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sexta-feira, 22 de maio de 2015

Sobre Formação de Professores: parem de nos tratar feito imbecis

     Primeiro preciso dizer que este não é um artigo acadêmico, no sentido mais estrito do termo. Não procedi com uma coleta rigorosa de dados, para depois fazer uma análise fria dos mesmos. Aliás, como tudo que já escrevi aqui, as reflexões de hoje vem fumegando, como bala que já cheira a sangue:


Eu tenho o maior prazer em descobrir coisas novas, sempre gostei de estudar. Então, eu simplesmente não consigo fazer nenhum curso, formação, oficina só para pontuar. (Quem é professor da Rede Municipal sabe: sempre almejamos evoluir, se não espiritualmente, ao menos na folha de pagamento. Somos verdadeiros Pokémons em busca da evolução). A maioria de nós trabalha em mais de um cargo/emprego, fazemos cursos (estão lembrados da evolução?), os casados/pais/mães tem que cuidar da casa e filhos e se sobrar algum tempo depois de tudo isso, viver. Quem sabe fazer alguma coisa que realmente nos traga prazer e satisfação. (Aliás, sobre isso, não me faço de rogada: eu gosto mesmo de estudar e de me aprimorar no meu ofício. Por incrível que pareça, diminui a angústia quando vem aquela sensação de impotência que todos nós professores experimentamos frequentemente). Justamente por gostar de estudar e pela agenda apertada, tenho que ser seletiva na hora de escolher uma formação, oficina ou curso. E posso dizer que vale a pena adotar esta postura, porque tive experiências incríveis, que realmente agregaram valor ao meu camarotezinho de professora da rede pública.
Uma delas faz parte do arquivo dos TM, o curso de extensão universitária Poéticas da Dança na Educação Básica (IA/UNESP, 2012). A última fase do curso - o projeto com meus alunos - nem foi relatado aqui por uma absurda falta de tempo já citada anteriormente. Como tudo que opera no plano real, não foi perfeito. Durou pouco tempo em relação aos objetivos que estabelecemos na equipe, porém até hoje as crianças (que ainda são meus alunos) se lembram da experiência e falam dela. Espero conseguir fazer meu trabalho de campo do mestrado com alguns destes mesmos alunos. (Se isso acontecer, a professorinha pesquisadora em formação vai ter um treco de felicidade acadêmica!).
As três vezes em que fiz parte do Descubra a Orquestra, da Osesp foram inesquecíveis e valeram mais que meus anos de estudos de música no modo tradicional. Tivemos estudos teóricos, discussão e também aprendemos ferramentas úteis para o trabalho – às vezes parecem que essas duas coisas não combinam, mas combinam, tem que combinar. Aliás, se não combinarem numa formação, corra: é uma cilada, Bino!


          
E outra experiência recente sensacional foi o Encontro para Professores de Arte da Rede Municipal de São Paulo em agosto do ano passado, no IA da UNESP, promovido pelo Grupo de Pesquisa em Formação de Professores, capitaneado pela Prof.ª Luiza Christov. Além das oficinas que podíamos escolher (fiz uma sobre Aikidô e suas possibilidades de administrar conflitos pacificamente), o mais incrível foi a postura de escuta adotada pelo grupo: não fomos lá simplesmente para ‘receber’ formação. As narrativas coletadas no encontro foram discutidas, documentadas e resultaram numa ação prática: já assinou a petição online solicitando à Secretaria Municipal de Educação mais uma aula de arte no currículo do 1º ao 5º ano? Assina, gente!


Estas são algumas das experiências mais marcantes que tive, sem contar a epopeia pelo mestrado no Instituto de Artes da UNESP e meu contato com a Professora Sandra Batistão, que nos levou a pensar para além das questões que faziam parte da formação, que sozinha já tem tanto a se dizer e fazer (inclusão de alunos com deficiência intelectual). Mas em termos de formação continuada de professores, ainda se caminha a passos de centopeia lesa e isso me deixa beeeem irritada. Vou apontar o que considero falho e soluções possíveis. (Vai que eu seja lida e ouvida pelo ministro ou secretário da educação municipal, não é? Otimismo é tudo nessa vida, gente!)


A primeira delas consta no PME (Plano Municipal de Educação de São Paulo, rede onde atualmente trabalho), mas possibilidades reais e avanços, eu como recente mestranda não vejo: aumentar a quantidade de docentes mestres e doutores na rede. Pós-graduação scrictu sensu exige, entre outras coisinhas, dedicação em muita leitura e pesquisa, trabalho de campo, escrever e revisar, tudo isso dentro dos prazos dos programas das universidades (dois anos para mestrado, por exemplo). Isso demanda horários flexíveis (as aulas dos programas quase nunca são num período só) e dinheiro. Ou você tem bolsa, ou trabalha. O que temos de fato nas redes de ensino, como já citei, são jornadas acachapantes e nada flexíveis. O mínimo que se poderia fazer para aumentar a quantidade de professores pesquisadores, com pós-graduações scrictu sensu, seria uma licença sem prejudicar os vencimentos, específica para este fim e que nem precisaria durar todo o tempo do programa de pós. Isto existe na nossa Rede? Ando procurando e não encontrei ainda. O que há é uma licença para apresentar trabalhos científicos em congressos, que já utilizei duas vezes. (Mas se não há tempo para pesquisa, vamos apresentar o quê? Trabalhos acadêmicos não são recebidos por inspiração divina). Ficar recebendo formações continuadas tem seu mérito, mas não é tudo. Se quiséssemos mesmo melhorar a qualidade da educação do país, seria necessário encorajar os docentes a buscar seus próprios caminhos, pesquisando e compartilhando suas soluções. O sistema educacional da Finlândia por exemplo, que tanta gente ama idolatrar, exige para o exercício docente no mínimo o grau de mestre. Temos excelentes programas de pós-graduação em educação aqui – inclusive mestrados profissionais em rede específicos para professores - porque não usamos? E se usamos, temos que fazer milagres dignos de Matrix para dar conta do programa + jornada de trabalho. Se você é um mestrando ou doutorando dentro da escola, salvo raras exceções, será tratado como um ET. Prepare seu OVNI.

Outra coisa que me intriga é: se o docente tiver uma real proficiência em um segundo idioma, porque não se pode entregar sua certificação para pontuar? Isso existe em uma alguma rede pública de ensino do país? Nas que eu trabalhei/trabalho não existe essa possibilidade. E mais: cursos de um segundo idioma oferecidos em formação continuada só existem para professores de LEM (língua estrangeira moderna). Ou seja, você só pode falar inglês se for professor de inglês. If you are not, forget it! (Será por isso que tantos alunos fazem cara de se descobrem que um professor que não é de LEM ou de língua portuguesa fala outro idioma?)

O tempo que se perde com obviedades em alguns cursos, oficinas e afins que são um verdadeiro desperdício de tempo e energia é o que mais me indigna deste pequeno compêndio de problemas com formação continuada de professores. Talvez seja o que mais me irrita porque é o mais simples de resolver de todos que estou elecando aqui e não se resolve, porque vida de professor é muito fácil e precisa de uma emoçãozinha a mais. Desde a graduação, tenho uma coleção de casos – que é lógico que não vou contar, para não ser decapitada - em que somos tratados como verdadeiras bestas quadradas, nivelados previamente para baixo do centro da terra. Então, fica a dica: parem de nos tratar como imbecis. O mundo não é necessariamente aquilo que a gente pensa, né?

Essa é para fechar a madrugada que logo mais tem aula. Citando Giovanni Improtta: vamos embora que o tempo urge e a Sapucaí é grande!

           Um beijo, José Wilker!

(Se você não entendeu a piada, clique.)

domingo, 29 de abril de 2012

Poéticas da Dança III - Subvertendo escadas

Uma flor nasceu na rua!
Furou o tédio, o asfalto e o nojo. 
Carlos Drummond de Andrade
I
O antepenúltimo encontro do Poéticas deu o que dançar. Sempre dá na verdade, mas a proposta da vez foi a  mais ousada - e divertida -  até então. 

Quantas vezes reclamei espaço, quantas vezes me vi derreter nas paredes de tédio. Algumas vezes o reivindiquei, outras, inventei. 

Na escola, reivindicar e inventar às vezes é pouco! É preciso transformar. Paredes cinza, bege ou qualquer cor inexpressiva, de preferência horrível. Grades, cadeados, chaves. Por que a gente é assim? Sinceramente, não sei. Quando cheguei já era deste jeito, e a gente só começa a entender a partir do intento de mudar. Eu poderia arriscar explicações a respeito disso, mas o momento é visceral. Deixo para os teóricos teorizarem. 



Para viver são necessários espaços vazios. Experiência não acontece a partir de lugares repletos de tralhas. E nunca vi numa escola, nas quais estudei ou trabalhei pelo menos, uma única sala que pudesse ser esvaziada. Nem a sala de vídeo escapa, vira almoxarifado em época de recebimento de materiais e insumos enviados pela Rede. Até as tentativas de deixar o ambiente mais alegre deixam o ambiente atulhado. Montes de cartazes, desenhos, frufrus e afins fariam Mies Van der Rohe se retorcer no túmulo. 

E como a professorinha se move nestes não-espaços?  Como propor que os alunos se movam nestes espaços em que se configurou no chão uma trilha batida? Como criar realidades poéticas dentro desta realidade engessada?

Este, a meu ver, foi o ponto de partida do último encontro, que culminou numa proposta de intervenção, primeiro nas escadas do IA, depois no Terminal da Barra Funda. 

II
Moro num sobrado, escadas fazem parte da minha vida desde cedo. Minha frustração de infância é que elas não possuem corrimão, para escorregar feito Lucas Silva e Silva em O Mundo da Lua. Mas, pensando bem, sem o corrimão, dava para pular dos degraus direto para o chão, começando dos mais baixos para os mais altos. Subir de dois em dois, depois de três em três degraus. Descer batucando com os chinelos, saber quem subia as escadas pelo ritmo dos passos. Subverter escadas, então, é uma antiga diversão. Seria agora a hora de subverter novas escadas?



Primeiro, as escadas do próprio IA. Mudanças de nível, planos, corrimões... A criança aqui se quebra toda, mas se diverte! Depois o grupo foi dividido em dois, e foi proposto pensar uma improvisação no esquema Viola Spolin (onde, quem, o quê), dentro do espaço da escada. Agora, parei para pensar como a realidade que a gente cria pode ser muito mais forte que aquilo que a gente vê: no momento da improvisação, a escada já não era mais escada, era cachoeira. Era capaz da gente terminar a cena ensopadas!

III
E então, o ápice do encontro: escada por escada, no Terminal da Barra Funda é o que a gente mais encontra. Vai para lá todo o bando: alunos, professoras, coordenadores, equipe de vídeo. A gente tinha 15 minutos para montar uma intervenção, a partir de duas palavras dadas.

Pressa e Contemplação. Pressa existe de sobra nestas escadas, mas há espaço para contemplação? Tivemos que criá-lo. É muito engraçado, já no ensaio a gente já tem uma prévia dos olhares com que vai se deparar. Os de estranhamento são a maioria, mas a gente também encontra quem se diverte com uma pausa nesta marcha interminável rumo a lugar nenhum.

Apresentar o nosso grupo foi moleza: a gente ensaiou com a escada vazia, mas a hora de fazer a cena foi um momento de pico, o que para nós foi uma puta sorte.

O segundo grupo escolheu uma escada rolante, o que acabou fazendo com que outras personagens involuntárias entrassem para a cena como antagonistas. Três, como as feiticeiras de Macbeth, para ser mais exata. Uma delas era a Segurança, a outra era Burocracia e a terceira, Incompetência. A direção do terminal já havia autorizado as intervenções, a Prof. Kathya estava lá com o documento comprovando a autorização e ainda assim ninguém sabia de nada, e fizeram tudo para impedir. Kathya e Roberto em cima tentando negociar, a gente embaixo, esperando com cara de glúteos com um monte de seguranças em volta. Acho que eles pensaram que dentro da câmera tinha uma bomba, ou que seria gravado um clipe póstumo do Michael Jackson, sei lá.




Quando as palavras falham, parte-se para a ação. Uma hora a Bianca se encheu de tudo isso, deu uma olhadela esperta para as outras meninas do grupo e saiu correndo subindo as escadas rolantes que desciam, e a cena acabou acontecendo. Tudo que eles fizeram para impedir, virou parte da cena: desligar as escadas, tentar impedir de quem estava embaixo subir.

Pelo menos em mim, o sentimento que este episódio foi um misto de indignação com riso. Indignada como num país e numa cidade cheia de problemas, uma intervenção de dança em um local público causa mais comoção e preocupação que se alguém tivesse sido assaltado lá dentro, e o rindo de tudo isso porque gente normal é mais louca que a gente pensa.

E a cada escada que subo ou desço naquele terminal ainda hoje, um pouco deste riso ainda permanece. Sempre me lembro da Marília, que sempre detestou aquele terminal: você ainda vê aquelas escadas da mesma maneira?

Conseguimos furar o tédio, o asfalto e o nojo, pelo menos por um dia, e o valor disso é incalculável.

É para todos nós esta cambalhota! Em breve, o registro de mais encontros!

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Poéticas da Dança II - Descendo para o Playground


O segundo encontro do Poéticas da Dança fez todo mundo descer para o play e ir brincar. Essas meninas são danadas, sabem o que estão fazendo. Ao ler o texto da Isabel Marques durante a semana, já me deu uma vontade incrível de brincar. Eu sempre proponho brincadeiras com meus alunos, mas como eu tenho estar atenta a uma série de coisas, como o tempo, o espaço que precisa ser modificado, a organização e a bendita da disciplina, estou o tempo todo fritando o peixe e olhando o gato. A minha vontade, então, era de brincar como brincava quando criança: brincar por brincar, porque eu quero, porque é bom. 


Então, no último dia 17 de março, a sala de dança do IA havia se transubstanciado em um playground para crianças mais avançadas em idade, mas o negócio tinha cara de ritual e não de aula: sem dizer palavra, uma das meninas me entregou a almofada de jogar amarelinha. Depois, era só circular: pular corda, elástico, jogar bola e tudo acabou com um Siga o Mestre, em que o mestre era todo mundo e ninguém ao mesmo tempo. 


Na segunda parte do encontro, a ideia era estabelecer uma relação do texto da Isabel Marques com nosso espaço de trabalho: "Em que momentos da rotina escolar você percebe os 'corpos lúdicos' e 'não lúdicos'? De que maneira ou em quais momentos sua prática contribui para reforçar a construção de  corpos 'não lúdicos'? Em quais momentos você se contrapõe?" 


Com a canção da Dani Lasalvia e as perguntas escancaradas ali no diário de bordo, eu caí em mim e fiquei triste por alguns momentos. Querer brincar num espaço tão anti-lúdico e anti-poético como o espaço da escola se configura tantas vezes é um grande desafio para professores (que querem ser) brincantes. E ele estava lá, bem na minha frente. Que será, será?





Neste ponto a minha metralhadora verbal ligou-se sozinha. Eu vivo esta ansiedade o tempo todo. Quero brincar com meus alunos, não ensinar a brincar. Às vezes eu caio nesse erro, não sei se eu já disse isso aqui, mas a professorinha cansou-se de ser didática, daquela que nos "ensinaram" desde os primeiros momentos na escola: professor é um semideus que ensina. Por mais que eu tente ir na direção contrária, eu ainda carrego este repertório. É como subir uma escada rolante que desce, saca? 

"(...) Esqueçam também aquela ideia de que vamos ensinar alguma coisa para vocês. É muita pretensão da nossa parte acreditar nisso. Aprende quem quer aprender, e ninguém aprende sem se colocar a mão na massa, sem dar a cara para bater e isto, nós, os professores, não podemos fazer por vocês. O máximo que nós podemos fazer é indicar caminhos, e nenhum será atraente para todos ao mesmo tempo. (...)"


Depois partimos para os jogos teatrais, brincadeira muito da boa que felizmente fez parte do repertório primeiro da minha graduação. Este sistema, quando bem aplicado - perdão pela palavra não-acadêmica- é foda! Subversivo, libertador, inteligente, divertido. Quem começa, não quer mais parar. Jogamos um jogo de escultor e esculturas que se metamorfoseava em dança. Comentar e analisar o que visto/jogado  é parte fundamental do sistema de Jogos Teatrais e durante a avaliação da nossa sessão vimos (ou revimos) os princípios que regem este sistema que para ser libertador, precisa ser de uma disciplina livre e orgânica, nunca imposta. E conseguir isto não é nada fácil, mas é possível!


Antes de findar esta cambalhota e já emendar uma outra, deixo para vocês o que as brincadeiras da minha infância me mostraram da vida: 


"A gente fica olhando a corda bater no chão. As outras crianças já estão cantando "Um homem bateu em minhaporta e eu a-bri!". E a gente lá, entre a ousadia e a cautela, tentando achar a hora exata de entrar. Depois que a gente entra, porém, não pode parar de pular, porque é arriscado levar um tropeção. (...). Eu sei, eu também sou assim. "Porque eu sou medrosa. Mas se eu desço pro play é pra brincar"!"


Ps: Não sei se autocitação é falta de criatividade ou de tomar vergonha e escrever algo novo, mas a questão é muito simples. Não é de hoje que estas coisas me incomodam, e acolho estes incômodos: se não me incomodassem, jamais tentaria mudá-las, certo? 

domingo, 11 de março de 2012

Poéticas da Dança I -Living on the edge!

Sim, faz mais de um mês que começaram as aulas e a professorinha está correndo mais que queniano na São Silvestre. 

Há duas semanas começou a segunda fase do Projeto Poéticas da Dança, do Grupo de Pesquisa em Dança, Estética e Educação (GPDEE) do Instituto de Artes da Unesp. A primeira tarefa para o Grupo A foi registrarmos da maneira que quiséssemos como nós estávamos com nosso corpo no deslocamento da casa pro trabalho, nas tarefas cotidianas, na sala de aula e quaisquer outras coisas que quiséssemos contar. 

Como estou fazendo muitas coisas ao mesmo tempo, como tanta gente neste mundo, a única palavra que veio a minha mente foi CANSAÇO. Físico, e também emocional: cansada das mesmas coisas, dos mesmos tratamentos, dos mesmos modos engessados de ver o mundo. De saber que não se é nenhuma Leila Diniz, mas de acabar se sentindo como se fosse, de tão encaretada que está a vida, disfarçada de moderna. 

Até comecei um registro esparso das coisas, gostaria de contar (não só mostrar) aos parceiros e parceiras de viagem algumas coisas sobre a minha (re)descoberta do corpo, mas uma folha A4 com a única palavra que bastava expressava muito mais. Este olhar parece pessimista, mas é o contrário: não jogo a toalha nem a pau! 

Depois fomos convidadas a escolher outro diário de bordo, escolhi o da Bianca, várias linhas paralelas pontilhadas e em cima estava escrito: CORDA BAMBA. Descobri que o cansaço vem daí, eu gosto mesmo é de viver na corda bamba!

Os ombros suportam o mundo
Depois as pessoas se juntaram a partir dos trabalhos que escolheram. Grata surpresa foi a Marília. Também está cansada, aquela Barra Funda cheia de gente é tão anti-poética!  A partir desta discussão, a proposta era criar uma cena corporal que trouxesse à tona estas questões. Aí eu descobri que não tenho sequer metade da força que preciso, mas que tenho que criá-la de algum jeito. Chega um tempo que o cansaço é tamanho que é maior o peso dos ombros sobre o mundo! Mas Marília se mostrou muito mais resistente, aguentou o peso do mundo sobre os ombros muito mais do que eu!

Só a partir deste momento que surgiram as referências que ajudam a contar esta história, algumas deixo para vocês aqui:

Os Ombros Suportam o Mundo
Carlos Drummond de Andrade

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.


Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.


Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teu ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
ANDRADE, Carlos Drummond de. Reunião: 10 livros de poesia. Rio de Janeiro, José Olympio, 1975, p. 55




Se não desisti em 2004, vou desistir agora? 
 Em breve, mais Poéticas da Dança! Esta cambalhota é para vocês!

sábado, 15 de outubro de 2011

Aos alunos, com carinho

Esta cambalhota é para o poder ultrajovem 

Todo ano eu penso em escrever no Dia dos Professores, mas nunca faço, por vários motivos. O primeiro deles é o cansaço. Outubro é o mês da ladeira da preguiça, quando ela fica mais inclinada, perto do topo. O outro é que modestamente penso que nós precisamos de respeito e não de homenagens, apesar de agradecer todo o carinho dos meus alunos, que brigam para apagar a lousa e carregar meu material todo santo dia (risos); dos meus colegas, principalmente aqueles que não perdem o bom humor frente à árdua ralação dentro e fora da sala de aula e da minha família, que ainda se orgulha de ter uma professorinha no clã. O terceiro é que durante o ano inteiro, meu ofício me instiga a escrever. Para quem nunca provou textículos, tente o marcador Educadora em Chamas ou Professorinha para comprovar o que estou dizendo. 



Pensando melhor, tenho mais motivos e mais convincentes para fazer este textículo do que para não fazê-lo. O papo é diretamente com meus alunos. O negócio é com vocês, molecada. Esqueçam aquela conversa de futuro. Educação não é para o futuro, é para o presente. Se existir algum futuro, será consequência. Esqueçam também aquela ideia de que vamos ensinar alguma coisa para vocês. É muita pretensão da nossa parte acreditar nisso. Aprende quem quer aprender, e ninguém aprende sem se colocar a mão na massa, sem dar a cara para bater e isto, nós, os professores, não podemos fazer por vocês. O máximo que nós podemos fazer é indicar caminhos, e nenhum será atraente para todos ao mesmo tempo. E o melhor que vocês tem a fazer é ao menos olhar nas direções que a gente aponta. Só assim vocês vão descobrir o que gostam de fazer e o que fazem melhor. 

Professores, em primeiro lugar, são seres humanos. É prerrogativa nossa errar. Professores não são pais, nem mães (pelos menos dos alunos), nem psicólogos - a não ser que seja professor de Psicologia! - nem juízes ou delegados (com alguma sorte vocês podem encontrar alguns em faculdades de Direito). O Magistério é um ofício, nada mais do que isso. Não é sacerdócio, nem martírio. Perde-se muito tempo confundindo as funções, criando um desgaste horroroso e desnecessário. Por isso tantos colegas enlouquecem - de verdade. A carga emocional é mais pesada que a intelectual e nas licenciaturas (cursos  para formação dos professores), só se fala, lê e pratica questões a respeito da segunda e não se fala NADA a respeito da primeira, talvez porque não seja mesmo o nosso ofício ser madres-teresas-de-calcultá e mahatmas-ghandi da Educação. 

Então, ô garotada! Parem já com esta palhaçada de colocar seus professores ora no pedestal, ora na ante-sala do inferno, porque a gente é normal - e de perto ninguém é! O poderzinho que nós temos na mão é como as forças armadas da Suíça, não serve pra nada! Se obedecer é chato, mais chato ainda é ter que ficar mandando. E além do mais, tenho o direito de ter prazer em fazer meu trabalho, porque Educação, pelo menos para mim é isso - descobrir possibilidades, talentos, habilidades, e tudo isto é diversão para mais de metro! Vou ter marcado o gol de placa da minha vida toda se vocês aprenderem a cultivar este gosto também, porque foi por isso que me tornei professora - por um amor tão grande ao conhecimento e ao ser humano. O resto são papéis, e isto o vento leva. 

domingo, 12 de junho de 2011

Aprendendo a amar vol. 1

Este texto é o primeiro da série "Aprendendo a amar", escrito em 2009. Dedicado a meus alunos, ex-alunos, colegas e principalmente para quem amou e se decepcionou, mas que deu a volta por cima!

Um dia no intervalo das aulas, uma conversa entre os professores: aquela escola estava muito parada ultimamente, era preciso animar o período da tarde.  Então, é surge a idéia de fazer uma festa do dia dos namorados, já que a professora de inglês estava trabalhando com textos sobre São Valentim com as sétimas séries. O professor que quisesse entrar na dança era só contribuir com a sua idéia e a professora de inglês escreveria o projeto pedagógico da coisa.

A professora de Artes aderiu ao projeto na hora, mas com a dúvida de qual trabalho poderia fazer sobre seus alunos, afinal, se resolvesse trabalhar com Arte Erótica ou com o Nu na História da Arte poderia até ser exonerada do cargo, dado o moralismo indecente de sua época. Alguém soprou no seu ouvido para fazer cartões para correio elegante com as suas turmas. Ela, que normalmente xingaria quem deu essa idéia, dessa vez, sabe Deus porque, aceitou a idéia com simpatia.

Quando os alunos começaram a fazer os cartões nas aulas, ela entendeu porque ela topou fazer uma atividade que não tinha nada a ver com sua concepção vanguardista de Arte-Educação. A última vez que tinha feito correio elegante foi para as quermesses da Igreja, que tinham ficado para trás há um bom tempo. Tinha se esquecido a diversão que era aquele recorta-e-cola, somado à chuva de glitters, purpurinas, lantejoulas e corações feitos em série, como se fosse uma linha de produção.

Corações grandes, pequenos, em duplas, em trios e, em sua grande maioria, vermelhos. Todos de um vermelho pulsante, cor de cartolina comprada na papelaria da esquina. Lá pelas tantas, a professora se pergunta que cor estaria seu coração neste momento e apostou num azul, já que seu pobre coração andava um tanto gelado.

Não que seu coração nunca tivesse sido vermelho, só que da última vez que ele ficou vermelho foi de raiva, depois de uma decepção daquelas. Já estava recuperada do tombo, mas se deu conta, às vésperas de promover uma Festa do Dia dos Namorados com seus alunos, que tinha se fechado em copas para o amor. Como poderia reclamar que ninguém gostava dela? Ela não achava mais graça em ninguém. Todo mundo era feio, todo mundo era chato.

“Sou muito nova para ficar assim”, preocupou-se a professora. E sua preocupação foi ficando cada vez mais provinciana, apavorando-se com a idéia de se tornar uma professora solteirona típica, daquelas que usam “saia-lápis na altura do joelho, coque e óculos armação-tartaruga”. Sua preocupação, porém, durou poucos segundos, até um aluno cortar seus pensamentos com uma tesourinha sem ponta e dúvidas bem menos filosóficas: “É para cortar para direita ou para a esquerda, Prô?”

Longe da bagunça das salas, a professora foi avaliar o resultado da produção dos seus alunos. Contar os cartões, ver erros de português, essas coisas. Em contato com os corações, que ora escondiam, ora revelavam mensagens apaixonadas – tão clichês para os mais velhos, mas pura novidade para aquela molecada que está começando a descobrir os prazeres do amor – sentiu o seu próprio se aquecer. Entendeu o que seus velhos professores lhe diziam com: “Ensinar é via de mão dupla, a gente também aprende com nossos alunos”. Ela passou anos achando que isso era um bordão vazio, agora viu que era pura verdade. Graças a seus alunos e àquela bagunça de cartões sem fim, estava reaprendendo a amar.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

O impeachment mais rápido da Brasilândia!

Hoje, o coração da professorinha está em polvorosa, porque viu o poder ultrajovem mostrar que não está para brincadeiras. 
Adorei esta bandeirinha de festa junina!
Começou na última segunda-feira, com uma dispensa misteriosa dos alunos no período noturno da escola, com a chegada do diretor designado.  No dia seguinte se descobre que a vice-diretora havia sido dispensada, sem maiores esclarecimentos. Dona Célia Carioca está no JTX desde sua fundação, mas não é este o único fato que mobilizou o protesto primeiro dos professores, e depois dos alunos. Ela conhece a realidade do bairro, de cada pessoa que está ali e sempre fez o seu trabalho com dedicação ímpar. Até quem não morre de amores por ela reconhece este fato. Isto sim moveu a comunidade a reagir contra os desmandos de quem acha que a burocracia vai salvar o mundo, que se consegue mandar só na base da canetada. 

Este diretor que havia sido designado para assumir a direção do JTX já era velho conhecido nosso. "Digam para quem gosta e principalmente para quem não gosta que eu voltei!" foi sua frase de apresentação. Ele ficou na direção da escola no ano letivo anterior, à base de soluções unilaterais, decisões impostas debaixo para cima e discurso focado na burocracia massacrante que caracteriza a educação pública (lembrando, por exemplo, aos professores contratados e efetivos em estágio probatório tinham que "se cuidar", porque era ele quem assinava e deliberava, raçãowhiskasblabláblá...)

Ele até conquistou um pequeno secto de puxa-sacos, como em todo lugar acontece, mas as coisas não foram fáceis para ele por lá. Boa parte do corpo docente do JTX é questionador e combativo, e não é que lá tenha a maior concentração de che guevaras por metro quadrado. Só se trata de um grupo em que as coisas precisam ser explicadas, esclarecidas. E não é bem disso que ele gosta, sabe? Então, acredito que ele voltou para uma desforra e ele é quem foi bem desforrado.

Acha que nossas hérnias e bicos de papagaio nos permitiriam colar um cartaz aí?
Na terça-feira, a primeira reação do corpo docente foi não subir para a aula no período vespertino, para forçar uma explicação. Parados lá ficamos toda a primeira aula e ele aparece. Seu discurso de burocrata não convence e na base de muita prepotência e arrogância, a todo tempo ele tentou usar contra nós os nossos questionamentos. A supervisora de ensino apareceu por lá para abafar o escândalo, pedindo que não prejudicássemos os alunos que estavam sem aulas naquele momento e prometeu uma explicação, que ficou para o final do período. As coisas também não foram fáceis para ela, confesso que ela também não nos convenceu muito. Deixamos avisado que iríamos ao dirigente da diretoria de ensino e assim foi feito. Na quarta-feira pela manhã, fomos recebidos na Norte 1. Cheguei nos 45 do segundo tempo, que foi o que deu para fazer, mas estávamos bem representados. Ele ouviu e argumentou também, se comprometendo a apurar o caso, pois até então não havia nada que desabonasse o então diretor designado regularmente. 

Quando chegamos à escola para dar aula à tarde, com os alunos já inteirados do caso e a escola repleta de cartazes com mensagens de apoio à Célia. Desde a noite de terça, nas redes sociais estava circulando a tag #voltacelia. O movimento dos alunos - totalmente espontâneo, nem um pouco forçado - já estava articulado. As turmas do fundamental, vendo os cartazes deixados pelo pessoal do matutino, aderiram também, escrevendo na lousa, colando etiquetas no uniforme e tudo mais. Para alguns alunos da quintas séries, que chegaram para nós com uma alfabetização sofrível, o Volta Célia virou "vouta celha". (Para vocês verem que os professores destas turmas precisam fazer é milagre, lecionar é pouco). E infelizmente, houve quem joselitasse o movimento. No segundo intervalo da tarde, uma rebelião teve que ser contida!  Parecia o Egito no começo do ano, gente.



O dia letivo ontem acabou com um protesto combinado pelos alunos: que comparecessem à escola hoje de manhã que não entrassem na escola até que fosse dada uma explicação a eles. E foi o que aconteceu: debaixo da chuva e do frio que fez hoje estavam lá, alunos e pais na porta da escola, numa manifestação pacífica, tranquila, mas que incomodou o suficiente para o diretor designado cair fora espontaneamente!

Mesmo com frio e chuva, a galera resistiu!

Eu não estava lá hoje, lecionei na escola da prefeitura pela manhã, mas sempre recebendo notícias frescas no celular e acompanhando o movimento pelas redes sociais na hora do intervalo. Na hora de ir embora, não resisti e abri o Facebook pela última vez. Quanto vi os primeiros vídeos da manifestação que a garotada postou, não resisti e pulei de alegria!



Nos meus tempos de estudante e militante, houve lá algumas lutas, algumas manifestações bem-sucedidas como esta, mas nunca fiquei tão feliz como hoje. Simplesmente porque todo este movimento surgiu de uma juventude que a todo tempo é acusada de ser alienada e individualista. Agora, esta acusação se mostra no mínimo infundada.



Tudo que aconteceu não se deve unicamente ao bom trabalho que a Célia desenvolveu todos estes anos, também porque a galera não aceitou a injustiça e soube protestar! Não houve líderes, não houve incitadores. Todos foram. E o resultado está aí: o impeachment mais rápido da história da EE Prof Jair Toledo Xavier!

Até Sófocles postou a tag no seu twitter!
Agora, uma das atuais vices fica na direção até segunda ordem e Dona Célia, assim que voltar das suas férias (a dispensa aconteceria depois das férias e o bestão já tinha aberto a boca!), volta também a seu posto.

No meio do fogo cruzado, escutei de uma colega: "Você acha que essa história vai dar em alguma coisa? A gente é descartável neste mundo". Os fatos mostraram o totalmente oposto. E contra fatos não há argumentos, não é o que dizem?
Hoje o dia foi deveras longo! Então, uma cambalhota para todos e um grande uuuuuh! para os mandões deste mundo!

terça-feira, 31 de maio de 2011

Até que enfim

Já faz duas semanas, mas até que enfim alguém falou a verdade. Não que ela não seja largamente conhecida por todos, não que ela nunca tenha sido esbravejada aos quatro cantos do mundo. É que finalmente esta verdade foi dita com uma assertividade tamanha a ponto do PIG ter fingido que faz coro a ela, abrindo o microfone para que fosse dita sem cortes em rede nacional, num momento de audiência privilegiada.


Agora, eu confesso: eu não teria metade da coragem da Prof. Amanda, nem da sua eloquência. Porque nós, professores, caímos muitas vezes no erro de reclamar, reclamar, reclamar, como uma metralhadora verbal, geralmente quando não há ninguém para nos ouvir além de nós mesmos. Isto é de um onanismo completamente inútil, masoquista!  Chega um momento em que ninguém mais nos dá ouvidos. Então, o que fez com que todos ouvissem o que Amanda Gurgel disse?  Ela convocou todo o seu poder de síntese para não se perder com eufemismos e frases ambíguas e sem delongas, foi para as cabeças.



Engana-se quem pensa que isto é problema exclusivamente brasileiro, de nações subdesenvolvidas ou em desenvolvimento. Para elucidar esta questão, este vídeo é sensacional.



Já é uma recorrente dizer que o vídeo da professora Amanda tornou-se símbolo, não só de tudo o que ela disse no seu discurso, mas do real poder de mobilização da sociedade em rede. O protesto da Gente Diferenciada, em frente ao Shopping Pátio Higienópolis, foi um exemplo - bem-humorado, mas mesmo assim, eficiente. A recente inssurreição no Egito que derrubou Hosni Mubarak também foi forjada online.

O ativismo digital sozinho não vai muito longe, mas é uma ferramenta e tanto para o ativismo fora da rede. Estou na rede Salário digno aos professores do Brasil e dia 12 de junho, tem evento marcado no Facebook. O bom da Era Digital é que tudo quanto é coisa é capaz de se espalhar feito rastilho de pólvora, das mais altas bobagens às realmente relevantes. A oportunidade é realmente única, porque o PIG está fingindo fazer coro aos apelos dos professores - geralmente o discurso é contrário.  É hora de aproveitar o microfone aberto da Prof. Amanda e mandar ver.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Hadouken, Zangief!

Ou ainda: Chupa, dentuço!

Rita Lee e Zélia Duncan já disseram: só quem já morreu na fogueira sabe o que é ser carvão*. Hoje fala-se tanto em bullying que até parece novidade. A novidade é a superexposição da vida da molecada através das redes sociais, vídeos no celular e coisas do gênero. O que acabou gerando o cyberbullying,  uma versão ainda mais assustadora deste fenômeno, porque aterroriza e tortura até quando se está fora da escola.


Provavelmente, a agressão foi gravada para depois exaltar o ego do agressor na rede, mas bem que dizem  por aí que só os idiotas são cem por cento autoconfiantes. Este estava tão seguro de si a tal ponto que esqueceu: o trouxa de que ele pretendia tripudiar tinha pelo menos o triplo do seu tamanho, e como não contava que ia levar um hadouken de foder, o tiro saiu pela culatra.

Este assunto caiu nas minhas mãos ontem, através do meu amigo e novo provador de textículos, Porpeta, que postou em seu perfil o link do texto de uma amiga sobre o caso, muito bem escrito e corajoso, porque fugiu da hipocrisia e falou com todas as letras: quem mexe com quem está quieto merece sim levar uma na cara para aprender. Não é revanchismo, é o direito que todos têm de se defender quando sua dignidade é ameaçada.

Sei bem o que é isso, fui vítima de bullying na escola. E digo que é horrível, e olha que não sou de ficar quieta. O motivo: até o ensino fundamental, eu fatalmente era a primeira aluna da sala e visivelmente a protegidinha da mamãe. Estava estampado na minha cara. Alvo fácil para bullies, que eram não só moleques, como pode-se cair na tentação de pensar. Meninas também perseguem com tortura psicológica, agressão física, colocando apelidos, roubando suas coisas. Maldade não tem idade nem sexo definido: não adianta dizer que isso é coisa de moleque ou que é briga de criança que logo passa. 

A minha sorte é que eu nunca fui de sofrer calada, então eu sempre pus a boca no trombone, o que criou uma par de situações hilárias na minha época de escola. Porque sim, a Betona ia com toda fúria de leoa defender sua cria na escola, como uma Dona Florinda vai defender seu Quico. A única diferença é que ela não batia em ninguém, ia reclamar direto na Direção da escola, num voo praticamente sem escala. 

Eu, que não sou nenhum Ghandi, também cerrava meus punhos de vez em quando para acertar meus algozes. E como não tenho juízo até hoje, eu levava uma com qualquer um que mexesse comigo, até aqueles ditos mais perigosos. Afinal, eu também sou mano da Brasilândia, pô!

Uma hora isso acabou passando, hoje acho foi que por conta do meu temperamento explosivo. Como não aguento sofrer calada, faço logo um estardalhaço. Mas na maioria das vezes a vítima de bullying é retraída e não consegue reagir. E quando reage, sai de perto, porque vem muita merda pela frente. 

Casey Heines só revidou o ataque e deu a sorte de ser gravado. Só que esse tipo de reviravolta pode ser muito, mas muito pior. Alguém se lembra do Massacre em Columbine? Não é totalmente aceito o fato, mas considera-se que eles eram excluídos da ala dos descolados, atletas e populares da escola. O que eles fizeram foi coisa de psicopata, é claro, mas nunca se conhece totalmente os demônios que há dentro de cada ser humano. Aqui no Brasil, aconteceu coisa parecida, alguns anos atrás, acho que numa cidade do interior de São Paulo. Antes de se matar, o garoto fez questão de levar a arma pra escola e atirar para tudo quanto é lado.

De tudo isso, o que mais me assusta é a completa ignorância das famílias sobre o fato. Há pais e mães que simplesmente não conhecem o filho que tem ou que não conseguem perceber quando o filho está sofrendo agressões na escola, principalmente a psicológica, mais sutil e perigosa. Mesmo meus pais, que sempre foram super presentes, não entendiam totalmente o quão horrível é ser torturado o tempo todo, principalmente na adolescência, onde a autoestima é algo tão frágil. No caso do Zangief Kid, nem o pai da vítima nem do agressor sabiam do que acontecia com seus filhos.

E a escola? Agora sou professora, este assunto está na pauta do dia hoje, não é coisa do passado para mim. O que tenho a dizer sobre o outro lado dessa história é que é muito difícil identificar bullying em sala de aula, porque: 

1 - O comportamento bully é covarde. Vai aprontar quando não tiver chances de ser pego;

2 - Aquilo que alguns pais e mães não dão conta quando estão com duas em três crianças em casa, deve ser multiplicado por pelo menos 35 no caso do professor em sala de aula. Se a gente parar para resolver  todas as situações de conflito em sala de aula, abandonando todo o resto, dependendo de quão danada é a turma, em meio segundo vai ter gente até no teto. E nós somos responsáveis por TODOS que estão dentro da sala quando estamos em aula. Se alguém se machuca, a gente é que responde pelo fato.

Para a escola, não adianta combater situações isoladas com punições igualmente isoladas. O bullying é um fenômeno que acontece de maneira sistemática e deve ser combatido da mesma maneira pela escola e pela academia. É um absurdo, não se estuda este assunto nas licenciaturas e só agora estudos acadêmicos e livros sobre o assunto estão ganhando alguma notoriedade. Então a escola dos dois garotos que puniu a briga com uma suspensão para os alunos e depois lavou as mãos, está errada. Pode-se até punir para deixar claro que a violência não será tolerada, mas onde toda esta tolerância zero estava quando Casey Heines era constantemente agredido? Como eu disse, é difícil descobrir, mas a partir do momento que se descobre, a escola como instituição deve se posicionar contra isso. O bullying é um câncer da sociedade, que se reflete na escola. Logo, a gente tem que fazer alguma coisa, sim. E rápido.

Defende-se que o agressor não pode ser jogado na fogueira  como herege pura e simplesmente e que também precisa de atenção, talvez até de tratamento. É  mesmo doentio ter que rebaixar o outro para se sentir melhor, isto deve ser cuidado, mas jamais tratando os agressores como coitadinhos. E o bestiário pedagogês adora o jogo do coitadinho. A mídia norte-americana também entrevistou Richard Gale, o menino que tentou agredir Heines e ele diz: "minha mãe diz para eu ter sucesso na vida", chora uma lagriminha de crocodilo, mas depois deixa escapar que não lamenta ter agredido Casey e ainda mente muito mal dizendo que ele tinha sido agredido antes.



O caso Zangief Kid é emblemático, trouxe à tona um assunto importante que deve ser tratado por toda a sociedade. Mas é lógico que o PIG estadunidense reduziu este acontecido a um mero heroes and vilains muito do chinfrim. Casey Heines virou heroi sem ter feito nada heroico, ele só revidou a agressão e isto é instintivo. Colocá-lo nesta posição de maneira tão simplista só incita mais o ódio e apologiza a violência, o que não resolve o assunto. E será que o garoto que antes era tratado como o mosquito-do-cocô-do-cavalo-do-bandido está preparado para tanta exposição na mídia e do dia para noite passar a ter duzentos mil amigos no Facebook? Ele só queria que o deixassem em paz. (Sem contar que agora é o Gale que está sendo perseguido. Reviravolta a là Tom&Jerry esta, hein?)

Mais que um heroi, Casey tornou-se um símbolo de uma situação que só agora está sendo vista pela sociedade em geral com um pouco mais de consciência. Deve-se aproveitar a situação para conversar sobre o bullying não somente dentro das escolas, mas em casa também. Então, pais e mães: por favor, conheçam de fato seus filhos e o que acontece com eles dentro e fora da escola, principalmente  quando estão online.  Isto não é controle, é cuidado. Vítimas de bullying: não sofram calados e não esperem para tomar uma atitude quando se está no limite da razão, como Casey Heines fez. Educadores: não podemos mais ignorar o assunto. Bullying sempre existiu e sempre foi grave, mas na era digital 2.0 conseguiu ficar pior. E para acabar, Bullies:  tomem cuidado com quem vocês batem. Vocês podem apanhar feio. 

Epílogo
Com todo o politicamente correto que nos massacra neste mundo, atire a primeira pedra quem não viu o moleque magricela e dentuço beijando o chão e não pensou: "Se fo-deu!"
(Ok, os mais educados podem ter pensado somente um Bem feito. Mas equivale em sentido.)

domingo, 20 de março de 2011

Lope

" Eu quero tudo!"
Lope de Vega




Assisti a esse filme ontem no Unibanco da Augusta, depois de ter visto o cartaz no Unibanco da Pompeia e não ter conseguido assistir porque já tinha saído de cartaz por lá. Fora os oscarizados e as boas animações 3D, são os filmes mais babacas que sustentam a audiência das salas de cinema de shopping - o cinema do Bourbon é uma exceção, também apresenta opções que fogem do blockbuster. Logo, um filme que ficou pouquíssimo tempo em exibição no cinema de um shopping deveria ser no mínimo interessante. Gazelita descobriu que ainda havia sessões rolando no Unibanco da Augusta e a gente se mandou para lá. 
Na verdade, não foi só um instinto anti-mainstream que me atraiu para assistir Lope. Lope de Vega é um dos maiores dramaturgos da história do Teatro, tanto em volume de trabalho - já que escreveu feito louco -  quanto por suas inovações em termos de dramaturgia e encenação. Eu não conheço a sua vastíssima obra em profundidade (e a professorinha de Artes Cênicas deveria, né?). Mesmo que neste tipo de filme tenha quase sempre injetada uma boa dose de ficção, eles sempre ajudam a entender o contexto histórico do período em que criou,  suas referências estéticas, a atmosfera da época. Shakespeare in love fez a mesma coisa pelo Bardo e levou Oscar, quem sabe Lope não leve também no próximo ano.

Qualidade de produção para isso o filme tem. É uma co-produção Brasil-Espanha, com Andrucha Waddington na direção, Selton Mello e Sonia Braga no elenco. O único filme que eu tinha assistido dele foi Eu, Tu, Eles, que é ótimo e totalmente diferente em temática de Lope.

O início é cozido em fogo lento, quase parece monótono. Na verdade, é sua intrincada trama sendo urdida aos poucos. Quando o circo está armado por completo, aí é que fica bom. E ele literalmente pega fogo. Lope é a personificação do artista subversivo, audacioso e intempestivo, que arranja confusão com meio mundo porque não aceita se vender por pouca coisa,  mesmo que estivesse tão ferrado a ponto de vender o almoço para comprar o jantar;  habilidoso com a pena e com a espada, não leva desaforo para casa e adora se meter - literalmente - com a mulher errada. E elas adoram - afinal, ele as enlouquece com seus românticos sonetos e seus calorosos amassos. (Sem uma sacanagem, a história de um poeta louco de amor seria simplesmente inverossímil. Fosse eu uma donzelinha madrilenha em meados do século XVI, teria dado pra ele fácil, fácil. Ninguém é de ferro, né? Eu menos ainda.)

Moral da história: nem só de Almodóvar vive o cinema espanhol,  nem só de Globo Filmes vive o cinema brasileiro.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Vamos brincar perto da usina

A capacidade do ser humano em ser egocentrado (leia-se: egoísta mesmo) é absurdamente incrível. Somente nesta semana que assisti a alguns noticiários e li alguns jornais sobre o terremoto-tsunami-acidente nuclear do Japão. De fato, desgraça pouca é besteira. Se vem, vem de lote e a galope. 

Do outro lado do mundo, o caos está completamente instalado em uma situação que só se compara a Segunda Guerra Mundial, que deixou o Japão afundado na lama. E mesmo assim  eu  só conseguia pensar em mim! Agora me sinto péssima por isso. Poderia ser qualquer um de nós! Ou ainda acha que no Brasil não existem desastres naturais? Faz-me rir! Aqui já aconteceram e acontecem terremotos, vendavais, enchentes,  queimadas, deslizamentos de terra. A Natureza é caótica, irmãozinho. Não tem nada a ver com ira dos deuses. Todas estas pessoas foram vítimas do acaso. 

Este último parágrafo é feito de um cinismo dos mais sentimentalistas e baratos. Mesmo com todo este mea-culpa, eu ainda penso só em mim. É que também o PIG é foda, né gente? Quando começa com uma coisa, não para mais. A avalanche de informações é tamanha que chega um ponto em que você filtra para não enlouquecer. O pior efeito colateral deste processo é perder a sensibilidade, anestesiar-se por completo. Odeio muito tudo isso. Aí volto para meu mundinho de textículos e intrigas. 

Na verdade, todo mundo é um pouco assim. Por isso é que gosto tanto deste poemínimo do Mário Quintana. Quem tiver a cara de pau de dizer que Quintana estava enganado, que atire na professorinha.  
 
A nós bastem nossos próprios ais,
Que a ninguém sua cruz é pequenina.
Por pior que seja a situação da China,
Os nossos calos doem muito mais...
 
O fato é que as notícias sobre o acidente em Fukushima, e a reportagem sobre Shernobyl vinte e cinco anos depois do desastre me evocou algo bem mais corriqueiro. Lembrei de Angra dos Reis, da Legião. Uma das minhas canções de amor preferidas que titio Renato escreveu. 

Vamos brincar perto da usina. Brincar com radiatividade, perigo. Amar é bem assim mesmo, um constante brincar com fogo. E achar que não é nada. Pra que se explicar, se não existe perigo? Não adianta chorar, se por um acaso se queimar. É assim mesmo.

Não estou com dor-de-cotovelo, muito menos compatível com o nível da canção, só estou um pouco atônita. Angra dos Reis, porém, faz parte do meu relicário de lembranças adoradas. Mesmo se as estrelas começarem a cair, me diz: para onde é que a gente vai fugir?

É o que está acontecendo comigo. Estou das duas, uma: ou em ponto de fuga, ou em ponto de bala. Deixa pra lá, vai. A Angra é dos Reis.



Boa cambalhota noturna, gente! Urbana Legio Omnia Vincit!

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Raro caso de abdução

Fui abduzida. Totalmente retirada deste universo, durante os aproximadamente 7 minutos da Ária das Bachianas Brasileiras nº5, a Cantilena, na voz de Bidu Sayão. Engraçado, que abduções musicais raramente me acontecem com a música chamada erudita ou orquestral, pelo menos com gravações. (Sempre achei que nada substitui assistir uma boa orquestra ao vivo, se você estiver numa sala de concertos de acústica formidável como a São Paulo, é capaz de sentir a vibração da música até nos ossos, é uma experiência transcendental para quem ama música e a escuta até pelo fígado, como eu. E existe gente assim aos montes, felizmente.)





Mas estamos falando de Villa-Lobos, então essa discussão sobre ser ou não música erudita, de concerto, o que seja, é pura bobagem. A obra que ele deixou não conhece fronteiras entre popular e erudito, virou até lugar-comum dizer isso. Conheço ainda pouco sua obra - muito aquém do que todo brasileiro devia conhecer até de trás pra frente - e até então admirava, mas já não admiro mais. Hoje, passei a amá-la. Também, como todo brasileiro poderia amá-la, do fundo da alma, de verdade, caso conhecesse com propriedade.

É incrível como poucas pessoas sabem de fato quem foi esse compositor brasileiro admirado e executado em todo o mundo. Como já observou o caro colega ex-famosp, dar o nome de Villa-Lobos, para parques e shoppings é pouco e 50 anos após a sua morte, sua obra sequer foi catalogada ainda.

Pelo menos eu estou fazendo minha parte de professorinha de Artes. Passei a semana lendo o Crianças Famosas do Villa para a molecada das quartas séries. E está fazendo sucesso. A primeira pergunta - Prô, tem a ver com o Parque Villa-Lobos? Fazer esta associação já é um começo. Quisera eu ter ouvido Villa ainda criança e na escola!

sábado, 5 de dezembro de 2009

Aprendendo a amar vol. 4 - A Máquina do Tempo ***Centésima postagem!***

Há algumas semanas, a professorinha recebeu de uma grande amiga uma verdadeira herança dada em vida - seu acervo de fitas cassete. Ela não tinha mais onde tocá-las, e viu que a professorinha ainda tinha um aparelho de som capaz de tocar essas preciosidades. Perguntou se poderia levá-las à casa da professorinha, que disse: "Manda aí!", sem saber o tamanho do tesouro. Quilos e mais quilos de fitas cassetes em maletinhas de pano, típicas dos anos 1990. "Meu Deus, que eu vou fazer com tudo isso?!" A professorinha tomou como base para calcular o tamanho do acervo de sua amiga o seu próprio acervo de cassetes, que se resume a apenas uma caixinha. Esqueceu-se que a amiga sempre foi exagerada em tudo.

Era tarde pra recusar, e ficou com o trambolho. Nem abriu as maletas, para não cair em desespero. Ficaram jogadas em um canto por uns dias, até que a professorinha tomasse uma decisão. Jamais as jogaria fora, sabia que lá estava a trilha sonora de uma vida inteira, sem contar as raridades que a amiga tinha. Um dia depois do trabalho a professorinha, abriu o baú de Jack Sparrow Dee: duas maletas com gothic rock e new wave, de corte oitentista, mais três de corte sessentista, cheia de Jovem Guarda, rockabilly, doo wop e surf music. Abriu uma por uma, revirou todas para ver se estavam nomeadas e viu seu desespero aumentar. Aquele acervo era indissiociável, aquelas fitas estavam condenadas a ficarem sempre juntas. Eram de um tempo pré CD-R e pré-download, quando os amigos trocavam músicas emprestando vinis e CD´s e gravando em fita cassete suas próprias coletâneas. Sem Napster, iTunes, e ameaças de inferno e purgatório para quem faz download ilegal. A professorinha tinha certeza que seus alunos não conheciam essa Era. Um dia, ela entrou na sala de aula com uma bolsa no formato de uma fita cassete, e um aluno perguntou: "Que é isso na sua bolsa, Prô?", e a jovem professorinha se sentiu um pterodáctilo. Cogitou até usar botox depois dessa.

Na última semana de aula, quando não haviam mais aulas de fato e o poder ultrajovem andava incontrolável pelos corredores, a professorinha estava de papo com uma aluna que amava música tanto quanto ela, falando de bandas novas e antigas, estilos, álbuns, coisa rara de se acontecer. Um duende soprou no seu ouvido e lá pelas tantas, ela perguntou para a aluna se ela tinha onde tocar fitas cassete. Como a aluna disse que sim, ela ofereceu a ela a porção gothic rock do tesouro herdado. Com certeza, ela saberia dar valor às raridades, a garota tem uma maturidade intelectual invejável. O que não a impediu de sorrir feito criança contente com a oferta.

No dia seguinte, a professorinha subiu para sala com uma das maletas recebidas da amiga e um aparelho de som da era cenozóica, disponível para uso em sala de aula. Ligou o som e foi rebobinar as fitas, o que fez ajuntar em volta dela alguns dos alunos mais curiosos. Ficou lá algum tempo conversando com o poder ultrajovem, relembrando histórias da infância e da adolescência, como a vez que, aos quatro anos, rasgou a capa do disco do Menudo das suas irmãs mais velhas e jogou no vaso sanitário gritando "Eu adoro Menudo! Eu adoro Menudo!"; ou quando ia à missa com jeans rasgado e camiseta de caveira para desespero da mãe da professorinha, aos quinze. Os alunos sabiam que a professorinha não era das mais tradicionais, mas ninguém imaginava que ela fosse tão maluca nos bastidores. Riram, e contaram das suas também fora dos muros da escola. Neste instante, o aparelho de som transmutou-se em uma máquina do tempo, que fita por fita, quebrava as barreiras de geração e autoridade, típicas da escola. Progressivamente, iam se esquecendo dos papéis de professora e alunos, para se tornarem o que realmente são: gente. Com história de vida, recordações, preferências, sentimentos. Seria bom se fosse sempre assim.

Quando o sinal tocou, e todos foram pra casa, a professorinha até se animou. Chegou em casa e abriu o baú de Jack Sparrow Dee, pegou o seu Primeiro Gradiente e deu play na primeira fita. Ia ter muito o que ouvir durante as férias.

Para Cássia e Sandra Dee

domingo, 29 de novembro de 2009

Aprendendo a amar vol. 3 - Linha no pipa

Para meus alunos e colegas de trabalho

Os mais antigos ainda acreditam que o professor é um privilegiado - tem três meses de férias por ano! Mentira. Antigamente, em dezembro, o corpo docente das escolas aproveitava a ausência dos alunos dispensados - já se esbaldando de brincar nas ruas desde 30 de novembro - para se afundar numa pilha de diários de classe, provas, trabalhos, livros de atas, relatórios e registros, com os ventiladores quase levantando voo dentro das baias. Quando o trabalho útil e inútil acabava, cogitava-se jogar Uno e comprar sorvetes no atacado até dar o dia da abolição da escravatura, dia em que todo mundo (ou quase) se mandava para a Praia Grande. Mais fácil do que encontrar uma água-viva no Boqueirão, era encontrar por lá um aluno desavisado querendo te entregar trabalho.

Isso, entretanto, acontecia em outros tempos. Agora, os engabinetados alimentam a ilusão que pode-se sustentar as aulas até 22 de dezembro, mantendo o gado confinado até o dia do abate. E ai do professor que dispensar antes por conta, vai para a panela também. Quem diria, o Natal se aproxima e os perus somos nós, com um gume afiado apontando para as nossas fuças.

Sorte nossa que o poder ultrajovem não é nada bobo. Eles sabem que desperdiçar o cheiro quente de dezembro é um verdadeiro sacrilégio. A professorinha até sorriu escondido quando viu seus alunos assinando camisetas no pátio: melhor que isso só vai ser avistar a primeira pipa subindo no céu. Sinal de que as férias já chegaram, à revelia dos engabinetados.