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domingo, 31 de maio de 2015

A caixa mágica de gibis

 Para Adriana Malaquias e prima Cynthia
Escrevi este texto há doze anos, como denuncia a piadinha com o slogan do governo do JK. O tempo que passa pode até não voltar (e como ando triste com meus tempos perdidos), mas também sei hoje em dia que a vida tem lá os seus estica-e-puxas. Como numa brincadeira de elástico, este texto voltou com uma conversa muito elucidativa com a prima Cynthia sobre Barbies, Susies e Ganha-Nenês. E vejo que o tempo passa, mas a saudade do meu quarto cheio de brinquedos espalhados não! 
"Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!" 
(Casimiro de Abreu)
Quem me conhece sabe que minha saudade é crônica. Saudade que nem a da música do Gonzagão, Que nem jiló, "pro cabra se convencer que é feliz sem saber".  Vivo para juntar histórias. Tanto que, se eu fosse o Juscelino, meu lema seria "200 anos em 20", ao invés de 50 anos em 5. Não que minha vida seja alucinante, ela é até bem prosaica. É que qualquer coisinha é uma dramão pra mim. Devo ser roteirista frustrada e nem fiquei sabendo. 

A saudade que me doi mesmo são a dos meus brinquedos, mais do que primeiro namorado, primeiro beijo, essas coisas. Claro que existem alguns desenhos animados da minha época em exibição na TV, mas nada se compara a minhas bonecas perdidas. Poucos brinquedos me restaram, porque é costume da minha mãe doar tudo que vê pela frente sem uso. A maioria deles foi para os meus primos mais novos e minhas preciosidades como minha boneca Ganha-Nenê e meu Cachorro-Detetive já devem ter ido para o espaço agora, porque meus primos cresceram também.



Inútil dizer que a saudade que eu tenho não é de nada material, é do que eles representam e que os desenhos animados não conseguem sintetizar da minha infância.  Minha amiga Adriana disse que quando não está bem, vai ler sua coleção de gibis. Segundo ela, isso é um bálsamo, uma espécie de Fonte da Eterna Juventude. Tenho certeza que todo mundo já disse: "Ai quero voltar para minha infância!" num momento de extremo saco cheio com a vida. Pois é, só a Dri consegue com sua caixa mágica de gibis. "


Para ver que a vida é uma brincadeira de estica e puxa, olha só quanto está valendo uma Ganha Nenê agora: http://bit.ly/1M29u4s

terça-feira, 20 de março de 2012

Enjoy the silence

"Mas é você que ama o passado e que não vê que o novo sempre vem!"
Belchior
 

Não existe nem velho, nem novo. O que existe mesmo é o tempo!
Enjoy the silence!

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

A banana é vitamina que engorda e faz crescer

Para Mayara Alexandre

É, talvez seja como todos estão dizendo. Talvez eu realmente tenha que amadurecer. Talvez isso devesse acontecer com todo mundo, talvez não aconteça com a frequência desejada com quem prega este discurso.

Banana amadurecida no jornal não tem gosto de nada
Foda é que ninguém me ensinou como fazer isso, simplesmente me arrancaram a infância. Foda é descobrir que chega um dia na vida em que você vai ter que eximir todo mundo em sua volta da responsabilidade pelo seu bem-estar, inclusive quem já fodeu ou tentou foder com a sua vida. Foda é você descobrir que não tem nem nunca teve que provar nada a ninguém, depois de ter se matado de fazer isso inutilmente por anos a fio. E mesmo depois de se sentir quite consigo mesmo e com o mundo, pode aparecer alguém que por insegurança ou vaidade queira te desestabilizar, talvez para mitigar a própria insegurança. Foda é descobrir que mais da metade da sua insegurança vem de bobagens que você escutou a vida inteira, ditas apenas para te controlar, só porque medo é estratégia de dominação.

Só gostaria de saber o que é ser madura, e talvez de saber quando isso acaba. Porque a impressão que eu tenho é que está sempre começando, e parece ser assim com todo mundo que está vivo de fato. Envelhecer não é se engessar, pelo menos poderia não ser assim. Experiência ajuda, mas não resolve: a vida prega peças o tempo todo, às vezes só para se certificar se você está mesmo alerta. De qualquer maneira, só acumula experiência quem experimenta, eu imagino. E se parar de experimentar, viver para que?

Já que as pessoas que mais me cobram agem como se fossem crianças de cinco anos, é melhor não dar muita pelota. Aos vinte e nove, sou mais parecida comigo mesma quando eu tinha cinco anos do que eu podia imaginar quando eu tinha cinco anos de fato. Só fiquei mais teimosa. Idade não é tudo isso que falam. Há quem passe pela vida sem aprender porra nenhuma. No fim de tudo, a gente acerta contas é com a nossa própria consciência, é daí que vem a maior cobrança. Somente a ela – e a mais ninguém - a gente vai ter que satisfazer. 

Ps.: Talvez seja legal provar Textículos sabor banana Andy Wahrol e Raul Seixas ouvindo Teorema: 



terça-feira, 8 de novembro de 2011

Sexo

Cada dia mais admiro a quem resiste à passagem do tempo. Não como um fóssil ou peça de museu, eternamente saudoso, eternamente nostálgico ou celebrando canções do passado, e sim como um produto da contemporaneidade. Também tenho desconfiado bastante dos mitos póstumos. Morrer aos 27 e ficar eternamente jovem é fácil. Quero ver é ficar velho, ainda tendo lenha para queimar. A velhice não é um lugar para medrosos. 

Há algum tempo, estou devendo um textículo para o Tremendão. Ele tem me perseguido, e tenho gostado disso! Desde quando assisti a um show dele no SESC Belenzinho com meu pais em maio, ocasião em que ele não se furtou de deixar o público contente com clássicos como Festa de Arromba e Fama de Mau, mas também mostrou que seu caldo não é comida requentada de geladeira, tocando o então álbum mais recente, Rock n´Roll. Nesta feita, ele aprontou uma que foi sensacional. Lá pelo final do show, tocando Cover, eis que aparece para uma participação especial o sósia do seu amigo de fé-irmão-camarada, Robson Carlos, distribuindo rosas e tudo! Sem-querer-querendo, acabou mostrando de uma maneira bem sapeca que não está à sombra do seu amigo-mito (que faz um show muito bom, mas só com clássicos) e que fica muito à vontade como parceiro do Rei! Tremendão sabe do próprio molho. Há que ser muito seguro de si para tamanho bom humor! 


Recentemente, ele lançou outro álbum só de inéditas, Sexo. Que fôlego, hein, Tremendão! E desde que o tenho escutado fico procurando adjetivos para ele, o que já se mostrou inútil. Falar do ato em si sem rodeios, como em Kamasutra, sem cair na vulgaridade logo na primeira faixa, já é genial. E como se isso fosse pouco, no decorrer do álbum as canções adquirem outras texturas desta dança insana que move a humanidade desde que sacanagem existe no mundo. Roupa Suja, não dá nem pra explicar. Tento, mas não consigo. Se tivesse existido antes, teria me poupado um bom tempo de terapia. "Vai ver se eu tô na China, não volte nunca mais!" teria resolvido tudo muito mais rápido. 


Sem contar que nada como o tempo para refinar o nosso gosto. O bad boy metido a besta que já cantou "Ir ao cinema é uma coisa normal, mas eu tenho que manter a minha fama de mau" ou "homem tem que ser durão", agora canta "Só pra não levar porrada/ Pra não pecar por distinção/Confundi elas por elas/Santas ou não". Para os inconvenientes do passar do tempo, existe uma pilulazinha bem acessível no mercado, agora para babaquice, meu bem... Não tem remedinho azul não! Só tempo e experiência, e olhe lá! Só adianta se bem aproveitada. Ele mesmo diz isso aqui

Eu, que geralmente assino embaixo quase todas as coisas loucas e sensatas que o Skylab escreve, tenho que discordar redondamente dele no que ele disse sobre Erasmo e Roberto*:

"Bem, como vocês todos sabem, o rei está muito bem conservado. Sua voz permanece cristalina, apesar da idade. É super exigente, não erra, e teve o bom gosto de escolher suas melhores músicas para o Maracanã. Ao contrário de Erasmo. O seu amigo de fé camarada está velho, careca, sem voz e parece doente. Quando o rei olhou seu amigo é como se tivesse deparado diante do espelho. Aquele par não apresentava uma homologia, havia uma discrepância. O par não combinava. O espelho refletia uma imagem diferente do rei, como se em lapsos de segundo, Roberto tivesse compreendido a máscara e o real. "

A Roda da Fortuna ainda gira para este Tremendão, que não sentou no trono dos seus clássicos, como tem feito seu amigo-rei há anos. Ele não parece estar fazendo esforço para ser contemporâneo, simplesmente tem sido.  Então eu, que não feito, mas que tenho escutado Sexo à exaustão, não vou me furtar de dizer o que o caro colega do Eu Ovo quis dizer e depois ficou se explicando: Sexo com o Tremendão é ótimo! Bom para o corpo e para a alma! 

domingo, 13 de março de 2011

Penélope

Passado o carnaval,
É hora de pendurar a fantasia.
Penélope, seu destino é esperar.


Com os olhos voltados para o mar,
Enquanto urde suas tramas,
Seu Ulisses está de volta.

Meu vestido está pendurado ali.
Esticado nas estacas do sono, do sonho
Em tudo que faço

Para não perder o juízo, enquanto você não chega.
E para pôr todos os bichos à solta,
Assim que cruzar esta porta.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Cumpleaños

No ano em que nasci já existia TV a cores.
Hoje, isto não faz a menor diferença.
O que era techinicolor agora é high definition
Menos as minhas vistas, que se turvam quando estão cansadas.

O corpo não perdoa mais os abusos,
Não obstante estas olheiras de urso panda,
Delatoras de cada noite mal dormida que vivi.

Hoje, me diverte o antigo esforço em deixar a meninice para trás.
Já não sou mais garota que não parava quieta na cadeira da cabelereira e por isso estava sempre com a franja torta.

Para que tanto esforço em crescer?
De fato pouca coisa mudou, ou vai mudar.
Exceto a oração matinal, acompanhada pelo creme anti-idade:
Deus, não permita que eu vire um buldogue.
Mesmo assim, decidi que a idade me fará bem.

O único contratempo é esta luta inglória
Pela revogação da Lei da Gravidade.
Meus peitos que o digam.

Moderno é envelhecer.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Corpitcho Bacana

Para manter este corpitcho bacana, resolvi me matricular em uma academia. Ainda acho coisa de maluco, mas fazer o quê? Metabolismo é luxo, ou pensa que todo mundo é como o Fê, meu primo, que come feito lima nova e não engorda nem a pau?
Vocês precisam me entender, meus heróis não são ratos de academia. Vocês conseguem imaginar a Billie Holiday numa aula de step? O Renato Russo puxando ferro ou Fernando Pessoa correndo na praia, recitando: Ó mar portuguez*, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal? Ah, faça-me o favor!
Sempre achei academia um sofrimento sistematizado. "Um, dois, três, vamo lá, gente!" E na minha primeira aula de step, eu tive certeza. A cena, se fosse editada em preto e branco e com um ragtimezinho de fundo, viraria esquete cômica de cinema mudo, sem perder para Buster Keaton ou Chaplin. Com a diferença que eu não estava representando. Odeio passinho e esforço físico, que merda fui fazer lá? Perder peso, oras! Mas logo vi que esse não era o caminho.
Já são três meses dessa epopeia fitness, com bons resultados, admito, mesmo ainda detestando roupas de academia (acho legging a coisa mais horrível do mundo, não entendo como tem gente que usa isso no dia-a-dia) e vendo instrumentos de tortura nos aparelhos de musculação. Eles não me causam medo, mas acho que eles tem um design parecido, sei lá.
A ideia era fazer Fit Ball (aula de alongamento junto com ball pilates), porque sempre achei elasticidade mais importante que enrijecimento, mas os horários das aulas não batem com meus horários. Uma pena, porque realmente adorei. Aí fiquei com a musculação mesmo, já que detestei aquelas aulas aeróbicas. Até que me adaptei, porque não perco um dia sequer da minha única aula semanal, já que o horário anda apertado. E percebi que vale a pena. Dancei um rockabilly ontem e nem arfei direito, sendo que, com meus antigos 74 Kg, eu terminaria a música botando os bofes pra fora.
Ainda não saquei bem qual é a desse textículo. É para divulgar os benefícios da vida saudável, sendo que ainda resisto e grito aos quatro ventos que não sou saúde? É para dar boletim de Caras da minha vida sem graça? Para provar que estou melhor que o Fenômeno (fenômeno do quê?) e já sequei mais peso que ele? Pode ser tudo isso misturado, não sei direito. É que eu acho engraçado não me ater a rótulos, afinal não sou saúde, mas também não quero ficar a vida inteira me xingando quando vejo que fiquei tão bonita quanto um tanque de guerra vestido nas fotos. Ou lamentando meus antigos 52 Kg nos tempos pré-junkie, quando eu fazia natação e até sonhava com a carreira esportiva, na única modalidade que eu realmente gosto.
A real de tudo isso é que esta história começou mesmo como na canção da Maria Rita: "Juro que tentei mudar/Para algum lugar longe daqui/(...)/Mas eu resolvi voltar/Não adiantou nada fugir/O mundo é que mudou/(...)/Pra manter esse corpitcho bacana/Acho até que vou virar marombeira/Corro o calçadão de Copacabana/De segunda a sexta-feira...
Eu queria sumir mesmo, mas não adiantaria, meus fantasmas permaneceriam comigo. Então me fixei neste objetivo que poderia ser outro, mas por um acaso, resolvi encarar de frente a minha vontade de ter meu corpo de volta. Assim meus detratores me verão maaaaaaaaaagra! É rídiculo, eu sei, mas é divertido. E aí, que tal um supino reto, hein?

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Links de utilidade pública

Já disse inúmeras vezes aos meus amigos que perdi as contas de quantas reencarnações eu preciso para viver, ver, ler e assistir tudo que eu quero na minha vida, curta para tantos desejos. Eles concordam comigo e compartilham dessa sensação. Muitas outras pessoas também devem ter esse tipo de paranóia, porque é moda agora livros e afins do tipo: "501 Must See Movies" ou "1001 discos para ouvir antes de morrer". Sinceramente, escorreu uma baba no cantinho da minha boca por estes livros. Ai, como é difícil ser cult e cool...

Na verdade, sou fanática por listas como essa. Nunca mais publiquei textos com Top5, porque minha seletíssima audiência regula sua mixaria e a grande maioria não posta comentários, mas continuo gostando muito. Ontem me diverti com "As 100 mais em 100 anos", lista das 100 músicas mais tocadas de 1904 a 2003. Você olhou a lista do ano em que você nasceu? Bingo! É praticamente impossível não se sentir curioso? Será que na sala de parto onde nasci tinha um rádio ligado, como em Cidade dos Anjos? (Filme que para mim, por um acaso, só prestou mesmo pela trilha sonora.) Fico rindo, de pensar em mamãe se esguelando na sala, enquanto a Zizi Possi se esguelava no rádio: "Me faz pequena, aaaaaaaaaaaaaaaaaaasa morena..." Rá! Eu sei que não tem graça nenhuma, Duley.

Também é tentador olhar a lista do ano que mudou a sua vida. E a decepção do Vizinho: na lista de 1997 não tem Radiohead! Na verdade a lista serve para rir, porque a quantidade de porcarias e guilty pleasures é imensa. A lista mais chiquérrima foi a de 1948, ano de nascimento da Betona: primeiro lugar para Dick Farney, considerado em sua época o Sinatra brasileiro. Na verdade, o popular era naturalmente mais sofisticado. Essa coisa que para o povão tem que ser ralé, é uma ideia lamentavelmente recente.

Mesmo antes deste festival de listas, estava começando a formar a lista dos 100 sites que você precisa acessar antes de bater a caçoleta, finar-se, bater as botas. (Já reparou como são numerosos os eufemismos para a morte? E o pior, os mais engraçados.)

Voltando a lista: eu mal tenho 5 para um Top, mas como eu sou teimosa, eu chamo a audiência para dar a sua contribuição:

1 - Desencalha Wanderson (http://www.desencalhawanderson.com.br/) - Indispensável pelas fotos com cara de "Manhê, eu tô com gases" e pelo texto comicamente mal redigido;
2 - Vida de merda (http://www.vidademerda.com.br/) - A vida é uma merda, mas ainda assim, é capaz de te matar de rir;
3 - Horóscopo Astral (http://www.horoscopo-astral.com/) - Ótimo para formar "Astrólogos de Mouse", como eu. Este site, com sua data, hora e local de nascimento, não descobre apenas seu signo ascendente, como também a cor do seu MM´s favorito;
4 - Nimportequi.com (http://nimportequi.com/) - Não tenho muitas informações a respeito, este link foi mandado por Forrest ao especularmos a formação desta lista. Grupo de comédia francês com esquetes genais no mesmo nível que as do Monthy Pynton. Humor finérrimo;
5 - Textículos de Mulher - Dispensa comentários. Se você não acessar, eu choro!

Dispensei os links que eu já recomendo usualmente, exceto o do guru da campanha pela minha saída do caritó. Por este motivo, é que não está aí meus blogs preferidos, como o OkComput3r e HTP, nem os sites que reconheço como utilidade pública. As nobres almas que me acompanharão nesta empreitada, por favor, defendam os pequenos e desconhecidos. Sem culpa cristã, excluirei listas do tipo "Orkut, Youtube, MSN, Myspace, UOL", porque estes não são novidade nenhuma. Mas Pérolas do Orkut e GTO aceito sim, obrigada.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Cabeças de rádio

Lendário ano de 1998, com 15 anos, quase 16. Sentada no sofá da casa do meu namorado, esperava aquele adolescente maluco e com um cabelo que conseguia ser mais desgrenhado e revolto que o meu terminar de atender um telefonema na cozinha. Nem me lembro com quem ele falava, se senti ciúme ou não, e a verdade é que, por conta do que tinha acabado de acontecer, eu estava catatônica demais para pensar qualquer coisa que seja. E eis que dou de cara com o Thom Yorke pela primeira vez na minha vida.



A TV era grande, o sofá bem fofinho, assim eu me sentia acolhida - apesar daquela tarde ter sido puro risco. O rosto expressivo e a canção triste não tinha nada a ver com o momento que eu vivia, mas mesmo assim ela me chamou a atenção. Provavelmente não foi a primeira vez que eu ouvi Radiohead na minha vida, mas foi a primeira vez que me chamou a atenção, por um momento bem fugaz.

Essa canção não foi trilha sonora daquela tarde e se fosse, seria como de um filme do Tarantino: não faz parte da cena de um jeito arquitetado ou estético, aparece de um modo casual. Tanto que tinha me esquecido desse fato e eis que ele vem à tona com a ida ao show. Hoje, porém, percebo que esta horinha foi mais importante que eu imaginava.


Radiohead para mim sempre foi sinônimo de Luiz Filipe, o "historiador, baterista, desenhista, o último a ser escolhido nas aulas de Educação Física e contador de mentiras sobre si mesmo", que tenho como vizinho e amigo desde o 4 anos de idade. Quando o pessoal ainda chamava Fake Plastic Trees de "música do Carlinhos", ele já era louco, doente e alucinado pelo Radiohead e desde aquela época dizia que essa uma das maiores bandas de todos os tempos, coisa que tem gente descobrindo só agora, como eu.

Aliás, Fake Plastic Trees também faz parte do conjunto de lembranças esparsas da década de 90. Ainda existiam aquelas folhas com algumas letras de música traduzidas chamadas de Take One ("pegue um") distribuídas por cursos de inglês e que sumiram com a popularização da Internet. Não sei que OVNI trouxe essa letra até minhas mãos, o fato é que eu li e guardei durante muito tempo e suspeito que o mesmo disco voador a levou de volta para o lugar de onde ela surgiu. Sempre gostei de uma poesia meio dadaísta e foi nisso que Fake Plastic Trees me chamou a atenção. Na época da propaganda do Carlinhos, pasme, a gente estava sem TV em casa ou já tinha sido instalada uma antena parabólica que não faz transmissão local. Acredita que até hoje não vi essa propaganda, nem no Santo Youtube? Mesmo assim, nunca me esqueço do Mauro me chamando de Carlinhos toda vez que eu fazia uma burrada.

Quando resolvo ouvir Radiohead para valer, Forest me emprestou o The Bends, que ficou comigo durante um bom tempo. Na época, fui abduzida por High and Dry, que não é exatamente a melhor deles, mas eu gosto, pô! Simples assim.

Desde que os In-pessoa se juntaram para tocar, é grande minha aproximação com a banda, porque o Zé também é outro doido por Radiohead. Foi aí que assisti a alguns vídeos, baixei álbuns, mas tudo numa atitude de pesquisa, de curiosidade, não tinha sido tragada ainda pela profusão de sons e de timbres das guitarras cheias de pequenos detalhes, da bateria precisa, do vocal agudo e afinado do Thom. Tudo isso com a pegada experimental que rechaça de cara dois clichês mais que batidos sobre rock n´roll: que rock é um estilo pobre em sofisticação e que para fazer um som elaborado é preciso ser um virtuose mala-sem-alça. (Que chatice é essa coisa de "Steve Foi" - tão rápido que nem vi a nota que ele tocou. Ah, Cabral, fala sério.)

Durante esta semana, porém, tentando resgatar flashes de memória e guardando no corpo as memórias físicas do show, finalmente fui hipnotizada por estes cabeças de rádio. Meu mp4 chega a ter vida própria: de uma maneira totalmente instintiva, uma canção vai e volta feito bolinha de ping pong entre minhas orelhas. Advinha qual?

Acertou quem respondeu "No Surprises".

Isso parece ou não filme do Tarantino? É como se eu a película estivesse correndo para parar exatamente neste ponto. Adoro roteiros entrecortados.

terça-feira, 24 de março de 2009

Sonho de um sonho II

Neste domingo, fui uma das 30 mil pessoas que assistiram ao show do Radiohead em São Paulo, e aquela sensação duplipensante de viver o momento ao mesmo tempo em que se tenta racionalizar a experiência para relatar depois funcionou só durante alguns instantes, porque o que eu vivi foi tão surreal, que me sinto como o Segismundo, protagonista de A vida é sonho: estava dormindo e acordei aqui ou foi o contrário, tudo isso é um sonho?

Engraçado porque quem é fã absoluto e irrestrito de Radiohead não sou eu, acho difícil superar Vizinhíssimo e TioZé em loucura insana por Thom Yorke e seus parceiros, mas isso não impediu que eu me comportasse como uma fã, a começar pelo dia em que eu comprei o ingresso, uns três meses antes. Por que eu fiz isso, se não era tão fã assim? Simples, eles decidiram vir ao Brasil no seu melhor momento, e conta-se nos dedos as bandas internacionais que fazem isso. Sabia, desde sempre, que seria este um show histórico¹. E foi.

A surrealidade da experiência começa pelo fato que faz uns 10 anos que eu não vou a um grande show de rock e sinceramente pensei que esta fase já tinha passado. Clichê muito piegas, mas verdadeiro: é como se eu tivesse a minha adolescência de volta. E isso é bom demais.

Minha mente ainda tagarelava no show do Los Hermanos, que no início eu desprezei, mas que depois ganhou um gosto de piada velha envelhecida em barris de carvalho, como um bom vinho. O show foi melhor que eu esperava e achei muita graça em eu não conhecer nada de Los Hermanos que ultrapassasse a chatice da "Anna Julia". Eles que não são bobos nem nada, não tocaram essa pérola do cancioneiro chato do pop-rock brasileiro. Conclusão: apesar de ter apanhado do Chorão e de dar uns sapecos na pirralha da Mallu Magalhães, o Marcelo Camelo merece algum respeito musical, mesmo com sua cara de funcionário da Nasa dos anos 70, misturada com cara de judeu de Higienópolis com traços de estudante de sociais da USP ou coisa que o valha que me irrita um tanto, eu confesso. E o Rodrigo Amarante fez mais bonito que nosso idish-apollo13. Alguém tem o telefone dele, por favor? :-P

Outra piada velha, mas que eu conheci estes dias, portanto tem graça foi o Kraftwerk. Eles tem mais de 20 anos de carreira, mas para mim foi a descoberta da pólvora. Vi tudo naquele show: poesia concreta, Mondrian, crítica social. Mais um drama tostines na minha vida: eles são realmente vanguarda ou o que a gente faz e ouve em termos de música é que está datado? We are the robots!

O Radiohead, como bem informa a notícia do link, entrou pontualmente em cena. E aí que começou meu desespero, do alto dos meu 1,63m de altura. Não adiantava ficar na grade, como bem observou o já iniciado em shows do Radiohead - o dono do... OKcomput3r! - para que se pudesse ver o show na íntegra, com os efeitos de luz que ajudaram ainda mais a criar o clima de "isso é verdade mesmo?" que permeou todo o show. Só que era gente demais naquele lugar e ver mesmo o show, eu não vi. Demorou um tempo para entender que aquilo não era um show, era uma experiência, e que em shows de rock o legal não é ver e sim participar. Foi aí que a coisa ficou boa para mim, quando rolaram os melhores momentos do show, na minha opinião: Paranoid Android, Karma Police, e do In Rainbows, Reckoner. No bis, Fake Plastic Trees foi atrapalhada por uma briga perto de mim. Como bem observou um outro cara que estava por lá: "Brigar logo na hora do Carlinhos, pô?" Aí, estragou.

Hora de ir, quase um enrosco, em plena madrugada de domingo para segunda. E lá estávamos, mais uma vez, eu e meus companheiros de aventura, tentando sobreviver na cidade. Chegamos três da manhã em casa e em vão tentei acordar às 5h30 para ir trabalhar e abri os olhos com essa sacada do Segismundo: estou acordando agora ou voltando a dormir?

Esta pergunta se mantém sem resposta. Desde que acordei/dormi, tenho ouvido Radiohead feito uma louca, tentando "concretar o fluido", reter na memória o que passou, o que eu senti. Essa bola eu cantei para o Zé, na saída do show: acho que só vou entender o que aconteceu de verdade daqui a alguns anos. E olhe lá.

Por isso fica para o próximo textículo um pouco mais da minha relação com o Radiohead, como se fosse os TM um filme do Tarantino, que vai e volta no tempo com garbo e elegância, como eu*. É para nós mesmos esta cambalhota!

1 - Aos que sobreviveram para contar esta história comigo, aquele abraço!

domingo, 4 de janeiro de 2009

Pedra que rola não cria limo

Estou de volta!!! Um pouco triste por ter deixado um montão de textículos a serem publicados no meu Blog Mais Sem Audiência do Ciberespaço e feliz por ter voltado bem no mês de janeiro, mês em que este cafundó eletrônico faz aniversário.

Não sei se estas ideias que estão na fila vão ser colocadas em órbita na Blogosfera, porque algumas se tornaram piadas velhas (lembram dessa?), outras talvez sejam relidas, retransformadas e, colocando algum óleo nas juntas, quem sabe elas rodem novamente. Aguardem cenas dos próximos capítulos, crianças.

Estou com um pouco de medo de ter perdido o jeito de texticular, mas acho difícil, dado o meu vício de escrever. Aí, pra dar uma animada, e ver que quem é Macabéa nunca perde sua macabeíce, fui revisitar os arquivos dos Textículos. Não é por nada não, mas vi muita coisa linda lá, e não é do meu talento pra literatura orgulhosa medríocre que estou falando. É que consegui extrair com alguma arte, beleza das dores, das frustrações, da melancolia que às vezes me diverte. Terminei este ano comemorando, sobretudo o fato que o mesmo acabou-se. Mas agora, revendo os textículos, vi que as jorradas foram realmente férteis, cumprindo a profecia do primeiro textículo e que alguma coisa boa se realizou e as ruins viraram lenha pra queimar, porque do que eu gosto mesmo é de ver o circo pegar fogo.

Ainda não pensei em nada a respeito de repaginar este cafofo na Blogosfera, mas acho que a ocasião merece e coisas novas virão e não só as ideias requentadas que citei acima. O que importa é que estamos em movimento de novo, e pedra que rola não cria limo. Quero mais que o mundo se acabe em barranco, e eu, like a rolling stone, não dou pelota para meus joelhos esfolados, vou rolando junto. É para mim mesma esta cambalhota!

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Abduzida por Tantra e Van Gogh



Fui abduzida por uma canção, há poucas horas. De vez em quando tocava no rádio e eu nem ligava muito pra ela, apesar de ter simpatia pela banda que toca. Na Antológica Festa da Chapinha, a última, que teve de tudo, desde ex-aluna presenciando minha esbórnia com meus queridíssimos amigos da Velha Guarda até fim de festa deprê em grau máximo, eu vi os meninos comentando que a canção "Corvos sobre o Campo", foi inspirada na tela "Campo de trigo com corvos", de Van Gogh. E aí, a lembrança empoeirada me veio a mente, mas não me retive muito nisso, porque O Menino que eu Gostava curtia essa banda. Ia dar curto-circuito lembrar, ainda mais naquele dia.



No último ensaio da nossa banda sem nome - o desespero é tanto que estou pensando em até fazer enquete com alguns nomes surgidos - o Renato, nosso caçula e genial guitarrista e talvez o único que tenha algum juízo na cabeça, comenta que só os primeiros versos realmente falam da imagem do quadro. Eu não exatamente discordei, porque não lembrava da letra toda, mas lembrei a ele do Universo Pirante que é Van Gogh, que seria impossível esgotar uma tela em uma canção, que dirá nos primeiros versos. Pausa para o café. Ou melhor, pra cerveja.



Do nada eu estava cantarolando essa canção na terça-feira, na mesa do bote, com a porção Velha Guarda da Banda, e Forrest me diz que é essa canção é ótima. Por sorte, lembrei de procurar e baixar hoje, qual a surpresa com o resto da letra, que vai por um caminho estranho mesmo, o que é absolutamente normal se lembrarmos que estamos falando de Vincent Van Gogh. O fato que a letra sou eu nos últimos tempos.



Como estou me despedindo definitivamente da minha dor, afinal há sobrevida depois da Pior Dor-de-Cotovelo da História, resolvi publicar a tela, com a letra de Corvos sobre o Campo. Não vou analisar a canção, nem dar o histórico do Tantra, porque acho que nosso baterista e último a ser escolhido nas aulas de Educação Física faz isso mil vezes melhor que eu. Só digo que fico satisfeita em redescobrir que os anos 90 produziu um bom rock brasileiro, ao contrário do que eu sempre disse. Corvos sobre o campo* é uma pequena maravilha, em termos de rock com pegada pop, feita para tocar no rádio a valer, e com uma letra bonita e criativa, cheia de poesia. É tudo que nós e nossa banda inbatizável queremos fazer.



Corvos sobre o campo - Tantra



Céu azul, campo amarelo

Corvos avançam em nossa direção

E não há porque se assustar

Deixa o medo entrar no seu coração



Tudo o que eu fiz foi por amor

Acho até que encontrei

O motivo de um final feliz

Nunca imaginei o nosso fim

Construí meu castelo com as pedras que eu te atirei



Yeah, yeah, yeah, nada vai durar

As maldades serão coisas belas, enfim

Nada vai durar tanto assim

Abra os olhos, então

Olha os corvos sobre o campo



Céu azul, campo amarelo

Corvos avançam em nossa direção

Vermelhos caminhos, ecos de cores

Vaga pulsação, de clara escuridão





...Minha dor se despede com a beleza lisérgica de Van Gogh. Deixa o medo entrar em seu coração. No meu, só cabe alegria agora.




Nota 'inutiél':



*Agora já tem Corvos sobre o campo no 4Shared.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Canções que acabam antes do fim

Meninos, meninas e similares. Calipígios e onanistas,

Minha parca e seleta audiência, o silêncio de ultimamente não foi proposital. Ando calada pela dor de uma ausência banal. Como é banal, não me dei ao trabalho de chatear meus leitores por conta de uma estupidez que não é minha.

Agora, porém, vamos ao que interessa. Tenho falado muito de música ultimamente, porque é esta é uma paixão constante na minha vida, e na vida de muitas outras pessoas também. E quando eu acreditava que a música era para mim um sonho perdido, eis que ela bate à minha porta novamente - quase do nada. Eu larguei a música durante um tempo, mas ela não me largou.

Existem canções de diversas durações. Podem ser breves quanto uma canção comercial, para tocar no rádio ou durarem mais de uma hora, como uma sinfonia. Não importa a duração, canções tem que ter começo, meio e fim. Conclusão, fechamento.

Pensem em alguma música, a preferida, daquelas que são capazes de tirar a gente deste mundinho chato enquanto a gente ouve. Você está lá, pirando no seu som preferido. E de repente alguém desliga e a canção acaba, sem aquele "lá-lá-lá" do final. Simplesmente cessa. Chato, né? Um verdadeiro balde de água fria. Pois então, assim pode ser a nossa vida. Acabar antes que a canção se complete, como se do nada a pilha do rádio acabasse. Eu não tenho medo que a minha canção dure pouco e sim de que ela acabe antes do fim. Foi o que aconteceu com um colega de trabalho na última sexta. Sua canção parou de tocar de uma hora para outra. Aliás, quando ela estava apenas começando. Eu não consigo deixar de achar isso estúpido.

Por mais que a gente saiba de cor e salteado da fragilidade da nossa vida, a gente nunca aprende: sempre se acha invencível. E a nossa canção também pode acabar antes do fim, como a do Vinícius ou a do Chico (no último dia 29 fez um ano que sua canção parou de tocar). E assim, caímos sempre no mesmo erro, tal e qual um disco riscado, movidos pela mesma prepotência arrogante de sempre, o que faz a nossa canção desafinar.

Se eu falar mais alguma coisa sobre o fim da nossa canção, cairei em clichês, em melôs manjadas de Karaokê¹. Não resisto, porém, ao charme dos clichês mais piegas, por serem os mais sinceros e verdadeiros, apesar de nada criativos.

Fecho, então, com o mega-clichê sobre a morte, em uma das canções da Pitty, que não figura entre as minhas compositoras favoritas, mas vá lá: "Não deixe nada pra depois, não deixe a vida passar/ Não deixe nada pra semana que vem, porque semana que vem/Pode nem chegar."

(Espero que nossas canções cheguem até o fim. E isso não é só questão de fatalidade, inexorabilidade. Uma pequena parte da composição cabe à nós, acreditem. Os meninos não tiveram tempo de concluir as deles, mas pode ser que a gente tenha mais sorte. É melhor aproveitar.)

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Feliz Aniversário, Monicats

Ou Atualizações Inúteis

Tem textículo que já nasce velho, coitadinho. No dia em que Sobre o Tempo foi publicado, virando a madruga já, outra Vinte e Poucos Anos Blues estava completando pontos no programa de milhagem, e ficou brava comigo porque não fui ao Inferno com ela comemorar seu aniversário. Mas como curto muito essa garota, publico minha retratação por não ter ido lá. Em compensação, vi Nando Reis e os Infernais (mera coincidência), em Santos, arrastada por Bozoca. Monicats, não deu pra resistir o Barba Ruiva cantando Luz do Olhos só pra mim, hehehe. Como você é uma pessoa queridíssima, vou deixar você me xingar por isso para todo o sempre!

Textículo jorrado em 29/05/2008