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quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Saudades de Irene

Para Silvia e a raça de Irene

Ah, Irene. Saudades daqueles cabelinhos ralos.

Me lembro dela cortando galinha. Ela me ensinava a cortar, mas sempre estourava o fel e ela ficava nervosa, pois amargava a carne.

Era sempre aquela galinha de cabidela com muita graxa. Vó cabocla do sítio, neta bicho de cidade. E eu me perguntava: “De carro, vó?”

Não, de sangue. Sangrar a bichinha até a última gota era de lei, mas eu não sabia. Achava que não precisava e resolvi ajudar jogando o sangue fora. O vermelho foi tingindo a terra seca e ela deu um tapinha de reprovação na minha mão. Depois se arrependeu: não queria chatear minha mãe.

Ah, que saudades de Irene. Do seu riso frouxo, do seu coração ensolarado. De mandar as crianças irem brincar no terreiro, porque ia contar piada. Custa acreditar. Sofria demais, amava demais. Mas tirava troça da dor.

Irene não dava beijo, dava cheiro. E seu cheiro era de Alma de Flores.

Meu coração é burro, Irene. Demorou a te compreender por completo. Não pude crescer perto de suas risadas, de sua galinha cheia de graxa, mas sua presença tingiu minha vida de vermelho, como a tigela de sangue que derrubei no terreiro.


quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Balada do cachorro louco

"O  homem que hoje me amar 
encontrará outro homem lá dentro.
Pois que o mate."
Elisa Lucinda

Demorei a te matar, mas matei. Passei algum tempo sofrendo por não saber o que fazer com o corpo, mas de uma hora para outra, eis que surge a grande ideia: dei-o de comer para meus cachorros.

 

Como não pensei nisso antes? Na verdade, eu sei. Tua carne é indigesta, dura, tem o gosto amargo. Comê-la não foi nada fácil, mas valeu a pena. Meus cãezinhos, agora regalados, podem sair por aí para passear um pouco e quem sabe cruzar com uma cadela rebolante mais no cio do que eu. 

Quando descobri, foi de matar. Você não vale uma foda, camarada, e como paguei caro por isso. Mas como virou comida de cachorro, seu destino é o mesmo de toda comida. Adieu!

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

A banana é vitamina que engorda e faz crescer

Para Mayara Alexandre

É, talvez seja como todos estão dizendo. Talvez eu realmente tenha que amadurecer. Talvez isso devesse acontecer com todo mundo, talvez não aconteça com a frequência desejada com quem prega este discurso.

Banana amadurecida no jornal não tem gosto de nada
Foda é que ninguém me ensinou como fazer isso, simplesmente me arrancaram a infância. Foda é descobrir que chega um dia na vida em que você vai ter que eximir todo mundo em sua volta da responsabilidade pelo seu bem-estar, inclusive quem já fodeu ou tentou foder com a sua vida. Foda é você descobrir que não tem nem nunca teve que provar nada a ninguém, depois de ter se matado de fazer isso inutilmente por anos a fio. E mesmo depois de se sentir quite consigo mesmo e com o mundo, pode aparecer alguém que por insegurança ou vaidade queira te desestabilizar, talvez para mitigar a própria insegurança. Foda é descobrir que mais da metade da sua insegurança vem de bobagens que você escutou a vida inteira, ditas apenas para te controlar, só porque medo é estratégia de dominação.

Só gostaria de saber o que é ser madura, e talvez de saber quando isso acaba. Porque a impressão que eu tenho é que está sempre começando, e parece ser assim com todo mundo que está vivo de fato. Envelhecer não é se engessar, pelo menos poderia não ser assim. Experiência ajuda, mas não resolve: a vida prega peças o tempo todo, às vezes só para se certificar se você está mesmo alerta. De qualquer maneira, só acumula experiência quem experimenta, eu imagino. E se parar de experimentar, viver para que?

Já que as pessoas que mais me cobram agem como se fossem crianças de cinco anos, é melhor não dar muita pelota. Aos vinte e nove, sou mais parecida comigo mesma quando eu tinha cinco anos do que eu podia imaginar quando eu tinha cinco anos de fato. Só fiquei mais teimosa. Idade não é tudo isso que falam. Há quem passe pela vida sem aprender porra nenhuma. No fim de tudo, a gente acerta contas é com a nossa própria consciência, é daí que vem a maior cobrança. Somente a ela – e a mais ninguém - a gente vai ter que satisfazer. 

Ps.: Talvez seja legal provar Textículos sabor banana Andy Wahrol e Raul Seixas ouvindo Teorema: 



terça-feira, 4 de outubro de 2011

Solar

                                                            Para meus cachorros

Quem sabe também não estejamos lá
Eu e meus cachorros, 
Às seis horas da tarde, no Viaduto do Chá
À espera do ocaso, se acaso ele chegar.

Trouxe Pozzo e Lucky na coleira, mas nem precisaria.
Eles não avançariam em você nem por um afago, estão tristes como o quê.
Não latem mais, rabos retraídos, a tigela de comida intacta.
Parece até que descobriram que não enxergam em colorido.

Pôr-do-sol no centro da cidade, mas que bobagem.
Só você mesmo para ter uma ideia dessas.
Como se Sol não fosse Sol em qualquer lugar do mundo,
Como se ele só se pusesse em São Paulo.

Esperar o Sol se por é pior que esperar Godot
Ele nunca chega, é justamente o oposto:
Poente é sempre partida. E disso eu entendo
Que estou sempre esperando, que estou sempre de partida.

Você é tão engraçado! Age como um semideus.
Acende um cigarro e pronto,
Procurar sentido é coisa para mortais.
Deixa isso para bestas melancólicas que levam cães para passear como desculpa. 

Você e seus cigarros, eu e meus cachorros.
Não dá valsa nem samba,
Ninguém dança de armadura.                                     
Cada um com seus escudos, paralelos, absurdos.

E quando a noite chegar? Eu fico me perguntando quem vai levar Godot para casa.
Mas é claro que estou variando.
O Sol, Godot, você e até meus cachorros,
Todos já se foram.

Agora, tudo são cadeiras vazias e uma noite sem fim.
Entretanto, sem esperar por mim, novos dias sempre chegam.
Então, antes que eu de fato enlouqueça,
Em vez de pôr-do-sol, é melhor que amanheça. 

quarta-feira, 20 de julho de 2011

A vida é um soco no estômago

"Quantas emoções você conhece que não tem nome?
Colocar nomes nas coisas é muito fácil..."
Para Adriano Ropero
Realmente, professor. É muito fácil.

Caralho, meu! VOCÊ VEM PERGUNTAR ISSO LOGO PARA MIM? Você sabe de muita coisa, professor, mas de mim você não sabe da missa a metade. Talvez não te interesse saber, mas mesmo assim eu vou contar.

Emoção, sentimento, com nome, sem nome. Que me fez sorrir, que me gargalhar, que me fez gritar de dor, chorar de desespero, gozar até me esgarçar. Muito prazer, meu nome é Montanha Russa.  Não sirvo para Roda Gigante. Esta coisa de girar em torno de um eixo fixo caberia melhor para quem, um râmster de laboratório? Talvez, mas não pra mim.

Para encurtar um pouco este papo, a questão é: o que eu vivo cala fundo em mim. Não sem as avarias e escoriações inerentes a quem passeia na Montanha Russa sem cinto de segurança. Se não morri até agora, acho que não morro mais.

Visceral sim, mas não irracional. O cérebro também é uma víscera! Penso, logo insisto. Categorizar tudo isso, ou como diz você, dar nomes, era o meu brinquedo predileto. Acho que nem Sócrates gostava de pensar tanto. Aqui em casa, há quilos de papel, tinta e madrugadas que se transformaram em poemas, cartas, contos, diários, textículos. Metade da minha vida tenho passado escrevendo compulsivamente, doutor. Tem cura para isso? Só que houve uma mudança nestes últimos tempos.

Cansei do parquinho de diversões, Herr Professor. Porque a Montanha Russa guarda pelo menos uma semelhança com a Roda Gigante: ela também volta para o mesmo lugar, anda nos trilhos. Até tinha parado um pouco de escrever, ficar se repetindo para que? Para quem? Tenho precisado de lugares novos, apesar do meu talento infame para o lugar-comum. Também não gosto de andar nos trilhos. E você, gosta?

É relativamente recente esta habilidade para a reinvenção, me divirto com outras personas. É o que me permite estar em lugares novos, lugares estranhos. Aprendi a me camaleonar, antes que eu me acostume com o que eu vejo no espelho. Mas não vou mentir, eu me espanto muito. Nem eu sabia que era tão boa atriz. 

Outra coisa me fez cansar da Montanha Russa: ir de zero a cem em segundos durante tantos anos estava me deixando neurastênica. Se não estou agora babando verde numa sala acolchoada, é que ao que ao beirar a loucura, antes resolvi parar na terapia. Sabe quando a gente para na padaria antes de ir para casa? Assim o zero a cem se torna uma escala, pelo menos. Igual a cantar: experimentando outros tons, aprendendo a me modular. Coisas de artista.

Como pode perceber, mein lieber Lehrer, eu posso, sem medo de parecer pretensiosa, me dar o título de Honoris Causa nesta bola que sua doutíssima pessoa levantou, e me dou. Se me cansei de colocar emoções e sentimentos em caixinhas de organizar na cabeça, nessa minha cabeça dura de mula teimosa, é porque agora está no corpo tudo o que eu vivo, na verdade sempre esteve. A vida é um soco no estômago. Igual ao que você me deu no último domingo. Não sei se seus punhos cerrados doeram, porque a impressão que eu tive por aqui é que você socou um muro de concreto. Nem eu poderia supor a existência desta força.

Flávia.

PS: Esta conversa de dar nomes para emoções me lembrou duas coisas. Uma é o Marcelo, Marmelo, Martelo: essa coisa de chamar leite de suco de vaca e cadeira de sentador. A outra é o Brasa Mora: são tantas emoções, bicho! Ah vá, eu tinha que terminar assim, fazendo piada? O negócio é sério, professor. Você mexeu num vespeiro daqueles.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

It´s 4 u, Holden Caufield

Finally, I met ya, Holden Caufield. Long time no see ya, guy! We´re both so different now. And still so equal!

You´re still lost and young. I´m not young as you, not even like I was when I first met you. But I have been confused as hell lately, just as you have been for all these years. I changed my mind, I changed my body, I changed my clothing and the color of my hair, for several times. What never change is: we´re still climbing up across the walls, refusing any security devices. We´re completely mad, man!
We´re so silly, boy!

Anyway, we´re both so tired of always only trying! I know you are, just as me. We wanna get it, too. You went beyond your strength, nearly succumbed, I know. I share your tiredness, that bordering on despair. This is so fucking lovely and poetic! So fucking stupid, by the way. Just as you. Stupid.  Blind as a bat.

I´m getting old, boy. What I´ve discovered just now, and I think you have not yet: we can live without all this crap which people are always saying that is important. It´s completely possible to do it. Be deaf, Caufield, and go on for your own way. It´s not easy, not at all, actually. But it is the only way for free yourself, to be happy, whatever you want. Nós gatos já nascemos livres. Protect your skin and go ahead.
 
Love,
 
Flávia.

Ps: I thought that you had nothing else to say to me, but boy, I'm so fucking scared!  We still had too much to say to each other! You knocked me out, honey.