tinha aberto a boca!), volta também a seu posto.

No meio do fogo cruzado, escutei de uma colega: "Você acha que essa história vai dar em alguma coisa? A gente é descartável neste mundo". Os fatos mostraram o totalmente oposto. E contra fatos não há argumentos, não é o que dizem?
Hoje o dia foi deveras longo! Então, uma cambalhota para todos e um grande uuuuuh! para os mandões deste mundo!

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Tinindo trincando


As neuroses olharam esse mar e deram no pé
Eu sei, a vida não acontece só nas férias. Mas é que, além de mim, as velhas neuroses também saíram de férias e espero sinceramente que elas tenham uma epifania bebendo água de coco na Praia de Cabo Branco,  decidam pedir demissão de mim e saiam por aí vendendo bijuterias e dormindo ao relento. Que nunca mais voltem, felizes da vida.

Falando em felicidade, eu bem disse que felicidade permanente é neurose, mas  quando estou realmente feliz, é pra valer. Não disfarço gosto de purgante na boca. Como diria Filhutti, meu laranja tá piscando neon. Tô com tudo, no duro tinindo, tinindo tricando.

Não aconteceu nada de especial, ou pelo menos de mega-über espetacular. Só descobri um balanço entre a intensidade e a tranquilidade. A vida vai à milhão, mas a mente continua tranquila, ou pelo menos, mais do que era antes. Geralmente, comigo era o contrário. Fantasiando para driblar o tédio, dar de cara com a realidade era tão suave quanto um pouso de albatroz. Resultado: um blog chamado Textículos de Mulher.

Como estou mais preocupada em viver, racionalizar e escrever às vezes fica de lado. Mas pretendo não abandonar isso de vez, até porque escrevendo descubro coisas que já sabia. Sem esperança de ser a renovação literária da América Latina, o sabor dos textículos fica mais sapeca e menos pretensioso. Tempos Modernos, babe.

Então, calipígios e onanistas, vou tentar fatiar em fatias finas e apetitosas, a viagem para John Person e Natal, o Summer Soul Festival, uma crítica atrasada de Amélie Poulain. Descendo pro play e indo brincar, sempre.

Feliz 2011, pessoal!

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Feliz Navidad

Estamos na Oitava de Natal, então falar dele só agora não faz deste textículo um Benjamim Button, que já nasce velhinho. Quero falar com meus amigos, próximos e distantes, os antigos e os novos. 

Gostaria de dizer que não estou nem aí para vocês. Não me importa quantas pessoas me ligam ou me escrevem, não estou nem aí para quantos amigos eu tenho em redes sociais ou coisa parecida. Não coleciono álbum de figurinhas. 

Pessoas vem e vão. Algumas entram na sua vida para fazer uma ponta apenas, só uma figuração e fazem uma diferença enorme. Outras, passam uma vida inteira conosco e um belo dia a gente percebe que esteve o tempo todo ao lado de um completo estranho. Algumas nos dão imensa alegria quando vêm, outras, quando vão. 

Parece mesmo que viver é lidar o tempo todo com a separação. Não adianta se apegar, a realidade da vida é o desapego.

O que realmente me é caro neste momento é estar perto de todos vocês e  ao menos tentar retribuir todo o bem que a companhia de vocês faz à minha alma surrada. Com generosidade, sem moeda de troca. Descobri, um pouco velha, que isto é Espírito Natalino.

Mesmo para quem não é cristão, ou é só de nome, é muito bacana receber e enviar boas vibrações para as pessoas com quem a gente passou o ano todo. Isto sim é o que fica, isto sim é o que importa. Por essas e outras tenho vontade de matar o corno que inventou que Natal é tão somente comer feito glutões e ganhar presentes. Compra, compra, compra. Corre, corre, corre. Engorda, engorda, engorda. E faz dieta a partir de primeiro de janeiro.

 
Como bem disse o Estegossauro: "sejam hipócritas o ano todo e no Natal também! Até entendo e concordo com ele, mas havemos de convir que ele ainda não teve a felicidade de perceber a verdade encoberta por camadas e camadas de neve artificial.


Então meus amigos, Feliz Natal Tropical! Que o cheiro quente de dezembro esteja sempre com vocês.

Em todos os meses do ano.

Good vibrations!

Outros Natais Tropicais: 2009, 2008

sábado, 18 de dezembro de 2010

Dias estranhos

Tenho vivido dias estranhos. À deriva, uma dor calada dentro do peito. Em outros tempos, eu jogaria garrafas no mar, mesmo que não adiantasse, mesmo que ninguém as encontrasse, eu gritaria contra esta solidão, este silêncio. Esta é a parte estranha da história. Eu nunca fui mansa o suficiente para ficar boiando ao léu, esperando por um milagre.

Quase sempre estou alegre ou triste, estressada ou eufórica, nunca neutra. E obviamente, esta neutralidade me mata de tédio, o que me fez questionar a noção de felicidade. Às vezes não estamos felizes ou infelizes, apenas estamos, boiando em alto-mar. Lembrei-me do filme do Jabor, A Suprema Felicidade. "Não dá pra ser feliz, no máximo dá pra ser alegre", diz o personagem do Marco Nanini (em entrevista, o diretor declarou que esta frase saiu da boca de Nelson Rodrigues: a cara dele, um tristonho inveterado).

Engraçado que eu quis escrever sobre este filme, quando assisti a ele, faz um mês, mais ou menos. Não sei se por preguiça, ou por falta de inspiração não o fiz. Na verdade, achei que me pegaria pelo nervo, mas como bem observou minha cara Gazela, faltou alguma coisa, não sei dizer o que. (Depois, li uma entrevista do Arnaldo Jabor, em que ele dizia que ele pensou nesse filme como uma espécie de auto-ajuda, para as pessoas encontrarem a felicidade dentro de si, ou questionarem se de fato há esta tal de Suprema Felicidade. Pensei: está explicado, ficou um pouco superficial. A arte não se explica, não cria propósitos em torno de si. Aliás, o melhor da arte - em todas as linguagens - é que é a única área do conhecimento humano que pode se dar ao luxo de não servir para absolutamente nada, caso queira. O resto é propaganda.)



Mesmo assim, é um filme cheio de imagens e diálogos poéticos sobre coisas que são ao mesmo tempo tão profundas e tão frugais. Ser feliz, amar sem medida, celebrar a vida - será que as pessoas à minha volta ainda se importam com isso? Estou numa idade em que amigos de infância, colegas de escola estão "dormindo de meia para virar burguês" - a adolescência já ficou para trás há algum tempo e a roda não pára de girar: a vida segue aquele roteiro pronto. "E aí, não vai casar? Ter filhos?" "E aí, já comprou seu apartamento, seu carro, sua casa no Guarujá?" Como se a vida fosse só isso. Às vezes me sinto deslocada com essas obrigações - que hoje sei que são puramente hipotéticas, possibilidades apenas. Eu me preocupo com carreira, trabalho, formar um patrimônio mínimo, mas se pensar só nisso, eu enlouqueço. Como disse minha amiga Caroline (Amorzona) uma vez: odeio ver poesia escorrendo pelo ralo. Aliás, na época em que ela disse isso, foi umas das épocas mais estranhamente felizes da minha vida: época de perdas definitivas, de luto, mas havia intensidade, a sensibilidade estava à flor da pele. Hoje, aparentemente estou bem melhor, mas este gosto de café morno me retorce por dentro.

Aí é que está: nem todo mundo tem a obrigação de ser como sou, romântica incorrigível que eternamente vê a vida como um espetáculo de vaudeville, kitsch, carregado nas tintas. Acho que a garota que vivia tudo e qualquer coisa em intensidade máxima está virando uma velha tola. Pensar nesta possibilidade me deixou um pouco triste, de ter que se adaptar aos novos tempos. Como fazer isso sem trair minha essência?

É melhor ser alegre que ser triste, disse o Poetinha, mas essa tristura me fez bem. Felicidade permanente é neurose. "Eu não tenho a obrigação moral de feliz", sempre bradou meu bufão. Esta tristurinha me lembrou o fato que não dá para ficar esperando tudo dos outros, colocar sua vida no saquinho, entregar e esperar que o mundo nos faça felizes, principalmente quando a gente se esconde dele, como eu estava fazendo. Uma hora eu pulo desse bote e saio nadando.

Toda este papo 'We are the world' me fez lembrar Beatles. Então fica de presente de Natal para minha parca seleta audiência e para todos que me ajudaram a chegar essa conclusão tão simples: All you need is love.




Love is the greatest thing that we have!

domingo, 12 de setembro de 2010

Solidão

Estou feliz, de uma maneira bem diferente. Primeiro porque descobri que o engarrafamento que peguei no meio do feriado que me fez perder a peça que assistiria em Santos foi providencial. O tempo estava frio, chuvoso, um tanto melancólico, e eu, com a sensação de que não tinha mais muita coisa a dizer e de tanto ler Morte e Vida Severina, quase cheguei a crer que era hora de pular fora da vida. Hoje o tempo está uma delícia, a estrada livre, cheguei aqui numa boa e estou texticulando à beira-mar. Parece que eu vivo de segundas chances.

A única coisa que estraga um pouco é que estou só aqui e o engraçado disso é que escolhi esta solidão. Não quis pedir licença para fazer o que me deu vontade e a obrigação de estar acompanhada me parecia pedir esta licença. Então, mas que nada, sai da minha frente que eu quero passar.

Acho que nunca fui livre de fato. A vida do ser humano é uma eterna prisão e ela tem varios nomes ao longo da vida: sociedade, escola, família, casamento. Nunca me rebelei contra elas, até aceitei as algemas de bom grado. Acontece que em algum ponto da minha vida este projeto se perdeu e como cachorro que caiu da mudança, me vi nessa busca pela liberdade mais verdadeira que o ser humano pode experimentar. Patético é não saber o que fazer com ela. Eu não sabia. Resolvi fazer nada ou talvez um textículo, com uma breve parada para ver o pôr-do-sol se finar de vez.

Eta vida besta, meu Deus!

domingo, 15 de agosto de 2010

Urbana Legio Omnia Vincit

Dedicado à minha irmã Renata

1980 e alguma coisa, com 5 ou 6 anos, uma música tocava na rádio e frases soltas ficavam ecoando, dançando na minha mente. Falava de pais, filhos, de amar sem amanhã. Não consigo precisar quanto tempo isso me consumiu, mas eu já estava impressionada com a letra e nem sabia disso.

Anos depois, a professora de português da 8ª série leva logo esta música para a gente analisar! Professora Miyoko, gente boníssima, me emprestou o CD, a essa altura eu já era fã da banda. No ônibus, lendo o encarte, um garoto mais ou menos da mesma idade me aborda: "Ei, você é fã de Legião?"

"Fã? Não. Doente. D-o-e-n-t-e!"

Ficamos amigos: ele tinha banda, eu escrevia. Dois roqueirinhos deslocados em salas lotadas de gente besta e insensível, cada um na sua escola, eu estudando no Derville, ele no Cedom. A gente passou a pegar o mesmo ônibus, depois, perdemos contato e nos reencontramos um ano depois, eu acho. Rolou uma paixonite aguda adolescente, lógico. Meio torta, enviesada. Como conseguir gostar de dois ao mesmo tempo? "Flávia, tô com medo. Longe de você, tenho medo de mim mesmo." Respondi: "Sete Cidades!" Foi o único beijo. "Se eu ao menos conseguisse me salvar, Lu... Não tenho como ser sua heroína..." Depois ele sumiu, como se tivesse sido somente uma viagem minha.

Meu Deus, são tantas lembranças!  Essa banda passou feito um rolo compressor pela minha vida, e sei que não sou a única. O dia em que o Renato morreu eu tenho inteiro na minha mente. Dois dias antes do meu aniversário de 14 anos, de manhã, eu tinha ido ao shopping escolher meu presente de aniversário, um tênis - em tempos de dureza extrema, usei até o bicho se desintegrar. Chegamos em casa, ouvi a notícia no rádio. "O quê??????" (Lembrem-se, ninguém sabia que ele estava doente.) Fui para escola de cara amarrada, o Gil, meu amigo, com a mesma cara. "Com tanta porcaria, morrer logo ele! Que merda!" Peguei o ônibus, mais que rápido para dar tempo de ver o Jornal Nacional. Só estava a Cris em casa, ela nem tinha se casado. No dia do meu aniversário, todo mundo aqui, até o padre legiãomaníaco que tinha acabado de chegar na paróquia. Todo mundo meio passado, cantamos Perfeição. Estranho, os bons morrem antes.

Durante a minha fase de perda de identidade, parei de ouvir Legião, sem deixar de gostar, claro. Voltei a ouvir em 2007, aninho desgraçado, cheio de perdas. E fui recuperar logo essa parte da minha vida! Comprei o primeiro álbum da Legião, o meu preferido, 10 conto nas Americanas. Sorvi no volume máximo, como sempre Dado, Bonfá e Renato recomendaram. O especial de TV Por Toda a Minha Vida do Renato também foi um marco na minha história, porque tomei consciência dos sonhos parados no meio do caminho, de que precisava voltar à minha essência, a ser aquilo que eu sempre gostei de ser. Para que ser certinha, se gosto da perturbação? Ver a Aninha, Chiquinho, Tio Nico e Seu Fernando partindo cedo demais aumentou meu desepero. Não temos tempo a perder. Se parar pra pensar, na verdade, não há. Ruuuuuuuuuuuuuuun, Forrest, ruuuuuuuuuuuuun! Não cheguei, mas tô correndo.



Semana passada, Gazela chamou a gente para assistir ao monólogo Renato Russo, em cartaz desde 2006. Como gostei da atuação do Bruce Gomslevsky no especial de TV - ele não interpreta, praticamente recebe a entidade, além do que ele naturalmente se parece muito com o Renato -  fui achando que era tiro certeiro, como bala que já cheira a sangue. De fato, foi, mas ainda havia surpresas. As soluções cênicas para resumir em duas horas uma vida de 36 anos controversa, cheia de poesia, conflitos e descobertas foram brilhantes e a produção é irretocável.

Não é só nostalgia. Legião Urbana e Renato Russo não fazem parte do meu passado. Fazem parte do meu DNA, até o fundo do osso. Ver a peça só fez aumentar essa certeza.

I´ve got you under my skin, Renato. Always, always, always. Forever.

Urbana Legio Omnia Vincit!


Ps: Renata, essa é pra você, minha irmã: UrbanaLegio...GiovannaBaby????? Kkkkkkkkkkk...

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Raro caso de abdução

Fui abduzida. Totalmente retirada deste universo, durante os aproximadamente 7 minutos da Ária das Bachianas Brasileiras nº5, a Cantilena, na voz de Bidu Sayão. Engraçado, que abduções musicais raramente me acontecem com a música chamada erudita ou orquestral, pelo menos com gravações. (Sempre achei que nada substitui assistir uma boa orquestra ao vivo, se você estiver numa sala de concertos de acústica formidável como a São Paulo, é capaz de sentir a vibração da música até nos ossos, é uma experiência transcendental para quem ama música e a escuta até pelo fígado, como eu. E existe gente assim aos montes, felizmente.)





Mas estamos falando de Villa-Lobos, então essa discussão sobre ser ou não música erudita, de concerto, o que seja, é pura bobagem. A obra que ele deixou não conhece fronteiras entre popular e erudito, virou até lugar-comum dizer isso. Conheço ainda pouco sua obra - muito aquém do que todo brasileiro devia conhecer até de trás pra frente - e até então admirava, mas já não admiro mais. Hoje, passei a amá-la. Também, como todo brasileiro poderia amá-la, do fundo da alma, de verdade, caso conhecesse com propriedade.

É incrível como poucas pessoas sabem de fato quem foi esse compositor brasileiro admirado e executado em todo o mundo. Como já observou o caro colega ex-famosp, dar o nome de Villa-Lobos, para parques e shoppings é pouco e 50 anos após a sua morte, sua obra sequer foi catalogada ainda.

Pelo menos eu estou fazendo minha parte de professorinha de Artes. Passei a semana lendo o Crianças Famosas do Villa para a molecada das quartas séries. E está fazendo sucesso. A primeira pergunta - Prô, tem a ver com o Parque Villa-Lobos? Fazer esta associação já é um começo. Quisera eu ter ouvido Villa ainda criança e na escola!

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

The Cranberries

São Paulo me recebeu com chuva. Percebi que estava entrando na cidade quando o avião entrou por um amontoado de nuvens, como se estivesse mergulhando em algodão. Sorri e falei para Terra da Garoa: "Sabia que você não me daria trégua! Mas não tô nem aí, estou aqui de novo!!" Desembarquei no Congonhas pronta para outra. Tinha um encontro com o lendário ano de 1997, ano em que descobria, entre uma confusão e outra, a mim mesma e The Cranberries.

Quem me apresentou The Cranberries foi meu amigão da sétima e oitava série, o Gilson, tão louco por música quanto eu, apesar das diferenças - eu estava moldando minha personalidade à base de rock n´roll e ele, adorava pop. Ele me apresentou o terceiro album da banda, To The Faithful Departed. E eu fiquei louca por Salvation, Free to Decide e depois as mais antigas e conhecidas: Linger, Ode to my Family, Zombie.

Essa minha turminha do Derville era engraçada. Não estávamos nem aí para os "populares", os aborrescentes que faziam a maior força para mostrar que já eram adultos. Éramos bem crianções, a gente vivia rindo, brincando e cantando. Alanis Morissette, No Doubt (a banda preferida do Forrest, rsrs) e até Spice Girls estavam no nosso repertório. Direto e reto cantando, parecia até musical da Metro.

Esta era acabou quando concluímos o Ensino Fundamental, quando só eu consegui passar para o curso de Mercadô e a Isabel para o de Magistério. Fiquei totalmente órfã destes malucos e dos nossos dias de Família Do-Re-Mi. Minha vida foi por outro rumo e este tempo ficou perdido nas ruínas da memória. Até sexta passada, pelo menos.

O show do The Cranberries - pela primeira vez no Brasil, ora essa! - funcionou como uma máquina do tempo, para mim e para todos que estavam lá, eu aposto. Quando tocou Salvation, quase no fim do show, nem precisei fechar os olhos para ver o Splash sacolejando em volta de mim, toda vez em que eu comprava uma ficha na Jukebox que havia por lá só para ouvir essa música e sair pulando pelo bar, catarticamente.

Eles fizeram um show seguro, afinal trata-se de uma banda com uma coleção de hits para escolher e para mim, nenhum ficou de fora. Salvation, Zombie e Ridiculous Thoughts na sequência quase me mata do coração! Como bem observaram algumas resenhas que eu li, eles fizeram um retrato da década de 90, o único album dos 2000 foi lembrado em somente uma música. E todas foram cantadas pelo público, palavra por palavra. Os hits e as obscuras. As lentas e as agitadas. As alegres e as soturnas. Todas.

Eu sempre disse que tenho bronca de bandas que vêm ao Brasil depois de mil anos em turnês caça-níqueis, mas sinceramente, não creio que seja o caso do The Cranberries. Se fosse assim, Dolores e sua trupe não fariam um show tão cheio de alma e vigor, como este, que emocionou pra valer todos os neo-tiozinhos que estavam lá, inclusive a professorinha fazedora de textículos aqui.

Ela prometeu voltar, espero que, dessa vez, com um novo álbum do The Cranberries. Porque todo este retorno ao passado para mim se presta apenas a um sorriso por saber que eu era feliz, e sabia, como tenho sido hoje. Eu quero é mais, nosso tempo é agora.

Só senti falta mesmo de uma coisa: Gil, você não estava lá!!! Onde você foi parar, cabra???

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Natal Tropical

Eu sei, ando consumista, frugal, mundana, quase fútil. E se eu dissesse que sinto alguma culpa nisso, é mentira. Li um texto - bem inteligente, por sinal - de um ex-famosp defendendo seu desprezo por essa época do ano. Aí fiquei pensando se eu também odeio o Natal ou não. A loucura reinante no comércio e nas ruas é desesperadora, disso eu também não gosto. (Eu ando perua e gastona, mas não boto a culpa no Natal, saca?) Assim como o caro colega, eu também tenho verdadeiro pa-vor de músicas natalinas, isso vem dos tempos em que eu cantava em coral, os ensaios começavam em agosto e quando chegava dezembro, eu já estava de saco mais cheio desse repertório que o do próprio Santa Claus. Se eu escuto um cavaquinho tocando Jingle Bells na rua, eu já começo a tremer. Também detesto os clichês europeus dessa época do ano. Todo mundo derretendo de calor e a decoração de Natal cheia de neve, renas, Pólo Norte, que agora, mais do nunca, está ficando datado, Cop15 que o diga! Nunca acreditei em Papai Noel, meus pais me fizeram esse favor. Logo, o que resta do Natal tradicionalmente celebrado?

Depois de tanta elucubração inútil, eu descobri que a-do-ro o Natal! Os clichês não estragam a minha festa. O único que impera e que eu felizmente gosto, é que festejos natalinos, mesmo para quem o comemora de uma maneira pagã - quer dizer, todo mundo, praticamente - tem cara de família. Se ela não vai bem, alguém querido foi embora ou ainda, se não liga muito para festa de fim de ano, realmente, Natal não faz muito sentido mesmo. Como a minha família é de comercial de margarina com um toque de maluquice à la Grande Família, os meus natais são divertidíssimos! E além do aniversariante tradicional, a minha irmã mais velha também completa primaveras, no caso dela, verões. Diz ela que fazer aniversário no mesmo dia de uma celebridade tão proeminente é meio chato, mas é intriga da oposição. Invariavelmente, a família toda está com ela no dia do seu aniversário.

Esta época do ano é corrida, é cansativa, mas eu adoro final de ano. Não há coisa melhor que encaixotar os diários de classe e se mandar pro playground! Não me bate nem um pouco de depressão: nos anos ruins, a gente manda o ano velho para a pqp. E quando acaba um bom, como este - apesar de toda a ralação - eu quero é mais! O cheiro quente de dezembro me deixa feliz e esperançosa.

Então, para quem gosta, para quem não gosta, para quem quer ficar em casa lendo um livro ou enchendo a cara de Cidra Cereser, para quem acredita ou não, um Feliz Natal Tropical, porque esse é o verdadeiro! See ya!


sábado, 5 de dezembro de 2009

Aprendendo a amar vol. 4 - A Máquina do Tempo ***Centésima postagem!***

Há algumas semanas, a professorinha recebeu de uma grande amiga uma verdadeira herança dada em vida - seu acervo de fitas cassete. Ela não tinha mais onde tocá-las, e viu que a professorinha ainda tinha um aparelho de som capaz de tocar essas preciosidades. Perguntou se poderia levá-las à casa da professorinha, que disse: "Manda aí!", sem saber o tamanho do tesouro. Quilos e mais quilos de fitas cassetes em maletinhas de pano, típicas dos anos 1990. "Meu Deus, que eu vou fazer com tudo isso?!" A professorinha tomou como base para calcular o tamanho do acervo de sua amiga o seu próprio acervo de cassetes, que se resume a apenas uma caixinha. Esqueceu-se que a amiga sempre foi exagerada em tudo.

Era tarde pra recusar, e ficou com o trambolho. Nem abriu as maletas, para não cair em desespero. Ficaram jogadas em um canto por uns dias, até que a professorinha tomasse uma decisão. Jamais as jogaria fora, sabia que lá estava a trilha sonora de uma vida inteira, sem contar as raridades que a amiga tinha. Um dia depois do trabalho a professorinha, abriu o baú de Jack Sparrow Dee: duas maletas com gothic rock e new wave, de corte oitentista, mais três de corte sessentista, cheia de Jovem Guarda, rockabilly, doo wop e surf music. Abriu uma por uma, revirou todas para ver se estavam nomeadas e viu seu desespero aumentar. Aquele acervo era indissiociável, aquelas fitas estavam condenadas a ficarem sempre juntas. Eram de um tempo pré CD-R e pré-download, quando os amigos trocavam músicas emprestando vinis e CD´s e gravando em fita cassete suas próprias coletâneas. Sem Napster, iTunes, e ameaças de inferno e purgatório para quem faz download ilegal. A professorinha tinha certeza que seus alunos não conheciam essa Era. Um dia, ela entrou na sala de aula com uma bolsa no formato de uma fita cassete, e um aluno perguntou: "Que é isso na sua bolsa, Prô?", e a jovem professorinha se sentiu um pterodáctilo. Cogitou até usar botox depois dessa.

Na última semana de aula, quando não haviam mais aulas de fato e o poder ultrajovem andava incontrolável pelos corredores, a professorinha estava de papo com uma aluna que amava música tanto quanto ela, falando de bandas novas e antigas, estilos, álbuns, coisa rara de se acontecer. Um duende soprou no seu ouvido e lá pelas tantas, ela perguntou para a aluna se ela tinha onde tocar fitas cassete. Como a aluna disse que sim, ela ofereceu a ela a porção gothic rock do tesouro herdado. Com certeza, ela saberia dar valor às raridades, a garota tem uma maturidade intelectual invejável. O que não a impediu de sorrir feito criança contente com a oferta.

No dia seguinte, a professorinha subiu para sala com uma das maletas recebidas da amiga e um aparelho de som da era cenozóica, disponível para uso em sala de aula. Ligou o som e foi rebobinar as fitas, o que fez ajuntar em volta dela alguns dos alunos mais curiosos. Ficou lá algum tempo conversando com o poder ultrajovem, relembrando histórias da infância e da adolescência, como a vez que, aos quatro anos, rasgou a capa do disco do Menudo das suas irmãs mais velhas e jogou no vaso sanitário gritando "Eu adoro Menudo! Eu adoro Menudo!"; ou quando ia à missa com jeans rasgado e camiseta de caveira para desespero da mãe da professorinha, aos quinze. Os alunos sabiam que a professorinha não era das mais tradicionais, mas ninguém imaginava que ela fosse tão maluca nos bastidores. Riram, e contaram das suas também fora dos muros da escola. Neste instante, o aparelho de som transmutou-se em uma máquina do tempo, que fita por fita, quebrava as barreiras de geração e autoridade, típicas da escola. Progressivamente, iam se esquecendo dos papéis de professora e alunos, para se tornarem o que realmente são: gente. Com história de vida, recordações, preferências, sentimentos. Seria bom se fosse sempre assim.

Quando o sinal tocou, e todos foram pra casa, a professorinha até se animou. Chegou em casa e abriu o baú de Jack Sparrow Dee, pegou o seu Primeiro Gradiente e deu play na primeira fita. Ia ter muito o que ouvir durante as férias.

Para Cássia e Sandra Dee

domingo, 29 de novembro de 2009

Aprendendo a amar vol. 3 - Linha no pipa

Para meus alunos e colegas de trabalho

Os mais antigos ainda acreditam que o professor é um privilegiado - tem três meses de férias por ano! Mentira. Antigamente, em dezembro, o corpo docente das escolas aproveitava a ausência dos alunos dispensados - já se esbaldando de brincar nas ruas desde 30 de novembro - para se afundar numa pilha de diários de classe, provas, trabalhos, livros de atas, relatórios e registros, com os ventiladores quase levantando voo dentro das baias. Quando o trabalho útil e inútil acabava, cogitava-se jogar Uno e comprar sorvetes no atacado até dar o dia da abolição da escravatura, dia em que todo mundo (ou quase) se mandava para a Praia Grande. Mais fácil do que encontrar uma água-viva no Boqueirão, era encontrar por lá um aluno desavisado querendo te entregar trabalho.

Isso, entretanto, acontecia em outros tempos. Agora, os engabinetados alimentam a ilusão que pode-se sustentar as aulas até 22 de dezembro, mantendo o gado confinado até o dia do abate. E ai do professor que dispensar antes por conta, vai para a panela também. Quem diria, o Natal se aproxima e os perus somos nós, com um gume afiado apontando para as nossas fuças.

Sorte nossa que o poder ultrajovem não é nada bobo. Eles sabem que desperdiçar o cheiro quente de dezembro é um verdadeiro sacrilégio. A professorinha até sorriu escondido quando viu seus alunos assinando camisetas no pátio: melhor que isso só vai ser avistar a primeira pipa subindo no céu. Sinal de que as férias já chegaram, à revelia dos engabinetados.


terça-feira, 6 de outubro de 2009

Rain Down - Eu tavu lá!

Está na Rolling Stone brasileira de abril, na seção de resenhas: o show do Radiohead em São Paulo deste ano foi alçado a categoria de clássico. Essa edição, com a cara do Kurt Cobain, por mim alçada a categoria de clássico também, já virou relíquia. Resolvi guardar, afinal, como sabem, eu nunca acreditei muito que estive no Just a Fest, e isso não é uma frase de efeito. É como se eu tivesse sido teleportada, abduzida, algo assim. É sério, gente!

Não acreditei até domingo retrasado, quando ganhei da única futura autoridade* em Radiohead do Brasil (quiçá do mundo) um DVD com o sugestivo nome de Rain Down, feito por um outro cabeça-de-rádio, provavelmente tão louco pela banda quanto o Vizinho Intergaláctico.

A ideia só poderia ter vindo de um fã de Radiohead. O cara coletou vídeos de câmeras fotográficas e celulares feitos pelo público no show, editou e colocou o áudio original da mesa de som, que acabou vazando na Internet e dias depois, ele disponibilizou o vídeo do Just a Fest reconstituído fielmente para quem quiser copiar na rede, desde que ele não seja comercializado e que sejam citados os créditos do seu minucioso trabalho, feito num PC que, pelo jeito, era tão ou mais tosco que este que eu uso para me comunicar com a Seleta Audiência agora-now-neste-instante.

O resultado é uma loucura, porque a atmosfera do show está toda lá, a energia. Um trabalho profissional pode ter um resultado asséptico, sem gosto. A desvantagem de um video "caseiro" talvez fosse uma coisa meio frankestein, sem pé nem cabeça, mas não foi isso que eu vi. Ele soube tirar o melhor de cada video que ele coletou e a reconstituição do show é supercoerente.

Entendi o que realmente é um deja-vù. Quando coloquei o DVD no meu aparelho, a vinheta já me deu arrepios. Afinal, é muito difícil reviver uma situação integralmente, só com um vídeo ou uma foto. Forrest já tinha me alertado que alguns momentos do video seriam incríveis e não aguentei. Pulei para Karma Police, que foi um dos pontos altos do show, e meu também. Foi quando eu desencanei: "Meu, você está aqui! O que mais você quer?" Uma verdadeira epifania. Para mim, o show começou ali. Quando vi o video, só não chorei pra valer porque eu sou durona, mas bem que eu senti os olhos marejarem. Choreeeeeeeeeeeeeeeeeeei em Karma Police!

E foi seguindo assim, pelo vídeo inteiro. Música por música. Espertamente, ele manteve o áudio original em momentos-chave do show. Fiz bem em ter me conformado de ter visto um Thom Yorke do tamanho de um Playmobil. Eu ouvi, senti, participei e quanto a ver, deixei para alguns meses mais tarde, quase sem querer. Foi uma pena não ter podido ver lá, mas graças ao Andrews Ferreira Guedis e meu Vizinhíssimo, eu vi o show refestelada no sofá com minha colcha de chenile pré-histórica preferida. Tudo bem que no show de verdade não tinha mãe falando de geladeira em promoção, mas também não dá para se ter tudo nessa vida ao mesmo tempo, não?

Agora eu acredito de verdade que eu estive no Just a Fest em março deste ano. Copiando descaradamente o Oráculo de ZÉlfos, eu encho os pulmões e exclamo num ruído luminoso, alto e claro para quem quer que seja: Eu tavu lá!


Ps.: As imagens não carecem de créditos. Meu celular também estava em ação aquele dia. :-P

domingo, 20 de setembro de 2009

Pedra que rola não cria limo - A Revanche

Dessa vez não fiquei só na catarse, a jornada da heroína cômica Georgia não me foi suficiente. Ontem, saí à caça do meu kefi, do qual sempre tive a absoluta certeza da existência, só que ele andava meio perdidinho. Encontrei num lugar que eu nunca fui, ora que coisa.

Boa música e pessoas dispostas a se conhecer. Nunca tinha conversado com tanta gente assim, sem interesses prévios, sem a obrigatoriedade de "pontuar" na balada. Isso não é efeito do álcool: lugar chato com gente chata, não há absinto que salve. E cheguei em casa com a certeza: esta sou eu. Chega daquela Flávia insegura e perdida.

De primeira não gostei do lugar, achei que estava arrumada demais para o rolê em questão. Relaxei quando pensei: o lugar chama-se Sarajevo, teria algo de errado se fosse arrumado demais. E outra, eu é que estava pagando de pequeno-burguesa, sendo que não passo de uma proletária (com algum verniz, mas ainda assim proletária). Depois fui vendo que o fato do lugar ser um ovo, faz com que as pessoas fiquem mais próximas e dá pra conversar, o som não é insuportavelmente alto.

Começa o show da Soul Train. Puta merda, Dom Paulinho Lima toca bateria e faz scat singing ao mesmo tempo! Musicalmente gozante. Mais uma vez o fato do lugar ser pequeno favoreceu. Estava praticamente no palco, de tão apertada que era a pista. O clima quente e fumegante fica perfeito com a música, totalmente funky, sexy. E eu lá, requebrando feito uma negona do Bronx. Saí de lá com a impressão de ter nascido com a cor errada. Já virando abóbora, de maquiagem borrada, ainda tive pique de puxar conversa com os caras da banda na porta da balada. E conheci outro batera por lá, conversamos, raçãowhiskasblablablá... deixa essa para outro textículo.



Voltarei lá, com certeza. Mas fiz questão de não esquecer de pegar meu kefi de volta e guardar na bolsa antes de ir pra casa, com a doce certeza que jamais vou perdê-lo novamente. Desci pro play e vou brincar. Sempre.