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sexta-feira, 22 de maio de 2015

Sobre Formação de Professores: parem de nos tratar feito imbecis

     Primeiro preciso dizer que este não é um artigo acadêmico, no sentido mais estrito do termo. Não procedi com uma coleta rigorosa de dados, para depois fazer uma análise fria dos mesmos. Aliás, como tudo que já escrevi aqui, as reflexões de hoje vem fumegando, como bala que já cheira a sangue:


Eu tenho o maior prazer em descobrir coisas novas, sempre gostei de estudar. Então, eu simplesmente não consigo fazer nenhum curso, formação, oficina só para pontuar. (Quem é professor da Rede Municipal sabe: sempre almejamos evoluir, se não espiritualmente, ao menos na folha de pagamento. Somos verdadeiros Pokémons em busca da evolução). A maioria de nós trabalha em mais de um cargo/emprego, fazemos cursos (estão lembrados da evolução?), os casados/pais/mães tem que cuidar da casa e filhos e se sobrar algum tempo depois de tudo isso, viver. Quem sabe fazer alguma coisa que realmente nos traga prazer e satisfação. (Aliás, sobre isso, não me faço de rogada: eu gosto mesmo de estudar e de me aprimorar no meu ofício. Por incrível que pareça, diminui a angústia quando vem aquela sensação de impotência que todos nós professores experimentamos frequentemente). Justamente por gostar de estudar e pela agenda apertada, tenho que ser seletiva na hora de escolher uma formação, oficina ou curso. E posso dizer que vale a pena adotar esta postura, porque tive experiências incríveis, que realmente agregaram valor ao meu camarotezinho de professora da rede pública.
Uma delas faz parte do arquivo dos TM, o curso de extensão universitária Poéticas da Dança na Educação Básica (IA/UNESP, 2012). A última fase do curso - o projeto com meus alunos - nem foi relatado aqui por uma absurda falta de tempo já citada anteriormente. Como tudo que opera no plano real, não foi perfeito. Durou pouco tempo em relação aos objetivos que estabelecemos na equipe, porém até hoje as crianças (que ainda são meus alunos) se lembram da experiência e falam dela. Espero conseguir fazer meu trabalho de campo do mestrado com alguns destes mesmos alunos. (Se isso acontecer, a professorinha pesquisadora em formação vai ter um treco de felicidade acadêmica!).
As três vezes em que fiz parte do Descubra a Orquestra, da Osesp foram inesquecíveis e valeram mais que meus anos de estudos de música no modo tradicional. Tivemos estudos teóricos, discussão e também aprendemos ferramentas úteis para o trabalho – às vezes parecem que essas duas coisas não combinam, mas combinam, tem que combinar. Aliás, se não combinarem numa formação, corra: é uma cilada, Bino!


          
E outra experiência recente sensacional foi o Encontro para Professores de Arte da Rede Municipal de São Paulo em agosto do ano passado, no IA da UNESP, promovido pelo Grupo de Pesquisa em Formação de Professores, capitaneado pela Prof.ª Luiza Christov. Além das oficinas que podíamos escolher (fiz uma sobre Aikidô e suas possibilidades de administrar conflitos pacificamente), o mais incrível foi a postura de escuta adotada pelo grupo: não fomos lá simplesmente para ‘receber’ formação. As narrativas coletadas no encontro foram discutidas, documentadas e resultaram numa ação prática: já assinou a petição online solicitando à Secretaria Municipal de Educação mais uma aula de arte no currículo do 1º ao 5º ano? Assina, gente!


Estas são algumas das experiências mais marcantes que tive, sem contar a epopeia pelo mestrado no Instituto de Artes da UNESP e meu contato com a Professora Sandra Batistão, que nos levou a pensar para além das questões que faziam parte da formação, que sozinha já tem tanto a se dizer e fazer (inclusão de alunos com deficiência intelectual). Mas em termos de formação continuada de professores, ainda se caminha a passos de centopeia lesa e isso me deixa beeeem irritada. Vou apontar o que considero falho e soluções possíveis. (Vai que eu seja lida e ouvida pelo ministro ou secretário da educação municipal, não é? Otimismo é tudo nessa vida, gente!)


A primeira delas consta no PME (Plano Municipal de Educação de São Paulo, rede onde atualmente trabalho), mas possibilidades reais e avanços, eu como recente mestranda não vejo: aumentar a quantidade de docentes mestres e doutores na rede. Pós-graduação scrictu sensu exige, entre outras coisinhas, dedicação em muita leitura e pesquisa, trabalho de campo, escrever e revisar, tudo isso dentro dos prazos dos programas das universidades (dois anos para mestrado, por exemplo). Isso demanda horários flexíveis (as aulas dos programas quase nunca são num período só) e dinheiro. Ou você tem bolsa, ou trabalha. O que temos de fato nas redes de ensino, como já citei, são jornadas acachapantes e nada flexíveis. O mínimo que se poderia fazer para aumentar a quantidade de professores pesquisadores, com pós-graduações scrictu sensu, seria uma licença sem prejudicar os vencimentos, específica para este fim e que nem precisaria durar todo o tempo do programa de pós. Isto existe na nossa Rede? Ando procurando e não encontrei ainda. O que há é uma licença para apresentar trabalhos científicos em congressos, que já utilizei duas vezes. (Mas se não há tempo para pesquisa, vamos apresentar o quê? Trabalhos acadêmicos não são recebidos por inspiração divina). Ficar recebendo formações continuadas tem seu mérito, mas não é tudo. Se quiséssemos mesmo melhorar a qualidade da educação do país, seria necessário encorajar os docentes a buscar seus próprios caminhos, pesquisando e compartilhando suas soluções. O sistema educacional da Finlândia por exemplo, que tanta gente ama idolatrar, exige para o exercício docente no mínimo o grau de mestre. Temos excelentes programas de pós-graduação em educação aqui – inclusive mestrados profissionais em rede específicos para professores - porque não usamos? E se usamos, temos que fazer milagres dignos de Matrix para dar conta do programa + jornada de trabalho. Se você é um mestrando ou doutorando dentro da escola, salvo raras exceções, será tratado como um ET. Prepare seu OVNI.

Outra coisa que me intriga é: se o docente tiver uma real proficiência em um segundo idioma, porque não se pode entregar sua certificação para pontuar? Isso existe em uma alguma rede pública de ensino do país? Nas que eu trabalhei/trabalho não existe essa possibilidade. E mais: cursos de um segundo idioma oferecidos em formação continuada só existem para professores de LEM (língua estrangeira moderna). Ou seja, você só pode falar inglês se for professor de inglês. If you are not, forget it! (Será por isso que tantos alunos fazem cara de se descobrem que um professor que não é de LEM ou de língua portuguesa fala outro idioma?)

O tempo que se perde com obviedades em alguns cursos, oficinas e afins que são um verdadeiro desperdício de tempo e energia é o que mais me indigna deste pequeno compêndio de problemas com formação continuada de professores. Talvez seja o que mais me irrita porque é o mais simples de resolver de todos que estou elecando aqui e não se resolve, porque vida de professor é muito fácil e precisa de uma emoçãozinha a mais. Desde a graduação, tenho uma coleção de casos – que é lógico que não vou contar, para não ser decapitada - em que somos tratados como verdadeiras bestas quadradas, nivelados previamente para baixo do centro da terra. Então, fica a dica: parem de nos tratar como imbecis. O mundo não é necessariamente aquilo que a gente pensa, né?

Essa é para fechar a madrugada que logo mais tem aula. Citando Giovanni Improtta: vamos embora que o tempo urge e a Sapucaí é grande!

           Um beijo, José Wilker!

(Se você não entendeu a piada, clique.)

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Balada do cachorro louco

"O  homem que hoje me amar 
encontrará outro homem lá dentro.
Pois que o mate."
Elisa Lucinda

Demorei a te matar, mas matei. Passei algum tempo sofrendo por não saber o que fazer com o corpo, mas de uma hora para outra, eis que surge a grande ideia: dei-o de comer para meus cachorros.

 

Como não pensei nisso antes? Na verdade, eu sei. Tua carne é indigesta, dura, tem o gosto amargo. Comê-la não foi nada fácil, mas valeu a pena. Meus cãezinhos, agora regalados, podem sair por aí para passear um pouco e quem sabe cruzar com uma cadela rebolante mais no cio do que eu. 

Quando descobri, foi de matar. Você não vale uma foda, camarada, e como paguei caro por isso. Mas como virou comida de cachorro, seu destino é o mesmo de toda comida. Adieu!

domingo, 29 de julho de 2012

Humanos, demasiadamente humanos

Gosto de olimpíadas. Fato um tanto inusitado, principalmente se considerarmos que sempre servi de cabide dos agasalhos nas aulas de Educação Física na escola. Na verdade, não detestava esporte tanto assim: comecei a nadar aos 11 anos e sonhava em ser atleta olímpica. Por burrice, não falei com ninguém e também, de tão perfeito, o sonho me bastava. 

Raridade!
Também tive um herói olímpico: Gustavo Borges, medalha de prata em Barcelona e prata e bronze em Atlanta. Todo ano em que ele ia competir no Baby Barioni na piscina em que eu nadava, em que aprendi a nadar, parecia show de boyband: um bando de garotas gritando, tirando foto, pegando autógrafo. Duelo Claybom de Natação transmitindo pela Rede Manchete. Melhor eu sair correndo, antes que eu seja sequestrada por um dono de antiquário.

O atleta se aposentou e surgem outros mais rápidos, mais eficientes, mais mais. A natação brasileira hoje não passa vontade. Thiago Pereira levou ontem uma prata com gostinho de ouro, deixando Michael Phelps para trás bebendo água. Só que desta vez, o herói olímpico que escolhi não está na natação. 

Ser Usain Bolt e correr 100 metros rasos em poucos segundos é impressionante, mas possível. Ser Oscar Pistorius e fazer isso sem nenhuma das pernas - tão brilhantemente a ponto de fazer parecer vantagem correr com duas lâminas de fibra de carbono no lugar - não é impossível, é do caralho! 



Claro que isso não é produto só de força de vontade, ou de treino. O Blade Runner conta com suas Cheetah Flex Foot para correr. Mesmo assim eu me espanto, não só porque detesto correr até em esteira mesmo contando com duas pernas e pés inteiros, mas porque isso me mostra o quanto somos capazes, embora quase sempre a maioria de nós vibra várias oitavas abaixo do que poderia. 


Já sabia da existência do Pistorius, mas não sabia o seu nome. Dei de procurar por isso no dia em que minha prima não escapou de uma amputação, mesmo depois de meses lutando contra um câncer no calcanhar. Queria ter uma história legal para contar para ela, já que meu ânimo não andava lá essas coisas. O que infelizmente não funcionou, porque isso foi um tapa muito grande na minha cara. Vi o quanto estava sendo bunda-mole nos últimos tempos.

Pensar no que é humano têm me intrigado bastante. Nossa condição é frágil. Fôssemos abandonados completamente nus à natureza, que chances de sobrevivência teríamos? Não temos o ouvido-radar de um morcego, nem a visão de uma águia, não corremos como um leopardo. O que temos, então?

Há quem diga que é a inteligência. Diz Rubem Alves, inspirando-se no Piaget, que ela é a concha que protege o molusco que somos. Mas a pergunta é: onde ela mora? O senso comum nos faz esquecer que ela está em todo nosso ser, pronta para ser ativada a qualquer momento. Então, a concha está espalhada no molusco, não mora só no cérebro.


Força e delicadeza
A matéria de que somos feitos é firme e flexível o suficiente para ser modelada. Por toda essa maleabilidade, esta frágil condição humana é incrível, podendo ir muito além de sobreviver a grandes golpes. 

O fato de sermos frágeis não nos impede de sermos fortes. Além de me espantar, isto me comove. Só me entristece um pouco ver que a maioria de nós morre sem ao menos experimentar desta força. E neste ponto, a Keka tem dado um baile, mostrando a mesma tenacidade com que ela tem encarado a vida já há um bom tempo.

Neste ponto, eu vejo que não tenho condições de consolar ninguém, que neste caso, nem sei se precisa ser consolada. Preciso é tomar vergonha na cara, sentar e meter a mão na boca do leão, sem fazer cara feia.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Uma história de amor a três

I'm glad to see you back. I thought you were gone forever.
(Vladimir, Waiting for Godot, Act 1, Scene 1)
I
Meu kefi estava perdido, ou eu é que havia me perdido dele. Estou começando a achar que ele gosta de brincar de esconde-esconde comigo. Adora se perder para eu ter de me achar.

Desta vez o encontrei no Rio de Janeiro, batendo um sambinha numa caixa de fósforo. Estava até mais bronzeado, o danadinho. Dei-lhe um costumeiro tapa no ombro: "Onde você esteve este tempo todo, seu safado?" "Tinha ido comprar cigarros, aí resolvi ficar aqui." E sorriu daquele jeitinho zombeteiro que lhe é peculiar.

"Hum, sei." E emendei: "Vou fingir que acredito. Poderia até ficar brava com você, mas não vou não, porque te manjo é de outros tempos, camarada." 

E saímos para brincar perto dos arcos da Lapa, em frente ao Circo Voador, debaixo de uma garoa indecisa. Daquelas que de quase-chuva foi virando Sol.

Conversamos sobre este assunto também: "Você ainda não se convenceu que é movida a bateria solar, mesmo, né? Olha só pra você. Cê tá amarela, menina! Vai tomar sol!"

"Ok, você venceu, estou aqui para isso. Até estiquei minha estadia, assim teremos mais tempo juntos." Demos as mãos e fomos ver se o Rio de Janeiro realmente continua lindo. E continua.

II
Passamos tanto tempo colocando o papo em dia que quando o Sol saiu em todo seu esplendor, no clímax do seu espetáculo, a gente tinha dormido. E acordamos feito o Vagabundo, com seus raios solares soando como uma sirene: "E este Sol na minha caaaaaaaaaaaara!"




"Este Sol indireto, assim batendo nesta janela enorme, me conforta. Necessariamente porque me faz saber que ele sempre esteve aqui, nunca me abandonou. Ao contrário de você, seu vagabundo!", disse-lhe. "Não seja injusta, você sabe porque eu sumo. Senti muito sua falta, sabia? Desta vez, fiquei sinceramente preocupado com você. Cheguei a pensar que não conseguiríamos nos reencontrar!" 

"Own... Mas que fofo é você. Você faz isso de propósito, pensa que eu não sei? 'Té parece índio!  Assim você vai acabar ganhando o Campeonato Mundial de Esconde-esconde, hein? Mas a sua sorte, baby, é que eu também estou ficando craque em te encontrar! Demora, mas eu te acho."

"Elementar, minha cara. Mas desta vez você me assustou com aquela coisa de melancolia, fome, mito de Narciso... Aliás, onde você estava com a cabeça que eu poderia estar em Toronto? Puta frio do cacete!"

"Ah, queria dar umas bandas.Você teria gostado de lá sim, tenho certeza. A gente pode voltar lá na primavera, que você acha? E por que você não poderia estar no Canadá? Parecia que o Brasil tinha se mudado para lá. Até a Luíza estava!"

"Engraçadinha... Embora seu trocadilho seja extremamente sem graça, vou te dar um desconto. Pelo menos você está de volta!"

... Depois de um tempo ouvindo jazz e comendo melancia, decidimos que era hora de ver o Drummond. E ficamos de fazer isso no dia seguinte. 

III

Vimos que o poeta bronzeado (afinal ele não sai daquele banco no calçadão de Copacabana) também é um poeta vigiado, um poeta 1984. Depois de seus óculos terem sido furtados uma par de vezes, agora uma câmera zela pelo poeta do alto de um edifício na Av. Atlântica. E como tudo é passível de se tornar piada pronta neste mundo, a sua estátua é patrocinada por uma marca de lentes. Pagaram a nova armação, colaram com superbonder e instalaram a câmera para não ter mais prejuízo. Rá! Nem a poesia está salva da lógica de mercado. 

Muita gente na fila para ter com o poeta, mas era rápido porque a maioria quer só tirar foto com ele. Quem passa sempre por lá, às vezes dá um sorrisinho e uma batidinha em sua careca, como se o cumprimentasse. E eu, louca, querendo abraçar aquela coisa metálica, dizer o quanto ele está debaixo do meu couro surrado, de quantas vezes ele falou diretamente comigo... Mas ele, sabendo muito bem que não era o poeta e sim sua representação, não se furtou de tirar troça da minha cara e me salvar de uma camisa de força: "Por que você não faz igual a todo mundo e tira uma foto? O poeta sabe da sua piração!" E assim o fiz, até me ofereci para tirar foto para alguns outros passantes. E ninguém sequer desconfiava que eu estava diante do Amor da Minha Vida. 

IV
Na última noite, eu não tinha medo de voltar: tudo estava no meu corpo. O sol nas minhas costas, o vento deslizando por cima delas, o balanço do mar que levei para cama. E o conto do Borges, transformado em canção de ninar naquela voz quente e doce, feito brigadeiro recém-saído da panela. 

Adormecer naquela composição era o gozo mais profundo que eu poderia oferecer. Ele, me vendo do teto, ria da minha boca aberta. Disse que parecia que eu tinha engolido uma estrela cadente. 

V
Na hora de rearranjar as malas e cair no mundo outra vez, por puro cacoete estudei onde levaria o meu amigo, até escutar um grito que quase me faz cair da beliche: "VOCÊ TÁ DOIDA???"

"Doida, eu??? Por quê? Cheirou, bebeu ?!" 

"Você realmente acha que eu vou me dignar a viajar junto do seu biquíni molhado e cheio de areia, para não dizer das outras coisas que você está levando aí nesta mochila? Que eu fiz pra você?"

"Tá bom, tá bom! Foi sem querer. Desculpa, tá, ô Primeira Classe! Mas você não vai voltar comigo?" Caprichei na cara de Gato de Botas.

"Claro que eu vou. Mas eu vou no chapéu da aeromoça, na ponta da asa, mas dentro da sua bolsa não!"

E assim ele fez. Quando cheguei, ele estava grudado na janela do avião. Me deu uma piscadinha e depois um tapa na bunda que me encheu de coragem para enfrentar a vida. Descendo do avião, ele me disse:

"Lembra do gravador do Lucas Silva e Silva? Quando quebrou, ele ficou desesperado, pensando em como ele faria para inventar suas histórias. Seu Orlando disse que para imaginar não era necessário o gravador. Quando ele mostra o gravador consertado, o Lucas dispensa e diz que conseguiu inventar só com a imaginação."



"Claro que eu me lembro! Lucas Silva e Silva ajudou a formar meu caráter!"

"Então, sou mais ou menos como o gravador do Lucas, gata. Agora você me tem na hora que quiser!"

Abri um sorriso enorme. Até que enfim, compreendi: meu kefi é uma entidade wi-fi! Como não pensei nisso antes?

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

A banana é vitamina que engorda e faz crescer

Para Mayara Alexandre

É, talvez seja como todos estão dizendo. Talvez eu realmente tenha que amadurecer. Talvez isso devesse acontecer com todo mundo, talvez não aconteça com a frequência desejada com quem prega este discurso.

Banana amadurecida no jornal não tem gosto de nada
Foda é que ninguém me ensinou como fazer isso, simplesmente me arrancaram a infância. Foda é descobrir que chega um dia na vida em que você vai ter que eximir todo mundo em sua volta da responsabilidade pelo seu bem-estar, inclusive quem já fodeu ou tentou foder com a sua vida. Foda é você descobrir que não tem nem nunca teve que provar nada a ninguém, depois de ter se matado de fazer isso inutilmente por anos a fio. E mesmo depois de se sentir quite consigo mesmo e com o mundo, pode aparecer alguém que por insegurança ou vaidade queira te desestabilizar, talvez para mitigar a própria insegurança. Foda é descobrir que mais da metade da sua insegurança vem de bobagens que você escutou a vida inteira, ditas apenas para te controlar, só porque medo é estratégia de dominação.

Só gostaria de saber o que é ser madura, e talvez de saber quando isso acaba. Porque a impressão que eu tenho é que está sempre começando, e parece ser assim com todo mundo que está vivo de fato. Envelhecer não é se engessar, pelo menos poderia não ser assim. Experiência ajuda, mas não resolve: a vida prega peças o tempo todo, às vezes só para se certificar se você está mesmo alerta. De qualquer maneira, só acumula experiência quem experimenta, eu imagino. E se parar de experimentar, viver para que?

Já que as pessoas que mais me cobram agem como se fossem crianças de cinco anos, é melhor não dar muita pelota. Aos vinte e nove, sou mais parecida comigo mesma quando eu tinha cinco anos do que eu podia imaginar quando eu tinha cinco anos de fato. Só fiquei mais teimosa. Idade não é tudo isso que falam. Há quem passe pela vida sem aprender porra nenhuma. No fim de tudo, a gente acerta contas é com a nossa própria consciência, é daí que vem a maior cobrança. Somente a ela – e a mais ninguém - a gente vai ter que satisfazer. 

Ps.: Talvez seja legal provar Textículos sabor banana Andy Wahrol e Raul Seixas ouvindo Teorema: 



segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Melancholia

Nunca pensei que melancolia tivesse algo a ver com o mito de Narciso. Melancolia é o desapontamento de Narciso ao ver que não poderia tocar sua linda imagem refletida no lago: sem poder tê-la, morreu vidrado no redemoinho que desmanchava o seu reflexo ao ser tocado. 

Não parece, mas eu sou melancólica. E eu, que bem gosto dessa melancolia, não me assustei quando a minha terapeuta me explicou a visão da psicanálise sobre esse sentimento temido à exaustão por um mundo que insiste em fazer o jogo do contente todo o tempo. Muito pelo contrário, me encantei ainda mais. 

Passei os últimos meses contemplando o redemoinho. Era (ou é) só tristeza: algo tão normal quanto alegria, algo que passa, mas parece ser um crime ficar triste, e não é. É um luxo ao qual eu me reservo quando algo não vai bem.

Por isso gostei tanto de Melancholia, o último filme do Lars Von Trier. O estado melancólico é exatamente aquela sensação de pernas paralisadas que acometeu Justine (Kirsten Dunst). E foda-se se é o dia do seu casamento, ou se o mundo inteiro diz que gostaria de estar no seu lugar e que você deveria estar feliz. A melancolia te abraça, te enrosca pelas pernas e quando elas travam, não tem que as faça seguir.  


No entanto, as coisas mudam diante de um perigo real. Na iminência do desastre, Claire (Charlotte Gainsbourg), sempre tão centrada, se desespera e Justine, sempre tão errática, sabe exatamente o que fazer. Ela que já tinha visto a Melancholia se aproximar tantas vezes, não se assustou e buscou dentro de si a força para suportar o fim. 

Dizem que a depressão é o mal do século. Pode ser, mas tenho para mim que o mal é justamente temer tanto a tristeza, fugir dela como se pudesse fugir do planeta Melancholia. Quando a tristeza bate, quando se vai às lágrimas, só nos resta entrar na nossa cabana invisível. Quem tem medo de tristeza não sabe que isso não tem nada a ver com desistir, muito pelo contrário: é caçar o último fio de força para sobreviver e jamais entregar os pontos. Sucumbir acontece com quem não aguenta o tranco da melancolia se aproximando e saber que não se pode fazer nada. A arrogância humana é tanta, admitir impotência é algo tão inadimissível, que há quem simplesmente não sabe o que fazer, quando não há mais nada a fazer. 

Isso não é só uma metáfora de cinema. Há que se ter pernas fortes para aguentar a vida. Porque estar vivo dói, até quando é bom. Além do mais, não é qualquer soco no estômago que vai me fazer beijar a lona. 

E para quem teve pernas para subir e descer mais uma Colina Melancólica, aquele abraço!




terça-feira, 15 de novembro de 2011

Pedro Rocha – A manteiga derretida mais dura na queda do mundo

Eu era como Pedro, o apóstolo xará: primitivo, turrão, porém havia em mim um coração enorme. Só que não encontrei nenhum Cristo para seguir, então, segui em frente. Troquei o tênis pelo mocassim, a mochila pela pasta e me tornei corretor. De imóveis. Vendi tudo que via pela frente: quitinete, mansão, casa na praia. Ganhei uma grana razoável para estudar e me tornar o mesmo executivo detestável que era o meu patrão. Contudo, eu era jovem ainda, não estava tão preocupado assim com meu futuro. Esse papo de faculdade era mais pra dourar a pílula e manter o meu emprego.

Típico machista idiota, de tanto esquecer meu próprio coração, esqueci que as pessoas têm sentimentos. Mulheres, principalmente. Preconceito bobo esse, porque homens também sentem, mas o fato é que antes do que me aconteceu eu sinceramente acreditava que homens não choravam.

Como num conto dos irmãos Grimm, me apaixonei por uma princesa e, de tanto pisar no seu nobre coração, ela tornou-se sapo ao invés de me transformar em um. Do contrário, passei a ter peitos e sangrar mês a mês e mais do que corpo, me deu mente e coração de mulher. Fui amaldiçoado. Tornei-me objeto do meu próprio desejo e o cartão de crédito não resolvia esse problema.

Entendendo meu objeto de desejo é que começou a penosa volta ao verdadeiro Pedro Rocha, a manteiga derretida mais dura na queda do mundo, de tênis e mochilão nas costas, durango e insatisfeito.

Essa princesa me fodeu. Mas ela jura que foi pro meu bem.

Janeiro de 2005


sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Eric Clapton

Como se fosse a sala de casa!
Estive no show do Clapton no último dia 12. Antes eu me perdia em um milhão de coisas desnecessárias, como por exemplo, pegar set list do show antes, e depois, ler as críticas. Ah, as críticas. Larrosa tem razão: padecemos de excesso de informação e opinião. Geralmente, não se aproveita nem 10% do Festival de Bobagens que o povo fala e que a mídia veicula. 

Saca só: estávamos no show do Eric Clapton, conhecido como DEUS da guitarra. Não é rei, não é mestre, precisamente deus. Até eu, que sou falastrona, me calo diante de um deus. Mas sempre há um entendido para cuspir informação inútil. Diante de um solo nas primeiras do show, um ser me solta um: "Que feeling!" Não é uma das piores que eu ouvi na vida, mas dava para passar sem essa. Cala a boca e escuta, ô infeliz! 

Andaram reclamando que ele não fala com o público. Isso é coisa de gente carente e desavisada. Se querem um entertainer, que tentem os animadores de auditório. Há também shows de stand-up feito por pseudo-comediantes de péssimo gosto que só sabem fazer piada de gordo e loira de primeiríssima linha pululando a cada esquina. Eles animam à beça, ó!

Artista agrada com a sua arte, não fazendo sala. Depois de tantos anos com a guitarra em punho, para que falar? A guitarra fala, grita, geme, sussurra por ele, não é necessário mais nada. 



E ao final, as críticas. Graças ao Barbudão, dispensei essas muletas para construir meu gosto. Mas ainda me reservo a ingenuidade de me indignar. Dizer que Gary Clark Jr. - guitarrista que fez o show de abertura era ruidoso e exagerado é um pouco demais. Quer botar defeito no show, fala que o telão pifou, que não se achava o local para se retirar os ingressos porque a comunicação visual não estava comunicando nada,  e que por sua vez os funcionários não passavam nenhuma informação corretamente, que o preço das bebidas e comidas era extorsivo... São defeitos de verdade, nem é necessário inventar.

Este show poderia ter rolado num estádio de grande porte como o Morumbi ou num boteco obscuro. Poderia ser o deus da guitarra, ou um tiozinho inglês de 66 anos que toca um blues desde que se entende por gente. Não mudaria muita coisa. Num lugar daquele tamanho, e todo mundo tão catatônico (e quieto) que o áudio dos vídeos está perfeito - fora quando eu resolvi cantar Layla, mesmo rouca.

À parte todos os rótulos, o que fica é a música. Nada mais importa, para quem a ama de verdade. Só quem estabelece uma relação direta com ela, sabe do que estou falando. Coisa de viciado em grau máximo.

Para os que amam a música do fundo do seu baço é que eu dedico esta cambalhota! 

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Solar

                                                            Para meus cachorros

Quem sabe também não estejamos lá
Eu e meus cachorros, 
Às seis horas da tarde, no Viaduto do Chá
À espera do ocaso, se acaso ele chegar.

Trouxe Pozzo e Lucky na coleira, mas nem precisaria.
Eles não avançariam em você nem por um afago, estão tristes como o quê.
Não latem mais, rabos retraídos, a tigela de comida intacta.
Parece até que descobriram que não enxergam em colorido.

Pôr-do-sol no centro da cidade, mas que bobagem.
Só você mesmo para ter uma ideia dessas.
Como se Sol não fosse Sol em qualquer lugar do mundo,
Como se ele só se pusesse em São Paulo.

Esperar o Sol se por é pior que esperar Godot
Ele nunca chega, é justamente o oposto:
Poente é sempre partida. E disso eu entendo
Que estou sempre esperando, que estou sempre de partida.

Você é tão engraçado! Age como um semideus.
Acende um cigarro e pronto,
Procurar sentido é coisa para mortais.
Deixa isso para bestas melancólicas que levam cães para passear como desculpa. 

Você e seus cigarros, eu e meus cachorros.
Não dá valsa nem samba,
Ninguém dança de armadura.                                     
Cada um com seus escudos, paralelos, absurdos.

E quando a noite chegar? Eu fico me perguntando quem vai levar Godot para casa.
Mas é claro que estou variando.
O Sol, Godot, você e até meus cachorros,
Todos já se foram.

Agora, tudo são cadeiras vazias e uma noite sem fim.
Entretanto, sem esperar por mim, novos dias sempre chegam.
Então, antes que eu de fato enlouqueça,
Em vez de pôr-do-sol, é melhor que amanheça. 

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Metaleira, eu?

Engraçado que algumas coisas passam e outras sobrevivem na vida sem pedir a sua licença. Pois é, até eu tinha me esquecido que gostava de Metallica. Banda que me remete a tardes vagabundas na casa da Carol e do Juninho, quando a gente passava horas e horas escutando o Black Album e outras pérolas noventistas, como o Dookie do Green Day, ou Melancholy and Infinite Sadness, do Smashing Pumpkins. Ou ainda sábados na casa da Priscila ouvindo os discos mais antigos do Metallica como o Master of Puppets ou And Justice for All. Mas nostalgia é uma gripe que não me dá mais. Não sinto saudade de mais nada, não lamento mais nada. Para que se apegar a tantas lembranças?


Não sei que milagre aconteceu para a Globo transmitir o show na íntegra, sem aqueles cortes horríveis que ela costuma fazer até em show do Brasa. Não sei que outro milagre ocorreu para eu assistir o show inteiro, sem dar uma cochilada sequer. Na verdade, eu sei. Foi um puta showzaço!


Aí me dei conta: Metallica é uma banda balzaquiana, só um ano mais velha do que eu. Nem no auge, nem decadente, na confortável posição de não ter mais que provar nada para ninguém. Fez umas bobagens na vida - o Load inteiro foi limado deste show sem fazer falta, e do Reload, só foi tocada a única música que presta, Fuel. Não abusaram de hits o tempo inteiro e fizeram um line-up não linear, o que eu gostei bastante. Prova de que o tempo que passa se mistura com o de agora, e ainda com o que está por vir. Não sei o que me espera, e que eu deixei para trás era excesso de bagagem. Viajante que se preza, só carrega o essencial.



No, je ne regrette rien! Só eu mesma para começar falando de Metallica e terminar com Piaf. E daí? 

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Filme de Mulherzinha Ataca Novamente

Está provado cientificamente: comédias românticas podem estragar a sua vida. Mas eu, particularmente não estou nem aí. Quando nasci, cinto de segurança não era obrigatório e merthiolate ardia e ainda assim, estou viva, vivinha. Da Silva, Teodoro Alves, o que quiserem. Acreditem!

Tentei me recuperar, mas é inútil: o dano cerebral causado pelas comédias românticas noventistas estreladas por Meg Ryan, Renè Zellwegger, Julia Roberts e afins é acumulado. Já era, meus miolos foram indiscutivelmente carcomidos. Só restou o coração, que sem um pingo de vergonha na cara, ainda pulsa: bridget-jones, bridget-jones. Happy-end, happy-end. 

Além do mais, comédia romântica pode até estragar uma vida, mas não um blog. O textículo mais acessado deste faroeste é a resenha sobre Falando Grego, da Nia Vardalos. Aqui, elas até ajudam!

Anos depois, adicionando uma licencinha poética para o festival de bobagens que lhe são devidas, vejo que comédias românticas tem lá suas pilulazinhas de sabedoria. Tolas, inocentes, mas ainda assim válidas, verdadeiras em sua tolice. 

Como Medianeiras, Buenos Aires na Era do Amor Virtual. Em se tratando da ideia de discutir cultura digital, é uma ótima propaganda para os produtos da Mac. De tão escancarada, nem parece merchandising. Parece peça publicitária mesmo, na cara-larga. 


Gosto de filmes em que cidades são personagens. Uma Buenos Aires contemporânea, pós-crise, de longe é a personagem mais fascinante. A protagonista é arquiteta, e é dela que vem a metáfora das medianeiras, aquele lado dos edifícios que não serve para nada, a não ser para abrigar propaganda e limo. Como nas pessoas, expõe o lado mais frágil, feio e vulnerável de construções que precisam se fazer sólidas e fortes. Abra uma janela na sua medianeira, mesmo que ilegalmente. Deixe entrar luz no seu apartamento, vai te fazer bem.

Também gosto de gente neurótica nos filmes. Mitigam minha vergonha. Além do que são muito mais verossímeis: Mariana taca coisas na parede, chora por bobagem e carência, fuma mais que preto-velho no terreiro. Martin é fóbico, hipocondríaco, insone, atrapalhado. Leve seus cachorros para passear, mesmo que eles sintam medo. Eles precisam se acostumar com outros cachorros. 


Se toda essa firula ao final vendesse só iPod, eu até perdoaria. Foda é vender a ilusão de um amor único perdido na cidade, vestido com uma blusa listrada de vermelho e branco, óculos e gorro à sua espera, prontinho para ser encontrado. Se você começar a procurar onde está o Wallie com 14 anos, quem sabe você o encontre aos 30! Mas use uma lupa, porque isso é trabalho para mais de metro. 

Procurar Wallie é uma tarefa muito difícil para míopes não operados como eu, então fica para outro dia. Não comprei a ilusão, mas me diverti com a conversa mole do vendedor. Atitude típica de 1984, um duplipensar para esquentar as turbinas. Porque só agora posso começar a abrir um vitrô na minha medianeira, sair com meus cães assustados por aí. Spring is coming! 

domingo, 28 de agosto de 2011

Quando seu cheiro entrar de vez na minha pele


Quando seu cheiro entrar de vez na minha pele,
Vou leva-lo para passear.
Deitar em outras camas, provar de outros falos.
Para que você também prove de outras texturas, outros colchões.

Quando seu cheiro entrar de vez na minha pele,
Feito pomba-gira enfurecida vou rodopiar
Mais, mais e ainda mais
Para que ele, de uma vez por todas, se dissipe.

Quando seu cheiro entrar de vez na minha pele, vou fazer de tudo para ele sair.
Tomar banho de cachoeira, me vestir de freira, talvez de palhaço.
Quem sabe eu não o espante a base de escárnio?

Alecrim, canela, gengibre, baunilha, rosa branca.
Quando enfim seu cheiro sair de vez da minha pele,
O meu é que vai cair no mundo!



sexta-feira, 22 de julho de 2011

Poema de Natal

Para Sandra Dee
Vinicius de Moraes

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.
Do livro "Antologia Poética", Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1960, pág. 147.
http://www.releituras.com/viniciusm_natal.asp

domingo, 12 de junho de 2011

Aprendendo a amar vol. 1

Este texto é o primeiro da série "Aprendendo a amar", escrito em 2009. Dedicado a meus alunos, ex-alunos, colegas e principalmente para quem amou e se decepcionou, mas que deu a volta por cima!

Um dia no intervalo das aulas, uma conversa entre os professores: aquela escola estava muito parada ultimamente, era preciso animar o período da tarde.  Então, é surge a idéia de fazer uma festa do dia dos namorados, já que a professora de inglês estava trabalhando com textos sobre São Valentim com as sétimas séries. O professor que quisesse entrar na dança era só contribuir com a sua idéia e a professora de inglês escreveria o projeto pedagógico da coisa.

A professora de Artes aderiu ao projeto na hora, mas com a dúvida de qual trabalho poderia fazer sobre seus alunos, afinal, se resolvesse trabalhar com Arte Erótica ou com o Nu na História da Arte poderia até ser exonerada do cargo, dado o moralismo indecente de sua época. Alguém soprou no seu ouvido para fazer cartões para correio elegante com as suas turmas. Ela, que normalmente xingaria quem deu essa idéia, dessa vez, sabe Deus porque, aceitou a idéia com simpatia.

Quando os alunos começaram a fazer os cartões nas aulas, ela entendeu porque ela topou fazer uma atividade que não tinha nada a ver com sua concepção vanguardista de Arte-Educação. A última vez que tinha feito correio elegante foi para as quermesses da Igreja, que tinham ficado para trás há um bom tempo. Tinha se esquecido a diversão que era aquele recorta-e-cola, somado à chuva de glitters, purpurinas, lantejoulas e corações feitos em série, como se fosse uma linha de produção.

Corações grandes, pequenos, em duplas, em trios e, em sua grande maioria, vermelhos. Todos de um vermelho pulsante, cor de cartolina comprada na papelaria da esquina. Lá pelas tantas, a professora se pergunta que cor estaria seu coração neste momento e apostou num azul, já que seu pobre coração andava um tanto gelado.

Não que seu coração nunca tivesse sido vermelho, só que da última vez que ele ficou vermelho foi de raiva, depois de uma decepção daquelas. Já estava recuperada do tombo, mas se deu conta, às vésperas de promover uma Festa do Dia dos Namorados com seus alunos, que tinha se fechado em copas para o amor. Como poderia reclamar que ninguém gostava dela? Ela não achava mais graça em ninguém. Todo mundo era feio, todo mundo era chato.

“Sou muito nova para ficar assim”, preocupou-se a professora. E sua preocupação foi ficando cada vez mais provinciana, apavorando-se com a idéia de se tornar uma professora solteirona típica, daquelas que usam “saia-lápis na altura do joelho, coque e óculos armação-tartaruga”. Sua preocupação, porém, durou poucos segundos, até um aluno cortar seus pensamentos com uma tesourinha sem ponta e dúvidas bem menos filosóficas: “É para cortar para direita ou para a esquerda, Prô?”

Longe da bagunça das salas, a professora foi avaliar o resultado da produção dos seus alunos. Contar os cartões, ver erros de português, essas coisas. Em contato com os corações, que ora escondiam, ora revelavam mensagens apaixonadas – tão clichês para os mais velhos, mas pura novidade para aquela molecada que está começando a descobrir os prazeres do amor – sentiu o seu próprio se aquecer. Entendeu o que seus velhos professores lhe diziam com: “Ensinar é via de mão dupla, a gente também aprende com nossos alunos”. Ela passou anos achando que isso era um bordão vazio, agora viu que era pura verdade. Graças a seus alunos e àquela bagunça de cartões sem fim, estava reaprendendo a amar.

sábado, 4 de junho de 2011

O Louco

Eu quero a folha em branco, o espaço vazio,
O vácuo da experiência. 
O útero oco que mês a mês se prepara para receber. 
Uma sala sem móveis, 
onde minhas canelas estejam livres de tropeções em pés de mesas de jacarandá.

Cansei de acumular, de ter que ter, de ter que saber, de ter que ser.
Pros diabos quem se garante na base do “quem guarda, tem”.
À beira do abismo,
“O centro era eu, de tudo!”

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Ok Computer

O verdadeiro código binário

Ele costumava dizer que desde que Deep Blue derrotou Kasparov, o mundo nunca mais foi o mesmo. Era a vitória do cálculo binário sobre o imponderável humano, coisa em que, aliás, ele nunca acreditou.
Ele calculava suas jogadas com no mínimo dez lances de antecedência, isto se ele não derrotasse seu opositor com menos que isso.  Para ele, tudo era passível de planejamento. Ela costumava chamá-lo de Exterminador do Futuro: só podia ser feito de metal líquido por dentro. Tinha um cooler no lugar do coração. 

Ela era puro caos. Jamais planejava jogadas, respondia ao lance seguinte tentando escapar das ciladas que ele, travessamente, armava para ela. Ele tentava com isso fazer com que ela fosse menos impulsiva nas jogadas, mas não adiantou de nada. Para ela, jogar xadrez era uma aventura na selva. Até tentou aprender do jeito dele, mas não conseguia. Ela se encontrava na bagunça. 

Esta combinação poderia ser desastrosa, mas o fato é que não era. Na maioria das vezes, ele ganhava, mas ela costumava dar bastante trabalho para ele conseguir a vitória. Era a única que o deixava louco com sua imprevisibilidade e tenacidade, ela não era de empatar ou abandonar. As partidas eram longas e desafiadoras, assim como as transas.
Dividiam-se entre a cama e o tabuleiro. E o tabuleiro era o avesso da cama: ela fazia questão de deixar seu rei nu, de despi-lo principalmente deste raciocínio lógico-matemático que de tão assertivo, chegava a ser irritante. Ele, por sua vez, fazia questão de se vingar: toda a imprevisibilidade a qual ela o submetia no xadrez, ele a fazia passar na cama. Penetrava nela nos lugares mais insólitos, em todos os buracos do corpo e com todos os seus falos. Fazia questão de comê-la com todos os talheres. 

Ele, no final das contas, ganhava na cama e no tabuleiro. No xadrez, sua técnica era vencedora, ela só era uma adversária estranhamente difícil. Na cama, a abatia com a mesma competência: sua técnica sexual era tão eficiente quanto a sua técnica enxadrística. Fazê-la gozar era para ele um xeque-mate. 

De tudo que ele ponderava, ela simplesmente ria. No tabuleiro, ela era caça fugidia, a vítima do astuto predador que manipulava até as fugas de sua presa. Na cama, ele perdia a cabeça e de quebra, a servia como se serve a uma rainha. E ela ainda o fazia pensar que a ideia partia dele. Bobinho. 

... Por essas e outras é que ela achava essa história de computadores derrotando o humano uma tremenda bobagem. Código binário para ela, só se fosse Yin e Yang, Apolo e Dioniso. E como funcionavam bem juntos.

Flavia Teodoro Alves

16/03/2010
Texto revisado por Adriana Gregório