sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Estranhos Frutos - Parte I

Hoje é dia da Consciência Negra. Eu sou branca, e tenho pais e avós brancos também, mas como são todos brasileiros, eu diria que isso não significa absolutamente nada. Minha bisavó, mãe do meu avô paterno era negra, e ele saiu galego, como se diz lá nas Paraíba, puxando meu bisavô. Minha mãe, a cara do meu avô, é branca, de olhos verdes. De parte de pai, minha bisavó, mãe da minha avó, era mistura de cafuzo (mestiça de índio com negro) com um alemão. Logo, como boa brasileira, sou vira-lata, não tenho raça. Graças a Deus.

A gente se ilude com esta miscigenação toda, há quem pense que o preconceito racial está progressivamente ficando para trás no nosso país, por conta de algumas ações afirmativas e pela ascenção do negro na mídia, a valorização da beleza negra e a celebração do politicamente correto. (Corre pelo mundo uma piadinha de mau-gosto que com isso, até as lendas brasileiras mudaram. Saci-Pererê teria se tornado "Afro-descendente com necessidades especiais". Ficou mais polido, óbvio, mas não deixo de pensar que assim ele perdeu seu charme sapeca.)

Taís Araújo como protagonista de novela das nove da Globo, por exemplo, dividiu opiniões. Nem sei porque, ela já foi protagonista em Da Cor do Pecado. Mas quando ela apareceu em novela do Manuel Carlos, fiquei em dúvida. Justamente um autor que, novela após novela, recria sua versão de mundinho perfeito, onde todas as protagonistas são Helenas, todas as cidades são Rio de Janeiro - porém, todos os bairros são Leblon, todos os doutores são Moretti e todas as canções são bossa nova. Parecia positivo que neste contexto pequeno-burguês aparecesse uma mulher negra, belíssima e bem-sucedida no mundo da moda e não em um papel de empregada que dá pitaco na vida da patroa à torto e à direita, dando a falsa impressão de que Casa Grande e Senzala se dão muito bem por aqui. Não poderia acreditar nessa ideia de cara porque a Rede Globo dá com uma das mãos e retira com a outra. Bingo. Tive a confirmação nessa semana. Bem que Bia Abramo já tinha avisado: o teledramaturgo gosta de fazer mulher apanhar em suas novelas e se elas mesmas se estapearem, melhor ainda.




O discurso de Tereza é odioso: primeiro ela joga nas costas de Helena uma responsabilidade que seria dela, de aguentar e entender pacientemente os pitis da garota mimada, resultado da educação que ela e então marido deixaram de dar para a filha, pelo menos enquanto durasse a viagem que as duas fariam. Depois, lá pelas tantas, ela diz para Helena: "Você não teve tudo o que quis? Não chegou ao topo do mundo da moda, mesmo sendo negra? Não se casou com um homem rico? Para você não é o suficiente?" Lembrando que a desgraceira teria acontecido por causa de um aborto que Helena teria feito no início de sua carreira.

Fica claro nesse discurso como funciona o preconceito racial em terras tupiniquins: multifacetado, mutante, líquido. Primeiro que a maioria das pessoas ignora a tal da miscigenação, só enxerga o tom de pele, o externo. Tanto que a discriminação aumenta com a quantidade de melanina que se carrega na tez, como bem observou Zulu Araújo, em entrevista ao Roda Viva (TV Cultura) da última segunda-feira, no mesmo dia da cena de dramalhão global.



Ele também observou que a sociedade brasileira não é totalmente racista, mas que a elite econômica e midiática ainda o é. Logo, não há meios de sair coisa boa da Globo colocando protagonistas negras em suas novelas, porque isso de maneira nenhuma acaba com o preconceito racial no Brasil: só faz perpetuá-lo, e o que é pior, engendrando uma falsa aura de politicamente correto, para deixar todo mundo bem contente, babando em frente a TV de plasma nova, comprada na liquidação. Estranhos frutos da colonização.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Pano pra manga

A garota Geisy fez o milagre da multiplicação dos tecidos. Seu suposto microvestido deu pano pra manga, nacional e internacionalmente.

Escrevi no domingo, segunda de manhã, a UNIBAN anuncia a expulsão da aluna, com um discurso pra lá de TALEBAN. Depois, MEC aperta, UNE e entidades feministas também, a instituição volta atrás e revoga a expulsão. A única coisa que não mudou é que nenhuma punição foi sequer cogitada a quem participou da arruaça. Claro, vai desagradar o público pagante? Uma coisa é um aluno, uma mensalidade. Outra coisa são quinhentos alunos, quinhentas mensalidades. E ainda acham que vão convencer alguém falando de moral. Moral de uc é rloa, mermão. Agora o discurso é que promoverão "medidas educativas" com os envolvidos no incidente.

A farofa continua, os alunos vaiaram o protesto da UNE e a Unitaleban (ou Uniburca, como vi em algum lugar) ficou com medo da repercussão negativa em torno da instituição, recuando na sua decisão e o MEC também arquivou o caso. Agora o papo de hoje é especulação em torno da especulação que revistas masculinas poderiam talvez estar fazendo agora para quem sabe ter a aluna na capa de uma dessas publicações. Essa conversinha mole convenceu alguém? Tempo!

Como já disse, ela não tem condições de se tornar ícone feminista, por mais que as entidades militantes tentem fazer isso dela. O máximo que ela consegue mesmo é ser celebridade instantânea. Mas fica a discussão de como os estudantes de ensino superior têm sido cada vez mais sectários, com um discursinho vazio e conservador, típico de quem estuda não para adquirir mais conhecimento ou para ampliar a perspectiva com que veem o mundo e sim, para única exclusivamente "obter uma qualificação profissional para conquistar uma posição de destaque no concorrido mercado de trabalho". Não é esse o tom publicitário de qualquer Unicoisa que a gente vê por aí?

O resultado está aí: diplomas e cérebros de minhoca fabricados em série, a toque de caixa. E quem acha que isso é coisa de instituições particulares que pipocaram a partir da segunda metade da década de 90, está enganado. Alunos de instituições públicas* e tradicionais também estão com sério atrofiamento mental. Vizinhíssimo, mestrando em História, sempre fala do desencanto com que vê na bicharada que entra na USP ultimamente, por exemplo. Trabalhei com alunos da PUC como estagiária numa exposição e alguns deles eram tão tontinhos e vazios que até desencanei do complexo de vira-lata que eu tinha de não estudar em uma grande instituição tradicional.

Não estou falando só na teoria. Estudei numa instituição pequena, com público C e D, conservadora até as tampas. Vi muitos colegas que só estavam a fim de conseguir o diploma ao final de três anos e de preferência, na Lei do Mínimo Esforço. As instituições estimulam esse pensamento. Esqueçam da visão iluminista da universidade como templo de conhecimento, isso é coisa do passado, na visão pragmática e mercantilista com que a Educação é tratada nos nossos tempos. Penso, logo desisto.

*Exceção: Nem tudo está perdido. No meio das notícias sobre o caso da Uniburca, surge que uma que destoa do tom fútil com que o caso é tratado pela farofa midiática. Alunos da UnB promoveram um protesto hoje em frente a reitoria da universidade em apoio a aluna da Uniban e denunciando casos semelhantes de violência contra a mulher e outras minorias acontecidos na instituição de Brasília. Alguém precisa reagir. Meus bichos feministas voltaram, oba!

domingo, 1 de novembro de 2009

Sobre minissaias e universitários

Essa fornalha anda tão parada, onde se meteu a dona dos textículos? Na roda-viva, evidentemente. É incrível, pode se passar duzentos anos, meus questionamentos são os mesmos, não por falta de criatividade, mas porque os motivos permanecem. Como diz papi: "mudam as moscas, mas a merda é a mesma!" Para variar, um monte de ideias ficaram pra trás, mas nem acho isso tão ruim. Estou vivendo, e num ritmo tão frenético que capturar certos momentos é quase impossível. Foda é que não consigo viver sem isso: sem escrever, sem criar, sem Textículos. Socooooooooorro!

O que me salva é que quando acho que já me tornei definitivamente uma professorinha adequada ao status quo, esperando pacientemente o dia em que o magistério vai me deixar totalmente louca para conseguir uma licença pinel no sexto andar do Servidor, acontece uma que solta meus bichos subversivos na rua. O que me soltou os bichos dessa vez o foi o prosaico caso da minissaia na Uniban.


De início, me revoltei com a reação esdrúxula dessas pessoas. Gente de vinte e poucos anos chocada com minissaia? Como assim, Cabral? Depois, assisti à entrevista da garota na Record domingo passado. Primeiro, ela diz que sua vida se travestiu num inferno depois do ocorrido, mas não consegue disfarçar que está saboreando seus 15 segundinhos de fama com mucho gusto (os 15 minutos de Andy Wahrol, hoje em dia parecem uma eternidade), fazendo questão de conceder as entrevistas (sim, no plural) com o famigerado vestido que causou furor na multidão de estudantes sem cérebro do campus da UNIBAN de Diadema. Ela poderia se tornar uma heroína contra a neo-caretice do século XXI, como uma Rosa Parks do terceiro milênio, que com uma atitude simples de se recusar a se levantar de um lugar no ônibus reservado para brancos em Montgomery, no Alabama, provocou um boicote de 381 dias ao transporte coletivo capitaneado por Marthin Luther King em 1955. Mas aí é que tá, minha gente. A garota não tem cacife para isso. É burra feito uma porta. Soltou pérolas na entrevista como "Desde que eu me entendo POR EU uso roupas desse tipo" e "O tumulto era tão grande que eu não consegui nem SAIR PRA FORA". Dois pleonasmos viciosos em menos de 15 segundos. Pobre de mim, em frente a TV sonhando com uma revolução neo-feminista... Com esse nível de cultura, a tal estudante de turismo no máximo consegue uma vaga em um reality show ou um convite para posar nua e dar bastante trabalho para os arte-finalistas da revista se matando de disfarçar celulites no Photoshop.

A grata surpresa do caso minissaia da Uniban foi encontrar o blog Educação Política, do professor de Ciências Sociais da PUC de Campinas Glauco Cortez, um verdadeiro antídoto para essa burrice institucionalizada. Sobre este acontecido, ele disse: "O caso da estudante da Uniban, que foi covardemente insultada porque vestia uma minissaia, mostra um pouco a cara de São Paulo e também que há um aprendizado educacional no Brasil que está muito distante das humanidades e das capacidades reflexivas. É o exercício da irracionalidade."

Agora, me fala: que eu vou fazer nesse mundo, com uma elite universotária, que se enfurece com uma estudante indo para a faculdade de minissaia e que fala sair pra dentro e entrar pra fora? Este país não é mesmo sério. Aqui tudo vira farofa, não só o metal do Massacration. Por essas e outras continuo congregando pessoas para me acompanharem na minha mudança DE mundo. Quem quiser que follow me.


Notas:
*Sobre Rosa Parks e Martin Luther: Bethinha, obrigada pela troca de ideias e tanto entusiasmo!
*Sobre Massacration: essa farofa pelo menos é inteligente e engraçada. Nada como não se levar a sério, como estes GoodBlood Headbangers.
*Créditos da imagem: http://temasparamulheres.blogspot.com/2008/09/minissaia-e-maxipolmica.html

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Piadinhas...

1 - Sobre a bem-sucedida domesticação das futuras gerações:

O menino, junto com a mãe, para em frente a uma barraca de DVD´s e pergunta: "Você também tem original?" O camelô responde: "Não, só genérico!"

... Depois encontrei o mesmo menino no shopping checando seu Orkut numa Lan House.

2 - Sobre persuasivos vendedores metidos a espirituosos:

O vendedor de livros para em frente à moça, no meio da Paulista. Ela achou que ele ia pedir fogo, mas não. Faz a estupÍenda pergunta: "Você sabe qual a diferença entre corpo e alma?" "Não", responde a moça já tomando o caminho da roça. "A resposta está neste livro..." Ela hesita e para outra vez: "É de graça?". "Não, é de papel." "Ah! Então não quero!"

...E a moça vai embora, dando uma bela tragada no seu cigarro fedorento.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Rain Down - Eu tavu lá!

Está na Rolling Stone brasileira de abril, na seção de resenhas: o show do Radiohead em São Paulo deste ano foi alçado a categoria de clássico. Essa edição, com a cara do Kurt Cobain, por mim alçada a categoria de clássico também, já virou relíquia. Resolvi guardar, afinal, como sabem, eu nunca acreditei muito que estive no Just a Fest, e isso não é uma frase de efeito. É como se eu tivesse sido teleportada, abduzida, algo assim. É sério, gente!

Não acreditei até domingo retrasado, quando ganhei da única futura autoridade* em Radiohead do Brasil (quiçá do mundo) um DVD com o sugestivo nome de Rain Down, feito por um outro cabeça-de-rádio, provavelmente tão louco pela banda quanto o Vizinho Intergaláctico.

A ideia só poderia ter vindo de um fã de Radiohead. O cara coletou vídeos de câmeras fotográficas e celulares feitos pelo público no show, editou e colocou o áudio original da mesa de som, que acabou vazando na Internet e dias depois, ele disponibilizou o vídeo do Just a Fest reconstituído fielmente para quem quiser copiar na rede, desde que ele não seja comercializado e que sejam citados os créditos do seu minucioso trabalho, feito num PC que, pelo jeito, era tão ou mais tosco que este que eu uso para me comunicar com a Seleta Audiência agora-now-neste-instante.

O resultado é uma loucura, porque a atmosfera do show está toda lá, a energia. Um trabalho profissional pode ter um resultado asséptico, sem gosto. A desvantagem de um video "caseiro" talvez fosse uma coisa meio frankestein, sem pé nem cabeça, mas não foi isso que eu vi. Ele soube tirar o melhor de cada video que ele coletou e a reconstituição do show é supercoerente.

Entendi o que realmente é um deja-vù. Quando coloquei o DVD no meu aparelho, a vinheta já me deu arrepios. Afinal, é muito difícil reviver uma situação integralmente, só com um vídeo ou uma foto. Forrest já tinha me alertado que alguns momentos do video seriam incríveis e não aguentei. Pulei para Karma Police, que foi um dos pontos altos do show, e meu também. Foi quando eu desencanei: "Meu, você está aqui! O que mais você quer?" Uma verdadeira epifania. Para mim, o show começou ali. Quando vi o video, só não chorei pra valer porque eu sou durona, mas bem que eu senti os olhos marejarem. Choreeeeeeeeeeeeeeeeeeei em Karma Police!

E foi seguindo assim, pelo vídeo inteiro. Música por música. Espertamente, ele manteve o áudio original em momentos-chave do show. Fiz bem em ter me conformado de ter visto um Thom Yorke do tamanho de um Playmobil. Eu ouvi, senti, participei e quanto a ver, deixei para alguns meses mais tarde, quase sem querer. Foi uma pena não ter podido ver lá, mas graças ao Andrews Ferreira Guedis e meu Vizinhíssimo, eu vi o show refestelada no sofá com minha colcha de chenile pré-histórica preferida. Tudo bem que no show de verdade não tinha mãe falando de geladeira em promoção, mas também não dá para se ter tudo nessa vida ao mesmo tempo, não?

Agora eu acredito de verdade que eu estive no Just a Fest em março deste ano. Copiando descaradamente o Oráculo de ZÉlfos, eu encho os pulmões e exclamo num ruído luminoso, alto e claro para quem quer que seja: Eu tavu lá!


Ps.: As imagens não carecem de créditos. Meu celular também estava em ação aquele dia. :-P

domingo, 20 de setembro de 2009

Che 2 - A Guerillha

No último domingo, assisti à Che 2 - A Guerrilha e gostei, mais do que o primeiro. Gosto da estética naturalista do filme, com uma ação lenta, focada na marcha da guerrilha e não nos combates, quase sem triha sonora, com iluminação natural. Benicio del Toro é um Che Guevara sem afetação nenhuma, acertou na mosca em interpretar o líder revolucionário de uma maneira humana, sem pesar para o lado do heroísmo, mesmo assim, mostrando o grande caráter do guerrilheiro.

Essas características estão nas duas partes do filme, é óbvio, mas no primeiro filme chega uma hora em que a ação se arrasta e na segunda parte isso não aconteceu, apesar do ritmo da ação ser exatamente o mesmo.

É triste você ver na sua frente uma história que você conhece bem, sabendo que o final foi desastroso. Não é nada catártico ver o fim de Ernesto Che Guevara na sua frente. Primeiro porque é História - com H maiúsculo, não tem aquela de respirar aliviado no fim porque era mentirinha, como na tregédia clássica grega. Segundo porque sabemos qual é a implicação de não termos tido uma revolução popular na América Latina. Tivemos uma série de ditaduras militares ao longo do século XX que criaram feridas que ainda não fecharam, e duvido que vão fechar, porque sempre aparece uma contrarrevolução para estancar este processo. Honduras que o diga, e isso é sim, problema nosso. O mais estapafúrdio é a justificativa para esse golpe: preservar a democracia (?!). E como um Maquiavel ao contrário, digo que pouco importam as supostas causas nobres para os fatos, e sim os métodos totalitários adotados pelo regime golpista, como por exemplo, sitiar a embaixada brasileira em Tegucigualpa, onde o presidente deposto Zelaya se encontra.

Revoltante que no caso da presença de Che na Bolívia, o próprio partido comunista de lá se opôs, não queriam estrangeiros no seu ninho e abertamente boicotaram a ação. Não sei se foi ingênuo ou corajoso da parte de Che crer que todos eram tão internacionalistas quanto ele, porém quando ele poderia sentar o traseiro em um gabiente como o segundo homem mais importante da Revolução Cubana, ele começou tudo de novo. O que prova, para mim pelo menos, que ele não estava interessado em poder e sim na transformação deste mundo de fato.
Mesmo sabendo de tudo isso, não conseguia de repetir um bocado de vezes para mim mesma, até cochichando, sozinha no cinema, que eu preferia uma revolução latino-americana triunfante, do que a figura do herói morto, tatuada na minha mente.
Depois de tudo isso, foi no mínimo indigesto sair da sala escura e dar de cara com um shopping. Não consegui tomar nem um milkshake.

Pedra que rola não cria limo - A Revanche

Dessa vez não fiquei só na catarse, a jornada da heroína cômica Georgia não me foi suficiente. Ontem, saí à caça do meu kefi, do qual sempre tive a absoluta certeza da existência, só que ele andava meio perdidinho. Encontrei num lugar que eu nunca fui, ora que coisa.

Boa música e pessoas dispostas a se conhecer. Nunca tinha conversado com tanta gente assim, sem interesses prévios, sem a obrigatoriedade de "pontuar" na balada. Isso não é efeito do álcool: lugar chato com gente chata, não há absinto que salve. E cheguei em casa com a certeza: esta sou eu. Chega daquela Flávia insegura e perdida.

De primeira não gostei do lugar, achei que estava arrumada demais para o rolê em questão. Relaxei quando pensei: o lugar chama-se Sarajevo, teria algo de errado se fosse arrumado demais. E outra, eu é que estava pagando de pequeno-burguesa, sendo que não passo de uma proletária (com algum verniz, mas ainda assim proletária). Depois fui vendo que o fato do lugar ser um ovo, faz com que as pessoas fiquem mais próximas e dá pra conversar, o som não é insuportavelmente alto.

Começa o show da Soul Train. Puta merda, Dom Paulinho Lima toca bateria e faz scat singing ao mesmo tempo! Musicalmente gozante. Mais uma vez o fato do lugar ser pequeno favoreceu. Estava praticamente no palco, de tão apertada que era a pista. O clima quente e fumegante fica perfeito com a música, totalmente funky, sexy. E eu lá, requebrando feito uma negona do Bronx. Saí de lá com a impressão de ter nascido com a cor errada. Já virando abóbora, de maquiagem borrada, ainda tive pique de puxar conversa com os caras da banda na porta da balada. E conheci outro batera por lá, conversamos, raçãowhiskasblablablá... deixa essa para outro textículo.



Voltarei lá, com certeza. Mas fiz questão de não esquecer de pegar meu kefi de volta e guardar na bolsa antes de ir pra casa, com a doce certeza que jamais vou perdê-lo novamente. Desci pro play e vou brincar. Sempre.