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quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Saudades de Irene

Para Silvia e a raça de Irene

Ah, Irene. Saudades daqueles cabelinhos ralos.

Me lembro dela cortando galinha. Ela me ensinava a cortar, mas sempre estourava o fel e ela ficava nervosa, pois amargava a carne.

Era sempre aquela galinha de cabidela com muita graxa. Vó cabocla do sítio, neta bicho de cidade. E eu me perguntava: “De carro, vó?”

Não, de sangue. Sangrar a bichinha até a última gota era de lei, mas eu não sabia. Achava que não precisava e resolvi ajudar jogando o sangue fora. O vermelho foi tingindo a terra seca e ela deu um tapinha de reprovação na minha mão. Depois se arrependeu: não queria chatear minha mãe.

Ah, que saudades de Irene. Do seu riso frouxo, do seu coração ensolarado. De mandar as crianças irem brincar no terreiro, porque ia contar piada. Custa acreditar. Sofria demais, amava demais. Mas tirava troça da dor.

Irene não dava beijo, dava cheiro. E seu cheiro era de Alma de Flores.

Meu coração é burro, Irene. Demorou a te compreender por completo. Não pude crescer perto de suas risadas, de sua galinha cheia de graxa, mas sua presença tingiu minha vida de vermelho, como a tigela de sangue que derrubei no terreiro.


quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Balada do cachorro louco

"O  homem que hoje me amar 
encontrará outro homem lá dentro.
Pois que o mate."
Elisa Lucinda

Demorei a te matar, mas matei. Passei algum tempo sofrendo por não saber o que fazer com o corpo, mas de uma hora para outra, eis que surge a grande ideia: dei-o de comer para meus cachorros.

 

Como não pensei nisso antes? Na verdade, eu sei. Tua carne é indigesta, dura, tem o gosto amargo. Comê-la não foi nada fácil, mas valeu a pena. Meus cãezinhos, agora regalados, podem sair por aí para passear um pouco e quem sabe cruzar com uma cadela rebolante mais no cio do que eu. 

Quando descobri, foi de matar. Você não vale uma foda, camarada, e como paguei caro por isso. Mas como virou comida de cachorro, seu destino é o mesmo de toda comida. Adieu!

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Sobre os últimos tempos

Eu sei: tenho chorado demais, tenho dormido demais
(mas não o suficiente para hibernar até a próxima estação)
E não tenho visto alternativas diante do futuro, que pelo menos agora
Mostra-se como uma massa amorfa e previsível.

Essas pancadas de chuva, anunciando a chegada do Verão
De certa maneira me confortam. Vai passar.
Daqui a pouco estia, daqui a pouco as nuvens esquecem que passaram por aqui
E vão chover noutro lugar.

Aí é que está. Você é que não quer esquecer
E insiste em manter uma nuvem carregada bem debaixo da sua cabeça
Essa mania de ser cientista...
Estudar p´ra quê?

Ainda não tem o poder de evitar catástrofes
E até os animais correm para se refugiar
Diante da iminência do perigo
Não precisam de ciência, não assistem à moça do tempo.

Para que se precaver tanto, como velhos que estocam comida com medo da guerra?
Mesmo em tempos de paz, você vê a todo tempo civis trocando olhares de ameaça
Só para mostrar quem manda.
Alguns idiotas se submetem, outros pagam com a mesma moeda.
Cegos e banguelas,
Levando a cabo a Lei de Talião até o último dente.

E quem não topa nem eu uma coisa nem outra, faz o quê?
Subversivos por natureza não aceitam nem a dominação e nem a cegueira da guerra.
À margem e sem carona,
A gente só quer um pouco de diversão nesta estrada que não vai a lugar algum.


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Plínio Marcos

Alheia aos apelos dos bons,
Sigo remendando meus buracos.
É um soco no prego, outro na ferradura.
Dando ponto sem nó, sem preocupação
Com a perfeição da sutura.

Mostrar defeitos é para os fracos.
Diriam os defensores da alta costura.


segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Melancholia

Nunca pensei que melancolia tivesse algo a ver com o mito de Narciso. Melancolia é o desapontamento de Narciso ao ver que não poderia tocar sua linda imagem refletida no lago: sem poder tê-la, morreu vidrado no redemoinho que desmanchava o seu reflexo ao ser tocado. 

Não parece, mas eu sou melancólica. E eu, que bem gosto dessa melancolia, não me assustei quando a minha terapeuta me explicou a visão da psicanálise sobre esse sentimento temido à exaustão por um mundo que insiste em fazer o jogo do contente todo o tempo. Muito pelo contrário, me encantei ainda mais. 

Passei os últimos meses contemplando o redemoinho. Era (ou é) só tristeza: algo tão normal quanto alegria, algo que passa, mas parece ser um crime ficar triste, e não é. É um luxo ao qual eu me reservo quando algo não vai bem.

Por isso gostei tanto de Melancholia, o último filme do Lars Von Trier. O estado melancólico é exatamente aquela sensação de pernas paralisadas que acometeu Justine (Kirsten Dunst). E foda-se se é o dia do seu casamento, ou se o mundo inteiro diz que gostaria de estar no seu lugar e que você deveria estar feliz. A melancolia te abraça, te enrosca pelas pernas e quando elas travam, não tem que as faça seguir.  


No entanto, as coisas mudam diante de um perigo real. Na iminência do desastre, Claire (Charlotte Gainsbourg), sempre tão centrada, se desespera e Justine, sempre tão errática, sabe exatamente o que fazer. Ela que já tinha visto a Melancholia se aproximar tantas vezes, não se assustou e buscou dentro de si a força para suportar o fim. 

Dizem que a depressão é o mal do século. Pode ser, mas tenho para mim que o mal é justamente temer tanto a tristeza, fugir dela como se pudesse fugir do planeta Melancholia. Quando a tristeza bate, quando se vai às lágrimas, só nos resta entrar na nossa cabana invisível. Quem tem medo de tristeza não sabe que isso não tem nada a ver com desistir, muito pelo contrário: é caçar o último fio de força para sobreviver e jamais entregar os pontos. Sucumbir acontece com quem não aguenta o tranco da melancolia se aproximando e saber que não se pode fazer nada. A arrogância humana é tanta, admitir impotência é algo tão inadimissível, que há quem simplesmente não sabe o que fazer, quando não há mais nada a fazer. 

Isso não é só uma metáfora de cinema. Há que se ter pernas fortes para aguentar a vida. Porque estar vivo dói, até quando é bom. Além do mais, não é qualquer soco no estômago que vai me fazer beijar a lona. 

E para quem teve pernas para subir e descer mais uma Colina Melancólica, aquele abraço!




quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Três de Espadas


Três sabres afiados
Cravados no peito sem anestesia.


O lombo já não sangra mais, a carne está seca.
Correndo pela arena,
Já não tem mais graça meter os chifres no toureador.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Sonho de um sonho 2.0

Há tempos não falo diretamente com vocês que me leem, eu sei. Ando preferindo o discurso indireto, não quero mais falar nada. Deixo que a dor fale por si mesma, deixo que ela cante, grite, role no chão. Não dá para racionalizar este discurso, se isto for mesmo um discurso. Eu queria mesmo era dormir e já acordar em outro ano, outra vida, e que o passou antes fosse tido como uma alucinação, o sonho de um sonho ruim.

Aliás, para que servem os sonhos? Diz o Segismundo que os sonhos, sonhos são. Não necessitam de porquê. Quando a realidade é muito dura e não se consegue olhar diretamente para ela, olhe para seus sonhos. Foram eles que me salvaram de um tombo maior. O que me dói é justamente é esse contato cru com a realidade. Lucidez pura enlouquece. Bem fazia Raulito em misturar a dele com a sua maluquez. 

Falando em sonhos, vou compartilhar com vocês algo que parecem estar procurando.


O segundo texto mais acessado deste cafundó é Sonho de um sonho, mas o texto que ele apresenta é feito de partes do poema original. Era a minha versão deste poema, ou melhor, da Susi, que anda mais viva do que nunca nestes últimos tempos. 

E olha que engraçado, ele agora me retrata inteiro, que acordei que estava sonhando, que queria sonhar mais, que queria que esta realidade bizarra fosse de fato o sonho. Certas coisas nos esperam a vida toda. O Drummond, este livro, este poema, tudo. 

De: ANDRADE, Carlos Drummond de. Reunião: 10 livros de poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 1976.
(Está no livro Claro Enigma). 

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Pedro Rocha – A manteiga derretida mais dura na queda do mundo

Eu era como Pedro, o apóstolo xará: primitivo, turrão, porém havia em mim um coração enorme. Só que não encontrei nenhum Cristo para seguir, então, segui em frente. Troquei o tênis pelo mocassim, a mochila pela pasta e me tornei corretor. De imóveis. Vendi tudo que via pela frente: quitinete, mansão, casa na praia. Ganhei uma grana razoável para estudar e me tornar o mesmo executivo detestável que era o meu patrão. Contudo, eu era jovem ainda, não estava tão preocupado assim com meu futuro. Esse papo de faculdade era mais pra dourar a pílula e manter o meu emprego.

Típico machista idiota, de tanto esquecer meu próprio coração, esqueci que as pessoas têm sentimentos. Mulheres, principalmente. Preconceito bobo esse, porque homens também sentem, mas o fato é que antes do que me aconteceu eu sinceramente acreditava que homens não choravam.

Como num conto dos irmãos Grimm, me apaixonei por uma princesa e, de tanto pisar no seu nobre coração, ela tornou-se sapo ao invés de me transformar em um. Do contrário, passei a ter peitos e sangrar mês a mês e mais do que corpo, me deu mente e coração de mulher. Fui amaldiçoado. Tornei-me objeto do meu próprio desejo e o cartão de crédito não resolvia esse problema.

Entendendo meu objeto de desejo é que começou a penosa volta ao verdadeiro Pedro Rocha, a manteiga derretida mais dura na queda do mundo, de tênis e mochilão nas costas, durango e insatisfeito.

Essa princesa me fodeu. Mas ela jura que foi pro meu bem.

Janeiro de 2005


terça-feira, 4 de outubro de 2011

Solar

                                                            Para meus cachorros

Quem sabe também não estejamos lá
Eu e meus cachorros, 
Às seis horas da tarde, no Viaduto do Chá
À espera do ocaso, se acaso ele chegar.

Trouxe Pozzo e Lucky na coleira, mas nem precisaria.
Eles não avançariam em você nem por um afago, estão tristes como o quê.
Não latem mais, rabos retraídos, a tigela de comida intacta.
Parece até que descobriram que não enxergam em colorido.

Pôr-do-sol no centro da cidade, mas que bobagem.
Só você mesmo para ter uma ideia dessas.
Como se Sol não fosse Sol em qualquer lugar do mundo,
Como se ele só se pusesse em São Paulo.

Esperar o Sol se por é pior que esperar Godot
Ele nunca chega, é justamente o oposto:
Poente é sempre partida. E disso eu entendo
Que estou sempre esperando, que estou sempre de partida.

Você é tão engraçado! Age como um semideus.
Acende um cigarro e pronto,
Procurar sentido é coisa para mortais.
Deixa isso para bestas melancólicas que levam cães para passear como desculpa. 

Você e seus cigarros, eu e meus cachorros.
Não dá valsa nem samba,
Ninguém dança de armadura.                                     
Cada um com seus escudos, paralelos, absurdos.

E quando a noite chegar? Eu fico me perguntando quem vai levar Godot para casa.
Mas é claro que estou variando.
O Sol, Godot, você e até meus cachorros,
Todos já se foram.

Agora, tudo são cadeiras vazias e uma noite sem fim.
Entretanto, sem esperar por mim, novos dias sempre chegam.
Então, antes que eu de fato enlouqueça,
Em vez de pôr-do-sol, é melhor que amanheça. 

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Filme de Mulherzinha Ataca Novamente

Está provado cientificamente: comédias românticas podem estragar a sua vida. Mas eu, particularmente não estou nem aí. Quando nasci, cinto de segurança não era obrigatório e merthiolate ardia e ainda assim, estou viva, vivinha. Da Silva, Teodoro Alves, o que quiserem. Acreditem!

Tentei me recuperar, mas é inútil: o dano cerebral causado pelas comédias românticas noventistas estreladas por Meg Ryan, Renè Zellwegger, Julia Roberts e afins é acumulado. Já era, meus miolos foram indiscutivelmente carcomidos. Só restou o coração, que sem um pingo de vergonha na cara, ainda pulsa: bridget-jones, bridget-jones. Happy-end, happy-end. 

Além do mais, comédia romântica pode até estragar uma vida, mas não um blog. O textículo mais acessado deste faroeste é a resenha sobre Falando Grego, da Nia Vardalos. Aqui, elas até ajudam!

Anos depois, adicionando uma licencinha poética para o festival de bobagens que lhe são devidas, vejo que comédias românticas tem lá suas pilulazinhas de sabedoria. Tolas, inocentes, mas ainda assim válidas, verdadeiras em sua tolice. 

Como Medianeiras, Buenos Aires na Era do Amor Virtual. Em se tratando da ideia de discutir cultura digital, é uma ótima propaganda para os produtos da Mac. De tão escancarada, nem parece merchandising. Parece peça publicitária mesmo, na cara-larga. 


Gosto de filmes em que cidades são personagens. Uma Buenos Aires contemporânea, pós-crise, de longe é a personagem mais fascinante. A protagonista é arquiteta, e é dela que vem a metáfora das medianeiras, aquele lado dos edifícios que não serve para nada, a não ser para abrigar propaganda e limo. Como nas pessoas, expõe o lado mais frágil, feio e vulnerável de construções que precisam se fazer sólidas e fortes. Abra uma janela na sua medianeira, mesmo que ilegalmente. Deixe entrar luz no seu apartamento, vai te fazer bem.

Também gosto de gente neurótica nos filmes. Mitigam minha vergonha. Além do que são muito mais verossímeis: Mariana taca coisas na parede, chora por bobagem e carência, fuma mais que preto-velho no terreiro. Martin é fóbico, hipocondríaco, insone, atrapalhado. Leve seus cachorros para passear, mesmo que eles sintam medo. Eles precisam se acostumar com outros cachorros. 


Se toda essa firula ao final vendesse só iPod, eu até perdoaria. Foda é vender a ilusão de um amor único perdido na cidade, vestido com uma blusa listrada de vermelho e branco, óculos e gorro à sua espera, prontinho para ser encontrado. Se você começar a procurar onde está o Wallie com 14 anos, quem sabe você o encontre aos 30! Mas use uma lupa, porque isso é trabalho para mais de metro. 

Procurar Wallie é uma tarefa muito difícil para míopes não operados como eu, então fica para outro dia. Não comprei a ilusão, mas me diverti com a conversa mole do vendedor. Atitude típica de 1984, um duplipensar para esquentar as turbinas. Porque só agora posso começar a abrir um vitrô na minha medianeira, sair com meus cães assustados por aí. Spring is coming! 

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Poema de Natal

Para Sandra Dee
Vinicius de Moraes

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.
Do livro "Antologia Poética", Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1960, pág. 147.
http://www.releituras.com/viniciusm_natal.asp

quarta-feira, 20 de julho de 2011

A vida é um soco no estômago

"Quantas emoções você conhece que não tem nome?
Colocar nomes nas coisas é muito fácil..."
Para Adriano Ropero
Realmente, professor. É muito fácil.

Caralho, meu! VOCÊ VEM PERGUNTAR ISSO LOGO PARA MIM? Você sabe de muita coisa, professor, mas de mim você não sabe da missa a metade. Talvez não te interesse saber, mas mesmo assim eu vou contar.

Emoção, sentimento, com nome, sem nome. Que me fez sorrir, que me gargalhar, que me fez gritar de dor, chorar de desespero, gozar até me esgarçar. Muito prazer, meu nome é Montanha Russa.  Não sirvo para Roda Gigante. Esta coisa de girar em torno de um eixo fixo caberia melhor para quem, um râmster de laboratório? Talvez, mas não pra mim.

Para encurtar um pouco este papo, a questão é: o que eu vivo cala fundo em mim. Não sem as avarias e escoriações inerentes a quem passeia na Montanha Russa sem cinto de segurança. Se não morri até agora, acho que não morro mais.

Visceral sim, mas não irracional. O cérebro também é uma víscera! Penso, logo insisto. Categorizar tudo isso, ou como diz você, dar nomes, era o meu brinquedo predileto. Acho que nem Sócrates gostava de pensar tanto. Aqui em casa, há quilos de papel, tinta e madrugadas que se transformaram em poemas, cartas, contos, diários, textículos. Metade da minha vida tenho passado escrevendo compulsivamente, doutor. Tem cura para isso? Só que houve uma mudança nestes últimos tempos.

Cansei do parquinho de diversões, Herr Professor. Porque a Montanha Russa guarda pelo menos uma semelhança com a Roda Gigante: ela também volta para o mesmo lugar, anda nos trilhos. Até tinha parado um pouco de escrever, ficar se repetindo para que? Para quem? Tenho precisado de lugares novos, apesar do meu talento infame para o lugar-comum. Também não gosto de andar nos trilhos. E você, gosta?

É relativamente recente esta habilidade para a reinvenção, me divirto com outras personas. É o que me permite estar em lugares novos, lugares estranhos. Aprendi a me camaleonar, antes que eu me acostume com o que eu vejo no espelho. Mas não vou mentir, eu me espanto muito. Nem eu sabia que era tão boa atriz. 

Outra coisa me fez cansar da Montanha Russa: ir de zero a cem em segundos durante tantos anos estava me deixando neurastênica. Se não estou agora babando verde numa sala acolchoada, é que ao que ao beirar a loucura, antes resolvi parar na terapia. Sabe quando a gente para na padaria antes de ir para casa? Assim o zero a cem se torna uma escala, pelo menos. Igual a cantar: experimentando outros tons, aprendendo a me modular. Coisas de artista.

Como pode perceber, mein lieber Lehrer, eu posso, sem medo de parecer pretensiosa, me dar o título de Honoris Causa nesta bola que sua doutíssima pessoa levantou, e me dou. Se me cansei de colocar emoções e sentimentos em caixinhas de organizar na cabeça, nessa minha cabeça dura de mula teimosa, é porque agora está no corpo tudo o que eu vivo, na verdade sempre esteve. A vida é um soco no estômago. Igual ao que você me deu no último domingo. Não sei se seus punhos cerrados doeram, porque a impressão que eu tive por aqui é que você socou um muro de concreto. Nem eu poderia supor a existência desta força.

Flávia.

PS: Esta conversa de dar nomes para emoções me lembrou duas coisas. Uma é o Marcelo, Marmelo, Martelo: essa coisa de chamar leite de suco de vaca e cadeira de sentador. A outra é o Brasa Mora: são tantas emoções, bicho! Ah vá, eu tinha que terminar assim, fazendo piada? O negócio é sério, professor. Você mexeu num vespeiro daqueles.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Não tem graça nenhuma, Dooley

Está ficando chato essa história de trazer para os TM impressões minhas sobre o mundo exterior. É tudo tão igual, tão previsível que fico condenada à repetição de mim mesma. O Massacre do Realengo, como atração para o Império Romano, virou histeria coletiva sem um mínimo de reflexão. 

Colocar este assunto como pauta do dia com a molecada foi minha reação quase imediata, tentando dizer justamente isso: passado o susto, é preciso dissecar o que aconteceu, quem sabe possamos evitar. Só espero que eu não tenha caído para o discurso moralizante ou demagógico, e eu bem me conheço, é bem capaz que isso tenha acontecido. Tenho uma queda para o clichê piegas.(Acho até que funcionou, sem a pretensão de acabar com todos os casos de bullying da escola. Este assunto causou discussões inflamadas em algumas turmas, o que considerei bom sinal.)

Se há neste largo mundo mais leitores de textículos que sejam professores preocupados com esta questão do bullying - que definitivamente está sendo tratada como "carne de vaca" pelo PIG brasileiro - tenho duas singelas sugestões para alimentar uma discussão fundamentada sobre o assunto em sala de aula.

Uma é o documentário Tiros em Columbine, do Michael Moore, rodado em 2002. Não é exatamente uma novidade, pois este filme teve bastante projeção à época, ganhando até um Oscar. Assistir de novo, anos depois, só confirma que o estilão contestador e sarcástico do Moore presta grande serviço àquela nação de gente com cérebro de ameba autointitulada América. Só Borat escrachou melhor.

A outra é o livro Bullying: Mentes perigosas nas escolas (Fontanar), da psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva. Eu já tinha encomendado o livro e chegou bem na semana passada. Serve para todos: estudantes, pais, professores, gestores, porque ela esclarece bem todos os ângulos da questão e ajuda a entender. Devia ser bibliografia obrigatória para todo mundo que está envolvido na educação de crianças e adolescentes em geral. Aqui está sua entrevista no Roda Viva de alguns meses atrás,  ainda no formato antigo do programa.

Bullying é um assunto que sempre me incomodou bastante, então é bem provável que eu volte a falar nisso, mas não agora. Já temos farto material inútil na grande mídia para saciar um público sedento por sangue - ou nem tanto, mas mesmo assim o sangue é oferecido. Essa notícia mostra bem onde foi parar a "liberdade de imprensa" tão sonhada por quem viveu tempos de repressão. 

Ô séculozinho XXI de merda esse que estamos vivendo. 

Ah! E no dia 20 de abril, data em que comecei a jorrar este textículo, completaram-se 12 anos do Massacre em Columbine e ainda morrem pessoas inocentes pelos mesmos motivos. Não tem graça nenhuma, Dooley. 




quinta-feira, 7 de abril de 2011

Columbine à brasileira


Não sei se há algo novo a dizer sobre o que aconteceu hoje na escola do bairro do Realengo, no Rio de Janeiro. Toda a sorte de bobagens e coisas sensatas já foram ditas a respeito.
Primeiro pensamento que me veio a mente quando soube: é um Columbine à brasileira. Pavorosamente, uma carnificina deste porte não é mais novidade para nós. 

Então, eu dei um tempo, fiz o que eu tinha de fazer e só agora, à noite, fui me informar o melhor que eu podia sobre o acontecido, tentando evitar distorções e informações desencontradas. Para se ter uma ideia de como o PIG viaja na maionese em busca da tal da "notícia em tempo real", a primeira notícia que eu li, já retirada do ar, dizia que o assassino em questão era um fundamentalista islâmico. (Que absurdo, meu Deus. Só faltam agora responsabilizar o mundo árabe pelos terremotos do Japão...)

Não sou dada à manifestações emotivas ou afetadas frente à tragédias coletivas, mas dessa vez eu chorei. E queria ter ainda mais lágrimas para chorar a morte dessas crianças e a miséria da alma deste louco que fez isso. O que me deixa mais triste é que eu tive que provocar esse choro, como alguém que coloca o dedo na garganta para vomitar. "Isto não pode se tornar algo normal, a gente não pode se acostumar", eu pensava.

E fica o alerta: este cara foi vítima de bullying na escola. Não sou profeta, nem gênio, nem guru, mas o que eu disse no último textículo? Uma hora essas vítimas podem reagir, de uma hora para outra, anos depois, décadas depois. Boomerang blues, baby.

Este massacre pode ser chamado de carnificina, cenário de guerra, do que quiserem, menos de tragédia. Tragédia é teoria do caos, imponderável e imprevisível. Agora este banho de sangue foi forjado durante anos a fio, sem ninguém perceber. A única coisa imprevisível é quando isto aconteceria. Foi hoje.

Agnus Dei, qui tolis pecata mundi, miserere nobis,
Agnus Dei, qui tolis pecata mundi, miserere nobis,
Agnus Dei, qui tolis pecata mundi, dona nobis pacem.


quarta-feira, 16 de março de 2011

Vamos brincar perto da usina

A capacidade do ser humano em ser egocentrado (leia-se: egoísta mesmo) é absurdamente incrível. Somente nesta semana que assisti a alguns noticiários e li alguns jornais sobre o terremoto-tsunami-acidente nuclear do Japão. De fato, desgraça pouca é besteira. Se vem, vem de lote e a galope. 

Do outro lado do mundo, o caos está completamente instalado em uma situação que só se compara a Segunda Guerra Mundial, que deixou o Japão afundado na lama. E mesmo assim  eu  só conseguia pensar em mim! Agora me sinto péssima por isso. Poderia ser qualquer um de nós! Ou ainda acha que no Brasil não existem desastres naturais? Faz-me rir! Aqui já aconteceram e acontecem terremotos, vendavais, enchentes,  queimadas, deslizamentos de terra. A Natureza é caótica, irmãozinho. Não tem nada a ver com ira dos deuses. Todas estas pessoas foram vítimas do acaso. 

Este último parágrafo é feito de um cinismo dos mais sentimentalistas e baratos. Mesmo com todo este mea-culpa, eu ainda penso só em mim. É que também o PIG é foda, né gente? Quando começa com uma coisa, não para mais. A avalanche de informações é tamanha que chega um ponto em que você filtra para não enlouquecer. O pior efeito colateral deste processo é perder a sensibilidade, anestesiar-se por completo. Odeio muito tudo isso. Aí volto para meu mundinho de textículos e intrigas. 

Na verdade, todo mundo é um pouco assim. Por isso é que gosto tanto deste poemínimo do Mário Quintana. Quem tiver a cara de pau de dizer que Quintana estava enganado, que atire na professorinha.  
 
A nós bastem nossos próprios ais,
Que a ninguém sua cruz é pequenina.
Por pior que seja a situação da China,
Os nossos calos doem muito mais...
 
O fato é que as notícias sobre o acidente em Fukushima, e a reportagem sobre Shernobyl vinte e cinco anos depois do desastre me evocou algo bem mais corriqueiro. Lembrei de Angra dos Reis, da Legião. Uma das minhas canções de amor preferidas que titio Renato escreveu. 

Vamos brincar perto da usina. Brincar com radiatividade, perigo. Amar é bem assim mesmo, um constante brincar com fogo. E achar que não é nada. Pra que se explicar, se não existe perigo? Não adianta chorar, se por um acaso se queimar. É assim mesmo.

Não estou com dor-de-cotovelo, muito menos compatível com o nível da canção, só estou um pouco atônita. Angra dos Reis, porém, faz parte do meu relicário de lembranças adoradas. Mesmo se as estrelas começarem a cair, me diz: para onde é que a gente vai fugir?

É o que está acontecendo comigo. Estou das duas, uma: ou em ponto de fuga, ou em ponto de bala. Deixa pra lá, vai. A Angra é dos Reis.



Boa cambalhota noturna, gente! Urbana Legio Omnia Vincit!

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Stormy weather

Chamar a natureza de Mãe e crer que ela é sempre bela, poética e provedora é uma ignorância típica de quem só pensa que conhece as mulheres. Mãe pode ser Virgem Maria, ou Medéia e matar suas crias. A natureza pode ser tanto cósmica quanto caótica. E ela é linda no seu caos.

Ai, essa tempestade. Nunca a tinha visto descortinada na minha frente com tanta precisão. Conseguia ver os raios se formando bem ao longe e contava. 1, 2, 3 quilômetros, dependendo do tempo em que demorasse a chegada do trovão.

E tive medo, lógico. Quando me dei conta de que uma sala envidraçada é belíssima, principalmente em dias de sol, com colibris voando em volta, vindo sugar aquela aguinha com açúcar que costumam deixar perto dos jardins, mas que a esta mesma sala pode ser também assustadora, em dias chuvosos como este. Quando não se intui o tamanho do toró, porque ele se mostra inteiro na sua frente, feito tela de cinema, com o barulho do granizo batendo no vidro contribuindo com o realismo da cena. A imagem de revista de decoração vai embora pelos bueiros entupidos da cidade e fica apenas a exata noção da vulnerabilidade, de estar de frente para aquela vista privilegiada justamente porque estamos na frente de um barranco.

Ai, essa tempestade. Nunca ela traduziu de forma tão perfeita o meu estado mental, sala envidraçada de cara pro barranco, aprendendo a fechar as cortinas de vez em quando.


sábado, 30 de outubro de 2010

Curtinhas

Camões ou Quasímodo?
Sinto falta do OkComput3r. Sei, porém que o Vizinho tem motivos de sobra para ter dado uma parada com seus blogs. Hoje vi uma notícia que é a cara do blog em pausa da Vizinhança: Mulher mata o próprio filho enquanto jogava Farmville. Na ausência do OkComput3r para comentar este absurdo, TM tapa este buraco, mesmo que mal e porcamente: 

Pode parecer horrível o que vou dizer, mas o bizarro dessa história não está na mãe ter matado o filho e sim, o motivo (ou circunstância causadora, como quiser). Lamentável, mas isso é mais comum do que se imagina. Eu mesma acompanhei bem de perto uma investigação policial de um caso em que a mãe era a principal suspeita da morte do filho de três anos, e foi uma das experiências mais pavorosas da minha vida. É o mito de Medéia, mais antigo que o mundo. O feminino que nutre e gera vida também é capaz de matar. Mas por causa de Farmville, porra? Que graça tem ficar plantando alface e ordenhando vaca virtual? Vai trabalhar de verdade! Além disso: "O Farmville é um jogo perfeitamente simplista, ao ponto de qualquer criança o jogar. Não requer a mínima estratégia... mas este farrapo tinha dificuldades em se concentrar com o choro da criança e assim não conseguia jogar", diz um hipotético Rui. Sem mais, assino embaixo.

Nina Becker fez dois shows no Sesc Pompeia este mês. Até pensei em ir, mas me deu uma preguiça, como diria o Rafa. Não conheço profundamente a Orquestra Imperial e fala-se tanto do duplo álbum solo lançado por ela, que acabei ignorando um pouco. Joga-se tanto confete em pouca coisa, que às vezes eu sofro de um efeito contrário - quanto mais se fala, menos eu me interesso. O excelente Zuim Podcast publicou uma playlist da Nina Becker perto da semana em que aconteceria os shows, e estou a ouvindo só agora. Pensei que era um podcast dos trabalhos dela, mas na verdade, é uma colagem das suas influências, da fontes em que ela bebe. Puta caldeirão que vai de Waldick Soriano a Baden Powell, de Carmem Miranda a Doris Monteiro. Compartilho com Nina Becker uma sincera afeição pelas canções de dor-de-cotovelo mais descaradas, mais diretas, que não enfeitam o croquete para dizer o óbvio, sem sublimação. O que não as impede que tenham sofisticação, porém. E essa viagem  musical me fez lembrar um ilustre ex-colega de turma na facu, Ednaldo Freire: original é voltar às origens. Lembro também do Skylab, no texto mais curto e mais genial que ele fez para o Godard City: "olhem com desconfiança as músicas complexas. Atrás delas pode estar um gênio. Ou uma besta." Tô com ele e não abro. Então, este show da Nina ganhou o selo de Show Que Mais Me Arrependo De Não Ter Ido Na Vida. Que SWU o quê. 

E para terminar: este debate da Globo convence alguém? De tão descaradamente manipulado, Seu Francisco pergunta: "Será que eu me acho muito esperto ou o povo é que anda burro demais?" Uma drama Tostines para matar a pau esta semana pré-eleição-com-feriado. Como diria Bob Filho: este é meu pai!

É para todos esta tripla cambalhota! Bom feriado com eleição! Se der em você alguma vontade insana de votar no Serra, vá para a praia, pule sete ondas, ofereça presentes para Iemanjá, tome você mesmo um banho de mar e vote nulo!!!!

Notitas:

  • No exato momento em que terminei o parágrafo sobre a Nina Becker, o podcast acabou. Nada a ver, mas achei interessante.
  • Para quem não se lembra do Bibo Pai & Bobi Filho:

  • Bateu uma nostalgia também do comercial da Tostines:

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Mary and Max

Ou A Vida é um soco no estômago



A fofa Mary Daisy Dinkle


Esta pequena maravilha caiu nas minhas mãos no último domingo. O soco na boca do estômago foi tão forte que nem vou me alongar: digo apenas que este desenho desanimado foi uma das coisas mais lindas, poéticas e comoventes que vi em toda minha vida. Esqueça os clichês e boa sorte.



sábado, 2 de outubro de 2010

Buraco da Memória

Para o Rafa, apesar de ele não gostar de Beatles

Lá estava ela outra vez, cutucando o que restou do esmalte. “Longo o caminho para casa neste ônibus...” E colocou o Álbum Branco para rodar no celular.

Voltou a pensar nas unhas. Tinha passado a noite anterior esfregando os azulejos da cozinha e acabara com elas. Acabou também com os ombros, ressuscitando uma bursite que se acreditava extinta. A dor maior, porém, não era esta.

Estava matando lembranças depois de ele ter ido embora de vez. Os azulejos eram as mais notórias. Impossível de se meter tudo numa caixa e esquecer. Mais pichados que trem da Central do Brasil, estavam cheio de mensagens e desenhos dos amigos. O local de expressão artística da casa por excelência, onde todos fumavam, conversavam, cozinhavam, bebiam. O ateliê e a vernissage ao mesmo tempo.

Agora nem um, nem outro: branco parede de hospital. Branco da caixa de Omo inteira que se gastou para fazer o serviço da polícia do esquecimento.

Ponderou antes, pensou em tirar uma foto antes de apagar. Desistiu: uma foto porca de celular só para minimizar a culpa seria ridículo. "Dignidade já!” Ou deixa-se como está, ou apaga-se tudo. Algumas lembranças vão permanecer por algum tempo. Depois começarão a sumir, escorregando pelo Buraco da Memória, lentamente.

Foi dormir sem pensar em nada, tinha até se esquecido que no dia seguinte estaria sem o carro. Gostou da ideia. "Chacoalhar no ônibus é um exercício filosófico". Poderia ler, ouvir música no fone, cochilar. Fez tudo isso até perder-se nos seus pensamentos a respeito da noite passada. Apagar indícios do passado também o elimina? Memória é mesmo subversão?

Todas as perguntas cessaram quando começaram os primeiros acordes de Martha My Dear. Chorou só uma lágrima, daquelas que caem rápido. Não a surpreendeu o seu peso. Carregava os azulejos, as lembranças, o Álbum Branco, o ônibus, tudo.

O Amor virou impessoa... Silly girl.