Já faz duas semanas, mas até que enfim alguém falou a verdade. Não que ela não seja largamente conhecida por todos, não que ela nunca tenha sido esbravejada aos quatro cantos do mundo. É que finalmente esta verdade foi dita com uma assertividade tamanha a ponto do PIG ter fingido que faz coro a ela, abrindo o microfone para que fosse dita sem cortes em rede nacional, num momento de audiência privilegiada.
Agora, eu confesso: eu não teria metade da coragem da Prof. Amanda, nem da sua eloquência. Porque nós, professores, caímos muitas vezes no erro de reclamar, reclamar, reclamar, como uma metralhadora verbal, geralmente quando não há ninguém para nos ouvir além de nós mesmos. Isto é de um onanismo completamente inútil, masoquista! Chega um momento em que ninguém mais nos dá ouvidos. Então, o que fez com que todos ouvissem o que Amanda Gurgel disse? Ela convocou todo o seu poder de síntese para não se perder com eufemismos e frases ambíguas e sem delongas, foi para as cabeças.
Engana-se quem pensa que isto é problema exclusivamente brasileiro, de nações subdesenvolvidas ou em desenvolvimento. Para elucidar esta questão, este vídeo é sensacional.
Já é uma recorrente dizer que o vídeo da professora Amanda tornou-se símbolo, não só de tudo o que ela disse no seu discurso, mas do real poder de mobilização da sociedade em rede. O protesto da Gente Diferenciada, em frente ao Shopping Pátio Higienópolis, foi um exemplo - bem-humorado, mas mesmo assim, eficiente. A recente inssurreição no Egito que derrubou Hosni Mubarak também foi forjada online.
O ativismo digital sozinho não vai muito longe, mas é uma ferramenta e tanto para o ativismo fora da rede. Estou na rede Salário digno aos professores do Brasil e dia 12 de junho, tem evento marcado no Facebook. O bom da Era Digital é que tudo quanto é coisa é capaz de se espalhar feito rastilho de pólvora, das mais altas bobagens às realmente relevantes. A oportunidade é realmente única, porque o PIG está fingindo fazer coro aos apelos dos professores - geralmente o discurso é contrário. É hora de aproveitar o microfone aberto da Prof. Amanda e mandar ver.
Texticular audiência, minha fúria contista tem os seus motivos. Esta compilação de contos inspirados em canções da Legião Urbana é tudo e mais um pouco: linda, poética, pungente, trágica, surpreendente.
Engraçada a maneira como eu soube deste livro. Eu o descobri ano passado numa livraria na calma de uma semana pela metade, consegui sentar em uma cadeira confortável e ler alguns contos. Chorei na pia, mermãozim. Pensei em duas pessoas para presentear com este livro: ou minha irmã, ou Gazelita. Acabei comprando para ele, com ele ao meu lado da livraria e ele nem percebeu! Agora ele me emprestou para eu ler o resto. E garanto que é muito difícil descobrir qual é o melhor conto, ou mais bonito.
Os autores, todos fãs da Legião, ou seja - de fato escreveram com o fundo da alma - se apropriaram das canções para depois recriá-las em forma de conto, e de maneiras bem variadas. Ora elas são personagens das histórias, ora frases da canção saem da boca das personagens, ou ainda o mote da canção se transforma completamente, se metamorfoseia em história.
Sinceramente não sei como me saio como crítica literária, afinal não sou uma leitora contumaz de livros muito densos, nem leio muitos livros por ano. Ler para mim não é maratona, é um prazer lento, até meio preguiçoso. Talvez para fazer contraponto com a leitura objetiva e analítica que preciso praticar para estudar e trabalhar. Então quando leio por diversão, faço isso com uma lenteza caymmiana. Também se o livro não me arrebata, não me prende, largo sem cerimônia, deixo para quando estou realmente a fim.
Ou seja, para meus padrões, devorei este livro até que bem rápido, mas confesso que entre um conto e outro, às vezes me via catatônica, com o livro apertado contra o peito. O resultado estético destes contos é de um lirismo tal que a gente tem mais é que levantar as mãos para o Barbudão e agradecer o fato de que um dia Legião Urbana cruzou nosso caminho. Estas canções, apesar de permanecerem atemporais - não carencendo, portanto, de atualização - voltam com a mesma força de antes, mas amadurecidas, retransformadas. Como se tivessem ajudado todos estes autores a amadurecer, e agora eles retribuíssem com novos frutos.
Então, só me resta reiterar a recomendação do organizador da coletânea, Henrique Rodrigues: leia no volume máximo!
Ps: É difícil escolher um melhor, como eu já disse, mas eu tenho um preferido, que curiosamente foi o que eu primeiro li: Será, de Daniela Santi.
Ele costumava dizer que desde que Deep Blue derrotou Kasparov, o mundo nunca mais foi o mesmo. Era a vitória do cálculo binário sobre o imponderável humano, coisa em que, aliás, ele nunca acreditou.
Ele calculava suas jogadas com no mínimo dez lances de antecedência, isto se ele não derrotasse seu opositor com menos que isso. Para ele, tudo era passível de planejamento. Ela costumava chamá-lo de Exterminador do Futuro: só podia ser feito de metal líquido por dentro. Tinha um cooler no lugar do coração.
Ela era puro caos. Jamais planejava jogadas, respondia ao lance seguinte tentando escapar das ciladas que ele, travessamente, armava para ela. Ele tentava com isso fazer com que ela fosse menos impulsiva nas jogadas, mas não adiantou de nada. Para ela, jogar xadrez era uma aventura na selva. Até tentou aprender do jeito dele, mas não conseguia. Ela se encontrava na bagunça.
Esta combinação poderia ser desastrosa, mas o fato é que não era. Na maioria das vezes, ele ganhava, mas ela costumava dar bastante trabalho para ele conseguir a vitória. Era a única que o deixava louco com sua imprevisibilidade e tenacidade, ela não era de empatar ou abandonar. As partidas eram longas e desafiadoras, assim como as transas.
Dividiam-se entre a cama e o tabuleiro. E o tabuleiro era o avesso da cama: ela fazia questão de deixar seu rei nu, de despi-lo principalmente deste raciocínio lógico-matemático que de tão assertivo, chegava a ser irritante. Ele, por sua vez, fazia questão de se vingar: toda a imprevisibilidade a qual ela o submetia no xadrez, ele a fazia passar na cama. Penetrava nela nos lugares mais insólitos, em todos os buracos do corpo e com todos os seus falos. Fazia questão de comê-la com todos os talheres.
Ele, no final das contas, ganhava na cama e no tabuleiro. No xadrez, sua técnica era vencedora, ela só era uma adversária estranhamente difícil. Na cama, a abatia com a mesma competência: sua técnica sexual era tão eficiente quanto a sua técnica enxadrística. Fazê-la gozar era para ele um xeque-mate.
De tudo que ele ponderava, ela simplesmente ria. No tabuleiro, ela era caça fugidia, a vítima do astuto predador que manipulava até as fugas de sua presa. Na cama, ele perdia a cabeça e de quebra, a servia como se serve a uma rainha. E ela ainda o fazia pensar que a ideia partia dele. Bobinho.
... Por essas e outras é que ela achava essa história de computadores derrotando o humano uma tremenda bobagem. Código binário para ela, só se fosse Yin e Yang, Apolo e Dioniso. E como funcionavam bem juntos.
Bem que eu devia desconfiar daquele cara. Não obstante seu visu grunge que para mim ficou perdido lá nos 90 e alguma coisa, ele implicou com os bichinhos que aparecem no meu relógio digital. Disse que aquilo não parecia um canguru. É muita neurose. Comprei o relógio para ver hora, porra, não para ver canguru. Foda-se se não se parece com um.
Lembrei-me disso numa hora bem à toa dentro do metrô, tentando trocar o canguru-que-não-se-parece-com-um-canguru pela data de hoje. Passamos mais horas dentro do metrô do que dentro do motel. E quanto mais cara de bunda você fazia por dar de cara com mais um motel lotado, mais eu ria. Nestes momentos, babe, tanto estoicismo não serve para nada: ou se tem um plano bê, pensando rápido, ou não se tem. E você não tinha. A vitória do senso prático sobre a abstração racionalista. Rá!
Saí correndo do metrô e antes de chegar ao meu destino, dei uma passada no Rei do Mate. Bem à minha frente, um copo do Romero Britto de brinde. Não aguento mais Romero Britto na minha frente. Arte Pop vendável piorada do caralho. Aí me deu vontade de rir mais ainda do que eu tinha rido da cara da recepcionista do motel barato: você detesta Romero Britto. Carne-de-vaca, você diria.
Sabe que, se eu estivesse com tempo, até levaria um daqueles copos para você de presente? Só para ver sua boca entortando a esbravejar contra a banalização da Arte, assim, com um solene “A” maiúsculo. Só para você se recordar que é mais ordinário que aquele copo. Só para você saber que eu sou mais carne-de-vaca que todas as telas do Romero Britto juntas, e no entanto, você comeu.
Logo, não adianta fazer cara de quem comeu e não gostou, porque você comeu, simplesmente comeu. Sem hibridismo, confluência ou contemporaneidade, pensando com o pau como qualquer um, tão carne-de-vaca quanto eu.
Está ficando chato essa história de trazer para os TM impressões minhas sobre o mundo exterior. É tudo tão igual, tão previsível que fico condenada à repetição de mim mesma. O Massacre do Realengo, como atração para o Império Romano, virou histeria coletiva sem um mínimo de reflexão.
Colocar este assunto como pauta do dia com a molecada foi minha reação quase imediata, tentando dizer justamente isso: passado o susto, é preciso dissecar o que aconteceu, quem sabe possamos evitar. Só espero que eu não tenha caído para o discurso moralizante ou demagógico, e eu bem me conheço, é bem capaz que isso tenha acontecido. Tenho uma queda para o clichê piegas.(Acho até que funcionou, sem a pretensão de acabar com todos os casos de bullying da escola. Este assunto causou discussões inflamadas em algumas turmas, o que considerei bom sinal.)
Se há neste largo mundo mais leitores de textículos que sejam professores preocupados com esta questão do bullying - que definitivamente está sendo tratada como "carne de vaca" pelo PIG brasileiro - tenho duas singelas sugestões para alimentar uma discussão fundamentada sobre o assunto em sala de aula.
Uma é o documentário Tiros em Columbine, do Michael Moore, rodado em 2002. Não é exatamente uma novidade, pois este filme teve bastante projeção à época, ganhando até um Oscar. Assistir de novo, anos depois, só confirma que o estilão contestador e sarcástico do Moore presta grande serviço àquela nação de gente com cérebro de ameba autointitulada América. Só Borat escrachou melhor.
A outra é o livro Bullying: Mentes perigosas nas escolas (Fontanar), da psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva. Eu já tinha encomendado o livro e chegou bem na semana passada. Serve para todos: estudantes, pais, professores, gestores, porque ela esclarece bem todos os ângulos da questão e ajuda a entender. Devia ser bibliografia obrigatória para todo mundo que está envolvido na educação de crianças e adolescentes em geral. Aqui está sua entrevista no Roda Viva de alguns meses atrás, ainda no formato antigo do programa.
Bullying é um assunto que sempre me incomodou bastante, então é bem provável que eu volte a falar nisso, mas não agora. Já temos farto material inútil na grande mídia para saciar um público sedento por sangue - ou nem tanto, mas mesmo assim o sangue é oferecido. Essa notícia mostra bem onde foi parar a "liberdade de imprensa" tão sonhada por quem viveu tempos de repressão.
Ô séculozinho XXI de merda esse que estamos vivendo.
Ah! E no dia 20 de abril, data em que comecei a jorrar este textículo, completaram-se 12 anos do Massacre em Columbine e ainda morrem pessoas inocentes pelos mesmos motivos. Não tem graça nenhuma, Dooley.
Não sei se há algo novo a dizer sobre o que aconteceu hoje na escola do bairro do Realengo, no Rio de Janeiro. Toda a sorte de bobagens e coisas sensatas já foram ditas a respeito.
Primeiro pensamento que me veio a mente quando soube: é um Columbine à brasileira. Pavorosamente, uma carnificina deste porte não é mais novidade para nós.
Então, eu dei um tempo, fiz o que eu tinha de fazer e só agora, à noite, fui me informar o melhor que eu podia sobre o acontecido, tentando evitar distorções e informações desencontradas. Para se ter uma ideia de como o PIG viaja na maionese em busca da tal da "notícia em tempo real", a primeira notícia que eu li, já retirada do ar, dizia que o assassino em questão era um fundamentalista islâmico. (Que absurdo, meu Deus. Só faltam agora responsabilizar o mundo árabe pelos terremotos do Japão...)
Não sou dada à manifestações emotivas ou afetadas frente à tragédias coletivas, mas dessa vez eu chorei. E queria ter ainda mais lágrimas para chorar a morte dessas crianças e a miséria da alma deste louco que fez isso. O que me deixa mais triste é que eu tive que provocar esse choro, como alguém que coloca o dedo na garganta para vomitar. "Isto não pode se tornar algo normal, a gente não pode se acostumar", eu pensava.
E fica o alerta: este cara foi vítima de bullying na escola. Não sou profeta, nem gênio, nem guru, mas o que eu disse no último textículo? Uma hora essas vítimas podem reagir, de uma hora para outra, anos depois, décadas depois. Boomerang blues, baby.
Este massacre pode ser chamado de carnificina, cenário de guerra, do que quiserem, menos de tragédia. Tragédia é teoria do caos, imponderável e imprevisível. Agora este banho de sangue foi forjado durante anos a fio, sem ninguém perceber. A única coisa imprevisível é quando isto aconteceria. Foi hoje.
Agnus Dei, qui tolis pecata mundi, miserere nobis,
Agnus Dei, qui tolis pecata mundi, miserere nobis,
Agnus Dei, qui tolis pecata mundi, dona nobis pacem.
Rita Lee e Zélia Duncan já disseram: só quem já morreu na fogueira sabe o que é ser carvão*. Hoje fala-se tanto em bullying que até parece novidade. A novidade é a superexposição da vida da molecada através das redes sociais, vídeos no celular e coisas do gênero. O que acabou gerando o cyberbullying, uma versão ainda mais assustadora deste fenômeno, porque aterroriza e tortura até quando se está fora da escola.
Provavelmente, a agressão foi gravada para depois exaltar o ego do agressor na rede, mas bem que dizem por aí que só os idiotas são cem por cento autoconfiantes. Este estava tão seguro de si a tal ponto que esqueceu: o trouxa de que ele pretendia tripudiar tinha pelo menos o triplo do seu tamanho, e como não contava que ia levar um hadouken de foder, o tiro saiu pela culatra.
Este assunto caiu nas minhas mãos ontem, através do meu amigo e novo provador de textículos, Porpeta, que postou em seu perfil o link do texto de uma amiga sobre o caso, muito bem escrito e corajoso, porque fugiu da hipocrisia e falou com todas as letras: quem mexe com quem está quieto merece sim levar uma na cara para aprender. Não é revanchismo, é o direito que todos têm de se defender quando sua dignidade é ameaçada.
Sei bem o que é isso, fui vítima de bullying na escola. E digo que é horrível, e olha que não sou de ficar quieta. O motivo: até o ensino fundamental, eu fatalmente era a primeira aluna da sala e visivelmente a protegidinha da mamãe. Estava estampado na minha cara. Alvo fácil para bullies, que eram não só moleques, como pode-se cair na tentação de pensar. Meninas também perseguem com tortura psicológica, agressão física, colocando apelidos, roubando suas coisas. Maldade não tem idade nem sexo definido: não adianta dizer que isso é coisa de moleque ou que é briga de criança que logo passa.
A minha sorte é que eu nunca fui de sofrer calada, então eu sempre pus a boca no trombone, o que criou uma par de situações hilárias na minha época de escola. Porque sim, a Betona ia com toda fúria de leoa defender sua cria na escola, como uma Dona Florinda vai defender seu Quico. A única diferença é que ela não batia em ninguém, ia reclamar direto na Direção da escola, num voo praticamente sem escala.
Eu, que não sou nenhum Ghandi, também cerrava meus punhos de vez em quando para acertar meus algozes. E como não tenho juízo até hoje, eu levava uma com qualquer um que mexesse comigo, até aqueles ditos mais perigosos. Afinal, eu também sou mano da Brasilândia, pô!
Uma hora isso acabou passando, hoje acho foi que por conta do meu temperamento explosivo. Como não aguento sofrer calada, faço logo um estardalhaço. Mas na maioria das vezes a vítima de bullying é retraída e não consegue reagir. E quando reage, sai de perto, porque vem muita merda pela frente.
Casey Heines só revidou o ataque e deu a sorte de ser gravado. Só que esse tipo de reviravolta pode ser muito, mas muito pior. Alguém se lembra do Massacre em Columbine? Não é totalmente aceito o fato, mas considera-se que eles eram excluídos da ala dos descolados, atletas e populares da escola. O que eles fizeram foi coisa de psicopata, é claro, mas nunca se conhece totalmente os demônios que há dentro de cada ser humano. Aqui no Brasil, aconteceu coisa parecida, alguns anos atrás, acho que numa cidade do interior de São Paulo. Antes de se matar, o garoto fez questão de levar a arma pra escola e atirar para tudo quanto é lado.
De tudo isso, o que mais me assusta é a completa ignorância das famílias sobre o fato. Há pais e mães que simplesmente não conhecem o filho que tem ou que não conseguem perceber quando o filho está sofrendo agressões na escola, principalmente a psicológica, mais sutil e perigosa. Mesmo meus pais, que sempre foram super presentes, não entendiam totalmente o quão horrível é ser torturado o tempo todo, principalmente na adolescência, onde a autoestima é algo tão frágil. No caso do Zangief Kid, nem o pai da vítima nem do agressor sabiam do que acontecia com seus filhos.
E a escola? Agora sou professora, este assunto está na pauta do dia hoje, não é coisa do passado para mim. O que tenho a dizer sobre o outro lado dessa história é que é muito difícil identificar bullying em sala de aula, porque:
1 - O comportamento bully é covarde. Vai aprontar quando não tiver chances de ser pego;
2 - Aquilo que alguns pais e mães não dão conta quando estão com duas em três crianças em casa, deve ser multiplicado por pelo menos 35 no caso do professor em sala de aula. Se a gente parar para resolver todas as situações de conflito em sala de aula, abandonando todo o resto, dependendo de quão danada é a turma, em meio segundo vai ter gente até no teto. E nós somos responsáveis por TODOS que estão dentro da sala quando estamos em aula. Se alguém se machuca, a gente é que responde pelo fato.
Para a escola, não adianta combater situações isoladas com punições igualmente isoladas. O bullying é um fenômeno que acontece de maneira sistemática e deve ser combatido da mesma maneira pela escola e pela academia. É um absurdo, não se estuda este assunto nas licenciaturas e só agora estudos acadêmicos e livros sobre o assunto estão ganhando alguma notoriedade. Então a escola dos dois garotos que puniu a briga com uma suspensão para os alunos e depois lavou as mãos, está errada. Pode-se até punir para deixar claro que a violência não será tolerada, mas onde toda esta tolerância zero estava quando Casey Heines era constantemente agredido? Como eu disse, é difícil descobrir, mas a partir do momento que se descobre, a escola como instituição deve se posicionar contra isso. O bullying é um câncer da sociedade, que se reflete na escola. Logo, a gente tem que fazer alguma coisa, sim. E rápido.
Defende-se que o agressor não pode ser jogado na fogueira como herege pura e simplesmente e que também precisa de atenção, talvez até de tratamento. É mesmo doentio ter que rebaixar o outro para se sentir melhor, isto deve ser cuidado, mas jamais tratando os agressores como coitadinhos. E o bestiário pedagogês adora o jogo do coitadinho. A mídia norte-americana também entrevistou Richard Gale, o menino que tentou agredir Heines e ele diz: "minha mãe diz para eu ter sucesso na vida", chora uma lagriminha de crocodilo, mas depois deixa escapar que não lamenta ter agredido Casey e ainda mente muito mal dizendo que ele tinha sido agredido antes.
O caso Zangief Kid é emblemático, trouxe à tona um assunto importante que deve ser tratado por toda a sociedade. Mas é lógico que o PIG estadunidense reduziu este acontecido a um mero heroes and vilains muito do chinfrim. Casey Heines virou heroi sem ter feito nada heroico, ele só revidou a agressão e isto é instintivo. Colocá-lo nesta posição de maneira tão simplista só incita mais o ódio e apologiza a violência, o que não resolve o assunto. E será que o garoto que antes era tratado como o mosquito-do-cocô-do-cavalo-do-bandido está preparado para tanta exposição na mídia e do dia para noite passar a ter duzentos mil amigos no Facebook? Ele só queria que o deixassem em paz. (Sem contar que agora é o Gale que está sendo perseguido. Reviravolta a là Tom&Jerry esta, hein?)
Mais que um heroi, Casey tornou-se um símbolo de uma situação que só agora está sendo vista pela sociedade em geral com um pouco mais de consciência. Deve-se aproveitar a situação para conversar sobre o bullying não somente dentro das escolas, mas em casa também. Então, pais e mães: por favor, conheçam de fato seus filhos e o que acontece com eles dentro e fora da escola, principalmente quando estão online. Isto não é controle, é cuidado. Vítimas de bullying: não sofram calados e não esperem para tomar uma atitude quando se está no limite da razão, como Casey Heines fez. Educadores: não podemos mais ignorar o assunto. Bullying sempre existiu e sempre foi grave, mas na era digital 2.0 conseguiu ficar pior. E para acabar, Bullies: tomem cuidado com quem vocês batem. Vocês podem apanhar feio.
Epílogo:
Com todo o politicamente correto que nos massacra neste mundo, atire a primeira pedra quem não viu o moleque magricela e dentuço beijando o chão e não pensou: "Se fo-deu!"
(Ok, os mais educados podem ter pensado somente um Bem feito. Mas equivale em sentido.)