domingo, 11 de março de 2012

Poéticas da Dança I -Living on the edge!

Sim, faz mais de um mês que começaram as aulas e a professorinha está correndo mais que queniano na São Silvestre. 

Há duas semanas começou a segunda fase do Projeto Poéticas da Dança, do Grupo de Pesquisa em Dança, Estética e Educação (GPDEE) do Instituto de Artes da Unesp. A primeira tarefa para o Grupo A foi registrarmos da maneira que quiséssemos como nós estávamos com nosso corpo no deslocamento da casa pro trabalho, nas tarefas cotidianas, na sala de aula e quaisquer outras coisas que quiséssemos contar. 

Como estou fazendo muitas coisas ao mesmo tempo, como tanta gente neste mundo, a única palavra que veio a minha mente foi CANSAÇO. Físico, e também emocional: cansada das mesmas coisas, dos mesmos tratamentos, dos mesmos modos engessados de ver o mundo. De saber que não se é nenhuma Leila Diniz, mas de acabar se sentindo como se fosse, de tão encaretada que está a vida, disfarçada de moderna. 

Até comecei um registro esparso das coisas, gostaria de contar (não só mostrar) aos parceiros e parceiras de viagem algumas coisas sobre a minha (re)descoberta do corpo, mas uma folha A4 com a única palavra que bastava expressava muito mais. Este olhar parece pessimista, mas é o contrário: não jogo a toalha nem a pau! 

Depois fomos convidadas a escolher outro diário de bordo, escolhi o da Bianca, várias linhas paralelas pontilhadas e em cima estava escrito: CORDA BAMBA. Descobri que o cansaço vem daí, eu gosto mesmo é de viver na corda bamba!

Os ombros suportam o mundo
Depois as pessoas se juntaram a partir dos trabalhos que escolheram. Grata surpresa foi a Marília. Também está cansada, aquela Barra Funda cheia de gente é tão anti-poética!  A partir desta discussão, a proposta era criar uma cena corporal que trouxesse à tona estas questões. Aí eu descobri que não tenho sequer metade da força que preciso, mas que tenho que criá-la de algum jeito. Chega um tempo que o cansaço é tamanho que é maior o peso dos ombros sobre o mundo! Mas Marília se mostrou muito mais resistente, aguentou o peso do mundo sobre os ombros muito mais do que eu!

Só a partir deste momento que surgiram as referências que ajudam a contar esta história, algumas deixo para vocês aqui:

Os Ombros Suportam o Mundo
Carlos Drummond de Andrade

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.


Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.


Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teu ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
ANDRADE, Carlos Drummond de. Reunião: 10 livros de poesia. Rio de Janeiro, José Olympio, 1975, p. 55




Se não desisti em 2004, vou desistir agora? 
 Em breve, mais Poéticas da Dança! Esta cambalhota é para vocês!

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