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domingo, 22 de novembro de 2009

Strange Fruit - Chapter Two

Há algum tempo atrás ouvi uma doutora em antropologia pela UNESP, da qual só lembro o primeiro nome - Berenice, dizer que a miscigenação brasileira foi estratégia de dominação por parte do colonizador. O mestiço que surgiu da união dos portugueses com indígenas não era filho legítimo deste europeu, logo não tomaria parte do poder do colonizador, mas também não era mais um nativo para lutar contra o domínio imposto de fora. O jeito que me refiro a isso é simplista e até meio sentimental, porque na verdade o colonizador casava com mulheres indígenas com a anuência dos líderes das nações indígenas, para se tornar parte daquele povo e dizimar indígenas de outras nações. Ou seja, o nativo participou ativamente desse processo de miscigenação, por meio de alianças políticas que também interessavam a eles. E assim nasceu a nossa Nação de Vira-latas.

Hoje esse traço misturado do povo brasileiro é celebrado, eu mesma bem gosto de ter nascido com essa tara*. Depois de muito tempo, porém, fui perceber como a misturada rendeu formas peculiares de discriminação. Como eu já disse, não nos reconhecemos pela "raça", pelo sangue - até tentaram, havia aquela papagaiada de dizer que fulano era um "Quatrocentão", sendo que a origem desses fazendeiros paulistas era exatamente a que eu descrevi no parágrafo anterior, com o sangue índio misturado ao português. Então o que sobra é a cor da pele para se reconhecer.

Vi isso claramente há algumas semanas atrás. Na sala de informática, Bethinha, professora de inglês, mostrava fotos e vídeos de Marthin Luther King para nossos alunos de sétima série, para montar uma encenação e eu estava lá, de xereta. Ao ver as fotos de Rosa Parks, que tinha um tom de pele um pouco mais claro, os alunos teimavam em dizer que ela não era negra, e eu tentando explicar que para o estadunidense não existe meio termo (até Michael Jackson foi de negro a branco praticamente sem escala), que para eles não existe mulato, moreno cor-de-jambo, moreno café-com-leite, moreno isso, moreno aquilo, isso é coisa de brasileiro. Até quando uma aluna negra e muito bonita diz: "Se ela é negra, sou o que? Carvão?" Aí, perdi a pose, caí na risada. "Morena cor-de-disco, que tal?"

E nesta última semana, trocando figurinhas com Bethinha, fui mostrar para ela Billie Holiday cantando Strange Fruit, marco na história da música por ter sido a primeira canção que falava abertamente sobre a situação de preconceito racial nos Estados Unidos e eu acabei por descobrir coisas sobre esta canção que nem eu mesma sabia. A letra foi escrita com base em uma foto que retrata a cena mais horrorosa que eu já vi na minha vida, por isso nem me atrevo a colá-la aqui . Ninguém faz ideia do pavor que sinto só em escrever sobre ela, em ter que lembrar e tremo só de pensar que aquilo foi real. A intertextualidade entre a cena, a poesia da letra e a interpretação doída da Lady Day é perfeita.




Até se cantasse Atirei o Pau no Gato, essa mulher cantaria com todo o seu ser a dor do gato atingido. Strange Fruit, porém é a mais pungente de todas e mesmo sem saber inglês, percebe-se que ela não está falando de uma fossa habitual, o sentimento com que ela canta é indescritível com palavras, toda a dor do mundo está ali.

O resto da história está bem contada no link. Sugiro que todos cliquem e leiam atentamente, não só os corajosos e curiosos, porque é bom uma dose de realidade de vez em quando. É bom saber que gente da mesma espécie que nós, organicamente igual a você e a mim, foi capaz de cometer aquela crueldade , e nunca mais se esquecer, para que isso jamais se repita. E olha que não é difícil.

"A gente não sabia que não era um índio, a gente pensou que era um mendingo!" (1997)

Miserere nobis, Domini.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Estranhos Frutos - Parte I

Hoje é dia da Consciência Negra. Eu sou branca, e tenho pais e avós brancos também, mas como são todos brasileiros, eu diria que isso não significa absolutamente nada. Minha bisavó, mãe do meu avô paterno era negra, e ele saiu galego, como se diz lá nas Paraíba, puxando meu bisavô. Minha mãe, a cara do meu avô, é branca, de olhos verdes. De parte de pai, minha bisavó, mãe da minha avó, era mistura de cafuzo (mestiça de índio com negro) com um alemão. Logo, como boa brasileira, sou vira-lata, não tenho raça. Graças a Deus.

A gente se ilude com esta miscigenação toda, há quem pense que o preconceito racial está progressivamente ficando para trás no nosso país, por conta de algumas ações afirmativas e pela ascenção do negro na mídia, a valorização da beleza negra e a celebração do politicamente correto. (Corre pelo mundo uma piadinha de mau-gosto que com isso, até as lendas brasileiras mudaram. Saci-Pererê teria se tornado "Afro-descendente com necessidades especiais". Ficou mais polido, óbvio, mas não deixo de pensar que assim ele perdeu seu charme sapeca.)

Taís Araújo como protagonista de novela das nove da Globo, por exemplo, dividiu opiniões. Nem sei porque, ela já foi protagonista em Da Cor do Pecado. Mas quando ela apareceu em novela do Manuel Carlos, fiquei em dúvida. Justamente um autor que, novela após novela, recria sua versão de mundinho perfeito, onde todas as protagonistas são Helenas, todas as cidades são Rio de Janeiro - porém, todos os bairros são Leblon, todos os doutores são Moretti e todas as canções são bossa nova. Parecia positivo que neste contexto pequeno-burguês aparecesse uma mulher negra, belíssima e bem-sucedida no mundo da moda e não em um papel de empregada que dá pitaco na vida da patroa à torto e à direita, dando a falsa impressão de que Casa Grande e Senzala se dão muito bem por aqui. Não poderia acreditar nessa ideia de cara porque a Rede Globo dá com uma das mãos e retira com a outra. Bingo. Tive a confirmação nessa semana. Bem que Bia Abramo já tinha avisado: o teledramaturgo gosta de fazer mulher apanhar em suas novelas e se elas mesmas se estapearem, melhor ainda.




O discurso de Tereza é odioso: primeiro ela joga nas costas de Helena uma responsabilidade que seria dela, de aguentar e entender pacientemente os pitis da garota mimada, resultado da educação que ela e então marido deixaram de dar para a filha, pelo menos enquanto durasse a viagem que as duas fariam. Depois, lá pelas tantas, ela diz para Helena: "Você não teve tudo o que quis? Não chegou ao topo do mundo da moda, mesmo sendo negra? Não se casou com um homem rico? Para você não é o suficiente?" Lembrando que a desgraceira teria acontecido por causa de um aborto que Helena teria feito no início de sua carreira.

Fica claro nesse discurso como funciona o preconceito racial em terras tupiniquins: multifacetado, mutante, líquido. Primeiro que a maioria das pessoas ignora a tal da miscigenação, só enxerga o tom de pele, o externo. Tanto que a discriminação aumenta com a quantidade de melanina que se carrega na tez, como bem observou Zulu Araújo, em entrevista ao Roda Viva (TV Cultura) da última segunda-feira, no mesmo dia da cena de dramalhão global.



Ele também observou que a sociedade brasileira não é totalmente racista, mas que a elite econômica e midiática ainda o é. Logo, não há meios de sair coisa boa da Globo colocando protagonistas negras em suas novelas, porque isso de maneira nenhuma acaba com o preconceito racial no Brasil: só faz perpetuá-lo, e o que é pior, engendrando uma falsa aura de politicamente correto, para deixar todo mundo bem contente, babando em frente a TV de plasma nova, comprada na liquidação. Estranhos frutos da colonização.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Piadinhas...

1 - Sobre a bem-sucedida domesticação das futuras gerações:

O menino, junto com a mãe, para em frente a uma barraca de DVD´s e pergunta: "Você também tem original?" O camelô responde: "Não, só genérico!"

... Depois encontrei o mesmo menino no shopping checando seu Orkut numa Lan House.

2 - Sobre persuasivos vendedores metidos a espirituosos:

O vendedor de livros para em frente à moça, no meio da Paulista. Ela achou que ele ia pedir fogo, mas não. Faz a estupÍenda pergunta: "Você sabe qual a diferença entre corpo e alma?" "Não", responde a moça já tomando o caminho da roça. "A resposta está neste livro..." Ela hesita e para outra vez: "É de graça?". "Não, é de papel." "Ah! Então não quero!"

...E a moça vai embora, dando uma bela tragada no seu cigarro fedorento.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Smells like a gunpowder spirit


Na última quarta-feira, a Seleta Audiência pode ter ouvido falar que, em uma escola municipal da Zona Norte de São Paulo, um aluno de 14 anos atirou acidentalmente em sua colega com revólver calibre 38 cano longo. É uma tendência nossa acreditar que isso pode acontecer em qualquer lugar, nunca perto da gente. Pois é, Seleta Audiência, até o ano passado, eu trabalhei nessa escola. E mais: tenho uma leitora de textículos trabalhando lá agora e que estava na sala ao lado quando isso aconteceu. Por muito pouco teria sido ela a professora a estar naquela sala na hora do ocorrido.

Todo mundo acha um absurdo, todo mundo se pergunta onde vamos parar assim, e principalmente, coloca a culpa na direção e no corpo docente da escola, como vi pela TV. O mané-pipoca do Percival de Souza falou naquele 'espreme-sai-sangue' do Cidade Alerta que isso era falha da direção da escola. E a gente tem direito de revistar mochila de aluno por um acaso, Sr. Especialista em Generalidades?


Ano passado, em outra escola em que trabalho, eu vi, ouvi e cheirei uma bomba no corredor bem na volta do intervalo. A confusão foi tanta que me perguntei se estava na Faixa de Gaza e cogitei mudar o patrono da escola para "Bin Laden". Naquela época já fiquei atordoada, me perguntando com que tipo de gente eu estava lidando. Imagine hoje, ao saber que por pouco não tomei uns pipocos, se tivesse continuado naquela escola da prefeitura, isso sem contar a Bozonifácia, que acompanhou tudo de perto.


Certa vez, na minha sala de aula, um colega trouxe uma arma, só que era de brinquedo e a munição de chumbinho. Ainda assim, a professora ficou desesperada: "Menino, me dá essa arma!"


"Mas professora, é de brinquedo!" E a professora: "Claro que não é, menino, já estou sentindo o cheiro da pólvora, me dá isso!"


Depois dessa frase, a prô perdeu o respeito, a sala desabou a rir. Se não tinha nem munição, que dirá pólvora pra ter cheiro?


Imagino o desespero da minha ex-professora, hoje colega de profissão, mas não deixa de ser engraçado o pânico da pobre com aquele 'treisoitinho' em cima da carteira do meu colega. Se ela estivesse no lugar da Bozonifácia, ela cairia dura. Renata, que mal teve tempo de sentir o cheiro da pólvora, teve que sentir também o legítimo cheiro de sangue, afinal o tiro acertou o joelho da infeliz que fez o favor de ficar perto de um zé-ruela armado sabe-Deus-porquê.


Por essas e outras começo a achar românticos estes anos 90. As pequenas transgressões - como uma arma de chumbinho - tinham graça. Porque, para mim, esta notícia não é nem um pouco engraçada, assim como os ares de Mcgyver que ganhou o Magistério contemporâneo. Não tem graça nenhuma, Duley.


*Por razões óbvias troquei a imagem original por uma foto do Kurt com armas: http://media.photobucket.com/image/kurt%20cobain%20with%20guns/afewrandomdrunks/Kurt_20Cobain_20Gun.jpg

terça-feira, 10 de março de 2009

Estupra, mas não mata

Essa pérola que nomeia este textículo foi proferida não sei há quanto tempo atrás, pelo "célebre" político brasileiro Paulo Maluf, hoje deputado federal, e com uma folha corrida de processos* na justiça de dar inveja ao Fernandinho Beira-Mar. Evidentemente, a frase é dar nojo, mas vindo de quem vem, não é de se surpreender, e depois de alguns segundos, ela até pode nos causar risos, só que de desespero. Esta frase também ganhou ares folclóricos, pela tradição que ele criou de frases inglórias como esta e como: "As professoras não são mal pagas, são é mal casadas." e "Se o Pitta não for um bom prefeito, nunca mais votem em mim!"



Maluf dizer isso é uma coisa, um líder religioso dizer a mesma coisa, só que em outras palavras, é outra. Estou falando de Dom José Cardoso Sobrinho, arcebispo de Olinda, que afirmou: "Quem cometer estupro está cometendo um pecado gravíssimo, aqueles que cometem assaltos também, estão cometendo pecados gravíssimos, e a Igreja também os condena. Mas, para estes pecados, a Igreja não prevê a excomunhão. Quem cometeu o aborto é um crime mais grave ainda, porque é tirar a vida de alguém inocente, indefeso", ao defender o fato de ter excomungado os médicos que realizaram o aborto na menina de 9 anos estuprada pelo padastro, grávida de gêmeos, e a mãe da menina também. Trocando em miúdos, estupra, mas não mata.

Sou católica até o osso. Até pouco tempo atrás eu era beata, papa-hóstia, rato de igreja. Só de uma outra cepa. A "minha igreja" é a igreja das CEB´s, da Teologia da Libertação, de bispos progressistas como Dom Paulo Evaristo, Dom Angélico, Dom Pedro Casaldáliga. Para essa gente conservadora que anda rodando por aí, eu sou uma católica comunista.

Mas isso foi em outros tempos, infelizmente, porque hoje o que se vê é um retrocesso cada vez maior. Falo das bases, porque o Vaticano não tem como retroceder, porque nunca avançou um milímetro sequer. Se ainda assim, algo ruim pode se tornar pior, o ultra-conservadorismo da Igreja Católica Apostólica Romana foi coroado quando o cardeal Joseph Ratzinger se tornou Bento XVI. Antes de se tornar papa, o cardeal Ratzinger foi o prefeito da Congregação da Doutrina da Fé, instituição eclesial herdeira da Santa Inquisição, e nesta condição que o ex-combatente do exército nazista impôs um voto de silêncio - ou seja, um cala-boca - no então frade Leonardo Boff, pela sua opção preferencial pelos pobres, acusando-o de comunista, esquecendo-se talvez que era esta a mesma opção do mandachuva desse negócio todo, mais conhecido como Jesus Cristo.

O próprio Leonardo Boff afirmou que os cardeais do Vaticano são como cavaleiros medievais perdidos no tempo, e com razão, porque a postura da Igreja Católica Apostólica Romana de condenar brutalmente aborto e anticoncepção conta mais contra os propósitos da Igreja de conquistar e manter mais adeptos do que a favor. Essas posturas endurecidas estão afastando as pessoas da Igreja e mesmo com o "crescei-vos e multiplicai-vos" a todo vapor, todo este rebanho Divino vai acabar pastando em outras paragens...

Eu não estou a fim de pastar outro capim, mas este caso da excomunhão me deu nojo de ser católica. Sou contra o aborto, não faria um. Mas sou a favor da total legalização do aborto, além dos casos já permitidos, porque estima-se que são feitos em torno de um milhão de abortos ilegais no Brasil. Com a legalização, o Ministério da Saúde teria números exatos e maior controle sobre a situação, o que daria condições de evitar a morte de mulheres que fazem abortos nas condições mais abjetas possíveis. A ideia não é defender a vida?

“Pregar sua doutrina no interior dos templos é um direito legítimo de todos os religiosos. Agora, quando um representante da Igreja Católica Apostólica Romana tenta interferir nas decisões da Justiça, ou faz essas declarações à imprensa, está claramente procurando exercer inapropriada influência pública sobre o Estado laico, construindo um discurso de intolerância e intransigência oposto à idéia de vida que alega defender”, como bem afirmou o movimento feminista. Ou seja, o dileto arcebispo meteu a sua colher onde não foi chamado. A Igreja pode se posicionar politicamente, mas não pode interferir nas decisões do Estado.

Minhas bolas voltam para esquerda, até. A indignação que tomou conta de mim é tamanha que jorro e jorro este textículo - sem condom, pois minha religião não permite - e não consigo concluir, sem contar que por castigo divino, sei lá, perdi quase todo o textículo na hora de finalizá-lo. Não contavam com minha astúcia: minha memória está tinindo. Escrevi tudo outra vez, por pura subversão.

Neste mar de contra-revolução, a onda de retrocessos é tão grande que anda pegando até os "peixes mais anfíbios", como eu*. É tanto caldo de ando tomando, que tô ficando até zonza. Citando Macaco Simão, no país da piada pronta, a gente ri é de tristeza.

Notas 'Inútieis':

* Não existe folha corrida de processos, até onde eu sei, existe pilha. Mas fica a construção poética da coisa, até porque tenho mais medo do Maluf do que do Fernandinho Beira-Mar.

**Esta pérola foi proferida pelo meu batráquio amigo Zé, após me ver tomar um triplo caldo no mar da Big Beach, alegria de todo paulistano que só vê água salgada quando faz macarrão.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Quer saber? Eu vou subir num banquinho e xingar a rainha que eu ganho mais.

Foi-se o tempo em que eu queria mudar o mundo, agora eu quero mudar de mundo. Porque não pode ser possível eu ser da mesma espécie de gente que solta uma bomba no corredor da escola em pleno horário de intervalo ou que ateia fogo em área de Preservação Ambiental em dia de tempo seco. Aliás, estou me perguntando o que estes seres precisam para serem promovidos a categoria de ser humano.

Ficar sabendo desse tipo de coisa já me preocuparia bastante. Presenciar me deixa com vontade de me enforcar no pé-de-salsinha mais próximo. Além dos motivos tradicionais, com questionamentos clichês e vazios do tipo "Onde nós vamos parar assim?", também me preocupa o fato de que esta falta de ordem total é capaz de fazer com que até Mahatma Ghandhi se torne um porco reacionário. É o meu caso.

Primeiro eu acreditava que as pessoas teriam que tirar habilitação para pôr mais gente no mundo. Pensa só: se as pessoas fazem merda no trânsito com habilitação, imagina se não existisse. É só ver no que dá qualquer um ser capaz de copular com uma fêmea, fecundá-la, e esta por sua vez, conceber um novo ser e jogá-lo no mundo. Eu também era a favor da restrição da distribuição de óvulos, até porque a maioria não é usado. E TPM dá um prejuízo do cacete.

Mas isso era antes de querer mudar de mundo. Habilitação para procriar era uma solução progressista, quase de centro-esquerda. Minha porção Stálin acordou e ela acredita que o melhor é esterilização em massa. Já tem gente demais no mundo. Chega. "Você gosta de sexo, meu filho? Então só brinca, sem procriar, por favor! Além do que seu DNA não tem nada de bonito.", ele diria.

Já que tem gente demais no mundo e gente que definitivamente não pensa, o meu Stálin de estimação acha que estes conjuntos de ossos e músculos flácidos podem servir para alguma coisa. Campo de trabalhos forçados, por exemplo. Minha porção Stálin saliva só de imaginar os autores das façanhas relatadas em uma pedreira sem nenhuma sombra, com Sol a pino, preso a uma bola de ferro, quebrando pedras com uma picareta.

Ter minha porção Stálin acordada me entristece. As gerações anteriores lutaram tanto por liberdade, tanto individual quanto política, para que anos depois alguém ateie fogo à uma área remanescente da Mata Atlântica e este seja tratado como "menor infrator". Esse tipo de coisa é capaz de deixar muita gente com saudades da Ditadura Militar.

O mundo padece de estupidez crônica. E acordar Stálin também é estupidez. Até porque esta desordem toda não é originada por falta de leis, ou de leis que não são cumpridas. A própria lei pode provocar a impunidade.

No Inglaterra, a lei é clara: "Não se pode ofender a rainha em solo sagrado". O cara resolveu testar esta lei. Pegou um banquinho, daqueles de alcançar as prateleiras mais altas do armário, foi até um daqueles guardas reais, que nem piscam mesmo que você peide na cara deles. Foi lá, subiu no banquinho e xingou a rainha. O guarda o levou preso. O acusado alegou: "Eu respeitei a lei. É proibido desacatar a rainha em solo sagrado. Eu estava em cima do banco. Este, que estava em solo sagrado, não ofendeu a rainha." O cara foi solto.

Chega. Vou externar a minha indignação, antes que eu entre para a TFP. Vou xingar a rainha em cima do banquinho que eu ganho mais.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Benditos aqueles que desafiam o poder

Enquanto a imprensa tagarela em torno da prisão preventiva do casal bungee-jump-sem-corda, uma notícia se espreme na mídia hoje: a absolvição do mandante do assassinato da Irmã Dorothy Stang, morta em 2005. E isso só aconteceu porque esta notícia deu mais algumas páginas de má fama brasileira na mídia estrangeira. Os conflitos de terra continuam matando muita gente no interior desse país, o pau come na Amazônia e isso não dá noticiário. Alguém aqui conhece Margarida Alves, por exemplo?

Irmã Dorothy tombou pela causa missionária e da Amazônia, disso não há dúvidas. Sua morte, porém, só ganhou repercussão porque seu país de origem era os EUA. É uma constatação meio clichê de teoria da conspiração, mas não consigo ver outra razão para o assassinato da Irmã Dorothy ter sido levado a público na época de sua morte.

O assassino propriamente dito, réu confesso, foi condenado. O mandante também tinha sido, mas recorreu e conseguiu absolvição. Isso é pior que impunidade. Significa que aqui só é assassino só quem mancha suas mãos de sangue. É algo que só posso classificar como nojento.

O que tenho como consolo é a célebre frase de outro mártir, Ernesto Che Guevara: "Podem pisar as flores, mas jamais vão conseguir acabar com a primavera." Outros mártires vão tombar, muitos batismos de sangue haverão de acontecer e ainda assim, haverá primavera.

Além de dar boletim de imprensa, não gosto também de publicar poesia. Ninguém lê ou curte essa joça. Mas creio que a Irmã Dorothy merece:


Novas Bem-Aventuranças

(À Dorothy Stang)


Benditos aqueles que desafiam o poder,

Aqueles que brincam no quintal

em dia de chuva sem medo do resfriado.


Benditos os que não agonizam calados.

Aqueles que gritam, incomodando a gorda vizinhança,

que insiste em não perder a novela.


Kyrie Eleison.

(20/02/05)


...Miserere nobis.


Textículo jorrado em 07/05/2008

Pobre mocinha indefesa

Sou uma pobre mocinha indefesa. Tipo aquelas nas mãos do King Kong gritando "Socorro!", saca?
Percebi isso ontem.
Depois dos fatos, boletim de ocorrência, ligações e mais ligações para bloquear cartões e afins, não lamento nada a não ser o meu direito violado de andar lunaticamente pela rua à noite. Desde que me entendo por gente que volta pra casa sozinha às 11 da noite, faço isso.
Engraçado que só agora li o tal artigo do Luciano Huck sobre seu rolex roubado nos Jardins, que deu aquele pano pra manga imenso há uns seis meses atrás. Não consegui ler a réplica do Férrez. Algum assinante do Uol me manda, por favor?
O mote do tal artigo do Luciano Huck era "Eu sou tão bonzinho. Por que roubaram meu rolex? Sou até presidente de ONG!!", e construiu seus argumentos com questionamentos velhíssimos como "Onde vamos parar assim?", ou, citando Flamingão: "O mundo tá perdido!" (Chu, é o seguinte: tenho pra mim que o mundo não está perdido, ele nasceu perdido.)
Agora que este caso é piada velha e arquivada, acho graça. Porque eu, em situação parecida com a dele e não pela primeira vez - eu já tinha tido um assalto para chamar de meu - não estou nem aí com os bens perdidos, nem quero este papel de vítima que ele fez. (De fato, ele e eu e mais um monte de gente tem este papel na conjuntura dos acontecimentos, mas não quero carregar nas tintas, sabe?)
Além do meu direito de ser lunática violado, lamento também a Lucíola de zebra linda que Ju e Li fizeram só para mim perdida e a constatação do início deste textículo. Não sou a Lara Croft, porra. Sou uma pobre mocinha indefesa. Meeeeeeeeeeerda.
Ps: Antes que me perguntem, está tudo bem. E não tô a fim de passar o BO outra vez.

domingo, 6 de abril de 2008

Sobre João Hélios e Isabelas

A grande mídia é uma grande merda também. Cada dia é um espetáculo novo, e quanto mais sangue e horror, melhor. Será que não saímos do Império Romano? Costumo dizer que o lema do Império Romano sempre foi imcompleto: não é só Pão e Circo para manter o povo quieto, deveria ser "Pão, circo e sangue". Ou então esqueceram de contar que o circo era sangrento. Quem duvida disso é só lembrar que diversão de romano era jogar cristão na arena para os leões, ver dois trogloditas se degladiando até a morte e ainda os mimos, os bisavôs do Happy Tree Friends feito com gente de verdade.
Neste Império Romano e midiático, estão aparecendo aos montes os piores crimes contra crianças e adolescentes. Adolescentes acorrentadas, Isabelas atiradas, João Hélios arrastados. É impossível não se perguntar para que serve a porcaria do ECA e seus respectivos Conselhos Tutelares.
(Essa piada velha eu preciso explicar: no professorado às vezes rola uma impressão, algo que nem sempre é falado abertamente, que o ECA só serve pra tolher o trabalho do professor e para os menores folgados em questão dizer na sua cara que você não pode fazer nada contra eles. "Eu sou dimenor!!!", eles falam. Hahaha, comigo não, violão. Cansei de dizer: "Ah, é? Vai agora no Conselho Tutelar me denunciar, mas vai agora, tá?" Como eles não sabem se isso é de comer, de encaixar ou montar, eles deixam pra lá. Touché!
Baideuéi, preciso explicar também que esta falta de limite deliberada é um perigo, porque é uma porta aberta para cada vez mais e mais regressão. Eu não quero sentir falta da palmatória, até porque, graças ao Barbudão, isso não foi usado comigo. E pasmem vocês: se alguém experimentar pedir a opinião da molecada sobre essa falta de limite na educação deles próprios, vocês vão ver as respostas mais conservadoras, algumas até reacionárias. Fico bege de pensar na possibilidade de meus alunos serem mais caretas que eu.)
Voltando à arena do Coliseu, volta e meia o contrário também ocorre. Um menor comete um crime terrível, e a burra unanimidade começa a discutir se não era hora de reduzir a idade penal, porque o ECA só serve pra proteger bandidos da periculosidade do Champinha, e bláblábláraçãowhiskasblábláblá. A outra parte da unanimidade burra, por sua vez, diz que os coitadinhos não tem culpa, a culpa é da pobreza. É, só se for dos pobres, na cabeça de Veja desse povo. Sérgio Adorno, sociólogo estudioso das questões da violência já afirmou categoricamente: a violência urbana é fruto da riqueza, e não da pobreza.
O que ninguém diz, por falta de informação ou coragem, é que a violência contra nossos jovens, crianças e adolescentes vai além das histórias conhecidas, que o índice de homicídios de tendo jovens como vítimas aumentou assustadoramente nos últimos anos. Vítimas anônimas, as quais ninguém mais chora além de suas mães. Ninguém fala também que, dessas vítimas anônimas, boa parte não estava metida com o tráfico, ou devendo pra eles. Muitos apenas estavam no lugar errado em hora mais errada ainda.
Tudo isso já me assusta muito, pela natureza dos fatos. Eu também me pergunto: "De quantos paus se faz um ser humano?". O que me assusta muito mais é o tratamento dado a eles pelo senso comum e pela "grande mídia". Aquilo que a gente vê na televisão não pode ser chamado de realidade, não chega a ser nem um recorte dela. São como reality shows: só tem show, realidade mesmo não tem.
Choro por todas as vítimas, espetacularizadas ou não. Choro mais ainda porque este mundo que os matou não dá nenhuma pista que vá mudar tão cedo. Muito pelo contrário, vamos regredir ainda mais, até não ser possível mais distinguir quem é humano e quem é porco, sentados à mesa, na sala de jantar, preocupados em nascer e morrer. Morrer, principalmente.