Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!"
(Casimiro de Abreu)
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| Banana amadurecida no jornal não tem gosto de nada |
Lendário ano de 1998, com 15 anos, quase 16. Sentada no sofá da casa do meu namorado, esperava aquele adolescente maluco e com um cabelo que conseguia ser mais desgrenhado e revolto que o meu terminar de atender um telefonema na cozinha. Nem me lembro com quem ele falava, se senti ciúme ou não, e a verdade é que, por conta do que tinha acabado de acontecer, eu estava catatônica demais para pensar qualquer coisa que seja. E eis que dou de cara com o Thom Yorke pela primeira vez na minha vida.
A TV era grande, o sofá bem fofinho, assim eu me sentia acolhida - apesar daquela tarde ter sido puro risco. O rosto expressivo e a canção triste não tinha nada a ver com o momento que eu vivia, mas mesmo assim ela me chamou a atenção. Provavelmente não foi a primeira vez que eu ouvi Radiohead na minha vida, mas foi a primeira vez que me chamou a atenção, por um momento bem fugaz.
Essa canção não foi trilha sonora daquela tarde e se fosse, seria como de um filme do Tarantino: não faz parte da cena de um jeito arquitetado ou estético, aparece de um modo casual. Tanto que tinha me esquecido desse fato e eis que ele vem à tona com a ida ao show. Hoje, porém, percebo que esta horinha foi mais importante que eu imaginava.
Radiohead para mim sempre foi sinônimo de Luiz Filipe, o "historiador, baterista, desenhista, o último a ser escolhido nas aulas de Educação Física e contador de mentiras sobre si mesmo", que tenho como vizinho e amigo desde o 4 anos de idade. Quando o pessoal ainda chamava Fake Plastic Trees de "música do Carlinhos", ele já era louco, doente e alucinado pelo Radiohead e desde aquela época dizia que essa uma das maiores bandas de todos os tempos, coisa que tem gente descobrindo só agora, como eu.
Aliás, Fake Plastic Trees também faz parte do conjunto de lembranças esparsas da década de 90. Ainda existiam aquelas folhas com algumas letras de música traduzidas chamadas de Take One ("pegue um") distribuídas por cursos de inglês e que sumiram com a popularização da Internet. Não sei que OVNI trouxe essa letra até minhas mãos, o fato é que eu li e guardei durante muito tempo e suspeito que o mesmo disco voador a levou de volta para o lugar de onde ela surgiu. Sempre gostei de uma poesia meio dadaísta e foi nisso que Fake Plastic Trees me chamou a atenção. Na época da propaganda do Carlinhos, pasme, a gente estava sem TV em casa ou já tinha sido instalada uma antena parabólica que não faz transmissão local. Acredita que até hoje não vi essa propaganda, nem no Santo Youtube? Mesmo assim, nunca me esqueço do Mauro me chamando de Carlinhos toda vez que eu fazia uma burrada.
Quando resolvo ouvir Radiohead para valer, Forest me emprestou o The Bends, que ficou comigo durante um bom tempo. Na época, fui abduzida por High and Dry, que não é exatamente a melhor deles, mas eu gosto, pô! Simples assim.
Desde que os In-pessoa se juntaram para tocar, é grande minha aproximação com a banda, porque o Zé também é outro doido por Radiohead. Foi aí que assisti a alguns vídeos, baixei álbuns, mas tudo numa atitude de pesquisa, de curiosidade, não tinha sido tragada ainda pela profusão de sons e de timbres das guitarras cheias de pequenos detalhes, da bateria precisa, do vocal agudo e afinado do Thom. Tudo isso com a pegada experimental que rechaça de cara dois clichês mais que batidos sobre rock n´roll: que rock é um estilo pobre em sofisticação e que para fazer um som elaborado é preciso ser um virtuose mala-sem-alça. (Que chatice é essa coisa de "Steve Foi" - tão rápido que nem vi a nota que ele tocou. Ah, Cabral, fala sério.)
Durante esta semana, porém, tentando resgatar flashes de memória e guardando no corpo as memórias físicas do show, finalmente fui hipnotizada por estes cabeças de rádio. Meu mp4 chega a ter vida própria: de uma maneira totalmente instintiva, uma canção vai e volta feito bolinha de ping pong entre minhas orelhas. Advinha qual?
Acertou quem respondeu "No Surprises".
Isso parece ou não filme do Tarantino? É como se eu a película estivesse correndo para parar exatamente neste ponto. Adoro roteiros entrecortados.
Engraçado porque quem é fã absoluto e irrestrito de Radiohead não sou eu, acho difícil superar Vizinhíssimo e TioZé em loucura insana por Thom Yorke e seus parceiros, mas isso não impediu que eu me comportasse como uma fã, a começar pelo dia em que eu comprei o ingresso, uns três meses antes. Por que eu fiz isso, se não era tão fã assim? Simples, eles decidiram vir ao Brasil no seu melhor momento, e conta-se nos dedos as bandas internacionais que fazem isso. Sabia, desde sempre, que seria este um show histórico¹. E foi.
A surrealidade da experiência começa pelo fato que faz uns 10 anos que eu não vou a um grande show de rock e sinceramente pensei que esta fase já tinha passado. Clichê muito piegas, mas verdadeiro: é como se eu tivesse a minha adolescência de volta. E isso é bom demais.
Minha mente ainda tagarelava no show do Los Hermanos, que no início eu desprezei, mas que depois ganhou um gosto de piada velha envelhecida em barris de carvalho, como um bom vinho. O show foi melhor que eu esperava e achei muita graça em eu não conhecer nada de Los Hermanos que ultrapassasse a chatice da "Anna Julia". Eles que não são bobos nem nada, não tocaram essa pérola do cancioneiro chato do pop-rock brasileiro. Conclusão: apesar de ter apanhado do Chorão e de dar uns sapecos na pirralha da Mallu Magalhães, o Marcelo Camelo merece algum respeito musical, mesmo com sua cara de funcionário da Nasa dos anos 70, misturada com cara de judeu de Higienópolis com traços de estudante de sociais da USP ou coisa que o valha que me irrita um tanto, eu confesso. E o Rodrigo Amarante fez mais bonito que nosso idish-apollo13. Alguém tem o telefone dele, por favor? :-P
Outra piada velha, mas que eu conheci estes dias, portanto tem graça foi o Kraftwerk. Eles tem mais de 20 anos de carreira, mas para mim foi a descoberta da pólvora. Vi tudo naquele show: poesia concreta, Mondrian, crítica social. Mais um drama tostines na minha vida: eles são realmente vanguarda ou o que a gente faz e ouve em termos de música é que está datado? We are the robots!
O Radiohead, como bem informa a notícia do link, entrou pontualmente em cena. E aí que começou meu desespero, do alto dos meu 1,63m de altura. Não adiantava ficar na grade, como bem observou o já iniciado em shows do Radiohead - o dono do... OKcomput3r! - para que se pudesse ver o show na íntegra, com os efeitos de luz que ajudaram ainda mais a criar o clima de "isso é verdade mesmo?" que permeou todo o show. Só que era gente demais naquele lugar e ver mesmo o show, eu não vi. Demorou um tempo para entender que aquilo não era um show, era uma experiência, e que em shows de rock o legal não é ver e sim participar. Foi aí que a coisa ficou boa para mim, quando rolaram os melhores momentos do show, na minha opinião: Paranoid Android, Karma Police, e do In Rainbows, Reckoner. No bis, Fake Plastic Trees foi atrapalhada por uma briga perto de mim. Como bem observou um outro cara que estava por lá: "Brigar logo na hora do Carlinhos, pô?" Aí, estragou.
Hora de ir, quase um enrosco, em plena madrugada de domingo para segunda. E lá estávamos, mais uma vez, eu e meus companheiros de aventura, tentando sobreviver na cidade. Chegamos três da manhã em casa e em vão tentei acordar às 5h30 para ir trabalhar e abri os olhos com essa sacada do Segismundo: estou acordando agora ou voltando a dormir?
Esta pergunta se mantém sem resposta. Desde que acordei/dormi, tenho ouvido Radiohead feito uma louca, tentando "concretar o fluido", reter na memória o que passou, o que eu senti. Essa bola eu cantei para o Zé, na saída do show: acho que só vou entender o que aconteceu de verdade daqui a alguns anos. E olhe lá.