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quarta-feira, 18 de julho de 2012

Uma história de amor a três

I'm glad to see you back. I thought you were gone forever.
(Vladimir, Waiting for Godot, Act 1, Scene 1)
I
Meu kefi estava perdido, ou eu é que havia me perdido dele. Estou começando a achar que ele gosta de brincar de esconde-esconde comigo. Adora se perder para eu ter de me achar.

Desta vez o encontrei no Rio de Janeiro, batendo um sambinha numa caixa de fósforo. Estava até mais bronzeado, o danadinho. Dei-lhe um costumeiro tapa no ombro: "Onde você esteve este tempo todo, seu safado?" "Tinha ido comprar cigarros, aí resolvi ficar aqui." E sorriu daquele jeitinho zombeteiro que lhe é peculiar.

"Hum, sei." E emendei: "Vou fingir que acredito. Poderia até ficar brava com você, mas não vou não, porque te manjo é de outros tempos, camarada." 

E saímos para brincar perto dos arcos da Lapa, em frente ao Circo Voador, debaixo de uma garoa indecisa. Daquelas que de quase-chuva foi virando Sol.

Conversamos sobre este assunto também: "Você ainda não se convenceu que é movida a bateria solar, mesmo, né? Olha só pra você. Cê tá amarela, menina! Vai tomar sol!"

"Ok, você venceu, estou aqui para isso. Até estiquei minha estadia, assim teremos mais tempo juntos." Demos as mãos e fomos ver se o Rio de Janeiro realmente continua lindo. E continua.

II
Passamos tanto tempo colocando o papo em dia que quando o Sol saiu em todo seu esplendor, no clímax do seu espetáculo, a gente tinha dormido. E acordamos feito o Vagabundo, com seus raios solares soando como uma sirene: "E este Sol na minha caaaaaaaaaaaara!"




"Este Sol indireto, assim batendo nesta janela enorme, me conforta. Necessariamente porque me faz saber que ele sempre esteve aqui, nunca me abandonou. Ao contrário de você, seu vagabundo!", disse-lhe. "Não seja injusta, você sabe porque eu sumo. Senti muito sua falta, sabia? Desta vez, fiquei sinceramente preocupado com você. Cheguei a pensar que não conseguiríamos nos reencontrar!" 

"Own... Mas que fofo é você. Você faz isso de propósito, pensa que eu não sei? 'Té parece índio!  Assim você vai acabar ganhando o Campeonato Mundial de Esconde-esconde, hein? Mas a sua sorte, baby, é que eu também estou ficando craque em te encontrar! Demora, mas eu te acho."

"Elementar, minha cara. Mas desta vez você me assustou com aquela coisa de melancolia, fome, mito de Narciso... Aliás, onde você estava com a cabeça que eu poderia estar em Toronto? Puta frio do cacete!"

"Ah, queria dar umas bandas.Você teria gostado de lá sim, tenho certeza. A gente pode voltar lá na primavera, que você acha? E por que você não poderia estar no Canadá? Parecia que o Brasil tinha se mudado para lá. Até a Luíza estava!"

"Engraçadinha... Embora seu trocadilho seja extremamente sem graça, vou te dar um desconto. Pelo menos você está de volta!"

... Depois de um tempo ouvindo jazz e comendo melancia, decidimos que era hora de ver o Drummond. E ficamos de fazer isso no dia seguinte. 

III

Vimos que o poeta bronzeado (afinal ele não sai daquele banco no calçadão de Copacabana) também é um poeta vigiado, um poeta 1984. Depois de seus óculos terem sido furtados uma par de vezes, agora uma câmera zela pelo poeta do alto de um edifício na Av. Atlântica. E como tudo é passível de se tornar piada pronta neste mundo, a sua estátua é patrocinada por uma marca de lentes. Pagaram a nova armação, colaram com superbonder e instalaram a câmera para não ter mais prejuízo. Rá! Nem a poesia está salva da lógica de mercado. 

Muita gente na fila para ter com o poeta, mas era rápido porque a maioria quer só tirar foto com ele. Quem passa sempre por lá, às vezes dá um sorrisinho e uma batidinha em sua careca, como se o cumprimentasse. E eu, louca, querendo abraçar aquela coisa metálica, dizer o quanto ele está debaixo do meu couro surrado, de quantas vezes ele falou diretamente comigo... Mas ele, sabendo muito bem que não era o poeta e sim sua representação, não se furtou de tirar troça da minha cara e me salvar de uma camisa de força: "Por que você não faz igual a todo mundo e tira uma foto? O poeta sabe da sua piração!" E assim o fiz, até me ofereci para tirar foto para alguns outros passantes. E ninguém sequer desconfiava que eu estava diante do Amor da Minha Vida. 

IV
Na última noite, eu não tinha medo de voltar: tudo estava no meu corpo. O sol nas minhas costas, o vento deslizando por cima delas, o balanço do mar que levei para cama. E o conto do Borges, transformado em canção de ninar naquela voz quente e doce, feito brigadeiro recém-saído da panela. 

Adormecer naquela composição era o gozo mais profundo que eu poderia oferecer. Ele, me vendo do teto, ria da minha boca aberta. Disse que parecia que eu tinha engolido uma estrela cadente. 

V
Na hora de rearranjar as malas e cair no mundo outra vez, por puro cacoete estudei onde levaria o meu amigo, até escutar um grito que quase me faz cair da beliche: "VOCÊ TÁ DOIDA???"

"Doida, eu??? Por quê? Cheirou, bebeu ?!" 

"Você realmente acha que eu vou me dignar a viajar junto do seu biquíni molhado e cheio de areia, para não dizer das outras coisas que você está levando aí nesta mochila? Que eu fiz pra você?"

"Tá bom, tá bom! Foi sem querer. Desculpa, tá, ô Primeira Classe! Mas você não vai voltar comigo?" Caprichei na cara de Gato de Botas.

"Claro que eu vou. Mas eu vou no chapéu da aeromoça, na ponta da asa, mas dentro da sua bolsa não!"

E assim ele fez. Quando cheguei, ele estava grudado na janela do avião. Me deu uma piscadinha e depois um tapa na bunda que me encheu de coragem para enfrentar a vida. Descendo do avião, ele me disse:

"Lembra do gravador do Lucas Silva e Silva? Quando quebrou, ele ficou desesperado, pensando em como ele faria para inventar suas histórias. Seu Orlando disse que para imaginar não era necessário o gravador. Quando ele mostra o gravador consertado, o Lucas dispensa e diz que conseguiu inventar só com a imaginação."



"Claro que eu me lembro! Lucas Silva e Silva ajudou a formar meu caráter!"

"Então, sou mais ou menos como o gravador do Lucas, gata. Agora você me tem na hora que quiser!"

Abri um sorriso enorme. Até que enfim, compreendi: meu kefi é uma entidade wi-fi! Como não pensei nisso antes?

domingo, 27 de maio de 2012

Poéticas da Dança IV - Fome de tudo

Faz tempo, mas vou tirar o atraso da série do Poéticas. A líder do bando gostou do último textículo, então não vou largar para lá a ideia de texticular com os encontros do Poéticas.

No feriado de 21 abril, fomos assistir ao espetáculo (performance?) Kikar, do coreógrafo israelense Nir de Wolff.


Não sabia quase nada a respeito sobre Nir de Wolff e sua companhia, a Total Brutal.  Por isso  fiquei bem satisfeita ao perceber que consegui juntar o lé com cré do processo de criação com o que é visto em cena - parte do trabalho do arte-educador é este, sabe? As características do trabalho do coreógrafo citadas na reportagem do Metrópolis (que só assisti agora para escrever este textículo retardatário) ficam evidentes na performance: o resultado é carregado - por vezes incômodo - visceral, poético. 

Quando a fome surge retorcendo o estômago e a alma, não se vê mais nada na frente. Kikar significa algo como praça em hebraico, lugar público, ponto de encontro. E o espetáculo é um encontro de várias fomes - saudade, carência, desejos, necessidades - transita por todas elas, torna-as públicas, expõe a dor da ausência. Este para mim é o maior incômodo de Kikar: confrontar-se com a própria fome. Não é possível que não se tenha nenhuma: se você está vivo, está faminto.


Enquanto não se mata a fome, a gente saliva sonhando com a hora do banquete. A condição humana passa por este território nebuloso, onírico. O sonho é uma realidade em si mesma, não é somente um porvir. Sweet Dreams are made of this. Who am I to disagree? Eu que não me atrevo, que vivo com o estômago roncando.



É para todos os parceiros e parceiras do Poéticas esta cambalhota faminta! Everybody is looking for something. Quando eu encontrar eu aviso. 

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Poéticas da Dança II - Descendo para o Playground


O segundo encontro do Poéticas da Dança fez todo mundo descer para o play e ir brincar. Essas meninas são danadas, sabem o que estão fazendo. Ao ler o texto da Isabel Marques durante a semana, já me deu uma vontade incrível de brincar. Eu sempre proponho brincadeiras com meus alunos, mas como eu tenho estar atenta a uma série de coisas, como o tempo, o espaço que precisa ser modificado, a organização e a bendita da disciplina, estou o tempo todo fritando o peixe e olhando o gato. A minha vontade, então, era de brincar como brincava quando criança: brincar por brincar, porque eu quero, porque é bom. 


Então, no último dia 17 de março, a sala de dança do IA havia se transubstanciado em um playground para crianças mais avançadas em idade, mas o negócio tinha cara de ritual e não de aula: sem dizer palavra, uma das meninas me entregou a almofada de jogar amarelinha. Depois, era só circular: pular corda, elástico, jogar bola e tudo acabou com um Siga o Mestre, em que o mestre era todo mundo e ninguém ao mesmo tempo. 


Na segunda parte do encontro, a ideia era estabelecer uma relação do texto da Isabel Marques com nosso espaço de trabalho: "Em que momentos da rotina escolar você percebe os 'corpos lúdicos' e 'não lúdicos'? De que maneira ou em quais momentos sua prática contribui para reforçar a construção de  corpos 'não lúdicos'? Em quais momentos você se contrapõe?" 


Com a canção da Dani Lasalvia e as perguntas escancaradas ali no diário de bordo, eu caí em mim e fiquei triste por alguns momentos. Querer brincar num espaço tão anti-lúdico e anti-poético como o espaço da escola se configura tantas vezes é um grande desafio para professores (que querem ser) brincantes. E ele estava lá, bem na minha frente. Que será, será?





Neste ponto a minha metralhadora verbal ligou-se sozinha. Eu vivo esta ansiedade o tempo todo. Quero brincar com meus alunos, não ensinar a brincar. Às vezes eu caio nesse erro, não sei se eu já disse isso aqui, mas a professorinha cansou-se de ser didática, daquela que nos "ensinaram" desde os primeiros momentos na escola: professor é um semideus que ensina. Por mais que eu tente ir na direção contrária, eu ainda carrego este repertório. É como subir uma escada rolante que desce, saca? 

"(...) Esqueçam também aquela ideia de que vamos ensinar alguma coisa para vocês. É muita pretensão da nossa parte acreditar nisso. Aprende quem quer aprender, e ninguém aprende sem se colocar a mão na massa, sem dar a cara para bater e isto, nós, os professores, não podemos fazer por vocês. O máximo que nós podemos fazer é indicar caminhos, e nenhum será atraente para todos ao mesmo tempo. (...)"


Depois partimos para os jogos teatrais, brincadeira muito da boa que felizmente fez parte do repertório primeiro da minha graduação. Este sistema, quando bem aplicado - perdão pela palavra não-acadêmica- é foda! Subversivo, libertador, inteligente, divertido. Quem começa, não quer mais parar. Jogamos um jogo de escultor e esculturas que se metamorfoseava em dança. Comentar e analisar o que visto/jogado  é parte fundamental do sistema de Jogos Teatrais e durante a avaliação da nossa sessão vimos (ou revimos) os princípios que regem este sistema que para ser libertador, precisa ser de uma disciplina livre e orgânica, nunca imposta. E conseguir isto não é nada fácil, mas é possível!


Antes de findar esta cambalhota e já emendar uma outra, deixo para vocês o que as brincadeiras da minha infância me mostraram da vida: 


"A gente fica olhando a corda bater no chão. As outras crianças já estão cantando "Um homem bateu em minhaporta e eu a-bri!". E a gente lá, entre a ousadia e a cautela, tentando achar a hora exata de entrar. Depois que a gente entra, porém, não pode parar de pular, porque é arriscado levar um tropeção. (...). Eu sei, eu também sou assim. "Porque eu sou medrosa. Mas se eu desço pro play é pra brincar"!"


Ps: Não sei se autocitação é falta de criatividade ou de tomar vergonha e escrever algo novo, mas a questão é muito simples. Não é de hoje que estas coisas me incomodam, e acolho estes incômodos: se não me incomodassem, jamais tentaria mudá-las, certo? 

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Sobre os últimos tempos

Eu sei: tenho chorado demais, tenho dormido demais
(mas não o suficiente para hibernar até a próxima estação)
E não tenho visto alternativas diante do futuro, que pelo menos agora
Mostra-se como uma massa amorfa e previsível.

Essas pancadas de chuva, anunciando a chegada do Verão
De certa maneira me confortam. Vai passar.
Daqui a pouco estia, daqui a pouco as nuvens esquecem que passaram por aqui
E vão chover noutro lugar.

Aí é que está. Você é que não quer esquecer
E insiste em manter uma nuvem carregada bem debaixo da sua cabeça
Essa mania de ser cientista...
Estudar p´ra quê?

Ainda não tem o poder de evitar catástrofes
E até os animais correm para se refugiar
Diante da iminência do perigo
Não precisam de ciência, não assistem à moça do tempo.

Para que se precaver tanto, como velhos que estocam comida com medo da guerra?
Mesmo em tempos de paz, você vê a todo tempo civis trocando olhares de ameaça
Só para mostrar quem manda.
Alguns idiotas se submetem, outros pagam com a mesma moeda.
Cegos e banguelas,
Levando a cabo a Lei de Talião até o último dente.

E quem não topa nem eu uma coisa nem outra, faz o quê?
Subversivos por natureza não aceitam nem a dominação e nem a cegueira da guerra.
À margem e sem carona,
A gente só quer um pouco de diversão nesta estrada que não vai a lugar algum.


terça-feira, 4 de outubro de 2011

Solar

                                                            Para meus cachorros

Quem sabe também não estejamos lá
Eu e meus cachorros, 
Às seis horas da tarde, no Viaduto do Chá
À espera do ocaso, se acaso ele chegar.

Trouxe Pozzo e Lucky na coleira, mas nem precisaria.
Eles não avançariam em você nem por um afago, estão tristes como o quê.
Não latem mais, rabos retraídos, a tigela de comida intacta.
Parece até que descobriram que não enxergam em colorido.

Pôr-do-sol no centro da cidade, mas que bobagem.
Só você mesmo para ter uma ideia dessas.
Como se Sol não fosse Sol em qualquer lugar do mundo,
Como se ele só se pusesse em São Paulo.

Esperar o Sol se por é pior que esperar Godot
Ele nunca chega, é justamente o oposto:
Poente é sempre partida. E disso eu entendo
Que estou sempre esperando, que estou sempre de partida.

Você é tão engraçado! Age como um semideus.
Acende um cigarro e pronto,
Procurar sentido é coisa para mortais.
Deixa isso para bestas melancólicas que levam cães para passear como desculpa. 

Você e seus cigarros, eu e meus cachorros.
Não dá valsa nem samba,
Ninguém dança de armadura.                                     
Cada um com seus escudos, paralelos, absurdos.

E quando a noite chegar? Eu fico me perguntando quem vai levar Godot para casa.
Mas é claro que estou variando.
O Sol, Godot, você e até meus cachorros,
Todos já se foram.

Agora, tudo são cadeiras vazias e uma noite sem fim.
Entretanto, sem esperar por mim, novos dias sempre chegam.
Então, antes que eu de fato enlouqueça,
Em vez de pôr-do-sol, é melhor que amanheça. 

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Filme de Mulherzinha Ataca Novamente

Está provado cientificamente: comédias românticas podem estragar a sua vida. Mas eu, particularmente não estou nem aí. Quando nasci, cinto de segurança não era obrigatório e merthiolate ardia e ainda assim, estou viva, vivinha. Da Silva, Teodoro Alves, o que quiserem. Acreditem!

Tentei me recuperar, mas é inútil: o dano cerebral causado pelas comédias românticas noventistas estreladas por Meg Ryan, Renè Zellwegger, Julia Roberts e afins é acumulado. Já era, meus miolos foram indiscutivelmente carcomidos. Só restou o coração, que sem um pingo de vergonha na cara, ainda pulsa: bridget-jones, bridget-jones. Happy-end, happy-end. 

Além do mais, comédia romântica pode até estragar uma vida, mas não um blog. O textículo mais acessado deste faroeste é a resenha sobre Falando Grego, da Nia Vardalos. Aqui, elas até ajudam!

Anos depois, adicionando uma licencinha poética para o festival de bobagens que lhe são devidas, vejo que comédias românticas tem lá suas pilulazinhas de sabedoria. Tolas, inocentes, mas ainda assim válidas, verdadeiras em sua tolice. 

Como Medianeiras, Buenos Aires na Era do Amor Virtual. Em se tratando da ideia de discutir cultura digital, é uma ótima propaganda para os produtos da Mac. De tão escancarada, nem parece merchandising. Parece peça publicitária mesmo, na cara-larga. 


Gosto de filmes em que cidades são personagens. Uma Buenos Aires contemporânea, pós-crise, de longe é a personagem mais fascinante. A protagonista é arquiteta, e é dela que vem a metáfora das medianeiras, aquele lado dos edifícios que não serve para nada, a não ser para abrigar propaganda e limo. Como nas pessoas, expõe o lado mais frágil, feio e vulnerável de construções que precisam se fazer sólidas e fortes. Abra uma janela na sua medianeira, mesmo que ilegalmente. Deixe entrar luz no seu apartamento, vai te fazer bem.

Também gosto de gente neurótica nos filmes. Mitigam minha vergonha. Além do que são muito mais verossímeis: Mariana taca coisas na parede, chora por bobagem e carência, fuma mais que preto-velho no terreiro. Martin é fóbico, hipocondríaco, insone, atrapalhado. Leve seus cachorros para passear, mesmo que eles sintam medo. Eles precisam se acostumar com outros cachorros. 


Se toda essa firula ao final vendesse só iPod, eu até perdoaria. Foda é vender a ilusão de um amor único perdido na cidade, vestido com uma blusa listrada de vermelho e branco, óculos e gorro à sua espera, prontinho para ser encontrado. Se você começar a procurar onde está o Wallie com 14 anos, quem sabe você o encontre aos 30! Mas use uma lupa, porque isso é trabalho para mais de metro. 

Procurar Wallie é uma tarefa muito difícil para míopes não operados como eu, então fica para outro dia. Não comprei a ilusão, mas me diverti com a conversa mole do vendedor. Atitude típica de 1984, um duplipensar para esquentar as turbinas. Porque só agora posso começar a abrir um vitrô na minha medianeira, sair com meus cães assustados por aí. Spring is coming! 

domingo, 28 de agosto de 2011

Quando seu cheiro entrar de vez na minha pele


Quando seu cheiro entrar de vez na minha pele,
Vou leva-lo para passear.
Deitar em outras camas, provar de outros falos.
Para que você também prove de outras texturas, outros colchões.

Quando seu cheiro entrar de vez na minha pele,
Feito pomba-gira enfurecida vou rodopiar
Mais, mais e ainda mais
Para que ele, de uma vez por todas, se dissipe.

Quando seu cheiro entrar de vez na minha pele, vou fazer de tudo para ele sair.
Tomar banho de cachoeira, me vestir de freira, talvez de palhaço.
Quem sabe eu não o espante a base de escárnio?

Alecrim, canela, gengibre, baunilha, rosa branca.
Quando enfim seu cheiro sair de vez da minha pele,
O meu é que vai cair no mundo!



quarta-feira, 20 de julho de 2011

A vida é um soco no estômago

"Quantas emoções você conhece que não tem nome?
Colocar nomes nas coisas é muito fácil..."
Para Adriano Ropero
Realmente, professor. É muito fácil.

Caralho, meu! VOCÊ VEM PERGUNTAR ISSO LOGO PARA MIM? Você sabe de muita coisa, professor, mas de mim você não sabe da missa a metade. Talvez não te interesse saber, mas mesmo assim eu vou contar.

Emoção, sentimento, com nome, sem nome. Que me fez sorrir, que me gargalhar, que me fez gritar de dor, chorar de desespero, gozar até me esgarçar. Muito prazer, meu nome é Montanha Russa.  Não sirvo para Roda Gigante. Esta coisa de girar em torno de um eixo fixo caberia melhor para quem, um râmster de laboratório? Talvez, mas não pra mim.

Para encurtar um pouco este papo, a questão é: o que eu vivo cala fundo em mim. Não sem as avarias e escoriações inerentes a quem passeia na Montanha Russa sem cinto de segurança. Se não morri até agora, acho que não morro mais.

Visceral sim, mas não irracional. O cérebro também é uma víscera! Penso, logo insisto. Categorizar tudo isso, ou como diz você, dar nomes, era o meu brinquedo predileto. Acho que nem Sócrates gostava de pensar tanto. Aqui em casa, há quilos de papel, tinta e madrugadas que se transformaram em poemas, cartas, contos, diários, textículos. Metade da minha vida tenho passado escrevendo compulsivamente, doutor. Tem cura para isso? Só que houve uma mudança nestes últimos tempos.

Cansei do parquinho de diversões, Herr Professor. Porque a Montanha Russa guarda pelo menos uma semelhança com a Roda Gigante: ela também volta para o mesmo lugar, anda nos trilhos. Até tinha parado um pouco de escrever, ficar se repetindo para que? Para quem? Tenho precisado de lugares novos, apesar do meu talento infame para o lugar-comum. Também não gosto de andar nos trilhos. E você, gosta?

É relativamente recente esta habilidade para a reinvenção, me divirto com outras personas. É o que me permite estar em lugares novos, lugares estranhos. Aprendi a me camaleonar, antes que eu me acostume com o que eu vejo no espelho. Mas não vou mentir, eu me espanto muito. Nem eu sabia que era tão boa atriz. 

Outra coisa me fez cansar da Montanha Russa: ir de zero a cem em segundos durante tantos anos estava me deixando neurastênica. Se não estou agora babando verde numa sala acolchoada, é que ao que ao beirar a loucura, antes resolvi parar na terapia. Sabe quando a gente para na padaria antes de ir para casa? Assim o zero a cem se torna uma escala, pelo menos. Igual a cantar: experimentando outros tons, aprendendo a me modular. Coisas de artista.

Como pode perceber, mein lieber Lehrer, eu posso, sem medo de parecer pretensiosa, me dar o título de Honoris Causa nesta bola que sua doutíssima pessoa levantou, e me dou. Se me cansei de colocar emoções e sentimentos em caixinhas de organizar na cabeça, nessa minha cabeça dura de mula teimosa, é porque agora está no corpo tudo o que eu vivo, na verdade sempre esteve. A vida é um soco no estômago. Igual ao que você me deu no último domingo. Não sei se seus punhos cerrados doeram, porque a impressão que eu tive por aqui é que você socou um muro de concreto. Nem eu poderia supor a existência desta força.

Flávia.

PS: Esta conversa de dar nomes para emoções me lembrou duas coisas. Uma é o Marcelo, Marmelo, Martelo: essa coisa de chamar leite de suco de vaca e cadeira de sentador. A outra é o Brasa Mora: são tantas emoções, bicho! Ah vá, eu tinha que terminar assim, fazendo piada? O negócio é sério, professor. Você mexeu num vespeiro daqueles.

domingo, 12 de junho de 2011

Aprendendo a amar vol. 1

Este texto é o primeiro da série "Aprendendo a amar", escrito em 2009. Dedicado a meus alunos, ex-alunos, colegas e principalmente para quem amou e se decepcionou, mas que deu a volta por cima!

Um dia no intervalo das aulas, uma conversa entre os professores: aquela escola estava muito parada ultimamente, era preciso animar o período da tarde.  Então, é surge a idéia de fazer uma festa do dia dos namorados, já que a professora de inglês estava trabalhando com textos sobre São Valentim com as sétimas séries. O professor que quisesse entrar na dança era só contribuir com a sua idéia e a professora de inglês escreveria o projeto pedagógico da coisa.

A professora de Artes aderiu ao projeto na hora, mas com a dúvida de qual trabalho poderia fazer sobre seus alunos, afinal, se resolvesse trabalhar com Arte Erótica ou com o Nu na História da Arte poderia até ser exonerada do cargo, dado o moralismo indecente de sua época. Alguém soprou no seu ouvido para fazer cartões para correio elegante com as suas turmas. Ela, que normalmente xingaria quem deu essa idéia, dessa vez, sabe Deus porque, aceitou a idéia com simpatia.

Quando os alunos começaram a fazer os cartões nas aulas, ela entendeu porque ela topou fazer uma atividade que não tinha nada a ver com sua concepção vanguardista de Arte-Educação. A última vez que tinha feito correio elegante foi para as quermesses da Igreja, que tinham ficado para trás há um bom tempo. Tinha se esquecido a diversão que era aquele recorta-e-cola, somado à chuva de glitters, purpurinas, lantejoulas e corações feitos em série, como se fosse uma linha de produção.

Corações grandes, pequenos, em duplas, em trios e, em sua grande maioria, vermelhos. Todos de um vermelho pulsante, cor de cartolina comprada na papelaria da esquina. Lá pelas tantas, a professora se pergunta que cor estaria seu coração neste momento e apostou num azul, já que seu pobre coração andava um tanto gelado.

Não que seu coração nunca tivesse sido vermelho, só que da última vez que ele ficou vermelho foi de raiva, depois de uma decepção daquelas. Já estava recuperada do tombo, mas se deu conta, às vésperas de promover uma Festa do Dia dos Namorados com seus alunos, que tinha se fechado em copas para o amor. Como poderia reclamar que ninguém gostava dela? Ela não achava mais graça em ninguém. Todo mundo era feio, todo mundo era chato.

“Sou muito nova para ficar assim”, preocupou-se a professora. E sua preocupação foi ficando cada vez mais provinciana, apavorando-se com a idéia de se tornar uma professora solteirona típica, daquelas que usam “saia-lápis na altura do joelho, coque e óculos armação-tartaruga”. Sua preocupação, porém, durou poucos segundos, até um aluno cortar seus pensamentos com uma tesourinha sem ponta e dúvidas bem menos filosóficas: “É para cortar para direita ou para a esquerda, Prô?”

Longe da bagunça das salas, a professora foi avaliar o resultado da produção dos seus alunos. Contar os cartões, ver erros de português, essas coisas. Em contato com os corações, que ora escondiam, ora revelavam mensagens apaixonadas – tão clichês para os mais velhos, mas pura novidade para aquela molecada que está começando a descobrir os prazeres do amor – sentiu o seu próprio se aquecer. Entendeu o que seus velhos professores lhe diziam com: “Ensinar é via de mão dupla, a gente também aprende com nossos alunos”. Ela passou anos achando que isso era um bordão vazio, agora viu que era pura verdade. Graças a seus alunos e àquela bagunça de cartões sem fim, estava reaprendendo a amar.

sábado, 4 de junho de 2011

O Louco

Eu quero a folha em branco, o espaço vazio,
O vácuo da experiência. 
O útero oco que mês a mês se prepara para receber. 
Uma sala sem móveis, 
onde minhas canelas estejam livres de tropeções em pés de mesas de jacarandá.

Cansei de acumular, de ter que ter, de ter que saber, de ter que ser.
Pros diabos quem se garante na base do “quem guarda, tem”.
À beira do abismo,
“O centro era eu, de tudo!”

quarta-feira, 16 de março de 2011

Vamos brincar perto da usina

A capacidade do ser humano em ser egocentrado (leia-se: egoísta mesmo) é absurdamente incrível. Somente nesta semana que assisti a alguns noticiários e li alguns jornais sobre o terremoto-tsunami-acidente nuclear do Japão. De fato, desgraça pouca é besteira. Se vem, vem de lote e a galope. 

Do outro lado do mundo, o caos está completamente instalado em uma situação que só se compara a Segunda Guerra Mundial, que deixou o Japão afundado na lama. E mesmo assim  eu  só conseguia pensar em mim! Agora me sinto péssima por isso. Poderia ser qualquer um de nós! Ou ainda acha que no Brasil não existem desastres naturais? Faz-me rir! Aqui já aconteceram e acontecem terremotos, vendavais, enchentes,  queimadas, deslizamentos de terra. A Natureza é caótica, irmãozinho. Não tem nada a ver com ira dos deuses. Todas estas pessoas foram vítimas do acaso. 

Este último parágrafo é feito de um cinismo dos mais sentimentalistas e baratos. Mesmo com todo este mea-culpa, eu ainda penso só em mim. É que também o PIG é foda, né gente? Quando começa com uma coisa, não para mais. A avalanche de informações é tamanha que chega um ponto em que você filtra para não enlouquecer. O pior efeito colateral deste processo é perder a sensibilidade, anestesiar-se por completo. Odeio muito tudo isso. Aí volto para meu mundinho de textículos e intrigas. 

Na verdade, todo mundo é um pouco assim. Por isso é que gosto tanto deste poemínimo do Mário Quintana. Quem tiver a cara de pau de dizer que Quintana estava enganado, que atire na professorinha.  
 
A nós bastem nossos próprios ais,
Que a ninguém sua cruz é pequenina.
Por pior que seja a situação da China,
Os nossos calos doem muito mais...
 
O fato é que as notícias sobre o acidente em Fukushima, e a reportagem sobre Shernobyl vinte e cinco anos depois do desastre me evocou algo bem mais corriqueiro. Lembrei de Angra dos Reis, da Legião. Uma das minhas canções de amor preferidas que titio Renato escreveu. 

Vamos brincar perto da usina. Brincar com radiatividade, perigo. Amar é bem assim mesmo, um constante brincar com fogo. E achar que não é nada. Pra que se explicar, se não existe perigo? Não adianta chorar, se por um acaso se queimar. É assim mesmo.

Não estou com dor-de-cotovelo, muito menos compatível com o nível da canção, só estou um pouco atônita. Angra dos Reis, porém, faz parte do meu relicário de lembranças adoradas. Mesmo se as estrelas começarem a cair, me diz: para onde é que a gente vai fugir?

É o que está acontecendo comigo. Estou das duas, uma: ou em ponto de fuga, ou em ponto de bala. Deixa pra lá, vai. A Angra é dos Reis.



Boa cambalhota noturna, gente! Urbana Legio Omnia Vincit!

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Tinindo trincando


As neuroses olharam esse mar e deram no pé
Eu sei, a vida não acontece só nas férias. Mas é que, além de mim, as velhas neuroses também saíram de férias e espero sinceramente que elas tenham uma epifania bebendo água de coco na Praia de Cabo Branco,  decidam pedir demissão de mim e saiam por aí vendendo bijuterias e dormindo ao relento. Que nunca mais voltem, felizes da vida.

Falando em felicidade, eu bem disse que felicidade permanente é neurose, mas  quando estou realmente feliz, é pra valer. Não disfarço gosto de purgante na boca. Como diria Filhutti, meu laranja tá piscando neon. Tô com tudo, no duro tinindo, tinindo tricando.

Não aconteceu nada de especial, ou pelo menos de mega-über espetacular. Só descobri um balanço entre a intensidade e a tranquilidade. A vida vai à milhão, mas a mente continua tranquila, ou pelo menos, mais do que era antes. Geralmente, comigo era o contrário. Fantasiando para driblar o tédio, dar de cara com a realidade era tão suave quanto um pouso de albatroz. Resultado: um blog chamado Textículos de Mulher.

Como estou mais preocupada em viver, racionalizar e escrever às vezes fica de lado. Mas pretendo não abandonar isso de vez, até porque escrevendo descubro coisas que já sabia. Sem esperança de ser a renovação literária da América Latina, o sabor dos textículos fica mais sapeca e menos pretensioso. Tempos Modernos, babe.

Então, calipígios e onanistas, vou tentar fatiar em fatias finas e apetitosas, a viagem para John Person e Natal, o Summer Soul Festival, uma crítica atrasada de Amélie Poulain. Descendo pro play e indo brincar, sempre.

Feliz 2011, pessoal!

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

The Cranberries

São Paulo me recebeu com chuva. Percebi que estava entrando na cidade quando o avião entrou por um amontoado de nuvens, como se estivesse mergulhando em algodão. Sorri e falei para Terra da Garoa: "Sabia que você não me daria trégua! Mas não tô nem aí, estou aqui de novo!!" Desembarquei no Congonhas pronta para outra. Tinha um encontro com o lendário ano de 1997, ano em que descobria, entre uma confusão e outra, a mim mesma e The Cranberries.

Quem me apresentou The Cranberries foi meu amigão da sétima e oitava série, o Gilson, tão louco por música quanto eu, apesar das diferenças - eu estava moldando minha personalidade à base de rock n´roll e ele, adorava pop. Ele me apresentou o terceiro album da banda, To The Faithful Departed. E eu fiquei louca por Salvation, Free to Decide e depois as mais antigas e conhecidas: Linger, Ode to my Family, Zombie.

Essa minha turminha do Derville era engraçada. Não estávamos nem aí para os "populares", os aborrescentes que faziam a maior força para mostrar que já eram adultos. Éramos bem crianções, a gente vivia rindo, brincando e cantando. Alanis Morissette, No Doubt (a banda preferida do Forrest, rsrs) e até Spice Girls estavam no nosso repertório. Direto e reto cantando, parecia até musical da Metro.

Esta era acabou quando concluímos o Ensino Fundamental, quando só eu consegui passar para o curso de Mercadô e a Isabel para o de Magistério. Fiquei totalmente órfã destes malucos e dos nossos dias de Família Do-Re-Mi. Minha vida foi por outro rumo e este tempo ficou perdido nas ruínas da memória. Até sexta passada, pelo menos.

O show do The Cranberries - pela primeira vez no Brasil, ora essa! - funcionou como uma máquina do tempo, para mim e para todos que estavam lá, eu aposto. Quando tocou Salvation, quase no fim do show, nem precisei fechar os olhos para ver o Splash sacolejando em volta de mim, toda vez em que eu comprava uma ficha na Jukebox que havia por lá só para ouvir essa música e sair pulando pelo bar, catarticamente.

Eles fizeram um show seguro, afinal trata-se de uma banda com uma coleção de hits para escolher e para mim, nenhum ficou de fora. Salvation, Zombie e Ridiculous Thoughts na sequência quase me mata do coração! Como bem observaram algumas resenhas que eu li, eles fizeram um retrato da década de 90, o único album dos 2000 foi lembrado em somente uma música. E todas foram cantadas pelo público, palavra por palavra. Os hits e as obscuras. As lentas e as agitadas. As alegres e as soturnas. Todas.

Eu sempre disse que tenho bronca de bandas que vêm ao Brasil depois de mil anos em turnês caça-níqueis, mas sinceramente, não creio que seja o caso do The Cranberries. Se fosse assim, Dolores e sua trupe não fariam um show tão cheio de alma e vigor, como este, que emocionou pra valer todos os neo-tiozinhos que estavam lá, inclusive a professorinha fazedora de textículos aqui.

Ela prometeu voltar, espero que, dessa vez, com um novo álbum do The Cranberries. Porque todo este retorno ao passado para mim se presta apenas a um sorriso por saber que eu era feliz, e sabia, como tenho sido hoje. Eu quero é mais, nosso tempo é agora.

Só senti falta mesmo de uma coisa: Gil, você não estava lá!!! Onde você foi parar, cabra???

domingo, 19 de abril de 2009

Abril Pro Rock*

Não só pro Rock, mas também, pro soul, jazz, choro, MPB... Aproveitando a onda de bons shows em 2009, o mês de abril segue fodástico. Sem grandes shows (em porte, que fique bem claro), como o do Radiohead ou do Ney - sorvidos sem vão receio no mesmo fim de semana - neste mês, estou aproveitando ótimos shows nos Sesc´s da cidade, coisa que faço com assiduidade, dado o excelente custo-benefício da coisa. Todos, evidentemente, mereceriam textículos à parte, mas para deixar a audiência texticular salivando, resolvi contar todos em uma talagada só.

Época de Ouro e Nó em Pingo D´água (Sesc Vila Mariana, 11/04/2009): Comprei para ver o Época de Ouro, antológico conjunto de choro fundado por nada menos que Jacob do Bandolim. Hoje, o único da formação original é o Jorginho do Pandeiro, mas o grupo mantém a tradição do chorinho de corte clássico, diferente do Nó em Pingo D´água, grupo carioca já das antigas, mas que faz um choro mais experimental e até pop. Deu até vontade de voltar a estudar violão só pra tocar choro. Detalhe que neste palco em 2004 vi o mestre Sivuca tocar, já bem velhinho e doente, mas não menos endemoniado com seu acordeão. Vi também o Mawaca e a Fernanda Porto neste palco. Deu saudade, viu. Mais um show antológico entrou para esta coleção.

Ed Motta (Choperia do Sesc Pompeia, 17/04/2009): Show há muito tempo aguardado, porque sei que é um evento raro. Várias vezes já ouvi o Ed Motta falar em entrevistas que prefere ficar compondo no estúdio do que fazer turnê e talz. Então, a Bozo de Calça Roliça aqui achava que seria um show sei lá, intelectualizado. Que nada, um show de Stand-up Comedy não seria tão engraçado. O Ed é um adorável doidão, como um nerd que viaja careta e falou de um tudo: desde taxistas que confundem as músicas dele com as do seu tio, Tim Maia, até questões de altíssimo cunho filosófico como: "Por onde estará Stevie Wonder?" E é claro, ele e sua banda tocaram, por assim dizer, pracaralho. A-do-rei! Passei por um doce dilema na noite desta sexta: meus amigos e companheiros de banda, Zé e Forrest estavam num show do Scandurra na mesma hora e tinham me chamado também. Só não fui porque as entradas do show do Ed estavam compradas há umas duas semanas pelo menos. Não obstante os apuros passados (meus pais quase foram barrados no baile por suas carteirinhas do SESC estarem supostamente vencidas e os meninos "roubaram" a mesa de um noia em um boteco nas imediações do Clube Berlin, onde aconteceu o show do Scandurra), essa sexta foi no mínimo fecunda, em matéria de bons shows.

Lô Borges e Milton Nascimento (Teatro Paulo Autran, Sesc Pinheiros, 18/04/2009): Não sei se o Lô Borges foi genial ou fez uma cagada em chamar o Milton Nascimento para fazer parte de seu show, porque todo mundo foi lá para ver o Milton. Apesar de a-m-a-r as músicas do Lô Borges, eu tava a fim mesmo era de ver o mestre, porque Milton Nascimento É uma lenda viva da música brasileira. Show perfeito, mesmo com a rasgação de seda mútua entre Milton e Lô. Como era um show de mineiros, eles contaram uma série de causos, até de sapos cantores acompanhando "Para Lennon e McCartney", com o Milton regendo o coro de anfíbios. (Mas eu e o Zé chegamos a conclusão que eles deram é uma bela lambida nas costas de um cururu para ter uma viagem dessas.) Durante o show, passei por vários momentos em que abri minha boca à la Didi Mocó, porque foi um clássico atrás do outro, só pra citar alguns: Paisagem da Janela, Um Girassol da Cor do seu Cabelo, Nada Será Como Antes, Dois Rios, Resposta, Para Lennon e McCartney, e Clube da Esquina 2, que eu amoooooooo! Quase me joguei do balcão do Teatro Paulo Autran, de tanto tesão auditivo e saí de lá feliz por ter um sanguezinho mineiro correndo nas veias (meu avô paterno era mineiro de "Bêrába"), porque eita gente pra fazer música boa, sô!

Los Porongas (Livraria Cultura do Shopping Bourbon, 18/04/2009): Opa, dois shows no mesmo dia? Sim, senhores! Antes de partir pro Sesc Pinheiros, estava de bobeira na Livraria Cultura, quando me vi subindo as escadarias da loja atraída pelo som da banda, tal e qual Pica-Pau sendo levado pelo cheiro de uma comida apetitosa. Peguei uns 15, talvez 20 minutos de show e fiquei hipnotizada pelo vocal afinado e ao mesmo tempo urrado, o lirismo das letras e o teclado endemoniado do violonista/tecladista que algumas vezes até me lembrou o Ray Manzarek, dos The Doors. Os caras tem uma alquimia com estes estes ingredientes na mesma medida que nós do In-pessoa estamos buscando desde que começamos. Agradabilíssma surpresa, tanto que no final fui trocar uma ideia com o baixista, o Magrão, pra saber se os caras tem My Space. E tem, oras! Segura essa: www.myspace.com/losporongas.


Gente, quem quiser que conte outra porque este final de semana me deixou exausta! Beijo do Bozo!
*Referência ao mítico festival de música independente de Recife: www.abrilprorock.com.br

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Links de utilidade pública

Já disse inúmeras vezes aos meus amigos que perdi as contas de quantas reencarnações eu preciso para viver, ver, ler e assistir tudo que eu quero na minha vida, curta para tantos desejos. Eles concordam comigo e compartilham dessa sensação. Muitas outras pessoas também devem ter esse tipo de paranóia, porque é moda agora livros e afins do tipo: "501 Must See Movies" ou "1001 discos para ouvir antes de morrer". Sinceramente, escorreu uma baba no cantinho da minha boca por estes livros. Ai, como é difícil ser cult e cool...

Na verdade, sou fanática por listas como essa. Nunca mais publiquei textos com Top5, porque minha seletíssima audiência regula sua mixaria e a grande maioria não posta comentários, mas continuo gostando muito. Ontem me diverti com "As 100 mais em 100 anos", lista das 100 músicas mais tocadas de 1904 a 2003. Você olhou a lista do ano em que você nasceu? Bingo! É praticamente impossível não se sentir curioso? Será que na sala de parto onde nasci tinha um rádio ligado, como em Cidade dos Anjos? (Filme que para mim, por um acaso, só prestou mesmo pela trilha sonora.) Fico rindo, de pensar em mamãe se esguelando na sala, enquanto a Zizi Possi se esguelava no rádio: "Me faz pequena, aaaaaaaaaaaaaaaaaaasa morena..." Rá! Eu sei que não tem graça nenhuma, Duley.

Também é tentador olhar a lista do ano que mudou a sua vida. E a decepção do Vizinho: na lista de 1997 não tem Radiohead! Na verdade a lista serve para rir, porque a quantidade de porcarias e guilty pleasures é imensa. A lista mais chiquérrima foi a de 1948, ano de nascimento da Betona: primeiro lugar para Dick Farney, considerado em sua época o Sinatra brasileiro. Na verdade, o popular era naturalmente mais sofisticado. Essa coisa que para o povão tem que ser ralé, é uma ideia lamentavelmente recente.

Mesmo antes deste festival de listas, estava começando a formar a lista dos 100 sites que você precisa acessar antes de bater a caçoleta, finar-se, bater as botas. (Já reparou como são numerosos os eufemismos para a morte? E o pior, os mais engraçados.)

Voltando a lista: eu mal tenho 5 para um Top, mas como eu sou teimosa, eu chamo a audiência para dar a sua contribuição:

1 - Desencalha Wanderson (http://www.desencalhawanderson.com.br/) - Indispensável pelas fotos com cara de "Manhê, eu tô com gases" e pelo texto comicamente mal redigido;
2 - Vida de merda (http://www.vidademerda.com.br/) - A vida é uma merda, mas ainda assim, é capaz de te matar de rir;
3 - Horóscopo Astral (http://www.horoscopo-astral.com/) - Ótimo para formar "Astrólogos de Mouse", como eu. Este site, com sua data, hora e local de nascimento, não descobre apenas seu signo ascendente, como também a cor do seu MM´s favorito;
4 - Nimportequi.com (http://nimportequi.com/) - Não tenho muitas informações a respeito, este link foi mandado por Forrest ao especularmos a formação desta lista. Grupo de comédia francês com esquetes genais no mesmo nível que as do Monthy Pynton. Humor finérrimo;
5 - Textículos de Mulher - Dispensa comentários. Se você não acessar, eu choro!

Dispensei os links que eu já recomendo usualmente, exceto o do guru da campanha pela minha saída do caritó. Por este motivo, é que não está aí meus blogs preferidos, como o OkComput3r e HTP, nem os sites que reconheço como utilidade pública. As nobres almas que me acompanharão nesta empreitada, por favor, defendam os pequenos e desconhecidos. Sem culpa cristã, excluirei listas do tipo "Orkut, Youtube, MSN, Myspace, UOL", porque estes não são novidade nenhuma. Mas Pérolas do Orkut e GTO aceito sim, obrigada.

terça-feira, 24 de março de 2009

Sonho de um sonho II

Neste domingo, fui uma das 30 mil pessoas que assistiram ao show do Radiohead em São Paulo, e aquela sensação duplipensante de viver o momento ao mesmo tempo em que se tenta racionalizar a experiência para relatar depois funcionou só durante alguns instantes, porque o que eu vivi foi tão surreal, que me sinto como o Segismundo, protagonista de A vida é sonho: estava dormindo e acordei aqui ou foi o contrário, tudo isso é um sonho?

Engraçado porque quem é fã absoluto e irrestrito de Radiohead não sou eu, acho difícil superar Vizinhíssimo e TioZé em loucura insana por Thom Yorke e seus parceiros, mas isso não impediu que eu me comportasse como uma fã, a começar pelo dia em que eu comprei o ingresso, uns três meses antes. Por que eu fiz isso, se não era tão fã assim? Simples, eles decidiram vir ao Brasil no seu melhor momento, e conta-se nos dedos as bandas internacionais que fazem isso. Sabia, desde sempre, que seria este um show histórico¹. E foi.

A surrealidade da experiência começa pelo fato que faz uns 10 anos que eu não vou a um grande show de rock e sinceramente pensei que esta fase já tinha passado. Clichê muito piegas, mas verdadeiro: é como se eu tivesse a minha adolescência de volta. E isso é bom demais.

Minha mente ainda tagarelava no show do Los Hermanos, que no início eu desprezei, mas que depois ganhou um gosto de piada velha envelhecida em barris de carvalho, como um bom vinho. O show foi melhor que eu esperava e achei muita graça em eu não conhecer nada de Los Hermanos que ultrapassasse a chatice da "Anna Julia". Eles que não são bobos nem nada, não tocaram essa pérola do cancioneiro chato do pop-rock brasileiro. Conclusão: apesar de ter apanhado do Chorão e de dar uns sapecos na pirralha da Mallu Magalhães, o Marcelo Camelo merece algum respeito musical, mesmo com sua cara de funcionário da Nasa dos anos 70, misturada com cara de judeu de Higienópolis com traços de estudante de sociais da USP ou coisa que o valha que me irrita um tanto, eu confesso. E o Rodrigo Amarante fez mais bonito que nosso idish-apollo13. Alguém tem o telefone dele, por favor? :-P

Outra piada velha, mas que eu conheci estes dias, portanto tem graça foi o Kraftwerk. Eles tem mais de 20 anos de carreira, mas para mim foi a descoberta da pólvora. Vi tudo naquele show: poesia concreta, Mondrian, crítica social. Mais um drama tostines na minha vida: eles são realmente vanguarda ou o que a gente faz e ouve em termos de música é que está datado? We are the robots!

O Radiohead, como bem informa a notícia do link, entrou pontualmente em cena. E aí que começou meu desespero, do alto dos meu 1,63m de altura. Não adiantava ficar na grade, como bem observou o já iniciado em shows do Radiohead - o dono do... OKcomput3r! - para que se pudesse ver o show na íntegra, com os efeitos de luz que ajudaram ainda mais a criar o clima de "isso é verdade mesmo?" que permeou todo o show. Só que era gente demais naquele lugar e ver mesmo o show, eu não vi. Demorou um tempo para entender que aquilo não era um show, era uma experiência, e que em shows de rock o legal não é ver e sim participar. Foi aí que a coisa ficou boa para mim, quando rolaram os melhores momentos do show, na minha opinião: Paranoid Android, Karma Police, e do In Rainbows, Reckoner. No bis, Fake Plastic Trees foi atrapalhada por uma briga perto de mim. Como bem observou um outro cara que estava por lá: "Brigar logo na hora do Carlinhos, pô?" Aí, estragou.

Hora de ir, quase um enrosco, em plena madrugada de domingo para segunda. E lá estávamos, mais uma vez, eu e meus companheiros de aventura, tentando sobreviver na cidade. Chegamos três da manhã em casa e em vão tentei acordar às 5h30 para ir trabalhar e abri os olhos com essa sacada do Segismundo: estou acordando agora ou voltando a dormir?

Esta pergunta se mantém sem resposta. Desde que acordei/dormi, tenho ouvido Radiohead feito uma louca, tentando "concretar o fluido", reter na memória o que passou, o que eu senti. Essa bola eu cantei para o Zé, na saída do show: acho que só vou entender o que aconteceu de verdade daqui a alguns anos. E olhe lá.

Por isso fica para o próximo textículo um pouco mais da minha relação com o Radiohead, como se fosse os TM um filme do Tarantino, que vai e volta no tempo com garbo e elegância, como eu*. É para nós mesmos esta cambalhota!

1 - Aos que sobreviveram para contar esta história comigo, aquele abraço!

sábado, 21 de março de 2009

Inclassificáveis

Fui assistir ontem ao show do Ney Matogrosso de um de seus trabalhos mais recentes, o sucesso de crítica e público Inclassificáveis. Estava tentando ir deste agosto do ano passado, quando diziam que seria a última passagem deste show em São Paulo, o que se mostrou um belíssimo papo furado. Quando fiquei sabendo que neste final de semana rolariam mais três shows, eu corri para comprar a mesa mais próxima que eu pudesse e não perder este show por nada deste mundo e ainda carreguei junto Filhutti e TioZé, amigo, companheiro de banda, parceiro e compositor que até me faz às vezes eu me sentir uma diva, por conta das canções fodásticas que ele me dá para cantar, apesar de toda a desafinação que me acompanha. Seria ele um chamariz para invadir o camarim do Ney? Mistérios insondáveis da Velha Guarda.

Eu já conhecia o produto. Em 2004 assisti ao show da turnê Vagabundo, que ele fez junto com Pedro Luís e a Parede, que eu já conhecia e gostava também. Desta vez, porém, houve um mega-salto de qualidade. No show do Vagabundo, eu fiquei no poleirão, o setor em cima do camarote do finado Olympia (ah, que saudade, assisti ao primeiro show do Offspring no Brasil lá, no inesquecível ano de 1997). Desta vez no Citibank Hall (antigo Palace e DirecTV Music Hall), fiquei nas mesas do Setor 1 e escutei até as tomadas de fôlego do Ney na hora de cantar.


Essa coisa de ser blogueiro nerd é uma bosta. No show, entre uma gozada e outra, eu só pensava nessa merda de blog, nas frases que escreveria, em como descreveria aquela pélvis endemoniada que deixa Elvis Presley parecer um coroinha de igreja. E o Elvis nem chegou aos 67 anos - idade do gostosão Ney Matogrosso - e aos 40 já parecia um cachaço perto de ser abatido. Eu tive que respirar e abstrair, para poder viver a experiência como se deve, sem pirações ciberculturais.


O show é uma rara experiência de espetáculo completo: visual, performático, musicalmente perfeito. O Ney é artista consagrado, e neste show fica evidente sua segurança, sua experiência, seu domínio de cena absolutamente indiscutível e com tudo isso, ainda executa sua performance com uma paixão de primeira vez no palco. O Vagabundo também foi assim, mas no Inclassificáveis houve uma diferença. Senti uma maior economia nos gestos, aquela malandragem que só a idade é capaz de nos trazer. É diferente de estar contido, sua rebolada continua fantástica, tanto que ele não a gasta à toa. Nada mais perfeito para o tema do álbum e do show, a passagem do tempo e como isso nos espanta, passando pelo amor, pelo sexo, e acaba sendo um retrato dele: inclassificável. Sendo gay ou não, pouco importa: a figura dele causa tesão até na ponte Rio-Niteroi, e com este show ele prova (mesmo sem precisar) que é também atemporal.


Eu já conhecia o álbum, fui atrás de me afiar que não sou besta nem nada, mas ainda assim tive surpresas. Na passagem da primeira para a segunda parte do show, quando ele tira o primeiro figurino em cena e fica apenas com uma malha finíssima que até parece que está seminu com o corpo pintado, ele canta Cavaleiro de Aruanda, do repertório do Ronnie Von na sua fase mais fantástica. Quando ele canta "Por que a gente é assim?", de longe a minha preferida do álbum, ele desce do palco e canta - literalmente - na minha frente!!!! Se não morri naquela hora, não morro nunca mais. No bis, ele canta Simples Desejo, canção do primeiro álbum da Luciana Mello, que eu também adoro. Puta que pariu, gente. É de gozar mesmo.


Falando em gozar, desde que eu comprei o ingresso até a hora de sentar à mesa, eu disse que ia gritar lindo, gostoso, vai lá em casa e etc., coisa que eu e mais um monte de malucas fizeram no show do Vagabundo lá no Poleirão do Olympia. Mas ontem, quando o show começou, eu mal piscava, e suspirava. Só conseguia fazer isso. Como o Bozo de Calça Quadrada aqui só faz se f****, tinha umas pós-balzaquianas que fizeram isso por mim e pela plateia inteira, e mais pareciam um bando de adolescentes histéricas gritando pro Zac Efron no High School Musical, e o pior, só para aparecer, porque gritavam até no meio das músicas, das mais lentas inclusive, como Coisas da Vida, por exemplo.

Nestas horas se justifica meu ódio extremo pela "crasse média" medíocre que a gente tem nesse país. Nem dá para colocar a culpa na falta de estudo, de cultura ou de dinheiro, é falta de camisinha mesmo. Nascer já foi o erro. Filhutti estava bem atrás dessas frígidas e sofreu a pobrezinha. Nem sei como eu e ela não enfiamos nosso copo na boca daquelas malditas e um nabo em outro lugar, para tentar ver se sossegavam. Traduzindo: fora pela visão de palco, grande merda ficar no Setor 1. Sem contar o trânsito de garçons, às vezes tampando a visão do show. A culpa não é nem deles, que trabalhavam como se estivessem numa trincheira de guerra, quase de joelhos: era da plateia mesmo. Quer beber, que vá pro boteco e se quer comer, que vá pro restaurante. A última coisa que interessa a este tipo de público é a música. Nota zero para eles.

E quem quiser que conte outra, porque este fim de semana tem mais: amanhã assisto ao Radiohead e Kraftwerk, primeiro show internacional que vejo em quase dez anos, acompanhada de dois verdadeiros radioheadmaníacos. Segunda tem mais textículo, para mim e para esta seleta audiência que me acompanha. É para nós esta cambalhota!

Créditos da imagem: http://portal180graus.tempsite.ws/musicapelomundo/wp-content/uploads/2008/03/ney.jpg

domingo, 13 de julho de 2008

Mensagens na garrafa

Este Blog de Vida Dupla Mais sem Audiência do Ciberspaço, como sabem, veio depois dos diários de papel, mas não os sucedeu: é como se fosse meu marido e o meu diário, o amante, que pego na calada da noite em busca de proteção e abrigo.

Recomecei com os diários no fim de 2002, na época para registrar a minha meditação. Só que eu sou samsara demais para desvendar a vida sentada em flor-de-lótus. Cá estou eu na galhofa outra vez.

Aos poucos a vida comum foi entrando nesses registros, mas é meu mundo interno que impera lá, como nos diários de Frida Kahlo. Acho que isso é resqúício da meditação, da contemplação. É o meu modo de entender a vida.

Todas as cartas de amor são ridículas, todas as mulheres são putas e todos os díários são patéticos. O meu não deixaria de ser, lindamente patético. É muito engraçado ler aquela observação tão definitiva sobre uma coisa completamente fugaz. Com algum treino você não se envergonha disso.

Ultimamente, porém, estes diários da segunda fase assumiram a forma de um diário de uma adolescente, igual ao que eu tinha quando tinha 12 anos. Daqueles que os meninos roubam para ler e tripudiar da dona depois, munidos do segredo da pobrezinha. Daqueles que se fala do seu amor secreto (o meu agora é declaradamente escancarado). Daqueles em que não se fala outra coisa a não ser do menino que se gosta. O menino que eu gosto não me dá a menor bola, sabe? (Mas não tô nem aí, isso é problema dele).

Escrevendo eu me descubro e não enlouqueço, e muito cedo nesses diários que tenho feito desde os vinte anos (blues), eu vi que o que um diário mais quer é ser revelado. Ninguém escreve nada para não ser lido. O que explica o náufrago que joga no mar uma garrafa com um bilhete para qualquer um que encontrá-la? Save our souls. (Alimento essa fantasia quase sexual: que o menino que eu gosto roubasse todos meus diários e os lesse, um por um, às escondidas. Ele sabe disso.)

Ando jogando tantas garrafas no mar, que se o Greenpeace me pega, eu estou frita. Estou escrevendo demais, como se fosse morrer amanhã. E de todos os jeitos possíveis: aqui, no diário, compondo canções, cartas inentregáveis, e-mails insuportavelmente longos. Só deixei de escrever poesia, porque nem meu muso me lê! Não tem a menor graça.

Inentregáveis merecem um capítulo à parte. Cometi essa insanidade de entregar uma inentregável ao menino que gosto. E virou inlegível. O bruto não se deu o trabalho de ler, porque para ele são palavras apenas, palavras pequenas... Palavras ao vento.

Diz o ditado que palavras o vento leva, principalmente sobre essas de promessas não cumpridas, esses amores que acabam na base do 'tudo certo e nada resolvido'. Por mim, o vento pode levar minhas palavras, como aquela peninha do Forrest Gump. Alguém vai encontrar e ler as mensagens na garrafa.

O menino que eu gosto não sabe da missa a metade. Não sabe que antes de ser apaixonada por ele, sou apaixonada pela vida, que está me tratando como um cão sem dono tanto quanto ele está. E que, tanto quanto ele, me faz a mulher mais feliz do mundo, mesmo sem tê-lo agora. Mas de uma coisa ele sabe: o menino que eu gosto não é O Amor da Minha Vida. O Amor da Minha Vida é o Drummond! Só ele é capaz de me entender agora. "Porque amor é amor a nada, feliz e forte em si mesmo."

Textículo jorrado em 13/07/2008