quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Saudades de Irene

Para Silvia e a raça de Irene

Ah, Irene. Saudades daqueles cabelinhos ralos.

Me lembro dela cortando galinha. Ela me ensinava a cortar, mas sempre estourava o fel e ela ficava nervosa, pois amargava a carne.

Era sempre aquela galinha de cabidela com muita graxa. Vó cabocla do sítio, neta bicho de cidade. E eu me perguntava: “De carro, vó?”

Não, de sangue. Sangrar a bichinha até a última gota era de lei, mas eu não sabia. Achava que não precisava e resolvi ajudar jogando o sangue fora. O vermelho foi tingindo a terra seca e ela deu um tapinha de reprovação na minha mão. Depois se arrependeu: não queria chatear minha mãe.

Ah, que saudades de Irene. Do seu riso frouxo, do seu coração ensolarado. De mandar as crianças irem brincar no terreiro, porque ia contar piada. Custa acreditar. Sofria demais, amava demais. Mas tirava troça da dor.

Irene não dava beijo, dava cheiro. E seu cheiro era de Alma de Flores.

Meu coração é burro, Irene. Demorou a te compreender por completo. Não pude crescer perto de suas risadas, de sua galinha cheia de graxa, mas sua presença tingiu minha vida de vermelho, como a tigela de sangue que derrubei no terreiro.


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